Nesta seção, será apresentada a abordagem de variação estilística proposta por Labov (2008 [1972], 2001): a abordagem estilística baseada no grau de atenção prestado à fala. Entretanto, pensar em variação estilística também se remete a outros modelos teóricos. São eles: a perspectiva denominada de Audience Design (BELL, 1984, 1999) e o modelo de natureza identitária ou de prática estilística, de Eckert (1989, 2000, 2001, 2005, 2008). Verifica-se que, de um lado, essas propostas constituem três formas diferentes de captar e analisar a variação estilística, com metodologias, naturezas e motivações próprias. Como o foco de análise desta investigação recai sobre a proposta laboviana, neste trabalho, será descrita apenas a perspectiva de cunho laboviano.
Na subseção seguinte, vai-se apresentar abordagem de variação estilística, aquela formulada por Labov.
41 “Tem existido um foco emergente sobre a variação não como uma reflexão de lugar social, mas como forma de
construção de significado social.”
42 "A relação entre variáveis e categorias que permite a variação a ser um recurso não simples para a indexação de
2.7.1 Modelo Laboviano: Estilo como atenção dada à fala
Para Labov (2008[1972]; 2001), a noção de estilo está diretamente vinculada ao grau de atenção ou de monitoramento que o falante confere à fala (ao vernáculo), que, por sua vez, remete-se necessariamente às noções de prestígio ou de estigma que determinados estilos linguísticos recebem ao serem avaliados socialmente. Essa atenção dada à fala realiza-se num continuum de descontração e formalidade, formando o que Eckert (2004, p.44) denominou de “Eixo da Formalidade”. Assim, percebe-se que, a partir desta noção de estilo, a abordagem laboviana é predominantemente de natureza psicolinguística, o componente cognitivo, desse modo, é o mais saliente da estrutura da troca estilística no vernáculo. E esse mecanismo cognitivo é responsável por “ligar o social aos fatores linguísticos” (HORA, 2014, p. 23).
Mas, o que é que se entende por vernáculo ou estilo vernacular? Com a palavra, Labov (2008[1972], p. 244): “[...] Este é o ‘vernáculo’ – o estilo em que se presta o mínimo de atenção ao monitoramento da fala. A observação do vernáculo nos oferece os dados mais sistemáticos para análise da estrutura linguística”.
Então, qual seria o objetivo da análise da variação estilística em dados de fala espontânea colhidos em uma comunidade de fala? Ainda, segundo Labov (2001), a finalidade da investigação de estilos reside justamente em distinguir, em uma entrevista de base sociolinguística, quais estilos, lá presentes, são pertencentes à fala casual43 (casual speech) e
quais outros são classificados como fala cuidada/monitorada (careful speech), nos termos labovianos, “casual from careful speech”.
Desse modo, percebe-se que a realização do procedimento metodológico “entrevista sociolinguística” ocupa um lugar de destaque na abordagem laboviana, pois será o recurso por meio do qual o investigador irá obter os dados para distinção do que é vernacular do que não é vernacular em seus dados. A entrevista sociolinguística sempre foi alvo de críticas, basta verificar as questões relacionadas a ela e ao que foi cunhado como “Paradoxo do Observador”. Sendo um instrumento formal de coleta de dados, a presença do entrevistador que, geralmente, é estranha à comunidade de fala observada, bem o próprio contexto e procedimentos de sua realização configuram seu aspecto formal, porém, reconhece-se que é possível distinguir
43 Ressalta-se, contudo, que se está consciente que a dicotomização casual e formal (assim como oral e escrito, por
exemplo), deve ser tomada no continuum, considerando vários fatores interagindo simultaneamente, sobretudo, aqueles relacionados às condições de produção, a atenção dada à fala etc. que, variando, alteram o estilo de fala dos falantes. Neste sentido, os pólos casual e formal não devem ser entendidos como um produto, fechado e acabado, mas, sim, como processos e, evitando “qualquer rigidez de dicotomização” (NEVES, 2012a, p. 136-137).
passagens, trechos ou módulos (contextos/estilos) que se vinculam diretamente com o que se convencionou chamar de estilo vernacular.
Neste sentido, o empreendimento a ser feito pelo sociolinguista pesquisador, uma vez que definiu seu objeto de investigação e com as entrevistas realizadas, “é controlar o contexto e definir os estilos de fala que ocorrem dentro de cada contexto, de modo que essa hipótese da variação regular possa ser testada” (LABOV, 2008[1972], p. 101).
A noção de contexto em Labov para análise da variação estilística é recorrente e central, pois, serão nele que é preciso isolar os contextos (situações) que pertencem ao vernáculo e os dos não vernáculos. Há várias interpretações para a categoria contexto na obra do pesquisador americano. Görski (2011) discute-o e redireciona-o, porém, neste trabalho, ele será adotado como constituindo as partes ou módulos que formam e estruturam uma entrevista sociolinguística e que podem exibir os diversos comportamentos do falante e/ou aspectos relacionados às questões atitudinais, perceptuais e avaliativas que giram em torno dos usos sociolinguísticos.
Por exemplo, para coleta de dados na cidade de Jacaraú-PB, Freire (2011) utilizou-se de uma entrevista constituída por nove módulos, respectivamente: Identificação, Infância, Vizinhança, Diversões, Religião, Problemas Sociais, Perigo de Morte, Esportes e Linguagem. Estes, por sua vez, eram divididos em questões relacionadas diretamente à temática do módulo (Para maiores detalhes ver o Anexo A). Desse modo, e, a partir da concepção laboviana aqui descrita, assume-se que esses módulos viabilizam a análise estilística do processo de variação dos segmentos /ʎ/ e /l/ na referida comunidade de fala.
Percebe-se que essa proposta está articulada aos interesses da pesquisa sociolinguística variacionista, pois “o interesse de Labov é, como vimos, por estruturas sociolinguísticas. Ele busca depreender padrões regulares de uso linguístico na comunidade, incluindo padrões de alternância estilística, cuja ocorrência pode ser predita por regras” (GÖRSKI, 2011, p. 04).
Dessa maneira, reconhece-se que “the study of style-shifting in social groups has been an auxiliary main findings of the community patter.” (LABOV, 2001 p. 86).44 Assim, entende-
se que esse empreendimento auxilia no ato de lançar luzes sobre a teoria social da língua e tem possibilitado, de um lado, reconhecer a configuração sociolinguística de diversas variáveis linguísticas que são produzidas durante os processos de variação estilística e/ou social; e, de outro lado, ainda, segundo Labov (2001 p. 86), possibilita o alcance de uma série de achados que permite conhecer aspectos da natureza desses tipos de variações.
44 "O estudo de estilo de mudança em grupos sociais tem sido um auxílio principal nas descobertas do padrão de
Para Labov, eles são num total de seis empreendimentos, assim descritos: ocorre uma simetria entre variação; o contexto de uso da língua é significativo, ou seja, o princípio de Bell (1984) é central; o grupo social de maior prestígio pode exibir declínio no seu estilo, assim, os usos sociais da língua são dinâmicos; ocorre reinterpretação estilística, então, comunidades de fala alteram seus estilos ao entrarem em contato com o estilo de outras comunidades de fala; a avaliação dos novos estilos ocorre em propagação e não na origem da mudança/variação linguística e, finalmente, a variação estilística está ligada ao grau de consciência social do uso da variante investigada.
Neste sentido, por exemplo, como a variação /ʎ/ ~ /l, j, Ø/ é atribuída a falantes de baixa classe social ou de baixa escolaridade, a sujeitos que moram no Nordeste brasileiro e até mesmo a informantes do sexo feminino, etc. (FREIRE, 2011), entende-se que esse processo de variação pode não ter sucesso na comunidade de fala mais abrangente, como na comunidade de fala dos brasileiros em geral e não ser plenamente implementado, pois esse processo é alvo de altos níveis de estigmas e de preconceitos pelos falantes de maior escolaridade, ou ocupantes de cargos de prestígio socioeconômico, etc. Essa proposição é corroborada pela afirmação de Bortoni-Ricardo (2014, p. 68-69):
Da mesma forma, se a origem da variante está associada a grupos sociais de prestígio, ela vai carregar esse prestígio. Alternadamente, se ela é oriunda de grupos estigmatizados, manterá esse caráter. O mais comum, nas regras variáveis em línguas usadas em comunidades urbanas e tecnológicas, é que uma regra variável se constitua de variantes próprias da variedade padronizada da língua e variantes de caráter popular, sem prestígio.
No decorrer desta subseção, observou-se que a finalidade da proposta de variação