A vida e a comunhão de um povo são fundadas e vivificadas na partilha do pão que é expressão visível do amor entre os esposos, pais e filhos, parentes e amigos. Como, sem o amor, a família não é comunhão de pessoas, assim, sem o pão, nenhum povo pode viver e
138 MARTINEZ, F. L. Religiões Africanas Hoje, p. 149.
139 Cf. GWEMBE, E. A miséria do povo não pode continuar a ser a riqueza de quem governa! Canal de
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aperfeiçoar-se como um povo coeso que deseja ardentemente crescer na unidade indivisível e perpétua.
O homem não pode viver sem o pão. Se não lhe for dado o pão, ele permanece para si próprio um ser incompreensível e a sua vida é destituída de sentido140.
A partilha do pão entre os membros da família, ou seja, entre os esposos, pais e filhos, parentes e amigos, torna o homem compreensível e sua vida ganha sentido, gerando neste, um dinamismo interior e incessante do amor que conduz a família ou uma nação inteira a uma comunhão sempre mais profunda e intensa. Esse dinamismo interior e incessante se depreende como fundamento e alma da comunhão de um povo com o seu Criador.
3.5.5.1 O pão
O pão simboliza o alimento indispensável e cotidiano para o sustento da vida física. A partilha do pão para o povo moçambicano caracteriza-se não só pela comunhão dos comensais, mas também pela sua união íntima e indivisível. Essa união íntima torna-se um dom recíproco entre os membros da família e da sociedade em geral. E, exige, do mesmo modo que as circunstâncias existenciais de um membro sejam assumidas por toda a família ou sociedade141.
Tal partilha radica-se na certeza de que Deus que se revela como Pai, chama o homem à existência para viver em comunhão que se confirma e se aperfeiçoa na partilha do pão e da vida.
A família moçambicana, desde a tradicional até a cristã é, portanto, chamada a perpetuar por sua natureza e dinamismo interior a partilha do pão que sustenta o amor fraterno.
Um momento fundamental e indispensável da família moçambicana é o da reunião em volta de um e único prato onde todos metem a mão para se alimentar. Esse gesto faz recordar para os cristãos, a última ceia de Jesus com os seus Apóstolos (cf. Mt 26, 20.26-27) quando passou de mãos em mãos o único pão e o único cálice para manifestar o espírito da partilha nos bens, nas alegrias e nos sofrimentos. Não se trata de falta de pratos para o povo moçambicano, nem de falta de pão e de cálices para igual número dos comensais da última
140 Cf. MAZULA, B. Exclusão social pode pôr em risco a paz e a estabilidade social em Moçambique. Palestra
sobre a prevalência da paz em Moçambique. Maputo, 07 de Outubro de 2010.
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ceia de Jesus, mas sim, trata-se de demonstrar que a comunhão fraterna se torna realidade na convivência, na partilha da refeição, dos mesmos bens e nas mesmas circunstâncias, onde cada um dá e recebe, mediante o amor e o respeito recíprocos142. Comer juntos desenvolve união, relacionamento, coesão; ajuda a desenvolver comportamentos sociais; é uma oportunidade de criar memórias, ouvir os filhos, o marido, a mulher, dar boas risadas e fortalecer os vínculos familiares.
A experiência mostra que toda a família que mantém vivo o hábito da partilha do alimento e da vida cotidiana, não ignora como o egoísmo, o descaso, o desacordo, as tensões e os conflitos agridem de forma violenta e mortal, a vida e a comunhão fraterna.
No mundo, a fonte de todas as tensões e conflitos que agridem de forma violenta e mortal, a vida e a comunhão fraterna é o descaso na partilha do pão que Deus providencia gratuitamente à humanidade. O povo moçambicano, cônscio de que é chamado por Deus que se revela como Pai da misericórdia e do amor infinito, para fazer a experiência alegre e renovada da comunhão restabelecida e unidade reencontrada que se depreende na partilha do pão que um dia faltou para alguns em detrimento de outrem que tem a coragem de tirar na boca do seu semelhante o pão necessário para cada dia, tudo o que tem (muito ou pouco) partilha com o próximo (cf. Africae Munus, 29).
3.5.5.2 O pão nosso
Enquanto é, e deve tornar-se motivo de comunhão entre pessoas, o pão é estímulo para acolher, respeitar e promover cada um dos membros da família ou da sociedade na altíssima dignidade de pessoas, isto é, de imagens vivas de Deus. Segundo o povo moçambicano, o critério moral da autenticidade das sãs relações familiares e sociais consiste na partilha incondicional do pão. Nessa perspectiva, o povo moçambicano presta muita atenção especial aos idosos, doentes, crianças e aos imigrantes que por si só não podem prover o seu próprio sustento: o pão. É de ressaltar que tudo é feito para que o eu que vive no tu não desfaleça. E a outra razão é: “A beleza das pessoas está na capacidade de amar e encontrar no próximo a continuidade de seu ser [...]. E, também, em reconhecer que nessa vida você estará sempre precisando de alguém e sempre terá alguém precisando de você”143.
Destarte, quando se partilha o pão com os demais se enraízam as relações familiares e sociais. É na partilha, segundo o povo moçambicano, que o pão se torna nosso. Quando o
142 Cf. ARAUJO, R. Somos chamados a partilhar o pão com misericórdia. Reflexão. 08 de Janeiro de 2013. 143 MARTINEZ, F. L. A vida do povo tshwa, p. 18.
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pão é partilhado por ser nosso, se depreende que Deus que é o providente desse pão, é verdadeiramente nosso Pai.
Alcança essa verdade quem oferece o seu obséquio religioso de fé a Deus e O obedece como único e eterno Pai que não faz acepção de pessoas e a todos providencia o pão de cada dia.
Segundo o povo moçambicano, tudo o que a razão intui e reconhece sobre o valor do pão na vida das pessoas, constitui um apelo incondicional para que a ninguém lhe seja negado o pão de cada dia porque é nosso. De fato, tal pão será nosso e tal Pai, também, será
nosso quando na evolução sócio-cultural e religiosa de cada povo for verdadeiro e
plenamente acolhido com o seu valor original e insubstituível.
3.5.5.3 O pão de cada diadá-nos hoje
A situação da fome que assola ciclicamente maior parte do povo moçambicano e ameaça a própria espécie humana em muitos países em via de desenvolvimento, indubitavelmente, exige medidas urgentes a curto e longo prazo para salvar milhões de vidas. Os efeitos devastadores, dessa fome, fazem com que o povo moçambicano anseie ter
pão que é puro dom de Deus concedido à raça humana, em cada dia. Em virtude desse
direito ao pão, toda a pessoa vitima da fome deve ser imediatamente socorrida, pois, acredita-se que qualquer indivíduo tem deveres para com seus semelhantes e para com a coletividade a que pertence, tendo, conseqüentemente, a obrigação de lutar, com o auxilio de Deus, pela promoção da vida e demais direitos inerentes à dignidade humana (cf. Ecclesia in
Africa, 43.68).
Considerando a crise alimentar cujas causas se encontram tanto na natureza como nas ações negativas do homem, urge para esse povo pedir para que lhe seja concedido, hoje, o pão de cada dia. Pois, para que o homem possa viver segundo a vontade de Deus é necessário que tenha o pão no dia que se chama hoje, isto é, agora e sempre. Porque o pão, quando é partilhado, sustenta, cria bom relacionamento com os semelhantes e reforça a perseverança no amor até ao fim.
Cumpre, então, salientar que a questão do pão, em Moçambique, como em qualquer parte do Planeta-Terra, não se trata de um favor para quem o recebe, mas sim, trata-se de direito para quem o recebe quanto para quem o dá. Não é por mérito que o alimento chega aos homens é pelo puro dom de Deus. Essa concepção do povo moçambicano comanda as
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ações de todos os homens na busca e na partilha desse puro dom de Deus para que a ninguém falte o mínimo necessário para sobreviver144.
É absurdo, que uns pereçam por falta do mínimo necessário para sobreviver enquanto que uns e outros descartam toneladas de comida por dia.
Com relação ao clamor do povo moçambicano sobre o pão de cada dia que se pretende que seja dado no dia que se chama hoje, isto é, agora e sempre; ressalta-se a necessidade da doação e partilha desse puro dom de Deus a todos os homens de todos os tempos e lugares.
Conclusão: no inicio da discussão dessa petição sobre o pão nosso, foi dito que a vida e a comunhão de um povo são fundadas e vivificadas na partilha do pão. De fato, quando falta o pão na família ou numa nação a vida e a comunhão entram em colapso e, conseqüentemente, gera-se um caos total. O povo moçambicano que tem atravessado momentos cruciais no que diz respeito à falta do pão, aprendeu o suficiente para ser compassivo com os seus semelhantes que não têm o que comer. E lamenta o fato de existir no Planeta-Terra pessoas que descartam toneladas de comida por dia, enquanto que muita gente morre por falta do mínimo necessário para viver: o pão.
Deus que a todos providencia o alimento cotidiano, não por mérito de quem o alcança, mas pela Sua santa vontade, exorta, a todos os homens, por meio desse povo, a terem compaixão pelo seu semelhante que passa fome.
3.5.6 E perdoa-nos as nossas dívidas como também nós perdoamos aos nossos