A violência como instrumento do Estado brasileiro não surgiu nem se desenvolveu preferencialmente a partir do regime de exceção implantado em 1930. Desde o início do século, a repressão desencadeada pelo poder estatal, como instrumento para controlar as perturbações da ordem e os “excessos” das manifestações populares, abriu a oportunidade para a ação contra os revoltosos e contra os dissidentes políticos oriundos da classe operária, que eram abordados juntamente com os “desclassificados” que habitavam os maiores centros urbanos, originando as grandes operações de investida policial.
Paulo Sérgio Pinheiro chama a atenção para a continuidade velada da ação violenta do Estado, observável em acontecimentos tais como a “limpeza” da cidade do Rio de Janeiro após o levante contra a vacina (1904), o controle das greves e lutas contra a carestia nos anos de 1910, a “Revolta da Chibata” (1910), as rebeliões dos tenentes em 1922 e 1924, a Coluna Prestes e, por fim, na ação repressiva característica do governo Arthur Bernardes. Constatando que durante toda a Primeira República uma sucessão de leis sobre a expulsão de estrangeiros e sobre a repressão ao anarquismo e ao comunismo eliminariam progressivamente as liberdades previstas na Constituição de 1891 (Pinheiro, 1991, p. 88).
Recorrendo à análise de José Maria dos Santos, Paulo Sérgio Pinheiro acrescenta que o pânico das classes dominantes frente ao aumento da participação das multidões urbanas obrigou desde cedo o governo a utilizar novas formas de controle da multidão:
A prática das ‘blitzen’ policiais, sem mandato legal nos bairros populares e favelas, surge no início do século como importante (e institucional) operação de ‘prevenção ao crime’, uma das dissimulações que o discurso do Poder durante todo o tempo apresenta para essas práticas.
Em 1930 a coação dos “desclassificados” urbanos e dos dissidentes políticos possuía um grau de legitimação tão difundido entre os setores dominantes da sociedade que, ao invés de romper com as práticas das antigas oligarquias, o movimento da Aliança Liberal que instalou o Governo Provisório, especializou e intensificou a repressão contra os mesmos dissidentes perseguidos durante a Primeira República. Nesse sentido, “a legislação de exceção precede e prepara a instalação do estado de exceção” (Pinheiro, 1991, p. 87).
A continuidade dos padrões e da intensidade da repressão que se abateu sobre o movimento operário e sindical, observável entre os anos 20 e 30, resultou da difusão de duas expectativas dentro do aparelho de Estado, como aponta Paulo Sérgio Pinheiro, dois temores: 1. que as revoltas militares recebessem apoio ou fortalecessem as manifestações populares e 2. que o bolchevismo se espalhasse movido pela militância dos “elementos estrangeiros” anarquistas, anarco-sindicalistas e comunistas.
Um exemplo destas duas concepções foi a pesada repressão sobre o movimento operário no Rio de Janeiro no período da revolta dos tenentes (1924). Pois, embora não houvesse ligações estreitas entre os tenentes e a classe operária, todos os jornais operários foram suspensos, os sindicatos fechados e os militantes mais conhecidos foram presos (Pinheiro, 1991, p. 108-109).
Tanto nos anos 20 como nos 30, sustentava-se a ambigüidade entre a violência física e a proliferação da legislação social que tentava controlar o movimento operário. Apesar do regime implantado em 1930 ter elevado o controle e a repressão dos trabalhadores urbanos a “patamares mais desenvolvidos”, não se pode abrir mão das evidências que apontam continuidades em relação ao período anterior. Contudo, “não se trata de demonstrar uma continuidade simples, mas constatar diversas continuidades em ritmos diferentes, contribuindo para explicações mais completas dos dois períodos” (Pinheiro, 1991, p. 110).
A legislação repressiva de exceção, em todo o período da Primeira República até 1935, propiciou o aumento do arbítrio policial, “retirando do exame do Judiciário as decisões quanto ao fechamento das associações e jornais”. Não houve rupturas, nem retrocessos, como poderia sugerir a gravidade dos acontecimentos entre 1935 e 1937. “Mudaram os pretextos, variaram os alvos, mas o sentido é sempre o mesmo: cercear a
proteção dos direitos civis e o exame pelo Judiciário dos atos do Executivo” (Pinheiro, 1991, p. 127).
A partir das informações coletadas nos jornais consultados e nas denúncias levantadas pelos deputados classistas, é possível visualizar os seguintes números parciais da repressão no Rio de Janeiro:
Tabela 1
Ação Policial contra os Trabalhadores
Ano Ocorrência 1930 1931 1932 1933 1934 1935 Paralisações de trabalho 1 5 5 2 4 4 Manifestações públicas 3 2 2 1 4 6 Sindicatos e Associações 0 0 2 0 8 2
Tabela 2
Associações Invadidas e Fechadas pela Polícia
Estes dados revelam uma evidente concentração de ocorrências policiais entre os anos de 1934 e 1935. Pode-se afirmar, então, que houve mesmo um aumento acentuado da repressão (de intensidade) contra o movimento operário, sobretudo a partir do segundo semestre de 1934. Algumas sedes de sindicatos foram invadidas até três vezes no mesmo ano. A princípio, este aumento da ação repressiva poderia induzir à conclusão de que nesse período os sindicatos estariam resistindo sistematicamente às pressões no sentido da conversão desencadeada pelo Ministério do Trabalho. Porém, isso provavelmente não ocorreu, pois nota-se que a invasão das sedes e a desmobilização de reuniões e manifestações públicas desencadeava-se contra as tentativas dos trabalhadores
de reivindicar os benefícios da lei, como caixas de pensões e aposentadorias, salário- mínimo, regularização da jornada de trabalho, além de tratamento justo dos patrões e aumento de salários.
A maioria dos esforços da polícia se concentrava em impedir o envolvimento político dos sindicatos com o movimento da ANL ou qualquer outro, de esquerda, fato que, da parte dos sindicatos, não significava necessariamente a negação do modelo de aproximação com o Estado.
Mesmo atenuando-se o efeito da repressão sobre a lógica da organização sindical, de qualquer modo, é necessário considerar estes momentos finais da escalada da repressão, nos moldes iniciados em 1930, como uma fase específica e marcada pela violência e pela intensificação da ação sobre os trabalhadores. Contudo, considerando-se 1. a influência do processo de eleição dos deputados classistas a partir de 1933 – que marcou a entrada de um considerável número de oposicionistas para dentro dos sindicatos oficialmente reconhecidos – e 2. o ritmo relativamente constante da adesão dos antigos sindicatos, acrescidos das associações então recém-criadas, aos termos do estatuto do modelo sindical apregoado pelo Ministério do Trabalho, pode-se afirmar que o aumento da repressão ao movimento sindical, observável a partir de 1934, não significou um esforço crescente do governo no sentido de eliminar definitivamente os trabalhadores e associações que ainda insistissem em permanecer fora do modelo sindical oficial.
O aumento da repressão na fase final do período aqui abordado, provavelmente significou, isso sim, um esforço do governo no sentido de adaptar o já então amplo movimento sindical oficializado às necessidades estreitas do Estado.
Nesse sentido, a repressão cumpriu um papel fundamental ao estabelecer os limites da atuação dos trabalhadores organizados sobre o aparelho estatal. Ou seja, apesar de não realizar a conversão forçada dos sindicatos de trabalhadores urbanos ao modelo oficial, a repressão constituiu um mecanismo indispensável para a contenção da radicalização das reivindicações do movimento sindical progressivamente convertido ao modelo burocrático e estatista.
A repressão foi, sem dúvida, um dos elementos fundamentais do processo de criação dos sindicatos atrelados ao Estado, a partir de 1930. Porém, não se pode considerá- la como elemento exclusivo (principal ou único) orientador da conversão dos sindicatos. À
dominantes pretenderam e, até certo ponto, conseguiram transformar e estabelecer limites objetivos à livre atuação do sujeito histórico coletivo materializado pelo grupo dos trabalhadores urbanos organizados em sindicatos.
A repressão provavelmente serviu como um importante mecanismo que favorecia a coesão das elites dominantes e dirigentes, na medida em que a “guerra psicológica” mobilizava e uniformizava a opinião pública contra os “extremistas”. Nesse sentido, os sindicatos oficialmente instituídos têm de ser considerados frutos da ação dos próprios trabalhadores sindicalizados, sob os intensos condicionamentos impostos pela repressão. Pode-se supor ainda que, se a repressão tivesse sido menos intensa, haveria uma maior autonomia em relação ao Estado.