Voltando a atenção à percepção e à comunicação sinestésicas, é possível vislumbrar o predomínio das impressões irrefletidas, da apreensão dos fenômenos em primeiridade e, depois, em secundidade, quando das impressões e do sentimento indiscernível, as sensações suscitam reações e criam um caráter binário. No processo sinestésico, evidencia-se, primeiramente, o alargamento das fissuras da percepção sensorial, em uma instância de fusão, sem distinção de um eu e de um outro, estabelecendo-se uma somatória monádica, o que, distante de ser contraditório, torna-se claro ao se ter em conta a idéia de um conjunto inseparável, indivisível, na totalidade do sentir sem segmentações.
Nesse instante fusionista, tendo em vista a teoria peirceana, osigno, como uma simples e pura qualidade do sentir, é, em si mesmo, um “quali-signo”; se considerado em relação a seu objeto, define-se como um “ícone”, um “quase-signo”, uma imagem (sonora, visual, auditiva, tátil, olfativa ou híbrida) em seu todo indiscernível, que sugere, excita os sentidos; e, quando divisado em relação a seu interpretante, apresenta-se como “rema”, uma hipótese, uma proposição, uma sutil conjectura, no limiar da efemeridade de interpretantes imediatos e sensoriais.
Na publicidade, por exemplo, pode-se apontar que, nas campanhas da Skol, o amarelo intenso, que, em geral, salta dos enunciados e apreende a atenção do intérprete, mesmo a uma considerável distância, é um “quali-signo”, um signo que excita as vias sensórias com uma impressão ou sentimento irrefletido, convidando à totalidade e à indivisibilidade do sentir sem preocupações analíticas. No entanto, essa fusibilidade se torna mais frágil e suscetível à ruptura, em uma segunda instância, onde se impõem o factível e a corporeidade de um outro (um segundo elemento), estabelecendo-se, então, a
díade. Nesse momento, o “sin-signo” se desponta, peculiar e materialmente, constituindo-se como um índice, uma remanência que aponta para seu objeto e, em um âmbito relacional, diante de seu interpretante, apresenta-se como um “signo dicente”, aquele que é capaz de preencher algumas lacunas. Na continuidade do exemplo acima exposto, perceba que a coloração amarelo-intensa toma, então, a forma de algo, define-se, por exemplo, como o líquido amarelo sobressalente da incolor embalagem de Skol Beats (figuras 4 a, 4b, 4c), ou como as setas semicirculares e interseccionadas no interior do cérebro (figura 5). Dessa maneira, as primeiras impressões, súbitas e irrefletidas, suscitadas pela cor amarela, em um momento consecutivo, gerando sensações de quaisquer tipos e intensidade, instituem a dualidade - a impressão e força desta sobre a mente do intérprete - e resultam, pois, na possibilidade de uma reação como resposta. Assim sendo, a primeiridade, fase sensorial e conjuntiva, encarrilha-se, na etapa seguinte, à secundidade, em um efeito cumulativo de impressões, sensações e reações. Retomando o exemplo da coloração amarelo-intensa, presente nos enunciados da Skol, observe que essa cor, já corporificada em alguns objetos, provoca sensações no intérprete, compelindo-o a reagir. O amarelo pode evocar a sensação de aquecimento e, por conseguinte, a de sede, estimulando o intérprete a se mover rumo ao objeto, na ânsia de sanar a necessidade da ingestão de líquidos, arquitetada pela publicidade, para a efetivação do co nsumo da bebida anunciada.
Não obstante, a terceiridade, ainda que potencialmente, também se agrega à primeiridade e à secundidade, de modo que todas essas categorias estejam, constantemente, urdidas, na percepção fenomênica, como uma intrincada tríade genuína. O “legi-signo”, signo dado como lei, convenção ou símbolo, pode ser concebido como uma assimilação do cultural ou até como um hábito, trazendo relações, reações e argumentos previstos. Observe, por exemplo, o símbolo da Skol: a seta semicircular remete, de imediato, à marca
e ao produto. O “legi-signo” representa o objeto, trazendo-o à tona por convenções e codificações aceitas e difundidas em uma determinada cultura: a pomba branca evoca a paz; a cruz, o cristianismo; o arco- íris, o homossexualismo; a foice, o comunismo; a suástica, o nazismo; entre outros signos de lei, assimilados, ao longo do tempo, em contato com as acepções simbólicas e generalizantes, construídas no seio de uma cultura.
2.6.2.1. Signos convencionais e anestesia sensorial
Tendo em vista a condição sinestésica, é permissível expor que, na cadência do sentir, o caráter simbólico do signo pode, de certa forma, representar a anestesia da percepção sensorial totalitária e múltipla. Conforme a adaptação e a acomodação dos órgãos sensoriais, em coro harmônico com as acepções e hábitos apreendidos do cultural, pode-se propor que a percepção e a comunicação polissensoriais decresçam. Os processos perceptuais e comunicativos, na instância de logic idade, apontam para a racionalização do sentir, cujos sintomas principais são a rotulação e a fração dos sentidos, submetidos, em tal percurso, a compartimentos anestesiantes.
Na comunicação sinestésica por afecção, um signo afeta outro signo, que, por sua vez, afeta outro mais, gerando uma sucessão de impressões, sentimentos, sensações, reações e idéias, como uma teia semiósica, na qual prevalecem interpretantes imediatos e dinâmicos. De acordo com a teoria peirceana, os interpretantes imediatos, não mediados racionalmente, estão imbuídos de potencialidade, trazendo consigo a capacidade de produzir efeitos na mente que interpreta, e os dinâmicos se reportam, por sua vez, àquilo que os signos realmente produzem em cada mente, de forma singular. No entanto, a camada sígnica de interpretantes lógicos, incrustada na mente, em face do cultural, demonstra um
contraponto no processo sinestésico. Ela levanta, outrossim, a questão da dormência dos sentidos, da inflexibilidade destes devido ao mecanicismo habitual, o que acentua o seu grau anestésico. Mas essa “anestesia”, em decorrência da continuidade proposta no cerne da atualização do conceito de sinequismo, tem a chance da reversibilidade e, então, da retomada de seu avesso, o estágio sinestésico.
Considerando tais idéias, cabe afirmar que a semiose, como processo de geração de novos signos, na percepção e na comunicação sinestésicas, traz um infinitesimal de signos em “degenerescência”. Segundo a teoria peirceana, a “degenerescência” é o aspecto apresentado pelos signos “degenerados”, ou seja, os que não expressam, nitidamente, a relação triádica genuína, mas a guardam em potência. Na comunicação e na percepção sinestésicas, pode-se dizer que a terceiridade é subsistente, embora haja privilégio da primeiridade e da secundidade, por serem instâncias mais calcadas na instintividade do que no simbólico. O simbólico, em contrapartida, traduz a “genuinidade”, pelo acesso à tríade estabelecida na terceiridade:
A terceiridade tem a ver com o futuro. É um modo de ser que consiste no fato de que futuras instâncias de secundidade assumirão um caráter geral determinado. A terceiridade será, assim, o modo da previsão, na medida em que o prever tende para a sua realização, e eventos futuros são, até certo ponto, governados por algum tipo de regularidade ou lei (PINTO, 1995, p.57).
De acordo com a explanação acima, tem-se a reafirmação da idéia da presença do
simbólico na terceiridade, o que imprime a noção do previsto, do esperado, da generalidade, subtraindo, dessa instância, a espontaneidade e a arbitrariedade do sentir multissensorial.