Mesmo sendo gerida por um órgão ambiental de domínio estadual, a SUDEMA, a fiscalização é bastante deficiente dentro da APA das Onças, o que favorece a presença de uma série de ações geradoras de degradação, como foi verificado nos trabalhos de campo realizados ao longo desse trabalho na área em questão.
Os problemas detectados no decorrer dos trabalhos de campo nos anos de 2011 e 2012 foram vários, a começar pelo uso indiscriminado de práticas para a preparação do solo, caracterizado pela queima da vegetação, popularmente conhecido como coivara. Pequenos agricultores da região fazem uso desta prática, onde retiram a vegetação nativa e queimam para que, posterior à queima, inicie-se o processo de plantio tanto de cultivos de subsistência como de pasto para bovinos.
Segundo o Novo Código Florestal, em seu Art. 38 (BRASIL, 2012) a prática de utilização do fogo na vegetação é ilegal, porém, como exceção, no seu inciso II, do Art. 38, diz que o
emprego da queima controlada em Unidades de Conservação, em conformidade com o respectivo plano de manejo e mediante prévia aprovação do órgão gestor da Unidade de Conservação, visando ao manejo conservacionista da vegetação nativa, cujas características ecológicas estejam associadas evolutivamente à ocorrência do fogo; (BRASIL, 2012).
Como na APA os tipos de ambientes existentes não têm características ecológicas associadas à presença do fogo, a presença dessa prática secular e tradicional, além de ferir o que determina o Novo Código Florestal, tem um impacto de elevada magnitude nessa UC, onde muito da vegetação natural já foi comprometida, quantitativa e qualitativamente, afetando, em consequência, os solos, levando a perda de nutrientes, além da compactação através do pisoteio dos animais que pastam na área, sem contar os possíveis efeitos na fauna nativa.
Vale ressaltar que a área da APA das Onças está inserida em relevo ondulado a forte ondulado, assim, grande parte das queimadas é realizada em áreas de declive acentuado, geralmente nas vertentes (Foto 1). Desta forma, a retirada da vegetação nas áreas de vertentes provocam a lavagem do solo, acrescentando grandes quantidades de sedimentos nos rios, aumento do assoreamento, além de alterar fortemente a camada produtiva do solo, tendo em vista que grande parte dos solos, do tipo Neossolo Litólico, presentes nas vertentes mais acentuadas, são poucos desenvolvidos e rasos.
Foto 1 – Área de vertente após a ocorrência de coivara.
Destaca-se que em áreas com inclinação entre 25 a 45 graus é proibida por lei a derrubada de florestas, sendo apenas permitida a extração de toros para utilização racional, visando rendimentos permanentes (LIMA, 2010).
Outro problema de ordem ambiental detectado é o uso indevido dos leitos dos rios visando a criação de animais e práticas agrícolas, o que provocando principalmente a descaracterização da mata ciliar, importante na proteção dos cursos d'água. A presença de solos mais profundos e férteis, do tipo Neossolo Flúvico, justifica o uso dessas áreas, além de apresentarem maior umidade.
Do ponto de vista legal, os leitos dos rios são Áreas de Preservação Permanente - APP, as quais visam a preservação dos recursos hídricos e da paisagem, além de assegurarem a estabilidade geológica e a biodiversidade, facilitando o fluxo gênico de fauna e flora, protegendo o solo e resguardando o bem-estar das populações humanas (BRASIL, 2012).
Outra prática caracterizada como crime ambiental, é a retirada da vegetação para produção de carvão. Como já se sabe, o uso do carvão como fonte energética na região Nordeste é uma tradição, e dentro da APA das Onças o corte generalizado da madeira tem se intensificado ao longo dos anos, o que confirma a falta de fiscalização por parte do órgão gestor, já que essa atividade é praticada, como regra, sem licença ambiental. A foto 2 mostra a produção de carvão, realizada por pequenos produtores dentro da APA em questão.
Um dos objetivos propostos pelo SNUC, no Art. 4, inciso XIII, é de "proteger os recursos naturais necessários à subsistência de populações tradicionais, respeitando e valorizando seu conhecimento e sua cultura e promovendo-as social e economicamente", no entanto, a prática de produção do carvão dentro da APA vai de encontro a esse objetivo, tendo em vista que a população que faz uso da produção do carvão o faz sem o devido manejo dos recursos naturais, ainda que essa ação esteja baseada em um conhecimento tradicional.
De acordo com as observações feitas sobre as questões ambientais dentro da APA das Onças, percebe-se que tem faltado uma gestão preocupada em fazer cumprir os objetivos propostos no SNUC e os da APA das Onças, tendo em vista a importância tanto natural como social que a APA exerce dentro do município de São João do Tigre e no semiárido paraibano.
Foto 2 – Fabricação de carvão por pequenos produtores.
Fonte: Trabalho de campo, agosto de 2011. Fotografia: Thereza Rachel Rodrigues Monteiro.
Cabe ressaltar que esta pesquisa não visa levantar a bandeira de que as comunidades residentes dentro da APA das Onças sejam proibidas de utilizarem os recursos naturais que sempre estiveram presentes em seu cotidiano, mas sim, salientar que a necessidade de se gerir de forma sustentável a APA das Onças é de fundamental importância para que possam continuar a existir recursos naturais suficientes para as próprias comunidades inseridas no contexto da APA das Onças. Desta forma, entender cada aspecto físico e geográfico que formam a APA das Onças, torna-se de grande importância para que se busque melhorias no funcionamento da APA.
CAPÍTULO IV