Analisar separadamente as vozes presentes nesses gêneros tem como justificativa o fato de elas não se caracterizarem necessariamente como fontes, o que ocorre com as notas e notícias. Em se tratando de editoriais, quando assinados, e artigos, a discussão a respeito dos que são autorizados a comentar as avaliações recai sobre quem os assina, ou seja, a qual locutor, além do jornal, é atribuída sua responsabilidade. Com as entrevistas, apesar de serem uma estratégia para aprofundamento de consulta às fontes, como discute Lage (2008), uma entrevista no formato perguntas e respostas que tenha como foco uma única pessoa lhe confere maior visibilidade que somente a citação desta como fonte em uma notícia.
Aqui, não se pode perder de vista que, mesmo em editoriais, artigos e entrevistas, a remissão às fontes pode ocorrer de diferentes maneiras. As perguntas em entrevistas, por exemplo, podem ter em si informações advindas de documentos oficiais ou de outros textos publicados pelo jornal.
Assim como na seção anterior, o objetivo desta é verificar os locutores mais frequentes nesses textos, seja na condição de autores expressos ou na de entrevistados. Os dados referentes aos textos a respeito do Ideb encontram-se na tabela a seguir:
Tabela 8: Autores e entrevistados em artigos, editoriais e entrevistas sobre o Ideb.
(Continua) Cate-
goria Artigo Editorial Entrevista
Jor n ali stas 2 Gilberto Dimenstein (I-9, I-21) 3 Fernando de Barros e Silva (I-18)
Valdo Cruz (I-22) Cristina Grillo (I-23)
Ac ad em ia 1 Naércio Menezes Filho, doutor em Economia pela Uni- versidade de Londres, professor titular e coordenador do Centro de Políticas Públicas do Insper e professor da FEA – USP (I-8)
Th in k tan k s 1
Wanda Engel, ex-
secretária de assistência social do governo FHC e superintendente executiva do Instituto Unibanco (I-19) (Conclusão)
A maior recorrência entre os artigos e editoriais é de textos assinados por jornalistas da Folha de S.Paulo, dentre os quais somente Gilberto Dimenstein escreve com frequência sobre educação. Os demais abordam principalmente assuntos em voga ligados à economia e à política, o que em seus textos confere ao Ideb papel de ponto de partida para discutir os possíveis caminhos do Brasil frente à educação.
Há um artigo escrito por um professor universitário, Naércio Menezes Filho; todavia, sua área de atuação não se liga estritamente à Educação ou formação de professores, e sim à Economia, assim como Reynaldo Fernandes. Com base na observação de seu currículo Lattes, é possível verificar que ele possui publicações relacionadas à situação educacional do país que se baseiam em aspectos econômicos e resultados de avaliações em larga escala. A diversidade de áreas envolvidas na elaboração e mensuração dos dados referentes às avaliações, bem como as possibilidades de estudos a partir de diferentes variáveis, permite que cada vez mais profissionais de outras áreas desenvolvam pesquisas em educação. Um levantamento feito no BDTD (Banco Digital de Teses e Dissertações) sobre as teses e dissertações que, de alguma forma, discutiram as avaliações externas entre 2003 e 2011, mostrou que além de pesquisas em programas de Educação e Educação Matemática, há algumas em Administração, Ciências, Economia e Psicologia Social22.
Representando a visão oficial do governo, foi publicada uma entrevista com o então ministro da Educação, Fernando Haddad, que já havia se mostrado presente enquanto fonte de
22 Pesquisa realizada durante a disciplina Avaliação de Sistemas Educacionais: características gerais, oferecida
pelo Prof. Dr. Ocimar Alavarse. As vinte e duas pesquisas localizadas distribuíam-se da seguinte forma pelos programas de pós-graduação: dezesseis em Educação; duas em Educação Matemática; uma em Administração, uma em Ciências; uma em Economia; e uma em Psicologia Social.
Gover
n
o
1 Fernando Haddad (I- 5)
uma notícia. Há também uma com Wanda Engel, representante do Instituto Unibanco, que é citada como fonte em dois textos sobre o Pisa (P-6 e P-9). Ambas são temáticas no que concerne a seus objetivos, conforme classificação proposta por Lage (2008) esse tipo de entrevista:
aborda um tema, sobre o qual se supõe que o entrevistado tenha condições e autoridade para discorrer. Geralmente consiste na exposição de versões ou interpretações de acontecimentos. Pode servir para ajudar na compreensão de um problema, expor um ponto de vista, reiterar uma linha editorial com o argumento de autoridade (a validação do entrevistado) etc. (LAGE, 2008, p. 74).
A publicação de uma entrevista com o ministro da Educação encontra sua justificativa por sua posição enquanto responsável tanto pela organização do índice quanto pelo desempenho dos estudantes brasileiros. Dedicar uma entrevista inteiramente a uma única fonte ao mesmo tempo constrói e reafirma seu caráter de autoridade num dado assunto; dessa forma, a presença recorrente de Wanda Engel reforça o discurso de competência do Instituto Unibanco sustentado pelo jornal, como capaz de avaliar o cenário educacional brasileiro, além de ser um espaço para que um representante do governo anterior fizesse uma avaliação do vigente à época.
Passa-se à disposição dos dados relacionados ao Pisa:
Tabela 9: Autores e entrevistados em artigos, editoriais e entrevistas sobre o Pisa.
Cate-
goria Artigo Editorial Entrevista
Jor
n
a
-
li
stas 1 Gilberto Dimenstein (P-14) 1 Fernando de Barros e Silva (P-11)
E
sc
ritor 1 Marçal Aquino (P-
4) Th in k tan k s P1 Ilona Becskeházy, diretora executiva da Fundação Lemann Paula Louzano, doutora em Educação por Harvard (P-7)
Os textos assinados por jornalistas têm dois dos autores presentes nos artigos e editoriais que abordaram o Ideb, são eles Gilberto Dimenstein e Fernando de Barros e Silva. Com relação às categorias já presentes, difere dos textos anteriores a entrevista realizada com o escritor Marçal Aquino. Há ainda um artigo assinado por duas pessoas ligadas à Fundação Lemann, embora somente na descrição de uma, Ilona Beckeházy, esse dado seja informado; vale lembrar que Paula Louzano foi fonte consultada em dois textos acerca do Ideb (P-12 e P-13) e que a vinculação a Harvard pode pressupor o maior prestígio dessa instituição em comparação à fundação.
Até o momento, o delineamento das vozes na condição de autores e fontes presentes nos textos, tanto notas e notícias quanto artigos, editoriais e entrevistas, permitiu que se chegasse às seguintes conclusões:
a) As vozes oficiais, tanto as do governo quanto de organizações internacionais são as mais numerosas;
b) São frequentes locutores relacionados às think tanks como fontes ou autores dos textos, sendo que as instituições representadas são mais variadas que as instâncias oficiais;
c) O saber acadêmico, como fonte expert, tem espaço menor que o das think tanks e nem sempre se associa a figura do pesquisador à de uma universidade;
d) Há pouca variedade de universidades materializadas em seus docentes em comparação às think tanks;
e) Os agentes escolares são inseridos em poucos textos;
f) Os editoriais e artigos são em sua maioria assinados por jornalistas da Folha de S.Paulo;
g) É frequente a relação dos locutores com mais de uma categoria, por exemplo, governo e academia, embora nem sempre essa ligação seja expressa pelo jornal; h) Alguns locutores são recorrentes tanto na cobertura do Ideb, quanto na do Pisa.
Nos próximos capítulos, o intuito será, a partir dessa abordagem inicial, observar se há e quais são os discursos característicos a cada categoria de locutores; como eles se relacionam e entre si e com os demais elementos da página; e suas formas de inserção.
4 ARRANJOS DE VOZES EM TEXTOS SOBRE O IDEB
Assim como ocorreu com as análises já realizadas, a discussão partirá da página de jornal para seus elementos constitutivos, observando sempre as relações dialógicas e interdiscursivas entre eles. Conhecidas as categorias de locutores presentes nos textos, expressas na Tabela 4 (p. 86), serão analisados os discursos inerentes a elas e como o jornal os articula em prol de um determinado ponto de vista. Serão também problematizados os tipos de discurso relatado utilizados, suas formas de inserção e as implicações discursivas desses usos
Dessa forma, estarão em jogo principalmente os arranjos feitos pelo jornal quando da articulação de diferentes fontes em seu texto. Pretende-se observar, por exemplo, quais são e se há diferenças quando se utiliza uma declaração advinda da esfera governamental ou uma dos agentes escolares e quais as implicações desse emprego para a construção do ponto de vista do texto.
A observação dos dados permitiu constatar que, a partir dos resultados do Ideb, os enunciados atribuídos às fontes em notas e notícias foram utilizados de modo a materializarem as seguinte posições frente aos exames: a) comparar a rede pública à particular ou os resultados do presente aos do passado; b) criticar o desempenho dos estudantes; c) elogiar o desempenho dos estudantes; d) fazer prospecções; e) justificar os resultados; e f) descrever ações realizadas. Não houve, por exemplo, enunciados cujo foco fosse explicar como os resultados obtidos indicam as habilidades dos alunos em determinada área. A cada uma dessas posições assumidas pelas fontes diante dos resultados, ligam-se categorias específicas de locutores, que indicam uma predominância, conforme segue:
Posição do enunciado frente aos resultados
Categoria predominante dos locutores
Comparações Think tanks
Crítica Think tanks
Elogio Governo Prospecção Governo Justificativa Governo Academia Think tanks Agentes escolares
Descrição de ações Agentes escolares
O quadro sintetiza as tendências gerais dos enunciados atribuídos às categorias de locutores, o que não significa que todas as ocorrências provenientes dessas fontes estejam ligadas necessariamente ligadas a essas posições. No caso das think tanks, são frequentes os contextos em que seus representantes são convocados a avaliar a diferença entre os resultados da esfera pública em comparação aos da privada, procedimento passível de ser efetuado por meio dos dados do índice, mas que não se configura como foco do Ideb. Também costuma caber a essas instituições o papel de crítica ao desempenho dos estudantes, o que acaba se ligando à valorização do ensino privado, como se dele pudessem ser extraídas práticas a serem adotadas para a rede pública.
Partindo do pressuposto que a inserção dessas fontes nos textos se dá predominantemente para discussão de aspectos relacionados ao índice, ou seja, constituindo-se como fonte informativa para o texto jornalístico, conforme abordagem de Paredes (2000), chama a atenção a ausência de posicionamentos que digam respeito à própria estrutura do índice e da avaliação. Nos textos, o conteúdo dos enunciados das fontes concentra-se em aspectos concernentes ao que se tem a partir dos índices, são ausentes, por exemplo, situações em que esses enunciados atribuídos a terceiros sejam inseridos de forma a discutir o modo como se aplica a Prova Brasil, o tipo de questão utilizada ou as formas de cálculo do Ideb.
Ao se considerar que o papel do texto jornalístico na sociedade é, além de repercutir os fatos cotidianos, questioná-los; no caso da cobertura das avaliações, os questionamentos incidem muito mais sobre o desempenho dos alunos brasileiros do que sobre a ferramenta que vem sendo utilizada para aferi-lo. É premissa, portanto, que a cobertura jornalística parte da validade das avaliações como ferramentas para se mensurar a qualidade da educação, sem indagações sobre sua validade ou não. Tal perspectiva vincula-se a uma concepção sobre educação bastante difundida atualmente e quase hegemônica na grande imprensa, segundo a qual a qualidade da educação pode ser mensurada por meio de testes e as práticas adotadas pelos que obtiveram resultados satisfatórios devem ser levadas aos demais, sem necessariamente se considerarem suas especificidades.
Quanto às posições enunciativas elencadas, cabe destacar que elas se encontram de maneira dispersa no decorrer dos textos, podendo em uma mesma notícia, por exemplo, se encontrarem comparações, críticas, elogios ou outras. Se, por um lado, há determinados posicionamentos que podem ser observados ao se tomarem os enunciados atribuídos às fontes isoladamente; por outro, há alguns que dizem respeito à própria perspectiva que o jornal assume ao longo dos dias ao tratar do Ideb. Na sucessão de textos sobre o índice, nota-se que, no decorrer dos dias, diferentes ações são realizadas pelos textos publicados pelo jornal.
Inicialmente eles têm como foco a relação com o passado, comparando resultados da década de 90 aos de 2009; em seguida concentram-se em comparações, entre estados e redes pública e particular, por exemplo; e, por fim, realizam um balanço das informações já apresentadas pelo jornal com textos que misturam lamentos e soluções.
Nesse contexto, as vozes, aqui tidas como as fontes citadas, são mobilizadas de forma a contribuir para a construção dessas posições pelo jornal. Buscando observar como esses arranjos são feitos e de que maneira elas são dispostas para marcar uma determinada posição acerca do Ideb, serão apresentados alguns dos textos publicados pela Folha de S.Paulo quando da divulgação do índice, ordenados temporalmente, conforme reunidos no Apêndice A (p. 192). O primeiro aspecto a ser abordado será a constante comparação que se efetua entre o cenário educacional sugerido pelo Ideb de 2009 e o da década de 1990.