• Sonuç bulunamadı

Levando-se em consideração os agentes formais de comércio do universo de pesquisa, verifica-se que a maior diversificação dos negócios era empreendida pelos mercadores. Para além das lojas de fazenda seca, os sujeitos se dedicavam a outras atividades mercantis e usurárias – vendas, comércio de escravos e de gado, tropas, produção agrícola e créditos - não restritas à cidade de São Paulo.

Os comerciantes reinóis José de Medeiros Pereira, João Francisco Lustosa, Tomé Alvares de Castro, Gregório de Castro Esteves e Tomé Rabelo Pinto afiançaram seus escravos para que abrissem vendagens ou tivessem licença para amassar e vender pães192.

192 Luis Rodrigues Lisboa e Alexandre Francisco de Vasconcelos, ambos registrados como

vivendo de seus negócios, também foram fiadores de escravas vendeiras, procedimento igualmente adotado pelo taverneiro Bento Ribeiro de Araújo. O homem de negócio Manuel Luis Ferraz, por sua vez, afiançou uma escrava para vender pão em sua casa e em tabuleiro pela rua.

Em 14 de janeiro de 1747, José de Medeiros Pereira apareceu frente aos camaristas como fiador de sua escrava Isabel para que ela continuasse com sua casa de vendagem e, cinco anos depois, afiançou uma nova venda, só que desta vez, de sua escrava Catarina193. Sabe-se que João Francisco Lustosa também usava deste expediente, pois, em 1o de dezembro de 1745, foi passado um mandado de prisão ao seu escravo vendeiro Bonifácio194.

Se para estes casos não é possível afirmar quanto tempo os estabelecimentos permaneceram abertos, já que não há mais registros de renovação de fianças, o mesmo não ocorre com as atividades dos escravos de Tomé Alvares de Castro. Em 23 de janeiro de 1746, houve termo de fiança para as vendas dos cativos Pedro e Mariana195. Cerca de vinte anos depois, verifica-se que a negra continuava à frente da venda, pois seu nome constava do edital que proibia determinados vendeiros de comercializar partidas de sal para fora da terra196. Na verdade, o mercador auferiu lucros deste negócio até o fim da vida, pois consta de seu inventário, aberto em 1772, entre os onze bens de raiz arrolados - casas na cidade, sítios, chácaras, terras, roças -, “uma morada de casas térreas sitas nesta cidade na rua detrás do Carmo (...) com armação de venda, com seu quintal, de paredes de taipa de pilão, cobertas de telha, e portão no fundo do quintal”197.

Na listagem dos contribuintes do Donativo Real de 1730, Gregório de Castro Esteves constava como proprietário de loja de mercador. Todavia, sabe-se que ele também tinha negócios em Cuiabá, pois foi de lá que regressara com caixotes de ouro na monção de 1729, como se depreende da leitura do libelo de sevícias movido contra ele pela esposa Catarina Vieira

193 “Termo de fiança que faz Isabel escrava de José de Medeiros para continuar com sua casa

de vendagem”, Registo Geral da Camara Municipal de S. Paulo 1745-1747, São Paulo, Typographia Piratininga, 1919, v. VIII, p. 461; “Termo de fiança que dá Catharina escrava de José Medeiros para ter venda”, Registo Geral da Camara Municipal de S. Paulo 1750-1763, São Paulo, Typographia Piratininga, 1919, v. X, pp. 187-188.

194 “Registro de um mandado de prisão para ser preso Bonifácio Mulato vendeiro de João

Francisco Lustosa”, Registo Geral da Camara Municipal de S. Paulo 1745-1747, São Paulo, Typographia Piratininga, 1919, v. VIII, p. 113.

195 “Termo de fiança que fazem Pedro e Mariana escravos de Thomé Alvres de Castro nas suas

vendagens”, Registo Geral da Camara Municipal de S. Paulo 1745-1747, São Paulo, Typographia Piratininga, 1919, v. VIII, pp. 156-157.

196 Actas da Camara Municipal de S. Paulo 1765-1770, São Paulo, Typographia Piratininga,

1919, v.XV, pp. 40-41.

Veloso198. Outrossim, em 12 de agosto de 1747, verifica-se que o mercador obtinha ganhos do comércio ambulante de suas escravas Quitéria, Rita e Quitéria crioula, pois o sargento mor Pedro Taques de Almeida as afiançou para que pudessem amassar e fazer pães199.

Parte dos lucros de Tomé Rabelo Pinto também vinha do comércio de pães de suas escravas, Josefa e Catarina, como consta dos termos de fiança registrados durante as décadas de 1740 e 1750200, entretanto, sua atividade principal estava voltada ao comércio de fazenda seca, realizado em sua loja no centro da capital, abastecida com mercadorias adquiridas por ele do Rio de Janeiro.

Desta cidade eram trazidos os escravos africanos a São Paulo. A documentação camarária deixa claro que mercadores negociavam cativos, como mostra o edital publicado, em 4 de fevereiro de 1747, com vistas a conter o temível contágio das bexigas, que rondara a cidade em praticamente todo o período estudado. Ordenavam os oficiais que

“nenhuma pessoa de qualquer qualidade que seja, assim os homens que vivem do negócio de escravos novos como particulares que os mandam vir, e mercadores que, no tempo das tropas, vão à cidade do Rio de Janeiro a seu negócio e [à] vila de Santos, possam todos estes trazer ou mandar vir os ditos escravos da Guiné, assim novos como mais ladinos, para seus negócios e encomendas ou para serviço de suas casas, sem primeiro fazer quarentena na casa da estalagem da Glória”201.

198 ACMSP - Processo de divórcio e nulidade do casamento - 15-1-3.

199 “Termo de fiança que faz Quitéria e Rita e Quitéria Crioula escravas do capitão Gregório de

Castro Esteves na pessoa do sargento mor Pedro Taques de Almeida”, Registo Geral da Camara Municipal de S. Paulo 1745-1747, São Paulo, Typographia Piratininga, 1919, v. VIII, pp. 481-482.

200 “Termo de fiança que faz Josepha escrava de Tomé Rabelo Pinto para fazer pão”, Registo

Geral da Camara Municipal de S. Paulo 1745-1747, São Paulo, Typographia Piratininga, 1919, v. VIII, p. 156; “Termo de fiança que faz Josepha escrava de Tomé Rabello Pinto para vender pão nesta cidade”, Registo Geral da Camara Municipal de S. Paulo 1745-1747, São Paulo, Typographia Piratininga, 1919, v. VIII, pp. 467-468; “Termo de fiança que dão Catharina e Josepha escravas de Thomé Rabello Pinto”, Registo Geral da Camara Municipal de S. Paulo 1750-1763, São Paulo, Typographia Piratininga, 1919, v. X, p. 256.

201 “Registo de um edital dos oficiais da Camara”, Registo Geral da Camara Municipal de S.

Parece que nem todos obedeceram às ordens municipais, pois, em novembro do mesmo ano, Manuel Antonio de Oliveira foi notificado para fazer quarentena de oito escravos novos202. Sabe-se que era mercador, uma vez que, quatro dias após tal notificação, ele apresentou fiança para abrir loja de fazenda seca. Assim como ele, já vimos que Francisco Pinto de Araújo possuía loja de mercador e estava envolvido com o comércio de cativos. Mas não só.

Em 30 de janeiro de 1743, o mercador Francisco Antunes Braga mandou lançar, no 2o cartório de notas da capital, quatro créditos contra Bartolomeu Gomes Pombo, Jerônimo Dias e José da Cruz Almada pela compra de nove escravos de nações banguela e angola203.

Embora constassem duas lojas de mercador no inventário de Manuel Mendes de Almeida, ele também estava envolvido com negócios de escravos e carregações em vários lugares. Em 1727, juntamente com o sogro, Manuel Gomes Sá, usara o argumento de dispor de muitos escravos para obter meia légua de sesmaria a fim de lavrar mantimentos na paragem de Caucaia, em Cotia, termo da cidade de São Paulo204. Em seu testamento aberto em 1756, o comerciante declarou que possuía 97 cativos e que seu genro, Antonio Francisco Lustosa, lhe remetera do Rio de Janeiro mais vinte escravos com ordem para que os vendesse na cidade de São Paulo ou os mandasse para Cuiabá ou Goiás205.

Para a realização de atividades mercantis nestas minas, os irmãos mercadores André Alvares Vieira de Castro e o já citado Matias Alvares Vieira de Castro estabeleceram sociedade com Manuel Soares de Carvalho. Em seu testamento, Carvalho declarou que “no ano de 1736 ajustei sociedade com o dito André Alvares de Castro e com o sargento mor Matias Alvares de Castro, ambos já defuntos, de várias carregações de fazendas e escravos com a condição de eu dispor nas minas de Cuiabá o que para essas se encaminhasse e o dito Matias Alvares de Castro Vieira dispor o que se

202 Actas da Camara Municipal de S. Paulo 1744-1748, São Paulo, Typographia Piratininga,

1918, v.XII, pp. 443-444.

203 AESP - 2o Cartório de Notas da Capital (1742-1935) - livro 1 - E13418 - fls.116-118v. 204 AESP - Sesmarias, patentes e provisões - livro 3 - fls.14.

encaminhasse para as minas de Goiás”206. Antes desta parceria, André Alvares de Castro e Manuel Soares de Carvalho haviam sido sócios em uma loja de fazenda seca na vila de Itu, durante os anos de 1728 e 1735.

De fato, os documentos revelam que os mercadores, às vezes, eram proprietários de mais de um estabelecimento comercial não só na cidade de São Paulo, como também em vilas vizinhas. Por meio da descrição de bens de Manuel José da Cunha, constante em seu inventário aberto em 1746, tem-se conhecimento de que, além da loja de fazenda seca, ele possuía uma botica207. Os cinqüenta e três volumes de livros relacionados às ciências médicas e naturais indicam, inclusive, que sua ocupação primeira deveria ser a de boticário, a qual foi posteriormente conjugada com a de mercador.

No processo crime que investigava a fuga da prisão de Manuel Carvalho Pinto, em 1743, as testemunhas declararam que o réu, antes de ir para Mogi, vivia do seu ofício de fazer cangalhas para cavalos e de sua loja de mercador em São Paulo208. Embora, naquela vila, continuasse a exercer as duas atividades, conforme consta dos depoimentos, sabe-se que Pinto também vivia da roça, pois solicitou, em 20 de novembro de 1748, uma sesmaria de uma légua de terras em quadra, na paragem de Mato Dentro, distante légua e meia de Mogi, para cultivar mantimentos, dos quais pudesse se sustentar209.

Em Mogi das Cruzes, José Rodrigues Pereira abriu uma loja de fazenda seca em sociedade com José Francisco dos Santos, além das duas em funcionamento na capital - uma em sociedade com Lourenço Ribeiro Guimarães e outra administrada pelo caixeiro Manuel João Salgado210. Mas os negócios não estavam restritos às lojas que possuía. Em seu processo de habilitação da Ordem de Cristo, as testemunhas depuseram que o mercador comprava partidas grossas de fazenda no Rio de Janeiro para conduzi-las a

206 AESP - Inventários e testamentos não publicados - ord.549 - cx. 72. 207 AESP - Inventários 1o ofício - ord.651 - cx. 39.

208 ACMSP - Processos gerais antigos - Autos cíveis - Manuel Carvalho Pinto - 1743 - fuga da

prisão. Outros agentes mercantis do universo de pesquisa haviam exercido ofícios mecânicos antes de se tornarem mercadores ou desempenharam as duas atividades simultaneamente. João da Silva Machado era caldeireiro, Luis Rodrigues Lisboa era entalhador, Manuel Francisco de Melo era ourives, Manuel Gomes da Costa e Mateus de Oliveira eram alfaiates.

209 AESP - Sesmarias, patentes e provisões - livro 13 - fls.124. 210 AESP - Inventários 1o ofício - ord.686 - cx. 74.

São Paulo, de onde remetia parte para Goiás211. Era também para lá que os mercadores, Manuel José Rodrigues e José Francisco de Andrade, sócios na compra de 93 cavalos, enviavam tropas conduzidas por José Garcia de Siqueira e Ângelo Almeida de Figueiredo212.

De fato, o Rio de Janeiro e as minas de Goiás, descobertas na década de 1720, eram palcos privilegiados para a realização de negócios de outros tantos mercadores fixados em solo piratiningano. Da cidade fluminense Manuel de Macedo mandava vir mercadorias para sua loja em São Paulo e, em Goiás, dispunha de procuradores e praticava as atividades comerciais em sociedade com o mercador Antonio de Freitas Branco213. As duas localidades também eram as áreas de atuação de Gaspar de Matos. Em seu inventário, são mencionadas barras de ouro vindas de Cuiabá e Goiás, sendo que, nesta segunda região, participara da sexta parte da arrematação dos dízimos e possuía credores214.

Ademais dos casos mencionados, o abastecimento das minas de Goiás pelos mercadores residentes na cidade de São Paulo figura nos documentos matrimoniais de vários reinóis.

Em seu processo de casamento, datado de 1742, o proprietário de loja de fazenda seca Manuel Gonçalves Sete depôs que, com idade de 14 para 15 anos, saíra da freguesia de São Tiago de Labruge, bispado do Porto, em direção à colônia. Depois de um mês de permanência no Rio de Janeiro, viera diretamente para São Paulo, onde morava havia 13 anos, sempre andando no caminho das minas de Goiás, sem gastar mais que dois meses em cada jornada215.

Trajetória semelhante foi narrada por Domingos Francisco do Monte, natural da freguesia de Santa Marinha de Alheira, arcebispado de Braga, em seu depoimento para se casar com Cláudia Brizida de Jesus, em 1754. O contraente declarou que saíra de sua pátria com 16 anos e, desembarcando no Rio de Janeiro, logo viera para a capital paulista, onde residia havia 14

211 IANTT - Habilitações da Ordem de Cristo - letra J - m. 24 - n.2. 212 AESP - Inventários e testamentos não publicados - ord.534 - cx. 57. 213 AESP - Inventários e testamentos não publicados - ord.531 - cx. 54.

214 AESP - Inventários 1o ofício - ord.734 - cx.122 (inventário); AESP - Inventários e testamentos

não publicados - ord.677 - cx. 65 (testamento).

anos. Durante este tempo, afirmou que “fizera uma viagem ao Goiás com uma carregação de fazenda que logo vendera e, por conta de cobrar o seu produto, andara por várias terras daquelas minas em cobrança, nas quais gastara um ano, pouco mais ou menos”216.

O depoimento de Antonio Fernandes Nunes também evidencia bem o percurso realizado por ele desde sua saída da Ilha da Madeira até o momento de se casar com Luzia Lopes de Camargo, em 1742. Segundo ele, “viera da dita terra criança para esta cidade direto sem fazer mais [morada] em cidade alguma, que teria de idade treze anos, pouco mais ou menos, do que não estava muito certo por vir bastantemente rapaz, e que sempre se conservou até o presente nesta cidade por caixeiro alguns anos até pôr sua loja (...) e que nunca fizera viagem que chegasse a estar tempo considerável, porque indo a Goiás foi só dispor de uma carregação, fazendo logo volta para sua loja nesta dita cidade”217.

O minhoto José Francisco Guimarães, assim como Nunes, também iniciou a carreira mercantil na cidade de São Paulo como caixeiro, mas antes morara durante um ano e meio no Rio de Janeiro e, por cerca de um ano, no arraial de Meia Ponte. Embora declarasse, em seu processo de casamento, que, depois de estabelecido em São Paulo, só se deslocara duas vezes a Goiás para vender fazenda sem demora de seis meses, a testemunha Paulo Filgueira de Carvalho depôs que sua assistência nas ditas minas durara cerca de dois anos218.

Se sobre este caso pairam dúvidas quanto à permanência de Guimarães em outras paragens, o mesmo não se pode dizer sobre Manuel Luis Costa, proveniente da cidade do Porto. Antes de chegar a São Paulo, ele havia transitado, sem domicílio certo, pelo Rio de Janeiro e por Minas Gerais com suas agências, mas, uma vez aqui estabelecido, continuou a percorrer os caminhos de Goiás com mercadorias e cavalos, sem fazer assistência em parte alguma219. Entretanto, pela leitura de seu inventário, sabemos que abrira

216 ACMSP - Dispensas e processos matrimoniais - 5-14-819. 217 ACMSP - Dispensas e processos matrimoniais - 4-16-103. 218 ACMSP - Dispensas e processos matrimoniais - 4-11-73. 219 ACMSP - Dispensas e processos matrimoniais - 4-7-29.

uma venda na capital paulista, cujo estoque foi arrolado nas páginas anteriores.

Manuel Rodrigues Ferreira, natural da freguesia de Santiago da Guarda, bispado da cidade de Coimbra, também percorreu longas distâncias, durante dois anos, até chegar a São Paulo em 1730, já que seu desembarque ocorrera em Pernambuco. Porém, desde que morava em Piratininga, “donde assiste havera [sic] catorze para quinze anos, fizera duas viagens para as minas de Goiás com sua cavalaria levando seus negócios e em cada uma delas não chegou a gastar seis meses, ida e volta, e o mais do tempo sempre assistiu nesta cidade de São Paulo”220.

A descrição da carregação enviada da cidade de São Paulo às minas de Goiás ou Paracatu pelo doutor José Nunes Garces e por João Moreira Guerreiros e conduzida pelo vendeiro Manuel de Pinho, em 1745, tem valor inestimável para que se conheçam as mercadorias que compunham as cargas: 38 barris de aguardente, 20 cargas de farinha, 11 cargas de açúcar, 20 frasqueiras, 36 cargas de fumo, 17 barris de vinho, 62 bruacas de sal, 8 cargas de ferro, 2 cargas de aço, 3 cargas de foice, 2 cargas de enxadas, 2 cargas de almocafres, 1 carga de ferradura, 1 carga de cravo, 1 carga de sabão, 8 cargas de vinagre, 8 cargas de azeite, 58 mulas, 2 cavalos221.

Os donos da tropa instruíam o condutor para

“fazer venda de carregação pelo maior preço que no estado da terra o permitir, mas sempre à vista e caso tenha vossa mercê ocasião de vender parte ou toda a tropa por preço que nos faça conta, dará o que entender, fazendo-os a remessa por pessoas seguras, ou trazendo em sua companhia, advertindo que nem vossa mercê nem nós tiraremos mais comissão ou interesse do que aquele que ficar líquido, tirado o principal custo de tudo e pelo que respeita ao trabalho dos seus negros

220 ACMSP - Dispensas e processos matrimoniais - 4-26-156.

221 Ao constatar uma série de pequenos e eventuais mercadores envolvidos com negócios

sortidos e de pequeno porte, Cláudia Maria Chaves conclui que “o empreendimento de grandes viagens, com a possibilidade de visitar diversos mercados, certamente contribuía para que o comerciante se munisse de uma grande e variada carga. (...) Temos, portanto, em regra uma multiplicidade de mercadores carregando gêneros diversos. Uma baixa freqüência associada a uma baixa especialização”, Cláudia Maria Chaves, op.cit., p. 165.

o atendemos, e por cuidado fizemos três assinados por todos, [decla]ramos que para toda esta carregação e tropa não entrou vossa mercê com cousa alguma e sim estamos nós obrigados a todo o principal”222.

Além da diversidade de produtos comercializados em outras localidades, o documento revela que João Moreira Guerreiros - natural do bispado de Coimbra, nesta época com 36 anos, residente na cidade de São Paulo com sua loja de mercador – não se dirigiu pessoalmente às minas para a realização de negócios, como haviam feito os outros agentes mercantis citados. Antes, para lá enviara outro comerciante, arcando com as despesas da carregação, talvez, adquirida em parte no Rio de Janeiro.

Se, ao chegar à colônia, muitos agentes mercantis permaneciam no Rio de Janeiro e percorriam os caminhos e vilas de Minas Gerais, Cuiabá, Goiás, Bahia, Pernambuco, Curitiba e Rio Grande - como descrito no capítulo 1 -, uma vez estabelecidos na capital com suas lojas de fazenda seca, os sujeitos iam se sedentarizando, realizando viagens de negócios curtas de “ida pela vinda”, mas constantes, preferencialmente, para a cidade fluminense e para as minas de Goiás. Para aqueles com maiores cabedais, eram seus caixeiros, correspondentes ou pequenos comerciantes, acompanhados por escravos, os encarregados do abastecimento e comercialização em outras paragens. O que salta aos olhos, a todo o momento, é o movimento e não a solidão, a integração da cidade de São Paulo com outras áreas coloniais e não o seu isolamento223.

O comércio de animais também era responsável por articular a cidade de São Paulo com outras regiões, como já demonstrado anteriormente neste

222 AESP - 2o Cartório de Notas da Capital (1742-1935) - livro 2 - E13419 - fls.129-130v.

223 O mercado interno tem sido alvo de acalorados debates na historiografia. As polêmicas

giram em torno de sua importância na economia colonial, do grau de dependência em relação mercado externo, da possibilidade de acumulação endógena. Em geral, os historiadores dedicados ao estudo do comércio e dos comerciantes coloniais e do abastecimento interno têm reservado páginas para apresentar o atual estado da questão. Uma boa síntese pode ser encontrada nas obras de Sheila de Castro Faria, A colônia em movimento: fortuna e família no cotidiano colonial, Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1998, pp. 22-27; José Newton Coelho de Meneses, O continente rústico: abastecimento alimentar nas Minas Gerais, Diamantina, Maria Fumaça, 2000, pp. 77-90, e nas entrevistas de Fernando Antonio Novais, Aproximações: estudos de história e historiografia, São Paulo, 2005, pp. 347-377.

capítulo. Entretanto, se constatamos que os mercadores privilegiavam a região de Goiás, abastecendo-a com escravos e gêneros de secos e molhados, no

Benzer Belgeler