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Como ficou demonstrado, o comércio precede as organizações sociopolíticas, porque cada lugar é diferente, os produtos são distintos e precisam chegar até aqueles que deles precisam (MARX, 2008, p. 113). Contudo, faz-se necessário demonstrar que o transporte dos bens de um lugar para outro não constituía em tarefa muito trivial. Ao longo das rotas comerciais era comum que os comerciantes fossem acometidos por todo o tipo de infortúnios.

Com a finalidade de proporcionar condições mais seguras para a circulação dos bens, não era raro que senhores feudais, fossem bispos ou não, cobrassem tributos dos viajantes e comerciantes para garantir a ordem nesse trânsito de mercadorias. Tal fato verificou-se no período de transição do feudalismo para o capitalismo (XII-XV). O espaço da circulação de bens tornou- se um espaço de organização política à medida que o êxito nos negócios dos agentes econômicos demandava a proteção dos agentes políticos, pois

um senhor – que às vezes tenha sido um bispo – mantinha a ordem, garantia a segurança da viagem e no mesmo período arrecadava o imposto dos mercadores passageiros. Os estudos mais históricos de economia do século passado, perceberam mais o crescimento das redes complicadas de casas de impostos e regulações de monopólio que tinha formado a espinha dorsal da organização política dos espaços considerados” (GOTTMANN, 1952, p. 517).

Nas posições estratégicas para onde culminavam as rotas comerciais, como os rios navegáveis, passagens estreitas entre as montanhas, estreitos marítimos, baías entre outras foram sendo construídas estruturas militares tais como os Castelos e as fortificações com o objetivo de facilitar o controle sobre esses pontos de passagem19.

19 Conforme explicitou Elias (1993, p. 98), os conflitos por terra envolvendo os senhores feudais

engendraram as condições propícias para a centralização política no interior das estruturas feudais. Esse processo possibilitou ao Estado deter o monopólio da força e da tributação. Ambos favoreciam o desenvolvimento das atividades econômicas, pois que os agentes econômicos eram beneficiados com a segurança, que por sua vez, derivava do controle da força [do exército] pelo Estado e cuja manutenção do exército advinha da tributação: “o livre emprego de armas militares é vedado ao indivíduo e reservado a uma autoridade central qualquer que seja seu tipo, e de igual modo a tributação da propriedade ou renda de pessoas

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Além do estabelecimento das estruturas de controle, o surgimento dos ‘pontos de mercado’ contribuiu para que as cidades, “estruturas multiseculares que formam parte da vida mais comum” (BRAUDEL, 1986, p. 21) passassem a exercer também a função de regular os mecanismos da economia de mercado e de servir como anteparo a expansão do mercado para o campo.

Com efeito, o comércio exterior, de longa distância, tinha nas cidades- estado o seu principal lócus de regulação. Logo, nesse período histórico de transição, o poder político encontrava-se pulverizado entre as cidades-estado e o comércio subsistia nos interstícios do feudalismo. Assim, poder político e econômico estavam difusos (ELIAS, 1993, p. 88).

À medida que o comércio exterior foi sendo ampliado, em decorrência da expansão ultramarina (final do século XV) elevou-se a acumulação de capitais, favoreceu-se o desenvolvimento das altas finanças e aumentou-se a concentração de riquezas nas mãos dos comerciantes que controlavam o poder econômico nas cidades-estado, sobretudo, as do norte da Itália tais como Gênova, Veneza e Florença (BRAUDEL, 1986, p. 107; ARRIGHI, 1996, p. 43).

Por sua vez, o comércio interior, quer seja, aquele que se estabelece entre a cidade e o seu entorno – o campo – surgiu quando uma forma mais acabada de organização sociopolítica, o Estado moderno, consolidou-se. Logo, não é possível discursar sobre comércio nacional antes da constituição dos Estados territoriais modernos. Os comércios exterior e interior constituíram-se definitivamente de modo separados:

na Europa Ocidental, o comércio interno foi criado, na verdade, por intervenção do estado. Até a época da Revolução Comercial, o que pode nos parecer como comércio nacional não era nacional, e sim municipal. (...) Longe de ‘nacionalizar’ a vida econômica alemã, a liga hanseática separou deliberadamente o país do comércio. O comércio de Amberes ou de Hamburgo, de Veneza ou de Lyon não era de nenhum modo holandês, alemão, italiano ou francês” (POLANYI, 1980, p. 77, grifo nosso).

O comércio interior ou nacional, portanto, aflorou na medida em que os agentes econômicos se aliaram aos agentes políticos. Essa aliança culminou

concentra-se nas suas mãos. Os meios financeiros arrecadados pela autoridade sustentam-lhe o monopólio da força militar, o que, por seu lado, mantém o monopólio da tributação”.

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com a centralização do poder político e econômico20. O capitalismo se

desenvolveu intensamente em virtude da formação e consolidação do poder político, quer seja, do Estado territorial moderno21.

A economia de mercado embora estivesse presente no interior do feudalismo, estava dispersa nos ‘pontos de mercado’ ou nas ‘cidades-estados’. Quando esta economia mercantil se sobrepôs aos costumes feudais, tal fato favoreceu a passagem do capitalismo disperso para o concentrado. E o aspecto mais importante dessa transição foi a fusão singular do Estado com o Capital que em parte alguma se realizou de maneira mais favorável ao capitalismo do que na Europa Ocidental22. Logo, o capitalismo triunfou quando identificou-se com o Estado (GOTTMANN, 1952; BRAUDEL, 1986; ARRIGUI, 1996; ELIAS, 1993; CASTRO, 2005).

Com a centralização do poder econômico e político, seguiu-se a fixação dos limites territoriais e constitui-se o espaço de domínio de uma dada organização sociopolítica, ou seja, o Estado territorial moderno. O comércio interior passou a existir mediante a consolidação do Estado protetor e fomentador de um mercado nacional (ELIAS, 1993, p. 101; CASTRO, 2005, p. 45).

O comércio e o mercado induzidos pela diferenciação espacial e pela distribuição desigual dos recursos naturais foram basilares para o aprofundamento da divisão espacial e social do trabalho e para a formação dos Estados territoriais modernos. A divisão política do mundo, como explicitou Gottmann (1951, p. 155), é potencializada pela diferenciação do espaço geográfico e à medida que são descobertas as propriedades e as utilidades

20“As expansões e reestruturações da economia capitalista mundial tem ocorrido, antes, sob a

liderança de determinadas comunidades e blocos de agentes governamentais e empresariais, singularmente bem-posicionados para tirar proveito das consequencias pretendidas dos atos de outros agentes” (ARRIGUI, 1996, p. 10, grifo nosso).

21Na perspectiva do historiador Fernand Braudel (1986, p. 72) Estado e Capitalismo são

interdependentes: “daí que o Estado moderno, que não criou o capitalismo, mas herdou-o, tão pronto o favorece como o desfavorece, às vezes o deixa expandir-se e outras corta suas competências. O capitalismo só triunfa quando se identifica com o Estado, quando é o Estado”.

22 Como o próprio Marx (1982, p. 869) analisou, o capitalismo só triunfa quando o poder do

Estado é acionado: “Na Inglaterra, nos fins do século a XVII, são coordenados através de vários sistemas: o colonial, o das dívidas públicas, o moderno regime tributário e o protecionismo. Esses métodos se baseiam em parte na violência mais brutal, como é o caso do sistema colonial. Mas, todos eles utilizavam o poder do estado, a força concentrada e organizada da sociedade para ativar artificialmente o processo de transformação do modo feudal de produção no modo capitalista, abreviando assim as etapas de transição. A força é o parteiro de toda sociedade velha que traz uma nova em suas estranhas. Ela mesma é uma potência econômica”.

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dos recursos naturais, surgem também os conflitos pelo controle e domínio dos espaços considerados estratégicos.

Benzer Belgeler