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O instituto da repercussão geral foi plasmado por vocábulos cujo conteúdo semântico é razoavelmente indicativo do objeto almejado pelo constituinte derivado.

Considerando isso, passar-se-á a discorrer sobre os aspectos conceituais desse instituto, bem como sobre a sua natureza jurídica.

No que se refere ao seu conceito, pode-se afirmar que a repercussão geral consiste na necessidade de que as questões constitucionais levantadas pelo recurso extraordinário tenham a finalidade de fazer com que parcela representativa de um determinado grupo de pessoas experimente sua influência.

53 VIANA, Juvêncio Vasconcelos. Questão de repercussão geral (§ 3º do art. 102 da Constituição Federal) e a

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Para Juvêncio Vasconcelos Viana54, a noção de repercussão geral passa pela ideia referente ao fato de que os reflexos trazidos pelo julgamento da demanda são capazes de extrapolar o mero interesse das partes e de, muitas vezes, afetar a própria coletividade.

Sob um prisma mais voltado aos seus aspectos processuais, podemos ainda, concluir que a repercussão geral é o pressuposto especial de cabimento do recurso extraordinário, constitucionalmente estabelecido. Tal pressuposto impõe que o juízo de admissibilidade do recurso leve em consideração o impacto indireto que eventual solução das questões constitucionais em discussão terá na coletividade.

Assim sendo, pela sua abrangência, as questões relevantes não são somente aquelas enunciadas na Lei n. 11.418, mas também outras, tais como as pertinentes aos direitos e garantias individuais e coletivas e às cláusulas pétreas da Lei Maior.

Desse modo, podemos entender que será dotada de repercussão geral aquela questão que ultrapassar o interesse subjetivo da causa, por envolver controvérsias que vão além do direito individual ou pessoal das partes55.

É de se observar, também, que o conceito de tal requisito se faz eivado de delineação absoluta.

Em razão disso, pode-se inferir, pela redação do dispositivo da repercussão geral, que houve a utilização, pelo legislador, de um conceito jurídico que se enquadra na qualificação de indeterminado ou vago56, o que aponta, imediatamente, para a caracterização da relevância e transcendência da questão debatida como algo a ser avaliado em concreto, de acordo com o caso apresentado ao Supremo Tribunal Federal.

É possível se observar, ainda, no instituto da repercussão geral, utilizando a terminologia adotada nos sistemas austríaco e alemão, já no século XIX, tanto um núcleo, como um halo conceitual57.

O núcleo conceitual, que, para o jurista e filósofo alemão Karl Engisch58, é o domínio segundo o qual se tem uma noção clara do conteúdo e da extensão do conceito,

54 VIANA, Juvêncio Vasconcelos. Questão de repercussão geral (§ 3º do art. 102 da Constituição Federal) e a

admissibilidade do recurso extraordinário. Revista Dialética Processual, São Paulo, n. 30, 2005, p.80.

55 Para Bruno Dantas: “[...] a repercussão geral se refere à necessidade de que as questões constitucionais

impugnada pelo RE tenham a qualidade de fazer com que parcela representativa de um determinado grupo de pessoas experimente, indiretamente, sua influência”. DANTAS, Bruno. Repercussão geral: perspectivas histórica, dogmática e de direito comparado: questões processuais. São Paulo: RT, 2008, p. 246.

56 Há de se considerar que se devem aos sistemas alemão e austríaco a concepção, desde o século XIX, e o

desenvolvimento do que hodiernamente conhecemos por conceitos indeterminados.

57 Essa terminologia de núcleo e halo conceitual foi criada por Phlipp Heck e utilizada por Karl Engisch em

ENGISCH, Karl. Introdução ao pensamento jurídico. Trad. J. Baptista Machada. 7. ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1996, p. 209.

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evidencia-se, no instituto da repercussão geral, em função da certeza trazida pela letra da lei de que não se faz suficiente que as questões constitucionais discutidas na lide sejam do interesse exclusivo das partes processuais.

Esse núcleo conceitual pode ser obtido, simplesmente, através da interpretação gramatical da lei que estabelece a criação do instituto em estudo.

Quanto ao halo conceitual, também, de acordo com as palavras do autor anteriormente citado, pode-se dizer que é a região na qual as dúvidas começam, pois a sua concreção depende de elevada dose de juízo valorativo. Nesse ponto, não se tem a previa certeza sobre o conteúdo e a extensão do conceito.

Na repercussão geral, tais dúvidas estão relacionadas ao tipo de impacto indireto que é esperado para a sua caracterização59, ou, ainda, qual o espectro de pessoas60 atingidas para que se diga que esse impacto possui natureza geral.

Entretanto, deve-se deixar claro que não há discricionariedade no preenchimento desse halo conceitual. Há de se empreender um esforço de objetivação valorativa nessa tarefa. O fato de tratar-se de um conceito jurídico indeterminado, que carece de valoração objetiva no seu preenchimento, e não de um conceito que implique poder discricionário para aquele que se encontra encarregado de julgar, pode permitir, ademais, um controle social, pelas partes e demais interessados, da atividade do Supremo Tribunal Federal mediante um cotejo de casos já decididos pela própria Corte61.

Com efeito, a partir de uma paulatina e natural formação de catálogo de casos pelos julgamentos do Supremo Tribunal Federal, permitir-se-á o controle em face da própria atividade jurisdicional da Corte, objetivando-se, cada vez mais, o manejo dos conceitos de relevância e transcendência ínsitos à ideia de repercussão geral.

Faz-se importante ressaltar, ainda, que a própria Constituição da República Federativa Brasileira apresenta uma estruturação analítica, demonstrando que não é lícito ao

58 ENGISCH, Karl. Introdução ao pensamento jurídico. Trad. J. Baptista Machada. 7. ed. Lisboa: Fundação

Calouste Gulbenkian, 1996, p. 16.

59 Para Bruno Dantas, trata-se da dimensão objetiva da repercussão geral. DANTAS, Bruno. Repercussão geral:

perspectivas histórica, dogmática e de direito comparado: questões processuais. São Paulo: RT, 2008, p. 239.

60 Essa seria a dimensão subjetiva da repercussão geral, na qual o intérprete averiguará fundamentalmente qual o

grupo social que potencialmente receberá os influxos da eventual decisão, como aduz Bruno Dantas em DANTAS, Bruno. Repercussão geral: perspectivas histórica, dogmática e de direito comparado: questões processuais. São Paulo: RT, 2008, p. 239.

61 Importante ressaltar que o juízo valorativo, que se apresenta como necessário, não deverá encerrar um visão

pessoal do aplicador da lei, mas sim a da coletividade, no que Karl Engisch chama de “valorações objetivas”. ENGISCH, Karl. Introdução ao pensamento jurídico. Trad. J. Baptista Machada. 7. ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1996, p. 237.

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intérprete negligenciar no preenchimento desses conceitos vagos empregados pelo legislador infraconstitucional.

Evidentemente, não é por acaso que o recurso extraordinário, endereçado ao guardião da Constituição, tem o seu conhecimento subordinado à alegação de questões relevantes do ponto de vista econômico, político, social e jurídico, uma vez que a própria Constituição arrola matérias que trazem, explicitamente ou implicitamente, epígrafes coincidentes com aqueles conceitos que autorizam o conhecimento do recurso extraordinário.

Deve-se salientar, também, que a margem de liberdade conferida ao Supremo Tribunal Federal, na verificação da repercussão geral, consiste primeiro em averiguar qual o grupo social que potencialmente receberá os influxos de sua decisão e segundo definir a questão constitucional representativa do interesse social.

Já no que concerne à natureza jurídica do instituto da repercussão geral, este se apresenta como pressuposto específico de cabimento do recurso extraordinário.

O texto constitucional evidencia a natureza desse instituto ao mencionar que se deve demonstrar a repercussão geral a fim de que o Tribunal examine a admissão do recurso.

Com essa conclusão de que a repercussão geral está situada no juízo de admissibilidade, estando intimamente vinculada à própria decisão recorrida, e não a aspectos externos como tempestividade ou preparo, pode-se afirmar que se trata de requisito intrínseco de admissibilidade.

Ao se realizar a análise detida do instituto, percebe-se que as espécies de requisitos intrínsecos de admissibilidade hodiernamente reconhecidos, quais sejam cabimento, interesse e legitimidade, são suficientes para o enquadramento da repercussão geral.

A essência da repercussão geral guarda evidente ligação com a recorribilidade, um dos vetores do requisito do cabimento, considerando que a Constituição vincula o reconhecimento da carência de repercussão geral das questões discutidas em um determinado recurso extraordinário ao consentimento de dois terços dos membros do Supremo Tribunal Federal.

Nesse caso de carência da repercussão geral, a irrecorribilidade é preexistente, razão pela qual a decisão respectiva é estritamente declaratória, como todas as que se relacionam com o juízo de admissibilidade.

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Benzer Belgeler