A respeito das diferentes formas de organização da libido, a teoria freudiana postula: organizações pré-genitais, compostas pelas fases oral e anal; organização genital infantil ou fase fálica e a organização genital adulta, vivida pelo sujeito após o período de latência sexual.
No que tange a estas formas de organização da libido, Laplanche e Pontalis (1992) interpretam estes momentos como: “coordenação relativa das pulsões parciais, caracterizadas pelo primado de uma zona erógena e um modo específico de relação de objeto. Consideradas numa sucessão temporal, as organizações da libido definem as fases da evolução psicossexual infantil.”53
51 FREUD, Sigmund (1924). O problema econômico do masoquismo. ESB, vol. XIX, 1996, p. 181 52 LAPLANCHE, Jean e PONTALIS, Jean Bertrand. Vocabulário da Psicanálise. São Paulo: Martins
Fontes, 1992, p. 407
Assim, de acordo com cada etapa do desenvolvimento psicossexual, as pulsões parciais estarão sob a primazia de uma determinada zona erógena e haverá um tipo específico de relação de objeto.
Nos Três ensaios sobre a teoria da sexualidade (1905), Freud postula que o que caracteriza a sexualidade infantil é uma forma especifica de organização – ou desorganização – da libido, onde as pulsões parciais encontram-se, em primeiro lugar, em estado polimorfo, isto é, desvinculadas e independentes entre si na busca do prazer, visando “(...) principalmente suprimir a tensão a nível da fonte corporal.”54
Nesta ocasião, ele escreve: “Chamaremos pré-genitais às organizações da vida sexual em que as zonas genitais ainda não assumiram seu papel preponderante. Até aqui tomamos conhecimento de duas delas (...)”.55
Nos parágrafos seguintes a este postulado, Freud (1905) explicita que, “a primeira dessas organizações sexuais pré-genitais é a oral, ou, se preferirmos,
canibalesca”56, que é caracterizada pela busca de prazer por meio da estimulação
da boca, lábios e língua.
Em um de seus últimos trabalhos, o Esboço de psicanálise (1938), Freud mantém este entendimento a respeito dos estádios iniciais da constituição psíquica do sujeito e complementa o seguinte acerca da estimulação da boca:
O primeiro órgão a surgir como zona erógena e a fazer exigências libidinais à mente é, da época do nascimento em diante, a boca. Inicialmente, toda a atividade psíquica se concentra em fornecer satisfação às necessidades dessa zona.57
Deste modo, o criador da psicanálise atenta para o fato de que a estimulação da boca nestes momentos iniciais é fundamental para que a boca seja representada psiquicamente como zona erógena.
Freud entende por zona erógena, nos Três ensaios sobre a teoria da
sexualidade (1905), como sendo “(...) uma parte da pele ou mucosa em que certos
54 LAPLANCHE, Jean e PONTALIS, Jean Bertrand. Vocabulário da Psicanálise. São Paulo: Martins
Fontes, 1992, p. 396
55 FREUD, Sigmund (1905). Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. ESB, vol. VII, 1996, p.186-7 56 Idem, p. 187
tipos de estimulação provocam uma sensação prazerosa de determinada qualidade.”58 Entretanto, neste mesmo texto, ele acrescenta uma nota de rodapé
onde amplia este entendimento propondo que “as reflexões posteriores e o aproveitamento de outras observações levaram-me a atribuir a propriedade de erotogenia a todas as partes do corpo e a todos os órgãos internos (...)”.59
Ainda em Três ensaios sobre a teoria da sexualidade (1905), Freud postula que o objetivo sexual nesta etapa do desenvolvimento libidinal é a “(...) incorporação do objeto — modelo do que mais tarde irá desempenhar, sob a forma da
identificação, um papel psíquico tão importante.”60
Desta forma, pode-se compreender que desde estes momentos iniciais da constituição do sujeito psíquico, a incorporação do objeto na fase oral terá um papel psicológico fundamental nas etapas posteriores, principalmente no momento de constituição do ego, que advirá pelo importante mecanismo da identificação.
Ainda no que tange à etapa oral do desenvolvimento libidinal, Freud em Três
ensaios sobre a teoria da sexualidade (1905), escreve sobre a importante atividade
de chuchar. É por meio desta ação que a criança demonstra os primeiros sinais de sua sexualidade. Segundo o mestre postula: “(...) o ato da criança que chucha é determinado pela busca de um prazer já vivenciado e agora relembrado.”61 Isto
significa que a atividade auto-erótica estabelece-se como um segundo tempo da sexualidade do bebê, que somente é possível graças à ativação da zona oral pelo seio materno.
No que se refere ao auto-erotismo, Freud postula ainda que nesta fase inicial da constituição psicossexual, “(...) a pulsão sexual não está dirigida para outra pessoa; satisfaz-se no próprio corpo, é auto-erótica (...).”62 Isto quer dizer que o
auto-erotismo é o modo pelo qual a pulsão sexual busca satisfação, voltando-se ao próprio corpo, por meio de uma atividade que corresponde à excitação de uma zona erógena. E somente é possível que haja atividade auto-erótica porque, em um primeiro momento, houve representação psíquica prazerosa de determinada área do corpo.
58 FREUD, Sigmund (1905). Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. ESB, vol. VII, 1996, p. 172 59 Idem, p. 173
60 Idem, p. 187 61 Idem, p. 171 62 Idem, p. 170
Sendo assim, somente porque a pulsão sexual foi despertada por um outro, em geral a mãe, que a criança poderá buscar satisfação auto-erótica.
Com relação à etapa seguinte da fase oral na organização pré-genital infantil, tem-se a organização sádico-anal, que é caracterizada pela busca de prazer na região anal.
Neste momento, o bebê já utiliza os impulsos sádicos da etapa anterior, porém, a amplitude das manifestações sádicas direcionadas ao outro “(...) é muito maior na segunda fase, que descrevemos como anal-sádica, por ser a satisfação então procurada na agressão e na função excretória.”63
Nesta etapa do desenvolvimento psicossexual, a criança reconhece a oposição apenas entre ativo e passivo que, segundo Freud, “(...) ainda não podem ser chamados de masculino e feminino (...).”64 Esses opostos antecedem a fase da
organização genital infantil ou fase fálica, quando a dialética de opostos passa a se situar entre a lógica fálico-castrado. Somente após a resolução edipiana e a assunção da castração é que se estabelece o reconhecimento entre masculino e feminino.