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OSMANLI DEVLETİ SON DÖNEMİ VE KURTULUŞ SAVAŞ

A questão da compreensão do problema depressão-melancolia não se encerra em Freud. Ela foi herdada pelos psicanalistas de uma forma geral, pois dentro da psicanálise não existe um consenso sobre tal discussão. Delouya (2002) afirma que ainda hoje tal distinção se faz com dificuldade. Na mesma linha, Moreira (1992) revela que a bibliografia sobre o tema é fértil em afirmar a falta de consenso e a diversidade de definições. Em suas palavras:

[...] permanece, neste fim de século XX, um problema teórico e clínico: definir precisamente o que são as entidades psicopatológicas melancolia e depressão, tanto na obra de Freud quanto no campo psicanalítico que o sucedeu (MOREIRA, 2002, p.76).

Tal dificuldade é facilmente constatada ao eleger o tema da melancolia como pesquisa. Mesmo frente à mais exaustiva revisão bibliográfica que abarca o campo depressivo- melancólico, ainda permanecemos sem uma resposta definida, a ponto de renunciarmos

prontamente à pretensão de oferecer uma solução para esta complexa problemática. Caberia, ainda, nos determos mais um pouco nesta questão, a fim de apresentar ao leitor uma idéia mais formal, examinando o que alguns autores pensam a respeito.

A definição da melancolia como uma neurose narcísica reservou um lugar especifico para este sofrimento psíquico, e destacou o narcisismo como sua questão central – temos aqui a expressão do fenômeno de menos valia do melancólico, representado pela auto- desvalorização e pela falta de auto-estima. Também o estudo dos sentimentos de culpa, encerrada pelas auto-injúrias e auto-acusações nos melancólicos, destacou por sua vez a ambivalência, que ocupa, ao lado do narcisismo, o lugar de elementos centrais da melancolia. Estes dois aspectos deram origem a duas correntes distintas no pensamento sobre a depressão e melancolia. Tais correntes dividem-se entre aquelas que se baseiam na ênfase destes estados na ambivalência e aquelas que se apóiam na dimensão narcísica. A primeira, representada especialmente por Abraham (1911, 1924), e seguida por Rado (1928), Klein (1935, 1940, 1946), Finichel (1946) e Jacobson (1953, 1971), centra sua compreensão da melancolia através da evidência dos embates internos da ambivalência – um superego cruel e um ego subjugado – tendendo a dar um especial relevo ao sentimento de culpa. Aqui o que se nota é o

embate entre as instâncias e a predominância dos componentes destrutivos que não podem ser

absorvidos nas relações com os objetos. Esta corrente tende a considerar o caráter psicótico da melancolia (DELOUYA, 2001, p.36).

A corrente de autores apoiados na dimensão narcísica para o entendimento psíquico da melancolia aposta suas fichas nos percalços que rondam o período da constituição do ego, isto é, o nascimento do sujeito do eu, e que acarretam em uma forte sensibilidade narcísica e em conseqüentes carências no ego. A melancolia aqui é conseqüência de frustrações traumáticas ou descuidos precoces, e se manifesta por carência narcísica. Temos aqui uma aproximação com a indicação de Freud sobre a melancolia ser uma neurose narcísica, afastando assim a melancolia das psicoses e a colocando no contexto das neuroses. Gero (1936), Sharpe (1944), Bibring (1953) e Bowby (1969) são os principais autores que formam esta corrente (DELOUYA, 2001, p.36).

Finichel (2000 [1946]), autor do livro Teoria psicanalítica das neuroses, acredita que a depressão em grau ligeiro ocorre em toda neurose, e que, em grau mais elevado, é de todos os sintomas o mais terrível no tormentoso estado psicótico da melancolia. Entretanto, concebe a perda da auto-estima como a essência dos estados depressivos em conseqüência dos sentimentos de culpa.

Bleichmar (1983), em seu importante trabalho Depressão, um estudo psicanalítico, usa o termo “melancolia” para nomear as psicoses, e “depressão” para nomear a psicopatologia em neuróticos. Entretanto, trata tanto uma quanto a outra como fenômenos depressivos, pondo em destaque a questão da perda como a condição de produção destes estados. Para este autor, o que Freud esclareceu em Luto e melancolia, independentemente da discussão que envolve as especificidades de cada quadro, foi que, em todos os estados depressivos, os indivíduos afetados sentem que algo se perdeu; trata-se de um estado no qual um desejo se apresenta como irrealizável. Este autor ainda leva em conta tanto os aspectos narcísicos quanto os ambivalentes, propondo uma divisão dos estados depressivos em “depressão narcísica”, “depressão culposa” e “perda simples” – esta última mais próxima do luto. Anos mais tarde, Bleichmar (1997) continua a sustentar sua visão sobre a depressão, e destaca, como a essência dos transtornos depressivos, os sentimentos de impotência e desesperança para a realização de um desejo ao qual se está intensamente fixado.

Marucco (1987) entende a depressão como muito próxima do quadro melancólico e se pergunta se a primeira não seria uma forma disfarçada da segunda. Os sentimentos de diminuição de auto-estima e a perda do sentimento de si, aspectos tão próprios da melancolia, são os componentes habituais das depressões – o que ele considera como modos de expressão habitual das afecções narcisistas. Retomando a idéia freudiana, o autor afirma que o conflito central na depressão e na melancolia é a tensão entre o ideal e o ego. De acordo com autor, o tema da melancolia é importante, tendo em conta que esta forma de padecimento assola o mundo atual. A depressão, segundo este entendimento, seria o paradigma psicológico de nosso tempo, como uma implicação da degradação dos laços amorosos como um de seus significativos mal-estares. Esta degradação dos vínculos amorosos poderia desembocar, segundo Marucco, em depressões e melancolias.

Laplanche (1987, p.293), por sua vez, refere-se ao tema que abarca dentro da psicanálise as depressões, melancolias e afins, por “campo depressivo” ou “campo das depressões”. Sua posição é a de que a melancolia seria uma forma mais grave de depressão, e de que no texto Luto e melancolia Freud volta-se para um tipo muito particular de depressão, chamada de “depressão melancólica”. O autor revela ainda que existe uma distinção vigente na psicanálise entre depressão neurótica e melancolia, um tipo de depressão de culpabilidade, que é designada por “psicose”. Laplanche lembra ainda que a melancolia, segundo a indicação de Freud em Neurose e Psicose, estaria na charneira entre a neurose e a psicose. Sua leitura da melancolia é bem fiel ao apresentado em Luto e melancolia.

Em Sol Negro - Depressão e Melancolia, Kristeva (1989) distingue a melancolia da depressão, apontando contudo para a intrincada problemática que as envolve:

Chamaremos de melancolia a sintomatologia psiquiátrica de inibição e de assimbolia que, por momentos ou de forma crônica, se instala num indivíduo, em geral se alternando com a fase, dita maníaca, da exaltação. Quando os dois fenômenos, do abatimento e da excitação, são de menor intensidade e freqüência, podemos então falar de depressão neurótica (KRISTEVA, 1989, p.16).

De acordo com a autora, o termo “melancolia” estaria reservado, na psiquiatria, apenas à patologia que necessita de antidepressivos, sendo considerada irreversível. Entretanto, ela afirma que a teoria freudiana aponta para um luto impossível do objeto materno, tanto na depressão quanto na melancolia. E aceita a diferença clínica e nosológica entre os dois estados, ressaltando contudo que eles se apóiam na intolerância à perda do objeto e na falência do significante, sendo então, em seu âmago, indistinguíveis. A autora propõe ainda que os termos “melancolia” e “depressão” designem um conjunto que se pode chamar de “melancólico-depressivo”, nos quais os limites na realidade são imprecisos.

Na mesma direção, Peres (1996, 2003) afirma que os termos “depressão” e “melancolia” podem aparecer como sinônimos, mas podem também receber tratamentos diferenciados: depressão para as formas neuróticas da doença e melancolia para a forma psicótica. Entretanto, a autora privilegia o uso do termo “melancolia” quando fala a partir da psicanálise, e “depressão” para designar sintomas.

Roudinesco e Plon (1998), em seu Dicionário de psicanálise, apresentam o verbete sobre a depressão dentro do verbete “melancolia”. Afirmam os autores que a primeira é uma forma atenuada da segunda e designa esta última como um “estado depressivo”. Estariam estes autores sugerindo que ambos possuem a mesma etiologia? É difícil de responder, mas, segundo este ponto de vista, de que a depressão é uma forma atenuada de melancolia, uma resposta afirmativa à questão talvez possa ser considerada.

Delouya (2002) nomeia as patologias depressivas em geral por quadros depressivos e afirma sem hesitar que estes são freqüentemente associados às psicoses ou às patologias fronteiriças. Quanto ao afeto e aos estados depressivos, estes fazem parte da condição humana e figuram entre os quadros clínicos. Assim, a patologia se expressa em impotência vital do agir e do fazer, assim como do sonhar e do pensar. Seus principais sintomas clínicos são, em diferentes graus, fadiga, astenia, tédio, tristeza, lassitude, enclausuramento, inércia etc. O autor enfatiza que a depressão e a melancolia não podem ser atreladas ou tomadas como equivalentes. A segunda diz respeito a um fracasso no momento de constituição da

configuração simultânea do eu e do objeto, enquanto a primeira refere-se a uma perda de um espaço de gozo originário.

Berlink e Fedida (2002, p.73-91) afirmam que, em Luto e melancolia (FREUD, 1917[1915]), se estabelece uma nítida diferença entre depressão e melancolia: propõem considerar a primeira como luto e a segunda como afecção psíquica específica. E eles sustentam esta distinção a partir de um fenômeno decorrente da disseminação do uso de antidepressivos. O que se observa como fato clínico é que pacientes tratados com anti- depressivos apresentam melhoras na depressão, mas permanecem com sintomas melancólicos. Isto revela que há depressão na melancolia. A depressão, segundo os autores, pode então ser vista como um estado – tal como notamos que Freud entende a depressão em muito de seus trabalhos10 enquanto a melancolia pode ser caracterizada como uma neurose narcísica marcada por um “conflito intrapsíquico entre as instâncias do ego e superego implicando o

sujeito na culpa”. A depressão é um estado de luto muito primitivo e a melancolia, uma neurose composta por conflito, depressão e culpa.

A visão psicanalítica depois de Freud estabeleceu, como pudemos perceber, uma distinção entre a melancolia e depressão: a segunda seria um estado mais brando e que estaria presente nas neuroses de uma forma geral, sendo o foco principal ou não da patologia. Podemos ter um caso grave de neurose obsessiva, no qual a depressão permanece apenas como coadjuvante, ou assumir o papel principal, quase mascarando os aspectos obsessivos. Já a melancolia seria uma forma aguda e acentuada de um estado depressivo presente nas psicoses (PERES, 2003). Constatamos então que alguns autores depois de Freud não seguiram sua definição da melancolia como uma neurose narcísica, e a incluíram entre as psicoses. Moreira (2002) dedica todo um capítulo sobre tal problemática, intitulado “A melancolia segundo Freud: um Narciso sem [dês]culpa”, no qual afirma que tal questão permanece sem resposta.

Em nosso estudo entendemos que os termos “melancolia” e “depressão”, sem nos atermos à questão da diversidade dos quadros clínicos, podem ser abrangidos de maneira mais ampla pela expressão “estados depressivos”. Estes estados se referem àquelas formas de sofrimento psíquico que incluem, em maior ou menor grau, os sintomas apontados por Freud em Luto e melancolia: estado de ânimo penoso, desinteresse pelo mundo externo, inibição e falta de interesse em realizar atividades, falta de capacidade de investimento em objetos externos, diminuição de auto-estima e aumento de auto-recriminações e auto-envilecimento.

Independentemente das questões imprecisas e polêmicas que cercam o tema da depressão- melancolia, como bem coloca Kristeva (1989), situamo-nos numa perspectiva freudiana: é sempre pensando a partir deste lugar como referência principal que buscamos compreender os estados depressivo-melancólicos, ou, como preferimos denominar, “estados depressivos”. A visão da autora – de que a depressão e a melancolia são estados indistinguíveis em seu âmago – converge diretamente com nossa investigação em relação à essência destes estados; um ponto de vista que procuramos elucidar neste trabalho.

Bleichmar (1981, 1998, p.36) também aponta para uma essência comum entre os estados depressivos, e sugere uma imagem em que os transtornos depressivos constituem as ramas últimas dos caminhos de origem que tem um tronco comum. Como vimos em Freud e em alguns autores contemporâneos, há depressão na melancolia, embora a primeira seja compreendida como um estado afetivo, isto é, uma descrição fenomenológica de um estado em que a pessoa se encontra, enquanto a segunda se constitui como uma neurose narcísica – uma estrutura clínica específica. O que buscamos compreender em primeira instância não são as particularidades que possivelmente venham distinguir a depressão e a melancolia, ou os inúmeros quadros depressivos, embora tais particularidades devam ser consideradas, mas sim o que poderíamos chamar de “denominador comum entre os estados depressivos”. De acordo com a tendência da psicanálise atual, acreditamos ser útil, em termos clínicos, uma distinção entre a melancolia e a depressão, sem esquecer contudo que, ao faze-lo, estamos na verdade entrando em um campo mais amplo e complexo – como assinalado no final do tópico anterior –, o campo das depressões, algo maior e que se refere à constituição, estruturação e manutenção do aparelho psíquico.

Capítulo 2

Metapsicologia I - Luto e Melancolia

Benzer Belgeler