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Osmanlı’nın Son Döneminde Ahıska Türklerinin Anadolu’ya

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Antes de entrarmos na análise do que vem a ser as neurociências, acreditamos ser interessante e fundamental fazer um breve percurso pelo que chamamos antecedentes desse “novo” campo científico. De fato, a chamada ciência moderna, conforme a definiu Koyré56,

elaborou diversos projetos com a intenção de compreender as características humanas a partir de uma “redução à biologia”. Não obstante, como pretendemos deixar claro na sequência, as neurociências – de onde se buscam recursos e provas para o estabelecimento desse novo campo intitulado neuropsicanálise – recolocam a questão em patamares inéditos.

Pode-se afirmar, então, que o objetivo da tradução biológica da existência humana é uma pretensão, não só contemporânea, mas igualmente moderna. Dessa forma, o que se seguirá é uma amostra de alguns passos da ciência moderna nessa direção, devendo ser encarada, por isso, a título meramente exemplificativo.

Já no século XVII, o anatomista Thomas Willis, da Universidade de Oxford, na Inglaterra, liderou o que é considerado pelos historiadores da medicina como a primeira dissecação de um crânio. Seu objetivo era retirar um cérebro para estudo detalhado, a fim de confirmar hipóteses referentes ao que seria “o centro das emoções”. A partir daí, começou-se a construir uma questão teórica importante para a biologia e a medicina, chegando até os nossos dias, que diz respeito às relações entre as características de um cérebro e as características de personalidade. Isso gerou uma alteração importante na concepção científica relacionada ao cérebro: de certa maneira, os seres humanos passaram a ser igualados e confundidos, em sua identidade, com o cérebro, ao invés de serem portadores de um cérebro e possuírem uma identidade.

56 Trataremos dessa questão mais à frente.

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Logo, o cérebro passou a ser indispensável na abordagem científica de qualquer assunto que se relacionasse às questões do “eu”, consideradas, desde então, vagas, filosóficas e pouco precisas. Essa transformação gerou debates importantes sobre as funções do cérebro, a tal ponto que se passou a entender, por exemplo, que, se houvesse um transplante de cérebro de Maria para João, Maria estaria recebendo um novo corpo e não João, o cérebro de Maria.57

Em alguns estudos contemporâneos das neurociências, podemos notar essa mesma pretensão de considerar a materialidade biológica como necessária e suficiente para a compreensão de qualquer evento psíquico, a qual, ironicamente, lembra os experimentos e conclusões do físico Franz-Joseph Gall (1758-1828), que desenvolveu a frenologia, campo científico que pretendia relacionar a estrutura craniana com a capacidade mental e o caráter das pessoas.

De fato, Gall parece ter sido o primeiro cientista a enfatizar a ideia de que o cérebro e a mente seriam uma única e mesma coisa; sendo assim, as qualidades psicológicas e os comportamentos humanos poderiam, e deveriam, ser correlacionados a regiões diversas do córtex cerebral. Sua teoria valorizou, ainda, o papel desempenhado por uma região específica do cérebro, o córtex, e se contrapôs à teoria hegemônica da época de que o “cérebro atuava como um todo”, conhecida como teoria ou princípio da equipotencialidade – ou teoria unitária da ação cerebral –, que foi formulada pelo fisiologista e anatomista suíço Albert Von Haller. Em breve síntese, essa teoria, defendida por um autor chamado Flourens, defendia a concepção de que, em todos os comportamentos humanos, havia uma participação equitativa de todas as áreas do cérebro.

Foi contra essa visão que Gall, por volta de 1793, construiu seu sistema de localização cerebral das faculdades mentais complexas, influenciado, ainda, pela concepção embriológica da época, que propugnava que o contorno da cabeça e da superfície craniana obedecia fielmente

57 Ver CHANGEUX, J-P. Neuronal man: the biology of mind. New Jersey: Princeton University Press, 1985; em especial o Capítulo 1: The “organ of the soul”: from ancient Egypt to the belle époque – p. 3-36.

ao formato do córtex subjacente.58 Contudo, sua concepção, de que se poderia inferir a interioridade psicológica a partir de características externas, não era totalmente original, pois já podia ser encontrada nas teses difundidas pela fisiognomia, formalizadas pelo pastor suíço Johann Casper Lavater (1741-1801).59

Em outras palavras, a frenologia de Gall foi desenvolvida num contexto social totalmente propício à afirmação de uma teoria que favorecesse a “epistemologia visual” do caráter e da personalidade. Assim, a partir das concepções conhecidas e da dissecação e observação de uma imensa coleção de crânios, Gall “descobriu” que existiam vinte e sete faculdades mentais distintas, inequivocamente demarcáveis ao longo da superfície craniana, que funcionavam como uma espécie de significantes externos do cérebro subjacente, além de representarem uma vasta gama de qualidades humanas e servirem, ainda, para fins de diagnóstico a respeito das personalidades das pessoas: amizade, vaidade, talento poético, “senso metafísico”, por um lado, e, por exemplo, inclinação para o assassinato, por outro.

Não obstante, essa teoria recebeu severas críticas (tanto em alguns círculos médicos, quanto do público em geral)60 e foi acusada de charlatanismo, sendo que, para seus críticos, ela merecia estar ao lado das teorias proferidas por Mesmer, Lavater e Cagliostro. O fato é que a teoria de Gall nunca sensibilizou ou convenceu os círculos científicos mais relevantes de sua época; tanto que ele teve, inclusive, recusada a sua adesão à Academia de Ciências da França. O golpe mais duro, entretanto, proveio dos estudos realizados por Flourens: seus experimentos consistiam na remoção de partes do córtex de alguns animais, mantendo certas funções intactas, e serviram de base para a reconstituição, ainda que provisória, de uma teoria mais generalista de funcionamento do cérebro.

58 Dessa forma, para cada circunvolução cortical proeminente, existiria uma protuberância no crânio e, para cada região que se mostrasse atrofiada, uma depressão craniana.

59 A fisiognomia de Lavater atualizava concepções de Giovanni Battista della Porta (cientista do século XVI), que foi um dos principais divulgadores e popularizadores da ideia de que se poderia ter acesso a aptidões e características de caráter das pessoas através de seus traços faciais e da forma de seus crânios.

60 Gall apresentava suas teorias em salões frequentados por homens e mulheres interessados em assuntos científicos.

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Relevante ressaltar, no entanto, que a frenologia, ou organologia (termo preferido por Gall), influenciou e serviu de base para uma série de argumentos relacionados ao “aprimoramento moral da humanidade”, como pretendia seu discípulo Spurzheim.

O tom redentor da frenologia de Spurzheim causou impacto considerável em diversos círculos científicos e leigos da Inglaterra, que a viam como um sinal de que a ciência poderia colaborar para reformas importantes da sociedade. O paradoxo, porém, era que essas reformas possuíam em seu bojo propósitos progressistas, como ajustar as penas de certos detentos ou mesmo curar os alienados, uma vez que as faculdades alojadas no cérebro poderiam, nessa ótica, ser influenciadas e alteradas através de certos tipos de exercícios.

Os desdobramentos desses acontecimentos foram muitos e abrangeram diversos campos da cultura, sendo que o mais relevante talvez tenha sido o grande sucesso obtido nos Estados Unidos, onde era possível comprar uma espécie de mapa cerebral com as indicações das características da personalidade dos clientes. Em suma, se não foi uma teoria respeitada cientificamente, por outro lado, foi um bom negócio!

Bom negócio, mas ciência ruim, pois, nos círculos acadêmicos, não houve a mesma aceitação. Mas, de certa maneira, a frenologia ajudou a difundir ainda mais a concepção de que havia de alguma forma (a ser descoberta e comprovada) ligações e relações entre as características do cérebro e as aptidões e características individuais. Tanto é verdade que esse processo, já estabelecido no âmbito das pesquisas científicas (“medir para saber”), teve continuidade no século XIX, com o surgimento de uma nova teoria, a craniometria, cujo objetivo não era o mesmo da finada frenologia, mas trazia, em seu âmago, um projeto de construir escalas de desenvolvimento humano a partir de dados mensuráveis, tais como: o volume, o tamanho e a circunferência da caixa craniana; já as irregularidades das caixas cranianas, como as depressões ou protuberâncias, valorizadas pela metodologia da frenologia, eram consideradas dados sem importância.

Nesse contexto, o paleontólogo americano Stephen Jay Gould, professor da Universidade de Harvard, em seu formidável A falsa medida do homem, demonstra o intrincado mundo das relações entre a objetividade, buscada pela ciência e pela quantificação que a acompanha, e os inconfessáveis propósitos filosóficos de alguns de seus praticantes.

A segunda metade do século XIX não foi apenas a era da evolução na antropologia. Outra corrente, igualmente irresistível, contaminou o campo das ciências humanas: a fascinação pelos números, a fé em que as medições rigorosas poderiam garantir uma precisão irrefutável e seriam capazes de marcar a transição entre a especulação subjetiva e uma verdadeira ciência [...]. A evolução e a quantificação formaram uma temível aliança: em certo sentido, sua opinião forjou a primeira teoria racista „científica‟ de peso, se definirmos „ciência‟ erroneamente, como muitos o fazem, como sendo toda afirmação aparentemente respaldada por cifras abundantes.61

Assim, para o autor, a craniometria longe de chegar a conclusões objetivas, servia, antes, para confirmar as teorias e filosofias político-ideológicas preconceituosas de uma época: a inferioridade das mulheres, dos operários, dos doentes mentais etc. Em suma, os números, diz Gould, não se contam por si mesmos!

A ciência tem raízes na interpretação criativa. Os números sugerem, limitam e refutam, mas, por si sós, não especificam o conteúdo das teorias científicas. Estas são construídas sobre a base da interpretação desses números, e os que os interpretam são com freqüência aprisionados pela sua própria retórica.62,63

61 GOULD, S. J. A falsa medida do homem. 2. ed. Tradução de Valter L. Siqueira. São Paulo: Martins Fontes, 1999. p. 65-66.

62 Ibid., p. 66.

63 Interessante, também, é o fato de que Gould refez os cálculos desses cientistas, a partir dos dados por eles apresentados, e concluiu haver divergências enormes. No entanto, ele não atribui essas divergências a uma tentativa de fraude, até porque elas não eram, de nenhuma forma, escondidas pelos pesquisadores. A explicação a que chega o autor é a de que as medidas representavam, simplesmente, os propósitos “filosóficos” dos cientistas.

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