Tomando como base as discussões de Freire (1970) e também as questões discutidas por Bartlett (1990), Smyth (1992) as resume e propõe um processo de reflexão crítica, levando em conta quatro níveis diferentes de ação: descrever, informar, confrontar e reconstruir, que serão apresentados a seguir.
Segundo Smyth, o descrever é a primeira etapa a ser realizada pelo professor para que possa descrever suas ações sobre o que foi feito em sua prática. Essa etapa é considerada, assim, o ponto de partida da reflexão e tem como objetivo “dar voz ao professor”. Para Liberali (2004, p. 90), quando se descreve a prática pedagógica concretamente, em outras palavras, o que foi feito, “torna-se possível evidenciar o que está por trás de cada uma das ações”.
Para isso, Liberali (2004) apresenta algumas questões coletadas em contexto de formação de professores, que tomamos como base para elaborar os roteiros abaixo sobre os processos de descrever, informar, confrontar e reconstruir, segundo a visão de Smyth (1992).
Liberali (2004), com base em Smyth (1992), sugere os seguintes itens para conduzir à reflexão sobre o processo de descrever:
Processo: descrever. Perguntas: O que foi feito?
Descreva sua aula.
Quantos alunos havia na aula? Qual o curso? Faixa etária? Série? Conte um pouco sobre sua turma.
Qual foi o assunto da aula? Como você o escolheu? Como a apresentação do conteúdo ocorreu?
Que atividades foram desenvolvidas? Que materiais foram utilizados?
Como os alunos participaram das atividades?
Que tipo de trabalho foi desenvolvido: grupo, dupla, individual, etc.? Você teve algum problema durante a aula?
Seu plano de aula foi alterado em algum momento?
Na segunda etapa, Smyth (1992) sugere o processo de informar, que está relacionado com os princípios que, conscientemente ou não, embasam nossas ações. É nessa etapa que deve ocorrer a compreensão das teorias formais que sustentam as ações e também os sentidos que de fato estão sendo construídos nas práticas discursivas dos professores. O objetivo do informar é compreender as teorias que foram sendo construídas pelo informante, nesse caso o professor, ao longo de sua vida e que, consequentemente, influenciam suas ações (LIBERALI, 2004, p. 93).
As seguintes perguntas são sugeridas por Liberali (2004), baseadas em Smyth (1992), para conduzir a reflexão sobre o processo de informar:
Processo: informar.
Perguntas: O que isto significa? Qual a fundamentação teórica para minha ação?
Qual foi o foco da apresentação do conteúdo? Como foi sua postura?
A que visões de aprender-ensinar você relaciona sua aula/essa atividade?
Qual foi o papel do aluno nessa aula/atividade? Por quê? Qual foi o seu papel nessa aula/atividade? Por quê?
Como o conhecimento foi trabalhado? Foi transmitido, construído, co- construído? Por quê?
Qual foi o objetivo das interações?
O confrontar seria a terceira etapa proposta por Smyth (1992). Na visão de Liberali (2004, p. 92), nessa etapa do processo de reflexão, o professor submeteria as teorias formais, que fundamentam suas ações, a algum tipo de questionamento. Ou melhor, essa fase “envolve o questionamento de ideias e de estruturas que embasam a prática observada, envolve a busca de inconsistências e contradições no que fazemos e no que pensamos” (VIEIRA-ABRAHÃO, 2002, p. 68). Na ação de confrontar, as visões e ações adotadas pelos professores são percebidas não como
preferências pessoais, mas sim como resultantes de normas culturais e históricas que foram sendo incorporadas à sua prática.
Assim, o professor, ao questionar suas ações, procura entender as razões que o fazem agir de tal forma. E, desse modo, “os educadores passam a perceber como as forças sociais e institucionais, além de suas salas de aula e da escola, têm influenciado o seu modo de agir e de pensar” (LIBERALI, 2004, p. 93).
Em seguida, apresentaremos as perguntas formuladas por Liberali (2004), com base em Smyth (1992), para conduzir à reflexão sobre o processo de confrontar.
Processo: confrontar.
Pergunta: Como me tornei assim?
Você acha que seus objetivos foram atingidos?
Como essa aula contribuiu para formação de seu aluno?
Como o tipo de conhecimento e de interação usado propiciou o desenvolvimento da identidade de seu aluno?
Como a sua aula colabora para a construção de cidadãos atuantes na sociedade na qual vivemos?
Por fim, a quarta etapa sugerida por Smyth (1992) é o reconstruir. No processo de reconstruir, o professor tem a oportunidade de avaliar suas ações, com base em reflexões realizadas nas etapas anteriores e, a partir daí, repensar sua prática pedagógica, buscando novas formas de ação, isto é, colocando em prática novas ideias que o levem à reconstrução de suas ações.
Para Liberali (2004, p. 94), o reconstruir está relacionado com a proposta de emancipação do professor através da compreensão de que as práticas acadêmicas são mutáveis e, desse modo, precisam ser questionadas. Ainda segundo Liberali, no reconstruir:
(...) buscamos alternativas para nossas ações, e voltamos a ela, numa re- descrição de cada ação embasada e informada. No reconstruir, nos colocamos na história como agentes, passamos a assumir maior poder de decisão sobre como agir ou pensar as práticas acadêmicas (LIBERALI, 2004, p. 94).
Esse quarto passo tem como objetivo fazer com que o professor tenha condições de reconstruir sua prática a partir da tomada de consciência sobre sua atuação em sala de aula. É nessa etapa que os participantes podem se conscientizar sobre a importância de buscar novas alternativas para suas ações.
Para Liberali (2004), baseando-se em Smyth (1992), a reconstrução da própria prática poderia ser conduzida a partir de questões apresentadas a seguir.
Processo: reconstruir.
Perguntas: Como poderei me modificar? Como posso agir de forma diferente?
Você organizaria essa aula de outra maneira? Por quê? Você apresentaria o conteúdo de outra maneira?
Você adotaria outra postura nessa aula/atividade? Por quê?
Discutimos nas seções anteriores os conceitos de prática reflexiva e reflexão crítica, segundo a visão de alguns autores. Com base nessas discussões, pretendemos identificar as marcas linguísticas que possam expressar momentos de reflexão no discurso da professora participante desta pesquisa.
Ademais, para questões de linguagem e discurso, utilizaremos como base teórico-metodológica a Gramática Sistêmico-Funcional, focando mais especificamente no sistema de Avaliatividade, sobretudo no subsistema de Atitude, os quais serão abordados a seguir.