Da cultura de massa à atual cultura das redes, Santaella (2003a) postula haver um processo transitório importante para esclarecer o comportamento de consumo de produtos culturais, capaz de fazer emergir esse novo universo de cópias não-autorizadas compreendido como pirataria. A autora explica que entre a cultura massiva e a digital, houve o surgimento de aparelhos responsáveis por disponibilizar uma cultura do transitório. Esta seria caracterizada por alguns instrumentos técnicos e estruturais como, por exemplo, as fotocopiadoras, as fitas de vídeo e cassete graváveis, o espaço das videolocadoras ou a própria TV a cabo, entre outros.
É um equívoco imaginar que no tempo das mídias de função massiva a individualidade não era uma alternativa para o próprio indivíduo, sendo, assim, um processo natural a necessidade de ser particularizado na massa. Conforme nos explica Martino (2007, p. 12), “mesmo o procedimento de um trabalho repetitivo, amparado por uma produção em larga escala em constante demanda de mais elementos em menos tempo, não é o suficiente para sufocar as manifestações da consciência individual em relação ao seu objeto”.
A cultura do transitório foi permitindo, cada vez mais, a individualização do consumo de produtos culturais e hoje assistimos apenas a um crescimento dessa necessidade de particularizar a informação em um fluxo de leitura próprio. Com a massificação da prensa o livro possibilitou um rompimento: agora era possível ter autonomia para usufruir do conhecimento na hora escolhida.
Devemos considerar que cada meio de comunicação alterou de forma definitiva o indivíduo e sua maneira de relacionar-se com o outro e o mundo, e estabeleceu condições distintas para as sociedades. Como observa McLuhan (1964, p. 63):
O efeito do rádio sobre o homem letrado ou visual foi o de reavivar suas memórias tribais, e o efeito do som acrescido ao cinema foi o de reduzir o papel da mímica, do tato e da cinestesia. Igualmente, quando o homem nômade se voltou para os meios sedentários e especializados, os sentidos também se especializaram. O desenvolvimento da escrita e da organização visual da vida possibilitou a descoberta do individualismo, da introspecção e assim por diante.
O surgimento do rádio e, mais tarde da televisão, recriou novos espaços. Não era mais necessário sair de casa, mas ainda estávamos presos à programação dos meios, até o advento de instrumentos que nos permitissem à cópia, como o vídeo e a fita cassete, por exemplo. O que surge com a Internet é a radicalização dessa autonomia: o consumidor não quer mais sequer estar preso ao consumo de um CD inteiro de músicas se a ele interessam apenas duas ou três faixas do álbum.
Todas as etapas de individualização do consumo tiveram as técnicas de copiagem como suporte. Da prensa à estrutura em rede, o ser humano vem particularizando diversos comportamentos, capazes de interferir na noção de território e temporalidade que não são mais conceitos que se referem apenas à coletividade. Em outras palavras, “cada etapa desse
progresso (progresso da cópia e do desligamento) reforça nossa autonomia em face do espaço- tempo dos outros” (BOUGNOUX, 1994, p.104).
O autor se refere à revolução que foi a escrita na sociedade ocidental. Contudo, o seu pensamento pode ser facilmente utilizado no caso dessa nova cultura das redes, como um novo estágio de fluxo de leitura próprio, onde a cópia nos desliga do consumo tradicional/formal do produto e nos re-liga ao consumo da própria cópia.
Não precisamos mais de papel para ler um livro ou de CDs ou DVDs para ouvir músicas ou assistir filmes. A informação agora é lida em bits e compartilhada entre os indivíduos da mesma forma devido à imaterialidade das obras culturais. Como afirma Silveira (2009b), “o digital liberou a música do vinil, o texto do papel e a imagem da película. Lá, elas podem ser recombinadas de várias formas e multiplicadas ao extremo, sem os limites físicos do suporte, que são escassos e se desgastam”.
A linguagem digital conecta os aparelhos tecnológicos e, sobretudo, através deles pessoas se interligam em espaços e tempos distintos em um processo fluido de desterritorialização e reterritorialização. A reprodução de produtos culturais, portanto, vai além do computador, se mantém na Internet e amplia suas possibilidades com dispositivos que interconectam aparelhos como, entre outros, os sistemas wireless ou bluetooth. Atualmente, a tecnologia é pensada de forma que facilite os processos de trocas de conteúdo do qual a produção cultural faz parte.
Assim como Santaella (2003a) reforça a existência de uma cultura do transitório que passou por um processo evolutivo que permite, hoje, a presença de tecnologias de reprodução acompanhando os meios de comunicação como no caso da Internet, Ortellado (2002) também reforça esse processo de construção da individualização do consumo:
Quando aparelhos de reprodução se popularizaram (o mimeógrafo, a fita cassete, a copiadora e em seguida a reprodução digital, por computador), as pessoas automaticamente começaram a reproduzir livros, canções, fotos e vídeos, para si e para seus amigos, sem pagar os devidos direitos, assim como, antes, já encenavam peças nas escolas, e nos bairros e cantavam e tocavam canções para os amigos e para a comunidade também sem pagar os direitos.
Este fenômeno destacado por Ortellado (2002) remete-nos a duas discussões. A primeira delas diz respeito à autonomia do leitor frente ao conteúdo, modificando, inclusive as
estruturas sociais. Se recordarmos do período da oralidade, observaremos que era necessário estar presente no local e hora exatos em que a mensagem seria proferida, junto aos demais membros da comunidade em um processo de transmissão a princípio “um-todos”, se fizermos referência a Lévy (1999), mas que podia logo sair dessa condição para o “um-um” ou “todos- todos”, em uma demonstração clara da fluidez dos processos comunicacionais. Dessa maneira, compreendemos, assim como Nepomuceno (2009) que todos estes processos de comunicação destacados por Lévy (1999) existiam anteriormente à estrutura da Internet, entretanto, apenas com ela vimos a potencialização da última possibilidade, de muitos indivíduos enviarem mensagens para muitos outros.
O outro aspecto de discussão a partir de Ortellado (2002) refere-se ao papel da indústria na disponibilização dessas tecnologias. Em outras palavras, faz-se necessário compreender que as possibilidades de reprodutibilidade são desenvolvidas pelo próprio mercado que enseja limitar o uso de tal reprodução. Bauman (2003) utiliza o mito do suplício de Tântalo para explicar uma noção de felicidade experimentada com a inocência, mas é possível adaptá-lo ao nosso estudo.
Tântalo, filho de Zeus e Plutó, gozava de um bom relacionamento no Olimpo, porém cometeu um crime que varia segundo os narradores da história. O consenso é que “Tântalo foi culpado de adquirir e compartilhar um conhecimento a que nem ele nem os mortais como ele deveriam ter acesso” (BAUMAN, 2003, p. 13). O motivo da negação do acesso, obviamente, nem sempre é explicado com clareza. Geralmente, trata-se de uma noção de controle e hierarquia já enraizados nos mitos que narram a relação entre os deuses e os homens.
Por tal ato, Tântalo foi condenado a passar o resto de seus dias mergulhado até o pescoço em um rio. Quando abaixava a cabeça para matar a sede o rio se afastava e, da mesma forma havia sobre sua cabeça um ramo de frutas e, ao tentar pegá-lo, este também escapava de suas mãos.
Gostaríamos de enfatizar que as narrativas míticas e bíblicas possuem um caráter de punição a quem dissemina um conhecimento que está bem próximo, mas por alguma razão, não deve ser difundido. A lição de Tântalo se repete na gênese de Adão e Eva e também no mito de Prometeu, acorrentado por compartilhar a habilidade de fazer fogo com os homens.
No nosso caso, queremos destacar que, tanto nos mitos como no novo ambiente midiático, o conteúdo está ao nosso alcance, pois temos as ferramentas necessárias para adquiri-los. Entretanto, há mecanismos utilizados pela indústria (muitas vezes sequer compreendemos o seu funcionamento) limitando a prática do compartilhamento por meio da cópia ou simplesmente da disponibilização.