Havia mais de um milhão de pessoas nas ruas do Brasil. O aumento das passagens já fora derrubado. Mais de um milhão nas ruas e muitas pautas para representar tanta gente. Através da ênfase na corrupção, na má qualidade dos serviços públicos, no excesso de impostos, na tentativa de manipulação por parte dos partidos, o partido da mídia chegou no dia 20 de junho o mais perto que pode de por o governo de Dilma na reta dos protestos. Foi um trabalho árduo e constante, que ao longo dos últimos dias inundara o público com avaliações e projeções, exemplos e conclamações.
Em seus editoriais, Veja já dava a linha do grande embate em curso no país, embate que passou aparentemente à margem dos protestos, mas que esteve essencialmente no centro da disputa desde antes da eclosão da Grande Onda. Assim disse Veja, em edição de 17 de junho de 2013:
O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso escreveu recentemente que já passou a hora de o petismo beijar a cruz. Era uma referência irônica à relutância dos governos do PT de fazer as concessões de aeroportos, ferrovias e estradas e portos à iniciativa privada. Na prática, apesar de abjurar a palavra, eles já adotaram a demonizada “privatização”. Mas o fazem com tantas resistências que o programa anda aos solavancos - com os decorrentes prejuízos para a modernização da precária infraestrutura nacional. […] chegará uma hora em que a presidente Dilma Rousseff terá de beijar a cruz em relação aos erros de seu governo na gestão da economia (VEJA, 2013).
Analisando uma mudança de tom, ou de curso, na política econômica do governo Dilma, Veja ainda diz que, “na prática”, ele “já tem dado, ainda que relutantemente, passos atrás na política que adotou em seus primeiros anos.” E esmiúça:
Ao respaldar a decisão do Banco Central (BC) de elevar a taxa de juros e deixar a taxa de câmbio flutuar mais livremente, o Palácio do Planalto reconheceu, tacitamente, a necessidade de uma correção de rumos. As duas medidas representam um recuo na intervenção política do governo no BC, para forçar os juros para baixo e o câmbio para o alto (VEJA, 2013).
A senha para a defesa da manutenção de uma alta taxa de juros, que interessa sobretudo ao capital rentista, é o controle da inflação. Desde antes da posse de Lula em 2003, que a ameaça inflacionária é um dos mantras repetidos mil vezes pela grande imprensa como forma de pressionar o governo a manter as diretrizes econômicas conservadoras herdadas do governo de Fernando Henrique. Nos Movimentos de Junho, a inflação foi um dos motivos levantados pela grande imprensa para explicar a revolta popular, numa explicação que mais que esclarecer visa a conduzir o anseio popular. Ao enfraquecer o governo, os setores da mídia alinhados ao capital financeiro conseguiram fortalecer as políticas econômicas que lhes são favoráveis, num jogo de pressão que começou bem antes dos protestos, como podemos ver na Figura 3.
Nelson Barbosa (2013) apontou que já em 2002, por ocasião da eleição presidencial, o Brasil fora vítima de um ataque especulativo. As ações negociadas na Bolsa de Valores do Estado de São Paulo (Bovespa) despencavam, o dólar encarecia em relação ao real, capitais especulativos migravam para fora do país – movimentos que se acentuavam a cada acréscimo nas intenções de voto em Lula, nas pesquisas eleitorais.
Nas palavras de Luiz Gonzaga Belluzzo as eleições de 2002 “foram realizadas sob um clima de terror especulativo. Os mercados e seus porta-vozes projetaram cenários apavorantes para os quatro anos de governo Lula. O risco Brasil foi a 2.400 pontos base, descolou da pontuação dos outros emergentes” (BELLUZZO, 2013, p. 104).
Ao longo da primeira década de governos petistas a conduta destes porta-vozes não mudou significativamente. Veja-se, para entender a nova onda de ataques à política econômica em que se inseriram os Movimentos de Junho, a trajetória das metas estipuladas pelo BC para a taxa do Sistema Especial de Liquidação e de Custódia (SELIC), que por diversos mecanismos define os valores pagos como juros pelo Governo Federal por seus títulos emitidos e estabelece as margens das taxas operadas pelo sistema bancário em seus
empréstimos diários, tendo repercussão direta na taxa de juros ao consumidor e nos níveis de consumo e preços e ainda tem outro efeito relevante: altas taxas tornam o rendimento financeiro mais atrativo que o investimento direto na produção, reduzindo os índices produtivos e o emprego. A famosa taxa SELIC começou 2013 no menor patamar em mais de quinze anos, na casa de 7,25%; se descontada a inflação cuja meta era de 6%, teríamos uma taxa real de 1,75%. Permaneceu neste valor até 18 de abril, quando foi elevada a 7,5%. Na última reunião antes dos Movimentos de Junho, em 29 de maio, O Comitê de Política Monetária do Banco Central (COPOM) elevou a meta da SELIC para 8%. Após os protestos o ritmo da elevação da meta da SELIC seguiu na casa de 0,5% nas três reuniões subsequentes, chegando a 9,5% em 10 de outubro de 2013. Em 2 de abril de 2014, data da ultima reunião realizada até o momento em que se escreve este capítulo, foi elevada a 11%24. Novamente,
neste período, o governo se via pressionado pela imprensa a conter a inflação, que seguia abaixo do teto estipulado da meta, que era em 2014 de 6,5%. Com base nesta meta, vemos que a taxa real de juros saiu de 1,75% em abril de 2013 para 5,5% em abril de 2014 - um excepcional aumento de 214% em um ano.
O partido da mídia pode construir um discurso que contraditória e falaciosamente harmonizava demandas antagônicas: de um lado, o anseio do novo proletariado emergente das camadas subproletárias de ter acesso aos serviços públicos, como educação e saúde, dos quais estiveram historicamente alijados; do outro, o interesse da coalização rentista, verbalizado na voz da classe média, em elevar os juros, reduzir impostos, cortar gastos e consequentemente a capacidade de intervenção do Estado. A preocupação com a inflação, que come os ganhos daqueles que estão na base da pirâmide salarial, tem vasto alcance social, tal qual o descontentamento com a corrupção. Ainda, camadas que podem ser identificadas por conceitos de relevante papel heurístico, como o “centro pós-materialista” proposto por Singer, também podem e devem ter contribuído para o amálgama de demandas que o partido da mídia articulou em seu programa para os protestos. O mesmo ocorreu com agentes como os profissionais dos ministérios públicos, os sindicatos de médicos etc, que foram contemplados no plano ideológico e programático pela habilidosa e constante reelaboração programática e ideológica pelo partido da mídia.
Outro tema incorporado ao programa do partido da mídia foi Copa do Mundo, que mobiliza milhões em publicidade. O evento acabou virando símbolo dos pretensos gastos públicos exorbitantes e ineficientes. Aqui a contradição ficou belamente ilustrada pela Rede Globo, que noticiava os protestos do lado de fora da área de segurança da Fifa como um 24 Banco Central. Em: www.bcb.gov.br/?COPOMJUROS. Acesso: 30 mai 2014.
grande momento da democracia, desde que não perturbasse o acesso dos pagantes ao grande momento do esporte, a Copa das Confederações da Fifa de 2013, que foi realizada entre 15 e 30 de junho, coexistindo praticamente com todo o período da Grande Onda.
Segundo dados do Datafolha25, após os protestos de junho de 2013, o apoio à
realização da Copa no Brasil sofreu acentuado declínio. Na medição anterior, de novembro de 2008, 10% dos entrevistados haviam se declarado contrários a realização do evento. Nos dias 27 e 28 de junho, data da última pesquisa, ainda durante a Grande Onda, o índice subiu para 26%. Ainda, 44% dos entrevistados avaliou na última aferição que a Copa traria mais prejuízos que benefícios à população brasileira.
A absorção do temário ligado à Copa ainda teve o efeito de esvaziar ainda mais a expressão política das oposições de esquerda durante a Grande Onda, quando foram “engolidas” pelo programa do partido da mídia.
Após a Grande Onda, proliferaram na redes sociais páginas com caráter antipetista ou equivalente26. Em março de 2014, uns poucos manifestantes realizaram em São Paulo e outras
capitais a Marcha da Família com Deus pela Liberdade, referência aos eventos que antecederam o Golpe Militar de 1964. O candidato a presidente Levy Fidelix, sentindo o momento favorável para a ascensão de ideias conservadoras, declarou que a Ditadura fez bem ao Brasil. São sinais de um crescente sentimento conservador, embora neste matiz extremista seja minoritário mesmo nas oposições conservadoras. As oscilações nas pesquisas, os questionamentos acerca da Copa do Mundo, as vaias em eventos públicos viraram rotina na vida política da presidente Dilma. A escalada da taxa Selic se manteve por meses. Há muitos indícios que apontam para o enfraquecimento das forças governistas após a Grande Onda, e para um avanço da coalizão rentista sobre o governo. O papel da Grande Onda na rearticulação da ideologia conservadora, nas disputas hegemônicas em curso, no Brasil fica evidente.