Um aspecto importante dentro do PAA e da CONAB, seu principal órgão executor, é que o PFZ revitalizou a instituição, ao direcionar parte do abastecimento alimentar para grupos populacionais na condição de extrema pobreza e em situação de insegurança alimentar e nutricional, a exemplo das famílias acampadas, que aguardam o programa de reforma agrária, e dos remanescentes de quilombos. É importante lembrar que a CONAB, no início da década de 1990, enquanto existiam estoques abundantes da PGPM, também direcionava parte dos alimentos para suprir as necessidades de pessoas mais flageladas da sociedade, através de programas institucionais (vide Capítulo 4).
Para compor a formação das cestas básicas, a CONAB utiliza alimentos oriundos de doações, recebidas em nome do PFZ e, sobretudo, do PAA, de produtos vindos das modalidades CDAF e CPR Estoques. Somente no ano de 2010, por exemplo, o MDS destinou R$ 25 milhões para a CONAB adquirir gêneros alimentícios do PAA. Naquele ano, a companhia realizou também 25 leilões públicos, para comprar produtos como açúcar cristal, arroz beneficiado e macarrão, na quantidade de 27.689 toneladas de produtos de outros mercados fora do foco da agricultura familiar (Relatório CONAB, 2011).
Até o ano de 2010, a CONAB atingiu o total de 3,1 milhões de famílias, compreendendo a distribuição de 13 milhões de cestas básicas. Entre os estratos populacionais que mais foram beneficiados com a distribuição de alimentos durante o período (2003-2001), destacam-se as famílias acampadas que aguardam o programa de reforma agrária, com 73% de todo o direcionamento das cestas básicas (vide Figura 28). Os grupos das famílias atingidas por barragens, comunidades de terreiro e pescadores artesanais19 foram os menores
beneficiados com a ação da CONAB, representando 3,7%, 2,1% e 0,5% do total, respectivamente.
Figura 28 – Número de famílias contempladas por distribuição de cestas básicas da CONAB, por beneficiário Fonte: elaborado a partir do relatório de gestão da CONAB (2011)
Nota: outros correspondem às famílias atingidas por barragens, comunidade de terreiros e marisqueiros, caranguejeiros e pescadores artesanais
O maior aporte de recursos financeiros para as famílias acampadas, conforme relatório de gestão da CONAB (2011), deve-se à grande quantidade de acampados no país e às necessidades de assistência desse grupo, enquanto não tiver acesso à terra. A atenção direcionada às famílias atingidas por barragens, deslocadas devido a construção de empreendimentos hidroelétricos, também se justifica por perda de sua fonte de sustento. Ademais, a ajuda às famílias de indígenas, comunidades remanescentes de quilombolas, comunidade de terreiros e pescadores artesanais deve-se por estarem comumente sujeitos à invasão por grileiros e posseiros e à degradação dos recursos naturais (Relatório CONAB, 2011).
Os estoques originários do PAA também podem ser utilizados sob a responsabilidade do Ministério da Integração Nacional – MI para promover o socorro e a assistência às pessoas afetadas por eventos adversos, como secas e inundações, o restabelecimento das atividades essenciais e a recuperação dos danos causados por desastres, em especial aos cidadãos de menor renda. Nesse contexto, a CONAB ganha papel de destaque, com aquisição de gêneros alimentícios para a formação e a manutenção de estoques estratégicos para a distribuição de cestas básicas. No ano de 2010, por exemplo, a companhia realizou 22 leilões públicos, adquirindo 2.315,4 toneladas de produtos, como açúcar cristal, arroz beneficiado e rosquinhas de coco, recebendo 129 toneladas de feijão da PGPM e 471,7 toneladas de arroz, feijão e leite em pó, vinculados ao PAA (Relatório CONAB, 2011).
Os estoques do PAA, além de atender a população brasileira em situação de insegurança alimentar e nutricional, a partir de 2004, também têm se direcionado à ajuda humanitária internacional, com objetivo de assistir países ou populações que se encontrem em situação de emergência, catástrofes (naturais ou não), insegurança alimentar aguda, entre outros. No período 2004-2010, a CONAB destinou 47,6 milhões de toneladas de alimentos para ajuda humanitária internacional, compreendendo produtos como arroz, feijão e sardinhas em lata. Nesse período, a distribuição de alimentos atingiu 17 países, sendo que 98% do total se concentrou em Cuba (43%), Haiti (34%) e Honduras (21%), conforme relatório da CONAB 2011.
Em face das novas ações da CONAB a partir do ano de 2003, pode-se dizer que, com o lançamento do PFZ, a companhia se revitalizou e voltou às arenas políticas da agricultura e da sociedade, mas com direcionamento totalmente distinto do das épocas anteriores, quando, tradicionalmente, atuava na comercialização agrícola, por intermédio da PGPM, com intuito de estabilização de preços e garantia de renda ao agricultor comercial. Com o PFZ, o Governo Federal cria o eixo de fortalecimento da agricultura familiar, inovando, portanto, a comercialização agrícola e dando base para a CONAB atuar nos grupos mais fragilizados da agricultura familiar.
No âmbito do PFZ, a CONAB ressurge com ações de distribuição de alimentos, como fez timidamente na década de 1990 com o PRODEA, por exemplo, e se alinha com o MDS e o MDA no combate à pobreza no meio rural e na ajuda a erradicar a fome do país. Fato, como visto, confirmado por sua grande atuação dentro do PAA, na modalidade CDS, com o CPR Doação, e no seu papel na distribuição de cestas básicas para indivíduos em situação de insegurança alimentar, a exemplo de famílias acampadas que aguardam o programa de reforma agrária.
A mudança institucional da CONAB e sua importância na política nacional de segurança alimentar e nutricional também podem ser ratificadas pelo seu reconhecimento diante de instituições como a própria Secretaria Nacional de Segurança Alimentar – SESAN e o CONSEA.
Quanto à SESAN, no ano de 2010, por exemplo, por intermédio do ofício CGAV/DAPE/SESAN nº 3, de 8 de fevereiro de 2010, a Secretaria solicitou ao MDS a necessidade de fortalecer a ação da companhia em dar continuidade à ação de distribuição de cestas de alimentos. Atendendo ao pedido da SESAN, a CONAB e o MDS firmam o Termo de Cooperação 7/2010, estabelecendo recursos de R$ 138 milhões para serem repassadas 3,2
milhões de cestas básicas no biênio 2010/2011, continuando, portanto, o combate da companhia para ajudar a erradicar a fome no país (Relatório CONAB, 2011).
Quanto ao CONSEA, este usualmente vem alertando a necessidade de a CONAB seguir com ações articuladas com o PFZ. Fato esse explicitado, por exemplo, na XXI Reunião Plenária realizada no dia 16 de março de 2011 (vide Apêndice G). Na ocasião, o CONSEA solicitou ao Governo Federal que o futuro institucional da CONAB continuasse em ações de promover a erradicação da fome e da pobreza do país junto aos agricultores familiares, sobretudo, e agroextrativistas, e estreitasse a atuação da companhia no PAA e nas demais ações de insegurança alimentar e nutricional.