Para continuar com a análise das obras literárias de Carmem Coelho apresenta-se este conto citado acima. Buscando esclarecer a definição de conto nos reportaremos a Gancho (1991), que o define como “uma narrativa mais curta, que tem como característica central condensar conflito, tempo, espaço e reduzir o número de personagens”.
No entendimento de que uma narrativa histórica levanta diferentes aspectos referidos a sociedade e a uma cultura da época em que se insere, busca-se na análise dessa obra literária levantar a concepção de educação que perpassa esse conto escrito por Carmen Coelho. Nesse sentido, refere-se Ferreira (2009, p. 74): “para os defensores da arte engajada, no século XX, a representação literária deveria envolver uma tomada de posição, crítica e ideológica, do escritor diante da realidade” e ainda segundo o mesmo autor percebemos o quanto essa modalidade de escrita pode contribuir para nos ajudar a interpretar determinados fatos:
Se esse tipo de expressão é capaz de constituir algum conhecimento do mundo e alargar a visão do leitor, é por meio da
transfiguração da realidade. No entanto, toda ficção está sempre
enraizada na sociedade, pois é em determinadas condições de espaço, tempo, cultura e relações sociais que o escritor cria seus mundos de sonhos, utopias ou desejos, explorando ou inventando formas de linguagem (FERREIRA, 2009, p.67).
“Diná” é uma obra de 24 páginas, publicada em João Pessoa no ano de 1995, pela UNIGRAF, União Artes Gráficas Ltda. A mesma obra também foi publicada na Revista do Instituto Histórico Geográfico Paraibano, na edição comemorativa do nonagésimo aniversário de fundação (1905-1995), em setembro do mesmo ano. Em contato com a publicação, como pode ser visto na figura 14, percebe-se na ilustração da capa a representação de uma menina sentada no
Figura 14: Foto da capa do livro “Diná”, de 1995.
chão, com os cabelos amarrados por uma trança e um laço de fita. Acima de sua cabeça tem uma auréola, o que nos remete a um pré-julgamento de que ela se configura como um “anjinho”, mas que no decorrer do conto percebemos que se trata de um paradoxo já que para a atribuição de “santa” Diná em nada combina com esses termos; vestida de saia e blusa compostas, sapatos e meias, com um telefone no ouvido e uma bola ao seu lado. Essa descrição remete ao pensamento sobre como Diná é representada na ilustração e como ela realmente aparece no decorrer da narração.
Com o intuito de remeter um apanhado histórico dos acontecimentos que circundavam a década de 1990 a fim de contextualizar a obra em análise é que nos reportaremos aos aspectos políticos, econômicos e educacionais desse período.
O que marca a política brasileira na década de 1990 é o avanço do neoliberalismo, em consequência disso, na economia, houve um grande processo de privatização dos serviços públicos. Tendo em vista que no fim da década de 1980 os serviços públicos se apresentavam sucateados e a população não tinha mais credibilidade sobre os serviços que eram prestados pelo poder público, sendo assim, na década de 90 as pessoas não mais confiavam nas iniciativas advindas da esfera pública. Nesse descrédito, o que vinha do Estado poderia não estar sendo oferecido de uma maneira boa e esse discurso foi tomado para que o governo se aproveitasse então para vender as empresas estatais para a iniciativa privada, principalmente grupos estrangeiros com o discurso de que elas iriam nos garantir serviços de qualidade.
Outro fator que influencia de maneira efetiva essa década é a implantação do plano Real, que mudou a moeda nacional, com o intuito de acabar com um processo de inflação que o país estava sofrendo.
No que se refere à educação, a década de 1990 traz a perspectiva do
professor pesquisador, que ao mesmo tempo em que se detém a realizar atividades que envolvem a pesquisa, tem que relacionar a teoria com a prática pedagógica. Nesse sentido, temos o professor que exerce um papel imprescindível para a construção e socialização dos saberes que são intrínsecos à construção do conhecimento.
Outro acontecimento importante para o Brasil na década de 1990 foi a participação em eventos internacionais como a Conferência Mundial de Educação
mundial de educar todos os cidadãos do planeta. Para isso era necessário que o país assumisse o compromisso com a erradicação do analfabetismo e a promoção de ações que visassem à melhoria de todo o sistema educacional.
Voltando a análise da obra em destaque, verifica-se na apresentação do livro feita pela própria autora em 29 de Maio de 1995, que coloca de forma clara qual é a figura central da obra e o contexto em que esta se insere. Apresenta ainda seu ponto de vista no que diz respeito à educação dos filhos, e que ninguém muda totalmente ao tornarem-se adultos; ou seja, as pessoas trazem as influências e aspectos característicos da construção de sua personalidade quando crianças, para a fase adulta só que mais amadurecido. O narrador na apresentação coloca Dr. Carlos Eduardo e D. Celsa, pais de Diná, como casal exemplar na educação de sua filha. Nesse contexto, apresenta-se a necessidade de buscar as concepções de educação que a autora estabelece, já que, além desses fatos já mencionados, cita ainda a importância de aliar a educação familiar com os preceitos relacionados a Deus: “E hoje, neste pequeno conto, vemos como nós estamos aquém da educação dos filhos! Se o vigiássemos sem preguiça, se colocássemos dentro do seu coração Deus, - como todos seríamos felizes!” (FREIRE, 1995, p. 65).
O enredo da história se passa num bar do Recife, onde dois amigos se encontram e iniciam uma conversa sobre suas vidas, um deles é o marido da protagonista Diná e o outro é amigo tanto de Diná como de seu marido. Daí começa uma narração da vida dela desde suas peraltices na infância até sua condição de adulta.
No que se refere à descrição da infância de Diná, o contexto era a cidade de Maceió, Diná, uma menina de família tradicional, estudando em um colégio de ordem religiosa, se configurava como peralta, muito determinada, e de personalidade forte, já que praticava algumas ações que não eram condizentes com os padrões de uma menina educada referente à sociedade da época. Para exemplificar:
Parece que estou vendo Celsa, naquela sala de música junto ao piano, dizer a Diná: “-De hoje em diante ponha fora as brincadeiras; hoje Pinocchio acabou-se... você, minha filha, já está uma mocinha, é preciso ter juízo! Já estou cansada dos telefonemas das Sacramentinas para conversar sobre seu comportamento”. E Diná dizendo: “- Mas essas freiras todas são caretas”... (FREIRE, 1995, p. 09).
Nesse sentido, percebe-se como era previsto o comportamento das meninas e que Diná não se enquadrava nesses modelos e para tentar fazê-la refletir sobre suas peraltices, sua mãe apela para o sentido de ela já estar crescendo e que precisa parar com atitudes de criança. De acordo com os padrões da autora, podemos perceber uma dessas suas peraltices na descrição feita abaixo:
O Arcebispo D. Matias teve uma gripe muito forte: já idoso, foi até para o balão de oxigênio. – Diná com a sua turma de aula, aproveitou a doença de D. Matias para telefonar para os colégios, Igrejas, Cúria, dizendo que era do Palácio Arquiepiscopal. Avisavam com muita tristeza que S. Excia. Revma., tinha falecido de um colapso. [...] Foi realmente uma bomba. As aulas foram suspensas... O pessoal de Maceió começou a entrar no Palácio, os sinos dobravam... O povo compungido, com flores, entrava no Palácio... (FREIRE, 1995, p. 9- 10).
É possível perceber que a narradora deixa transparecer no decorrer do conto que a personalidade adquirida quando criança é a mesma que reflete na pessoa ao se tornar adulta, para justificar esse contexto é importante verificar a postura adotada por Diná em relação à peraltice que ela fez:
[...] Era uma menina decidida. Enfrentava todas as situações. Perturbou-se, mas não negou. Assumiu toda a responsabilidade. A idéia fora sua, mas com a cooperação de toda a turma. Embora chocada com a covardia das colegas, ela fingia não dar importância ao caso. [...] É isso Jorge, a escola é a prova mais eloquente da sociedade em que vivemos, as crianças, sem o aparato das dissimulações, se mostram tais como são e depois de adultos, confirmam a mesma personalidade da infância (FREIRE, 1977, p.11).
Essa citação faz remeter a uma concepção de educação proposta pela narradora, já que mostra que é no interior da escola enquanto crianças, que se inicia o processo de socialização, de formação do caráter e da personalidade e com o passar do tempo, agem da mesma forma enquanto adultos.
No desenrolar da história, percebemos que o contexto muda da cidade de Maceió para João Pessoa e relacionando com a história dos personagens, a
narradora insere no enredo os bairros de Tambaú35, a Praia do Seixas36, da Penha37 e o modo de vida naquelas praias e do povo que lá vivia na época. Percebe-se que nas entrelinhas, a narradora procurou colocar alguns aspectos da conduta na vida, o casamento feliz, a decepção, o arrependimento de uma ação irrefletida, da sua ideologia sendo representada no discurso dos fatos e dos personagens, dos lugares. O que reforça a ideia de representação de acordo com Chartier (1988) de que “As representações do mundo social assim construídas, embora aspirem à universalidade de um diagnóstico fundado na razão, são sempre determinadas pelos interesses de grupo que as forjam”.
Vimos em poucas páginas a vida da protagonista desde sua infância até sua fase adulta cheia de desencontros e dificuldades depois do casamento, principalmente, porque naquela época, a forma de comunicação era bem remota, o que fez com que o casal passasse por alguns momentos separados e envoltos de muita tristeza, mas, no fim, eles se reencontraram e puderam viver tranquilos em família, de acordo com os padrões sociais de como deveria se configurar a família.
O enredo do conto transparece em breves páginas o que o narrador tenta passar como deve se realizar a educação das crianças, principalmente das meninas, e que quando crianças é que se aprendem as questões de valores, de comportamento, em que tipo de adultos vão se transformar. Refere-se ainda, como é instituído o papel da mulher, dona de casa, mãe, educada tendo como objetivo proporcionar o bem estar e a união da família; e do homem se como o provedor e chefe dessa família, em sociedade destacando como os mesmos devem agir quando adultos e casados, procurando ser companheiros e juntos procurar
35 É um bairro localizado na Zona Leste da cidade de João Pessoa, capital da Paraíba. É um bairro
residencial e comercial que faz limite ao norte com o bairro de Manaíra, a oeste com o bairro de Miramar, ao sul com o bairro do Cabo Branco e a leste com o Oceano Atlântico.
36 A Praia do Seixas fica localizada em João Pessoa, capital da Paraíba, muito conhecida por abrigar
o extremo oriental das américas, Constitui de uma praia de pequena faixa de areia, com coqueiros e bares onde com o avanço do mar está causando estragos em construções próximas. Faz limite com a Praia da Penha ao sul e Praia do Cabo Branco ao norte, sendo frequentada pela população de bairros principalmente da zona sul.
37 A Praia da Penha fica localizada em João Pessoa, capital do estado da Paraíba. Faz limites com o
rio do Cabelo, ao norte, e o riacho de Jacarapé, ao sul. Nela está situada a Capela de Nossa Senhora da Penha, que possui um dos maiores acervos de objetos deixados por romeiros na Paraíba, destacando-se também pelas comemorações tradicionais da padroeira local, a Virgem da Penha. A área é tombada e protegida pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado da Paraíba (IPHAEP).
estabelecer uma família em ordem e feliz. Isso faz com que seja retomada as interpretações que remetem as concepções de sociedade e educação, principalmente para as mulheres que Carmen Coelho de Miranda Freire deixou em seus escritos.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Durante esse trabalho apresentou-se a biografia da educadora, historiadora e escritora Carmen Coelho de Miranda Freire (1912-2003) tendo como recorte temporal os anos de 1977 a 1999. Objetivando na análise das obras por ela escrita destacar as concepções de educação tidas e disseminadas por Carmen Coelho em seus escritos, assim como tornar pública as contribuições da biografada para a educação na Paraíba.
Para tanto, embasada no referencial teórico da Nova História Cultural como visto ao longo do texto, foi necessário recorrer a diversas fontes que auxiliassem na apresentação dessa trajetória, de uma mulher, que trouxe contribuições para a educação paraibana em sua atuação em sala de aula e principalmente em suas práticas de escrita; estas fontes composta por livros, dissertações de mestrado, jornais e documentos que possibilitaram desvelar fatos acontecidos na vida pessoal, social, religiosa e profissional de Carmen Coelho.
Ao retratar dos aspectos que norteiam sua vida pessoal, percebe-se a influência recebida por Carmen Coelho a partir do exemplo de mulher, mãe, dona de casa e educadora que foi sua mãe a Professora Maria Emerentina Gouvêa Coelho, segundo palavras da própria Carmen Coelho. Nesse contexto as concepções de educação percebidas, são as de que o magistério é uma missão onde as professoras devem atuar a partir dos princípios do amor, da responsabilidade, mas também com rigidez e disciplina, a fim de educar os alunos não só com conteúdos, mas, para serem também bons cidadãos.
Na trajetória da biografia de Carmen Coelho, percebe-se sua participação em espaços que fomentavam os preceitos religiosos e sociais, como foi o caso do Núcleo Noelista e que incentivava a produção intelectual e a pesquisa histórica, como foi no IHGP. Essas atuações demonstram como as concepções de educação de Carmen Coelho estavam ligadas aos preceitos religiosos e ao fato de que é importante estar sempre produzindo conhecimento. Isso se refere ao fato de no interior do Núcleo e do IHGP, ter publicado matérias nos jornais, artigos acadêmicos e livros de caráter didático e literário.
Nesse contexto foi possível perceber como Carmen Coelho dava importância à história do seu estado, como professora de História, viu a necessidade de haver
publicações para esclarecer aos alunos fatos e acontecimentos da Paraíba. Portanto, vimos as obras didáticas História da Paraíba: Período Colonial e Reino, 1974; História da Paraíba: do Império a República, 1976 e História da Paraíba; para uso didático, 1978. No entanto, foi percebido que nas duas primeiras obras didáticas a autora apenas se remete a educação relacionada à política, ou seja, quando refere-se aos governos da Paraíba no período destacado, cita obras, reformas e inaugurações de escolas, sem que haja maiores informações sobre a educação nos períodos enfatizados. Vale ressaltar que na terceira obra didática, Carmen Coelho, dá ênfase as questões educacionais, mas, principalmente a professoras que de certa forma com sua prática contribuíram para a educação na Paraíba, onde entre elas está sua mãe, Professora Maria Emerentina. Além disso, a autora revela aspectos históricos de instituições escolares, como o Liceu Paraibano e a Escola Normal e intelectuais de letras e artes que contribuíram para a cultura e a produção de conhecimento em nosso estado.
Referindo-se as obras literárias, A Mansão da Praça Bela Vista, 1977 e Diná, 1995, foi possível perceber na obra uma reminiscência da Paraíba de 1930, dando ênfase à figura do presidente João Pessoa, seus feitos, a repercussão desse governo com a população e sua morte. Em torno desse contexto, a narradora faz relação com um romance fictício, onde ao retratar a protagonista em seu espaço familiar, deixa implícito como deve se configurar o comportamento e a educação das moças naquela época. Na segunda obra literária, Diná, a concepção de educação destacada é voltada para a infância, sendo o momento de impor regras e limites para as crianças fazendo relação com uma educação religiosa.
No entanto, percebe-se que foram muitas as contribuições de Carmen Coelho de Miranda Freire no contexto educacional e acadêmico no estado da Paraíba e foi nesse intuito de destacar a trajetória pessoal e intelectual de uma educadora tão atuante que foi dado esse destaque a fim de contribuir ainda mais com a historiografia de mulheres educadoras na Paraíba que em sua época de atuação deixaram suas colaborações registradas.
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