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Padişah Yanlıları ve İşgalci Kuvvetler Gece Yarısı

As mudanças no mundo do trabalho deste final de século XX permanecem ecoando no início do século XXI. O processo de reorganização do capital, tanto em sua face financeira, quanto em sua face produtiva, aponta para uma passagem de uma centralidade da indústria para uma centralidade dos serviços no que diz respeito ao emprego da força de trabalho, indicada pela redução da ocupação da força de trabalho na indústria e pela ampliação da sua ocupação no setor de serviços. A reorganização do setor produtivo pela microeletrônica e as mudanças no processo de administração científica do empreendimento capitalista, pelo reordenamento do capital, a sua modernização conservadora, resultaram não apenas neste deslocamento de força de trabalho, mas em destruição da força produtiva, que aparece socialmente na forma do desemprego estrutural, no subemprego e na precarização da força de trabalho, tão características do capitalismo da virada do século. Aos trabalhadores, no entanto, a face que se mostrou a eles não foi a da manobra do capital pela busca de retomada da sua rentabilidade, mas primeiramente a face do desemprego, que viria rapidamente acompanhada pelo discurso ideológico da qualificação: exigência para a escapada ao destino do desemprego, pôs em movimento contingentes inumeráveis de trabalhadores e acionou políticas públicas no sentido da realização da sua qualificação, mobilizando vultosos recursos do Estado para a sua consecução, que moveu um significativo mercado da formação profissional.

Como pudemos ver, a atividade hercúlea de capacitar e qualificar trabalhadores em pleno desemprego galopante foi assumida acriticamente. As condições para o desemprego permaneceram ocultadas e apenas suas manifestações visíveis, porém não menos cruéis, foram alardeadas e esgrimidas diante de um público atônito: desempregados e empregados de todas as categorias

puderam assistir ao chamado da qualificação, muito mais um imperativo: qualifica-te, senão te devoro, o enigma da esfinge moderna. No entanto, a qualificação dos trabalhadores não alcançou decifrar o enigma do desemprego na nova configuração produtiva capitalista. O que estava na sombra, permaneceu oculto. A divisão do trabalho subjacente ao capital e a sua nova configuração, com a ampliação da participação do trabalho intelectual na produção do valor, permaneceu de fora das justificativas para o desemprego. Mesmo o avanço do emprego no país, com a era Lula, não significou a mudança no discurso sobre a qualificação dos trabalhadores

As novas explicações, simulacros de tentativas de interpretação da nova configuração do capitalismo, expressas nas teses da pós-indústria e do trabalho imaterial não fizeram senão jogar mais confusão no cenário já de difícil compreensão de reestruturação do capital. A qualificação neste cenário tornou-se o novo elemento mobilizador da relação capital-trabalho, na formulação, antes de tudo uma retomada modernizante, do chamado capital humano. Novamente, a aparência do social foi tomada como força explicativa das transformações em curso, num processo de fetichização da realidade. As relações antagônicas de classes expressas na divisão do trabalho e na subsunção do trabalho ao capital permaneceram distantes das interpretações da nova realidade do mundo do trabalho.

A desqualificação posta em movimento desde o advento da manufatura ao atual período do desenvolvimento do capitalismo produzida pelo incessante processo de divisão do trabalho aparece socialmente na forma da qualificação e a tomada desta última em sua positividade, qual seja, a de melhoria das qualificações dos trabalhadores para ocuparem os novos postos de trabalho, que exigem mais trabalho intelectual ao trabalho manual, o entendimento de que disto decorre um

aumento da qualidade da qualificação, se constitui como ideologia e fetichismo. O resultado deste processo tem sido a ampliação da divisão no seio da classe que vive do trabalho não apenas entre os trabalhadores manuais e intelectuais, mas agora amplia-se também com muita força esta divisão entre trabalhadores qualificados e desqualificados com clivagens com a divisão entre trabalhadores manuais e intelectuais. A positividade atribuída às qualificações voltadas ao trabalho intelectual se faz acompanhar de uma redução de prestígio das qualificações voltadas ao trabalho manual.

O processo de desqualificação da força de trabalho como fundante da qualificação pela sua especialização unilateral, conforme demonstrado por Marx (1985a), permanece central para o entendimento da objetificação do trabalhador. A qualificação não é imanente à força de trabalho ou ao trabalhador, resulta, antes, das relações de produção e reprodução das condições materiais de existência. Mesmo a sua aquisição, no processo educativo e formativo, não advém de uma demanda subjetiva pelo saber e pelo conhecimento técnico disponíveis que serão a

posteriori utilizado na produção, mas do próprio processo de divisão do trabalho

necessário à reprodução do capital. Desqualificar o trabalho e recuperá-lo em sua forma parcelar como qualificação, a ultraespecialização do mundo do trabalho contemporâneo é parte central do processo de subsunção do trabalho ao capital e da divisão do trabalho capitalista e, portanto, fundamental de ser entendido. Não será com o entendimento dominante quanto ao que é qualificação que se poderá buscar mudanças profundas na forma de organizar as produções e a sociedades. É fundamental aprofundar o entendimento sobre as relações entre qualificação e o processo de valorização na produção. Já é sabido que a base técnica que produz e resulta da divisão capitalista do trabalho não é neutra, muito menos que esteja à

espera de que seja operada pelos trabalhadores libertos do assalariamento e, assim, utilizadas para o bem: não se trata do bem e do mal, mas de compreender as relações capitalistas para que se possa produzir historicamente as mudanças necessárias no que diz respeito à qualificação.

Este trabalho, sem sombras de dúvidas, tem muito que avançar para o entendimento mais aprofundado das relações entre a divisão do trabalho e seu processo de desqualificação do trabalho e a aparição das especializações unilaterais como qualidade da força de trabalho, como qualificação. As discussões sobre a subsunção do trabalho ao capital, com as transformações na base produtiva, merecem aprofundamento e as proposições de Fausto (2002) sobre a pós-grande indústria e a subsunção intelectual do trabalho ao capital, ao que ele chama de uma terceira etapa da subsunção do trabalho, precisam ser debatidas, o que ficará para uma etapa posterior. Também, o aprofundamento das relações entre a ideologia da qualificação e a mobilização de uma indústria da educação de alcance e tamanho inéditos no país precisa ser discutida: a olhos vistos, a demanda por educação e formação dos mais diferentes níveis e tipos foi impulsionada pelos discurso ideológico da qualificação associado à ameaça de desemprego durante os anos de 1990. A ampliação da oferta de ensino também seguiu em grande medida esta mesma lógica, a de atender a demanda de qualificação, em particular as novas vagas criadas no ensino superior – há a necessidade de compreender este movimento e as suas relações com a ideologia da qualificação. A ampliação da divisão do trabalho no âmbito do trabalho intelectual e a compartimentalização das carreiras profissionais de nível superior em subespecialidades – o exemplo da engenharia no país é emblemático: de aproximadamente 10 engenharias no inicio dos anos de 1980 passou a contar com 34 engenharias distintas em 2011. Foram

discussões que não ocorreram aqui por questão de tempo e que ficaram para uma etapa posterior do desenvolvimento deste trabalho.

Benzer Belgeler