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K.PAŞA MAHALLESİ,PAZAR CADDESİ,DIŞ KAPI NO: 2,İÇ KAPI

Os cursos no Collège de France parecem não ser conclusivos em relação à linguagem, pois Merleau-Ponty afirma que as relações entre o Logos do mundo visível e o Logos da idealidade seriam tratados nos cursos dos anos seguintes. Contudo, é possível entender noções importantes a respeito da articulação Natureza e linguagem já nos cursos de A Natureza.

Por um lado, Merleau-Ponty entende a linguagem como sistema diacrítico, de modo que a significação surge “por um princípio interno de diferenciação dos signos”, pelos afastamentos entre os signos (Cf. MERLEAU-PONTY, 2006b, p. 363-364), e não por significações prévias às quais viriam se ajustar determinados significantes. Por outro lado, Merleau-Ponty afirma que o Logos da linguagem se apóia no Logos do mundo natural (Cf. MERLEAU-PONTY, 2006b, p. 343). Segundo Merleau-Ponty, a relação corpo e coisas é já uma “linguagem tácita” (MERLEAU-PONTY, 2006b, p. 341), pois ela se faz como interrogação e reposta, isto é, segundo diferenciações entre os elementos, por meio dos afastamentos entre uma parte e outra, como em um sistema diacrítico lingüístico. Além disso, nas relações intersubjetivas, há compreensão de uma fisionomia sem que intervenha o conhecimento de qualquer categoria. A linguagem reproduz essa estrutura perceptiva, esse silêncio perceptivo que já é uma compreensão (Cf. MERLEAU-PONTY, 2006b, p. 341, 342). Contudo, como se dá a passagem do Logos natural, sensível, ao Logos proferido, manifesto?

A linguagem, assegura Merleau-Ponty, já está subentendida pelo corpo libidinal (Cf. MERLEAU-PONTY, 2006b, p. 363). Primeiro, o movimento do corpo estesiológico opera levando em conta latências, possíveis não atuais; segundo, o sistema

de oposições do percebido permite que um sujeito apreenda-se a si mesmo por referência a outrem, por sua imagem espelhada, porque ele se vê tocando, isto é, porque o corpo se dá “imagens”, fantasmas, corpos imaginários de si e dos outros. Em conseqüência, o “invisível de idealidade” é a própria estrutura do Ser (Cf. MERLEAU- PONTY, 2006b, p. 364), a latência de cada visada, a referência ao oposto. O sistema de diferenças — a referência a imagens, fantasmas, corpos imaginários — é o modo mesmo pelo qual a Natureza se realiza. Assim como o caráter senciente do corpo é o invisível do visível, a linguagem continua no invisível a comunicação iniciada no visível, é seu outro lado (Cf. MERLEAU-PONTY, 2006b, p. 364). Contudo, a linguagem dá um passo a mais, ela se dá um corpo novo, reinvestindo o sensível (Cf. MERLEAU-PONTY, 2006b, p. 364). Segundo o curso O mundo sensível e o mundo da expressão, a linguagem deve ser compreendia como sublimação da corporeidade (MERLEAU-PONTY, 2011, p. 162). Nesse sentido, Ramos comenta que a linguagem sublima a experiência muda e realiza a passagem a um corpo mais sutil (RAMOS, 2009, p. 238). A linguagem sedimenta ou circunscreve o excedente invisível em restos visíveis (Cf. MERLEAU-PONTY, 2006b, p. 365). A passagem do Logos natural ao proferido se daria por meio de investimentos, lateralmente, como se dos investimentos perceptivos se passasse ao investimento lingüístico, por seu mútuo entrecruzamento.

Da linguagem tácita da percepção se passa lateralmente à linguagem falada. Por isso Merleau-Ponty afirma que a “origem da linguagem é mítica, ou seja, existe sempre uma linguagem antes da linguagem que é a percepção” (MERLEAU-PONTY, 2006b, p. 353). A instituição ou o investimento lingüístico supõe ou se apóia na percepção, o investimento primeiro. A origem é mítica porque a passagem é lateral, não se pode vê- la, ela se faz como que sem ruído, “de súbito”, já que há já uma linguagem tácita, uma compreensão silenciosa primeira já em operação.

4. Introdução: O visível e o invisível

Apesar de inacabado, O visível e o invisível traz quatro textos em parte desenvolvidos e uma série de notas que indicam a configuração final do pensamento de Merleau-Ponty. Partindo da interrogação da fé perceptiva e passando pela exclusão de certas respostas a essa questão, a reversibilidade chega a uma exposição positiva. Como solução ao paradoxo da fé perceptiva, a carne do mundo oferece-se tanto como o modo de ser das coisas elas mesmas como a relação entre eu, outrem e mundo e ainda como a

articuladora do mundo mudo e da linguagem. O ser anterior à correlação revela-se dimensionalidade, uma organização segundo níveis ou “ideias sensíveis”, segundo dimensões de ausência, modo de ser que se manifesta também nas relações com outrem e na estrutura linguística.

4.1. A fé perceptiva

Se é certo que a ponte da Concórdia aparece tal qual é, que ela possui uma existência natural e autônoma, é certo também que ela se manifesta para alguém, que ela se oferece aos poderes corporais de um sujeito. Essa situação, comenta Merleau-Ponty, apresenta o seguinte paradoxo: o mundo aparece tal qual é e, ao mesmo tempo, doa-se segundo as capacidades corporais do sujeito, isto é, é a visão privada de alguém (ele é tal qual é e, concomitantemente, uma visão minha). A questão é a de saber se as coisas existem tal como são ou se os poderes corporais atuam na sua manifestação, se elas existem natural e autonomamente ou se elas são moldadas pelos poderes subjetivos. Esse é o problema da fé perceptiva, o qual admite ambas as hipóteses; ele se configura como o paradoxo segundo o qual o mundo é tal qual é e ao mesmo tempo é fornecido pelas capacidades perceptivas.

No momento em que se tenta, porém, resolver esse impasse, cai-se em contradições, assegura Merleau-Ponty. Ora privilegia-se o mundo natural, transformando-o em objeto, procedimento característico da ciência; ora privilegiam-se as estruturas subjetivas, caso em que se enquadram a filosofia reflexiva e a Fenomenologia da percepção, além de outros textos da década de 1940, como O primado da percepção e suas conseqüências filosóficas (1946) e O metafísico no homem (1947). Estes textos concebem a experiência como o resultado do encontro dos poderes sinestésicos do corpo com o mundo. A autonomia do mundo é reduzida à relação corpo e mundo (ao que a Fenomenologia da percepção chama de “mundo natural”), isto é, ao aparecimento das dimensões temporais ocasionado pelo contato dos poderes corporais com o mundo, o qual é sem temporalidade, certa plenitude presente. Esta é rompida quando um corpo nasce no mundo, fato que faz irromperem os perfis temporais (passado, presente e futuro) até então ausentes da plenitude do mundo em geral.

Por meio da resolução do paradoxo da fé perceptiva, Merleau-Ponty pretende superar as “contradições” das teorias que ora privilegiam o objeto ora o sujeito,

renovação teórica que pretende superar também o idealismo subjetivista da Fenomenologia da percepção. De outro lado, a fé perceptiva não é sinônima de consciência ingênua, posto que a primeira diz respeito a uma crença, uma “adesão sem provas” (MERLEAU-PONTY, 2007, p. 37) a que as coisas são tais quais elas se mostram ao sujeito que as percebe, e a segunda refere-se ao movimento intencional anônimo do corpo, ao Cogito tácito — noção que O visível e o invisível quer abandonar.

Em vista de reforçar a autenticidade de sua resposta, Merleau-Ponty apresenta as contradições de algumas soluções ao paradoxo da fé perceptiva. Por um lado, baseando- se no fato de que o sonhador acredita nas imagens que vê, embora elas não sejam verdadeiras, o ceticismo coloca em dúvida a existência das coisas vistas na vigília. Entretanto, o cético só fala de falsidade porque supõe uma experiência da verdade. Se ele lança a falsidade dos sonhos à percepção, é porque a falsidade dos sonhos aparece como tal frente à experiência perceptiva do mundo. A “ingenuidade cética” consiste, em conseqüência, em supor um verdadeiro em si para além de toda experiência, por meio do qual ela desclassifica a percepção. Além disso, o cético reduz o sonho e a percepção a “estados de consciência”, transformando-os em representação.

Privilegiando a objetividade, a ciência supõe um objeto puro, um em si, o qual é estabelecido por medidas, variáveis e operações retiradas de uma determinada ordem de fatos. A ciência conserva uma representação cartesiana do mundo e é dogmática ao privilegiar ingenuamente uma das crenças que formam a fé perceptiva. Ao pressupor um objeto puro, ela acredita, em conseqüência, que possui um poder de sobrevôo absoluto. No entanto, revela Merleau-Ponty, a física viu-se obrigada a reconhecer que algumas observações só possuem sentido para determinada situação do observador, a reconhecer as relações entre o observador e o observado. Nesse sentido, a objetividade pressuposta (o Grande objeto) passa a figurar como pré-científica. Se a física levasse em conta a ontologia implícita nessa descoberta, ela teria que reconhecer a insuficiência do ser-objeto. A física e a ciência em geral, porém, traduzem essa descoberta segundo a ontologia tradicional, reduzindo a situação do observador, sua vivência, à “curiosidade psicológica”. Procedendo dessa maneira, a ciência idealiza a fé perceptiva e não esclarece sua obscuridade.

A psicologia, reproduzindo a mesma estrutura ontológica da ciência, transforma o “psiquismo” em coisa invisível, a qual deve ser determinada por meio de uma pesquisa que, tal como na física, pretende ser uma tomada absoluta. A psicologia e a ciência convertem a percepção na ação do puro objeto sobre o corpo humano, e o percebido no

resultado dessa ação. Ambas não resolvem o paradoxo da fé perceptiva, antes o reduzem à objetividade. A objetividade da ciência e sua prática de conhecimento assentam-se na fé perceptiva, isto é, em uma pré-ciência: a crença de que o mundo é tal qual é (objeto puro) e de que o observador tem sobre ele um poder absoluto.

A filosofia reflexiva, por sua vez, privilegia a esfera subjetiva. É na estrutura interna do sujeito que ela procura solucionar o paradoxo da fé perceptiva. Por um esforço de reconstituição, ela busca reconquistar o sujeito, o qual é o naturante do mundo. O mundo se torna uma unidade ideal, o que o sujeito pensa perceber. Todavia, pergunta-se Merleau-Ponty, se o sujeito é constituidor absoluto, como ele pode ignorar seu próprio trabalho de constituição para então empreender o esforço de reconquista de si mesmo? Para supor-se como constituinte do mundo, é preciso já conhecer o mundo como pré-constituído. Dessa maneira, a filosofia reflexiva é tributária da presença prévia do mundo, o que quer dizer que a possibilidade do mundo como pensamento repousa sobre o mundo visto. Há, assim, uma circularidade entre reflexão e irrefletido que a filosofia reflexionante não quer levar em conta. Ao invés de expressar o contato com o mundo efetivo, ela o transforma em pensamento de ver. Isso acontece, expõe Merleau-Ponty, porque a filosofia reflexiva se apóia no “postulado ingênuo”, segundo o qual as coisas permanecem idênticas quando se passa delas ao pensamento. Esse postulado decorre da experiência fornecida pelo corpo: as coisas permanecem as mesmas, embora a perspectiva se altere. A permanência ou duração do mundo fornecida pela experiência perceptiva é utilizada pela tomada reflexiva na construção de seu objeto. Desse modo, “a vida perceptiva realiza a abertura primeira para o mundo” (MERLEAU-PONTY, 2007, p. 46); e a duração que ela apresenta é usada na confecção do objeto puro. A reflexão é assim segunda em relação ao mundo vivido, ela é uma transformação em relação ao irrefletido (privilégio do mundo objetivo), mas não leva em conta essa modificação. Ao buscar solucionar o problema da fé perceptiva, a reflexão mostra que as coisas são exteriores ao corpo, mas não à consciência. As coisas são aquilo que se manifesta, mas o que se manifesta é a coisa pensada, uma unidade ideal.

A ciência e a filosofia reflexiva não conseguem resolver o paradoxo da fé perceptiva porque conservam-se alheias ao “problema do mundo” ou ao “sentido do ser” (MERLEAU-PONTY, 2007, p. 18, 27). Trata-se de mostrar que a coisa está no ponto estremo do olhar e que este tem a própria coisa. Tal como a visão da coisa reabsorve as imagens monoculares, do mesmo modo a visão de um sujeito é reabsorvida

pelo mundo. Não se trata, porém, da síntese de imagens monoculares; o que acontece é uma metamorfose. A totalidade do mundo ultrapassa suas partes (visões particulares) e as domina de longe, faz com que elas existam em seu limiar. As perspectivas privadas são afastamentos em relação ao mundo, são desdobramentos da coisa em cada um dos sujeitos. O acesso ao mundo é uma espécie de recuo, de forma que o mundo é ao mesmo tempo uma “proximidade absoluta” e uma “distância irremediável” (MERLEAU-PONTY, 2007, p. 20). A interrogação própria para revelar essa estrutura constitutiva deve concordar com os paradoxos da visão, com seus “pormenores incompossíveis”, ao que ela tem de visível e de invisível. Compreender o “problema do mundo” é, assim, compreender as relações entre o que se manifesta e a dimensão que o envolve, entre o visível e os eixos inaparentes implicados em sua apresentação. A abertura ao mundo não exclui uma possível ocultação, assegura Merleau-Ponty. Assim, a filosofia deve não apenas descrever essa abertura, mas dizer como há abertura sem que a ocultação seja excluída. Lançar-se ao “sentido do ser” é encontrar uma “terceira dimensão” para além do paradoxo do em si e do para si, do mundo tal qual é e do mundo dado por meio das estruturas perceptivas ou subjetivas. Nesse sentido, Merleau- Ponty propõe a sobre-reflxão, a qual, ao voltar-se para o espetáculo do mundo, deve levar em conta as modificações que nele introduz. A linguagem a ser utilizada pela sobre-reflexão dever ser tal que as palavras exprimam ou reconstituam, para além delas mesmas, o “silêncio do mundo, o contato mudo com as coisas” (MERLEAU-PONTY, 2007, p. 46, 47).