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Nesta seção, defendo algumas adaptações para a voz expletiva em línguas românicas. Em linhas gerais, argumento que anticausativas não são transitivas nessas línguas. Assim, pronomes fracos não podem ser analisados como clíticos.

AAS (2015:100; 102, nota 6) assumem que a mesma análise atribuída a anticausativas do alemão deve ser estendida a anticausativas de línguas românicas. Os autores afirmam que a transitividade sintática das anticausativas em línguas românicas seria mascarada pelo movimento obrigatório do clítico reflexivo para T. Assim, vários testes presentes na literatura que mostram que sentenças com SE passam em alguns testes para predicados inacusativos, como a seleção do auxiliar ser em sentenças anticausativas, e a atribuição de Caso dativo para o sujeito de verbos transitivos em causativas perifrásticas não levam, na visão dos autores, à conclusão de que essas sentenças são, de fato, inacusativas. Para os autores, esses efeitos se dão em virtude da deficiência de traços-phi em SE em combinação com o movimento obrigatório de cliticização.

Acredito, contudo, que esses testes são confiáveis para continuar a se assumir uma análise inacusativa de anticausativas em línguas românicas. Primeiramente, se não acreditarmos que esses testes nos dizem algo, não podemos acreditar que os testes de (87) a (90), que atestam que anticausativas no alemão são transitivas, também nos digam algo. Em outras palavras, o teste de seleção de auxiliar no alemão, em (88), não deveria ser levado em conta se o teste de seleção de auxiliar, em línguas românicas, também não puder ser levado em conta.

Outro argumento para manter a análise inacusativa já foi apontado pelos próprios autores: o clítico SE é deficiente em termos de traços-phi e é dependente do verbo. Essas características já deixam claro que tal elemento não se comporta como um DP, já os testes de (87) a (90) para o alemão mostram que esse elemento se comporta como um DP. Os testes de (87) a (90) não encontram paralelo exato no PB por uma série de razões independentes: i) os efeitos de definitude em PB são extremamente fracos, o que tornaria o teste em (89) e (90) problemático, por exemplo; ii) não há seleção de auxiliar em inacusativos, descartando (88) como um teste, e iii) os DPs têm uma ordem mais rígida se comparados aos DPs em alemão, indicando que testes de ordem livre, como em (87), são também problemáticos.

Todavia, consideremos uma versão de (iii), que nos permite mostrar as diferenças entre sentenças com DPs com argumento externo e sentenças com SE: em algumas situações, com entonação marcada, o sujeito pode ser posposto em sentenças transitivas em PB, como (93).

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Isso nunca ocorre com o clítico SE (tanto em anticausativas, quanto em outros eventos em que esse clítico está em Voice), como (92).

(93) Comeu um pedaço daquele pão, a menina.

Contexto: o cuidador da criança está preocupado com o fato de que a criança nunca come. Depois que ela deixa a sala, ele pergunta para a cozinheira o que a criança comeu. A cozinheira responde:

(94) *Comeu um pedaço daquele pão, se.

Contexto: um cuidador de crianças está preocupado com o fato de que as crianças nunca comem. Depois que elas deixam a sala, ele pergunta para a cozinheira o que as crianças comeram. A cozinheira responde:

Por outro lado, um argumento que vai na direção contrária do contraste visto entre (93) e (94) é a possibilidade de possessor raising. Enquanto possessor raising é produtivo somente com inacusativos em PB, como (95) mostra, anticausativas marcadas não sofrem possessor raising (cf. (96)).

(95) O quarto fechou a porta. (96) *O quarto se fechou a porta.

Assim, seria possível dizer que a razão da agramaticalidade de (96) se deve ao fato de a sentença A porta do quarto se fechou ser transitiva, se comparada a (95). Acredito, contudo, que uma melhor explicação para a diferença entre (95) e (96) é dizer que ambas são inacusativas, mas (96) tem um elemento defectivo adicional, o clítico SE, que, por estar em Voice, impede que o quarto tenha uma posição como especificador de vP em que possa parar antes de subir a TP. Essa hipótese combina muito bem com a ideia de possessor raising desenvolvida em Rodrigues (2010), para quem o possuidor alçado passa por posições argumentais. Se o DP o quarto pousasse em Voice em (96), esse elemento seria o especificador de uma Voz expletiva, fazendo a derivação fracassar porque o constituinte [VoiceP O quarto [Voice

SE]] não receberia interpretação. Isto é, um argumento que poderia favorecer uma análise transitiva de anticausativas marcadas pode ser descartado pela incompatibilidade de SE e ‘o quarto’ na mesma projeção.

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Embora com uma implementação diferente de AAS (2015), a mesma linha de raciocínio sobre a transitividade de sentenças anticausativas em línguas românicas pode ser vista em Lazzarini-Cyrino (2015: 41, 44, etc.), que desenvolve a ideia de que as marcas de verbos anticausativos não apresentam seus traços-phi valorados no decorrer da derivação.32 Todas as marcas de verbos anticausativos das línguas – afixos, clíticos e pronomes fracos – seriam usadas para assegurar a transitividade do verbo (LAZZARINI-CYRINO, 2015:149), portanto sentenças anticausativas em todas essas línguas teriam uma sintaxe transitiva. Todavia, esse raciocínio pressupõe que somente argumentos plenos podem ser argumentos dos verbos, ou seja, que somente DPs podem ser argumentos do verbo. Na seção 4.2.1 de seu trabalho, que chama atenção para as diferenças de seleção de auxiliar entre línguas que têm clíticos como marcas de anticausativa e reflexivas, como línguas românicas, e línguas que têm pronomes fracos como marcas de mesmos eventos, afirma-se que a diferença se dá em virtude de pronomes fracos serem compostos de um núcleo D e uma raiz e clíticos serem formados de um núcleo D somente (p. 155).

Algumas questões não ficam claras ao se assumir essa ideia. Perceba, por exemplo, que, para muitos autores, um núcleo D é uma fase (cf. Boskovic, 2008, por exemplo). Assim, uma vez que esse elemento teve seus traços checados, não se esperaria que um D, um clítico, e um D e uma raiz, um pronome fraco, tivessem diferenças quanto à seleção de auxiliares, por exemplo. Mais particularmente, nem DPs, e nem Ds, possuem seu material interno disponível para a sintaxe. A sintaxe, de fato, só enxerga um D, que contará para questões de transitividade, por exemplo. Isso pode ser claramente verificado quando se compara o comportamento de pronomes plenos, como ele, e DPs como o menino. Ambos os D(P)s são vistos como constituintes para a sintaxe, para os fenômenos que são expostos aqui, crucialmente porque a sintaxe, após a concatenação do D, não tem acesso ao material interno de DPs. Portanto, o comportamento diferente de pronomes fracos e clíticos não pode ser explicado em virtude de um D ter material interno ou não.

Ademais, já foi notado na literatura que a estrutura de clíticos, pronomes fracos e afixos difere precisamente quanto à presença ou não de um D. Cardinaletti & Starke (1999) e Déchaine

32 Lazzarini-Cyrino (2015) atribui essa ideia a Schäfer (2007). Contudo, Schäfer (2007, cap. 7) assume, na verdade, uma operação de agree múltiplo. Primeiramente, o autor assume que SE entra em uma relação com T, mas não tem seus traços valorados, porque tanto T quanto SE só possuem traços não-interpretáveis. Em seguida, esses dois elementos entram em uma relação com o DP interno ao VP e têm ambos seus traços valorados (múltiplo agree). Posteriormente, no mesmo capítulo, o autor considera dados do islandês, dentre outras línguas, para argumentar que as relações de Caso são checadas dentro de Voice. O leitor é referido a Schäfer (2007, cap.7) se quiser consultar detalhes da argumentação. Repare que essa versão não difere, crucialmente, da citação acima de AAS, 2015:112.

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& Wiltschko (2002) mostram, com testes empíricos, que clíticos, pronomes fracos e plenos têm tamanhos diferentes. Mais particularmente, Déchaine & Wiltschko (2002) demonstram que os três tipos de expressões referenciais podem ser concebidos como subpartes de um DP pleno, o que explica uma série de comportamentos contrastantes entre pronomes plenos, fracos e clíticos. O quadro 2 abaixo, traduzido de Déchaine e Wiltschko 2002: 410, mostra as diferenças entre três tipos de expressões; Pro-DPs, como herself, Pro-φPs, como SE, e Pro-NPs, como anáforas do japonês.

Pro-DP Pro-φP Pro-NP

Sintaxe interna Sintaxe-D, expressão

morfologicamente complexa

Nem sintaxe-D nem sintaxe-N

Sintaxe-N

Distribuição Argumento Argumento or

predicado

Predicado

Semântica Definida Sem semântica

inerente

Constante

Status quanto à binding

Expressão referencial Variável ---

Quadro2: tipologia de pronomes (traduzido de DÉCHAINE E WILTSCHKO, 2002:410)

Sintaxe-D e sintaxe-N no quadro acima se referem à composição das expressões referenciais em estudo. Isso ficará mais claro se contrastarmos o emprego do clítico SE e de anáforas como herself em inglês. Como as autoras mostram, um clítico como SE pode ser ‘enriquecido’ com traços de número e de pessoa. Isso mostra que SE tem uma sintaxe-phi. Anáforas do inglês, por outro lado, podem ser decompostas em um pronome e self.

(97) 1.sg (me) 2.sg (te) 1.pl (nous) 2.pl (vous)

3sg/pl.fem/masc (se)

(98) D (my) + body part element (self) D (your) + body part element (self) D (him) +body part element (self) D (her) + body part element (self) D (our) + body part element (self) D (them) + body part element (self)

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Em adição a isso, pronomes reflexivos do inglês ocorrem em todas as posições em que DPs são licenciados, como se vê em (99).33

(99) i. Posições predicativas em contextos equativos (She’s not herself today); ii. Posição argumental (She saw herself in the mirror.);

iii. Posição - A’ (Lucy herself witnessed the accident.)

O clítico SE só é licenciado em um subgrupo dos contextos em que DPs e pronomes plenos são licenciados. Todos os seus usos – reflexivo, anticausativo, médio e impessoal – correspondem à sintaxe argumental. Assim, esse clítico não é licenciado em posições A’ ou em contextos equativos, como acontece com pronomes. Se esse elemento é um D, assim como pronomes são, essa distribuição não é esperada. Além disso, assumir que um clítico é um D não corresponde à sua semântica. Um elemento que se comporta como uma variável não deveria ser formado a partir de um D, que é o locus de definitude.

Portanto, esses fatos nos levam a manter que anticausativas marcadas são inacusativas. A diferença se dá porque expressões pronominais podem ser de vários tamanhos e SE, por ser um clítico, tem menos estrutura que um pronome fraco, como sich em alemão. Em virtude disso, sich já possui estrutura suficiente para contar como um DP sintático e a estrutura anticausativa nessa língua conta com dois DPs, embora só um seja interpretado semanticamente. Nas línguas românicas, por outro lado, SE não é computado como um DP, em virtude de ser formado somente de traços-phi e a estrutura é inacusativa.

Benzer Belgeler