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2.2. OTİZM SPEKTRUM BOZUKLUĞU

2.2.2. Otistik Özellikler

No Brasil, a consciência ecológica e o ambientalismo se constituem tardiamente em relação aos países desenvolvidos, embora tenha sofrido fortes influências das manifestações ocorridas na Europa e nos EUA. Há uma divergência quanto ao período de constituição do ambientalismo brasileiro, se teria ocorrido no início do século XIX, em meados do século XIX ou apenas na década de 1970, após a Conferência de Estocolmo (FERREIRA, 2008).

Para Sirkis (1992), o ambientalismo brasileiro teve sua origem, por volta de 1970, com a fundação da Associação Gaúcha de Proteção do Ambiente Natural (AGAPAN), apresentando-se, inicialmente, segundo esse autor, como um “movimento absolutamente apolítico” (p.216), passando o movimento ecologista a se perfilar como personagem do cenário político e cultural da sociedade, em meados e final da década de 1970, com o surgimento de grupos de intensa militância, que denunciavam problemas de degradação urbana. Já segundo Viola e Leis (1995), embora já existissem, no Brasil, manifestações de caráter preservacionistas e conservacionistas, o ambientalismo brasileiro surgiu, em 1958, quando foi criada a Fundação Brasileira para a Conservação da Natureza (FBCN), órgão vinculado à União Internacional para a Conservação da Natureza.

Como em outros lugares do mundo, no Brasil, a primeira fase ambientalismo foi protecionista. Esse período foi restringido às discussões sobre proteção das florestas ou espécies animais, tendo contribuído para o surgimento do primeiro Código Florestal (Decreto nº 23.793/ 1934), do Código das Águas (Decreto nº 24.643/ 1934), do Decreto de Proteção aos Animais (Decreto nº 24.645/1934) e de outras legislações (FERREIRA, 2008). Em um segundo momento, passou-se a considerar a possibilidade de proteger a natureza sem excluir o uso e a exploração dos recursos naturais, surgindo, então, a fase conservacionista. (FERREIRA, 2008).

Também acompanhando a tendência mundial, o movimento ambiental, no Brasil, ganhou maiores proporções depois da Conferência de Estocolmo. Alonso, Costa e Maciel (2007) explicam como, no caso brasileiro, o surgimento e o fortalecimento do movimento ambientalista estão diretamente relacionados com o contexto político do país durante o processo de Redemocratização.

As possibilidades de mobilização coletiva se expandiram na segunda metade dos anos 1970, quando eclodiu uma crise interna à coalizão que dirigia o regime. Vias de mobilização política foram abertas. As formas de expressão política foram liberalizadas em 1978 e a censura prévia aos meios de comunicação foi reduzida. No ano seguinte, a Anistia e a extinção do bipartidarismo propiciaram a diversificação de lideranças e a partidarização de movimentos sociais antes albergados ou simpáticos ao Movimento Democrático Brasileiro (MDB). A Abertura culminou na sequência de vitórias do MDB nas eleições para o Legislativo, executivos locais e governos de estado, em 1974, 1978 e 1982. Esse êxito constituiu um efeito demonstração para mobilizações de vários setores da

sociedade civil — operários, profissionais liberais de classe média, funcionários

públicos, moradores da periferia dos centros urbanos —, constituindo um ciclo

de protesto (ALONSO; COSTA; MACIEL, 2007, p. 153-154).

Contudo, foi após a Constituição Federal, de 1988, que a questão ambiental vingou como objeto de estudos, conjugada a temas como mulheres, negros e homossexuais. No final da década de 1980, em meio às discussões da Constituinte, um conjunto de temas emergiu no Brasil, como direitos das minorias, especialmente mulheres e negros, combate à discriminação de gênero e ao racismo, proteção aos portadores de deficiências físicas, e aos direitos das crianças, adolescentes, idosos e índios, reconhecimento da diversidade étnica e cultural, proteção ao patrimônio público e social, ao patrimônio cultural e ao meio ambiente. Nesse contexto, o movimento ambientalista organizado conseguiu a inserção de um capítulo denominado “Do meio ambiente”, na Constituição Federal, composto pelo artigo 22521, o que

representou o reconhecimento desse tema como direito da coletividade.

Ao mesmo tempo, no bojo do debate mundial acerca dos direitos fundamentais, favorecido pelo fim da segunda guerra, a Constituição brasileira, de 1988, declarou o Princípio da Dignidade da Pessoa Humana como fundamento da República. De acordo com esse princípio, todo ser humano é merecedor do mesmo respeito e consideração por parte do Estado e da comunidade, o que implica um conjunto de direitos que envolvem desde as condições mínimas de sobrevivência até a participação ativa e corresponsável no destino da própria existência.

De acordo com Santilli (2005), a aprovação da Constituição Federal, em 1988, representou um marco na proteção jurídica ao meio ambiente, porque reconheceu que a proteção deve alcançar, ao mesmo tempo, a biodiversidade e sociodiversidade. A autora

21Art. 225. Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá- lo para as presentes e futuras gerações. (BRASIL, 1988).

afirma que a Constituição, de 1988, inaugurou um novo paradigma conhecido como “socioambientalismo”, que pode ser considerado como uma análise sociológica do pensamento ambientalista, construído a partir da ideia de que as políticas públicas ambientais só têm eficácia social e sustentabilidade política se incluírem as comunidades locais e promoverem uma repartição socialmente justa e equitativa dos benefícios derivados da exploração dos recursos naturais. Santilli afirma que, uma vez compreendido e adotado esse paradigma, os direitos humanos tradicionais (vida, liberdade, igualdade, propriedade, segurança) devem ser ampliados, de forma a incluir os direitos socioambientais. Nessa acepção, o meio ambiente passa a ser entendido, também, como um direito social22.

Segundo Antunes (2007), o caput do art. 225, da Constituição Federal, impõe a conclusão de que o meio ambiente equilibrado é um direito fundamental pertencente à coletividade. Além do artigo 225, o art. 5º, da CF/1988, também faz menção expressa ao meio ambiente, ao tratar da ação popular (inciso LXXIII). Sendo assim, conclui o referido autor:

Ora, se é uma garantia fundamental do cidadão a existência de uma ação constitucional com a finalidade de defesa do meio ambiente, tal fato ocorre em razão de que o direito ao desfrute das condições saudáveis do meio ambiente é, efetivamente, um direito fundamental do ser humano (ANTUNES, 2007, p. 19).

Segundo Benjamin (2007), a fundamentalidade do direito ao meio ambiente justifica- se, em primeiro lugar, em razão da estrutura normativa do tipo constitucional (“Todos têm direito…”); em segundo, porque o rol do artigo 5º, sede principal de direitos e garantias fundamentais, não é exaustivo (há outros direitos fundamentais que não estão contidos nesse artigo); em terceiro, porque o direito ao meio ambiente é uma extensão material, pois resguarda as bases ecológicas vitais. Decorre daí, portanto, a necessidade de haver uma legislação que proteja o meio ambiente.

Não se pode esquecer, entretanto, que a Constituição Federal, além de assegurar o direito ao meio ambiente equilibrado nos artigos acima mencionados, e em diversos outros, de modo indireto, resguarda, também, outros valores e direitos como o bem-estar dos

22 De acordo com José Afonso da Silva (2004, p. 20), “o conceito de meio ambiente deve ser globalizante,

compreendendo o aspecto natural ou físico, constituído por fauna, água, ar, solo, flora; o meio ambiente artificial constituído pelo espaço urbano construído e o meio ambiente cultural integrado pelo patrimônio histórico, artístico, paisagístico e turístico”.

proprietários da terra, conforme dispõe o art. 186, IV23. No mesmo sentido, algumas leis ordinárias mencionam de modo expresso a importância de proteger a atividade agrícola e os que dela vivem24. Portanto, se, de um lado, existe a necessidade de preservar o meio ambiente, para presentes e futuras gerações, até mesmo para a sobrevivência dos próprios agricultores, que muitas vezes têm como principal capital os recursos ecológicos, de outro, há a necessidade de produzir e explorar a terra e os demais recursos para garantir a sobrevivência e permanecer no campo. Ambos os direitos (meio ambiente equilibrado e sobrevivência com dignidade a partir do trabalho) são considerados fundamentais e são protegidos pela Constituição e por leis específicas.

Lembra-se, por fim, que a Constituição, de 1988, ampliou a cidadania política criando novos mecanismos de participação popular na gestão pública25. A participação popular é vista como uma possibilidade de indivíduos e/ou grupos sociais intervirem em favor de seus interesses, nas decisões relacionadas à escolha e à gestão de políticas públicas. Entretanto, críticas são dirigidas aos processos vigentes de participação popular, ressaltando-se a possibilidade de manipulação de interesses, uma vez que grande parte da população não compreende a dimensão exata do poder que possui para defesa do atendimento de suas necessidades, permitindo que grupos políticos legitimem medidas que atendam aos seus interesses privados e não ao interesse social, coletivo ou de grupos sociais fracos.

A próxima subseção abordará, brevemente, a evolução histórica da legislação ambiental, no Brasil, do período imperial até os dias atuais. O objetivo é apresentar um

23 Art. 186. A função social é cumprida quando a propriedade rural atende, simultaneamente, segundo critérios e graus

de exigência estabelecidos em lei, aos seguintes requisitos: I - aproveitamento racional e adequado;

II - utilização adequada dos recursos naturais disponíveis e preservação do meio ambiente; III - observância das disposições que regulam as relações de trabalho;

IV - exploração que favoreça o bem-estar dos proprietários e dos trabalhadores. [...]. (BRASIL, 1988)

24 Lei 8.171, de 17/01/1991, que dispõe sobre a Política Agrícola; Lei nº 8.629, de 25/02/1993, que dispõe sobre a

regulamentação dos dispositivos constitucionais relativos à reforma agrária.

25 Nesse sentido, reza a CF/88:

Art. 26. [...]

§ 4º A lei disporá sobre a iniciativa popular no processo legislativo estadual; Art 29. [...]

XIII - iniciativa popular de projetos de lei de interesse específico do Município, da cidade ou de bairros, através de manifestação de, pelo menos, cinco por cento do eleitorado;

Art. 61. [...]

§ 2º A iniciativa popular pode ser exercida pela apresentação à Câmara dos Deputados de projeto de lei subscrito por, no mínimo, um por cento do eleitorado nacional, distribuído pelo menos por cinco Estados, com não menos de três décimos por cento dos eleitores de cada um deles.

panorama das leis ambientais brasileiras. Ao final da seção, será apresentada uma discussão a respeito da efetividade do princípio democrático e da participação no processo de elaboração das leis, a partir do exemplo da Lei nº12.651/2012, denominada Código Florestal.