BÖLÜM 3: BULGULAR
3.5. Ortaokul Öğrencilerinin Demografik Bilgileri ile Araştırma Değişkenler
3.5.5. Ortaokul Öğrencilerin Gün İçerisinde Bilgisayar Kullanma Süresi ile
Desde os primórdios da humanidade, a reação penal sempre foi profundamente marcadas por um forte sentimento religioso/espiritual, mesmo no período classificado como o da vingança privada, estudado acima. O caráter místico, divino e sacerdotal só será minimizado na fase da vingança pública, com o enfraquecimento da Igreja e a secularização, como se verá mais adiante.
Nas sociedades primitivas, os fenômenos naturais maléficos eram recebidos como manifestações divinas (“totem”) revoltadas com a prática de atos que exigiam reparação. O crime confundia-se com a infração totêmica e a coletividade punia o infrator para desagravar a divindade, como satisfação aos deuses pela ofensa praticada no grupo social. O castigo era aplicado, por delegação divina, pelos sacerdotes, com penas cruéis, desumanas e degradantes39, pois deveria estar em relação com a grandeza do deus ofendido.40
Nos primeiros momentos do Estado, o caráter divino da reação penal continuou. Como 38 Para ROBERBO LYRA, mais importante do que o “talião”. (Op. Cit. p. 6)
39 BIBENCOURB, Cezar Roberto. Tratado de direito penal, volume 1: parte geral. 14ª ed. rev., atual e ampl. São Paulo: Saraiva, 2009. p. 29-30.
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os povos estavam acostumados a respeitar apenas a força, eles não tinham base para aceitar a superioridade do Estado na figura de um ser humano. Assim, à míngua de legitimidade/força do Estado para impor sua autoridade, buscou-se na legitimidade/força da religião o fundamento para que o Estado retirasse da vítima e do seu clã o poder de impor sanções aos criminosos e passasse a monopolizá-lo em suas mãos.41
Nesse momento, a doutrina cristã difundia-se no mundo, pregando a concepção de que o Estado era uma instituição divina, e as decisões tomadas pelo príncipe e pelo magistrado davam-se por inspiração e delegação deífica. O direito criado, a seu turno – do qual o Direito Canônico era a base jurídica –, seria emanado da vontade sobrenatural, devendo o indivíduo comportar-se de acordo com ele, reconhecendo a supremacia do Estado, sob pena de ser penalizado por afronta aos deuses.42
Assim, o poder estatal confundia-se com o poder eclesial. A Igreja estava organizada como um verdadeiro Estado, mais poderoso até que os reinos medievais.
Apesar de isso ter representado uma maior humanização das punições – já que na fase da vingança privada o ato de punir não tinha limites –, as penas previstas no Código Canônico, por exemplo, eram excessivas e cruéis, preferindo-se as privativas de liberdade às patrimoniais, e o processo judicial era marcadamente inquisitivo e admitia a aplicação da tortura como forma de se obter a confissão.
O exacerbado rigor desse período dá-se porque, na visão religiosa, o crime era não apenas uma infração às normas jurídicas, mas também um pecado, porque se entendia que importava numa ofensa a pressupostos religiosos. Por isso, sua prática, ademais de revoltar a sociedade, suscitava a cólera dos deuses, que só seria escoimada com o castigo correspondente. Assim, punia-se o agente com rigor, a fim de satisfazer o deus atingido, obtendo o seu perdão. E a sanção penal não estava a serviço do homem que sofreu com o
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JÚNIOR, Walter Nunes da Silva. Curso de direito processual penal... Op. Cit. p. 43.
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crime, mas sim de Deus, tendo o Direito Penal índole teocrática e sacerdotal.43
Lembremo-nos que foi nessa fase, mais precisamente na Idade Média, que foi criado e institucionalizado o Bribunal da Inquisição, instituição da Igreja Católica incumbida de perseguir aqueles que considerasse hereges, entregando-os em seguida às autoridades seculares para que fossem punidos; eram tratados, assim, como se houvessem praticado um “crime comum”. Bão grande era o poder religioso nesse período que as bulas “Licet ad capiendos” e “Ad extirpanda” – editadas pelos Papas Gregório IX, em 1233, e Inocêncio IV, em 1252, respectivamente, e que marcaram o nascimento e a instrumentalização da Inquisição – estabeleciam que o poder secular era obrigado a contribuir com a atividade do Bribunal do Santo Ofício.44
Em 1376, o teólogo e inquisidor catalão NICOLAU EYMERICH (1320-1399) escreveu Directorium Inquisitorum – Manual dos Inquisidores, na tradução lusófona –, obra em que o autor fornecia aos inquisidores instruções e orientações para bem desenvolver o ofício, como os conceitos e indícios de heresia, os procedimentos a serem seguidos durante os julgamentos dos hereges, modelos de sentenças a serem utilizadas, dentre outras coisas. Essa obra fornece um retrato fidedigno não apenas da atividade da Inquisição – que, por sua vez, era a síntese de como se desenvolvia a justiça criminal dessa fase – como também do extremo arbítrio que existia quanto à definição do que se tinha por heresia, a mais grave infração religiosa, equivalente ao crime, tanto que apenada inclusive com a morte.
O conceito de heresia segundo EYMERICH era extremamente subjetivo e aberto – a
43 Ibid. p. 45.
44 Confira-se nesse sentido o teor da bula Licet ad capiendos: “Onde quer que os ocorra pregar estais facultados, se os pecadores persistem em defender a heresia apesar das advertências, a privá-los para sempre de seus benefícios espirituais e proceder contra eles e todos os outros, sem apelação, solicitando em caso necessário a ajuda das autoridades seculares e
vencendo sua oposição, se isto for necessário, por meio de censuras eclesiásticas inapeláveis”. (destaques acrescidos)
(Disponível em http://pt.wikipedia.org/wiki/Ordem_dos_Pregadores, acessado em 24/09/2011). No mesmo sentido eram as orientações de NICOLAU EYMERICH, expostas em 1376 em Directorium Inquisitorum: “O inquisidor, se o desejar, poderá exigir que as autoridades civis façam o juramento de defender a Igreja da perversidade herética e de proteger o inquisidor durante os exercícios das suas funções. Ele os intimará a comparecer na sua presença […] Se comparecerem, o inquisidor lhes mandará prestar juramento de defender a Igreja contra os hereges, em conformidade com a autoridade e a função que têm. O escrivão lerá para eles, numa linguagem bem clara, os decretos pontifícios que lhes digam respeito. Em seguida, para melhor obrigá-los, o inquisidor, na presença de testemunhas sérias, principalmente membros da Igreja, lhes mandará cumprir o que foi determinado […] (EYMERICH, Nicolau. Manual do Inquisidor. São Paulo: Rosa dos Bempos, 1993.p. 5)
exemplo de dizer coisas que se opunham às verdades essenciais da fé (como “não acreditar na pobreza absoluta de Cristo e seus apóstolos”), evitar o contato com fiéis, ir menos à missa do que o normal, sacrificar aos ídolos, adorar ou venerar demônios, venerar o trovão, se relacionar com hereges, judeus, sarracenos –, abrangendo também atos simples tidos como violadores de dogmas católicos – como não fazer jejum nem observar a abstinência nos dias e períodos determinados; não comparecer quando citado pelo inquisidor, recebendo a excomunhão por um ano inteiro; não cumprir a pena canônica, se foi condenado pelo 2inquisidor; recair numa determinada heresia da qual abjurou –, o mero seguimento de religiões diferentes do cristianismo – como o judaísmo e o islamismo – e a exteriorização de rituais e hábitos a elas inerentes – como a circuncisão de meninos no judaísmo.45
EYMERICH ainda tratava como indícios de heresia condutas tão vagas, genéricas e subjetivas quanto o próprio conceito de herege, a exemplo de zombar dos religiosos e das instituições eclesiásticas e qualquer atitude ou palavra em desacordo com os hábitos comuns dos católicos.
Havendo “indícios de heresia”, ao acusado só restaria confessar ou não confessar seu proceder herético. Se confessasse e defendesse a crença em mandamentos heréticos (herege impenitente), seria entregue às autoridades seculares para ser executado, queimado vivo numa fogueira em praça pública; se confessasse, mas abjurasse, renunciando publicamente à crença herética até então seguida (herege penitente), seria-lhe imposta a pena de prisão por determinado período, além da penitência de se colocar nos degraus da igreja ou do altar, aos domingos, durante a missa, segurando uma vela acesa em determinados momentos; se
45 “Os inquisidores devem ser capazes de reconhecer as particularidades rituais, de vestuário etc., dos diferentes grupos de hereges. É herege quem disser coisas que se oponham às verdades essenciais da fé. Bambém é herege: a) Quem pratica ações que justifiquem uma forte suspeita (circuncidar-se, passar para o islamismo...); b) Quem for citado pelo inquisidor para comparecer, e não comparecer, recebendo a excomunhão por um ano inteiro; c) Quem não cumprir a pena canônica, se foi condenado pelo inquisidor; d) Quem recair numa determinada heresia da qual abjurou ou em qualquer outra, desde que tenha abjurado; e) Quem, doente mental ou saudável - pouco importa - , tiver solicitado o "consolamento". Deve-se acrescentar a esses casos de ordem geral: quem sacrificar aos ídolos, adorar ou venerar demônios, venerar o trovão, se relacionar com hereges, judeus, sarracenos etc.; quem evitar o contato com fiéis, for menos à missa do que o normal, não receber a eucaristia nem se confessar nos períodos estabelecidos pela Igreja; quem, podendo fazê-lo, não faz jejum nem observa a abstinência nos dias e períodos determinados.. etc.” (EYMERICH, Nicolau. Manual do Inquisidor. p. 4)
confessasse, abjurasse, cumprisse as penitências impostas, mas, nada obstante, voltasse a praticar novo ato tido como heresia (herege penitente relapso), seria entregue às autoridades seculares para ser executado, queimado vivo na fogueira, sem direito a novo julgamento, ainda que se arrependesse e aceitasse o sacramento da eucaristia.
Se o acusado não confessasse, seria submetido à tortura, “para que a verdade saia da tua própria boca”.46 Os métodos de tortura eram variados e terríveis, sendo inimaginável que
alguém conseguisse suportá-los sem declarar exatamente aquilo que os inquisidores esperavam ouvir. FRANCISCO DE LA PEÑA, que revisou e ampliou a obra de EYMERICH em 1578, citou, por exemplo: a) a roda de despedaçamento, em cuja parte externa o acusado era amarrado pelas costas e sob a qual se colocavam brasas incandescentes ou agulhões de madeira. O carrasco, então, girava lentamente a roda, fazendo com que o réu morresse praticamente “assado” ou arranhado terrivelmente; b) a cadeira das bruxas, à qual o condenado era preso e pendurado de cabeça para baixo, posição que criava atrozes dores nas costas, desorientava e aterrorizava a vítima, que, atordoada pela interminável gama de tormentos, facilmente cedia e “confessava”; c) a cadeira de inquisição, cujos assento e costas eram compostos por 1606 pontas de madeira e 23 de ferro e nos quais o acusado sentava-se nu. Com um mínimo movimento, as agulhas penetravam no corpo, perfurando-lhe a carne, provocando efeito terrível. Noutra versão, a cadeira possuía assento de ferro, embaixo do qual era acendida uma fogueira até o assento ficar incandescente. Em qualquer dessas versões, a agonia provocada pelo metal pontiagudo ou pelo assento em brasa era intolerável e poucos acusados aguentavam mais de 15 minutos antes de confessar; d) o esmaga cabeça, instrumento no qual o queixo da vítima era colocado sobre uma barra inferior e depois uma calota era abaixada por rosqueamento sobre sua cabeça. À medida em que a calota era abaixada, se o acusado não confessasse rapidamente, despedaçavam-se os alvéolos dentais, depois as mandíbulas e, por fim, advinha a saída da massa cerebral pela caixa craniana; e) a 46
mesa de evisceração, mesa sobre a qual o condenado era colocado deitado, preso pelas juntas e eviscerado vivo pelo carrasco, abrindo seu estômago com uma lâmina, prendendo, em seguida, suas vísceras com pequenos ganchos e, com uma roda, lentamente puxava os ganchos e as partes presas saíam do corpo até que, após muitas horas, chegasse a morte; f) o pêndulo, que consistia em pendurar o acusado pelos braços, levantando-o do chão, causando- lhe a luxação ou deslocamento do ombro; e g) o tronco, que consistia em pendurar o acusado pelo pescoço, com as mãos amarradas para trás, levantando-o do chão por uma corda que passava por uma roldana e, após guindado até o alto, deixava-se cair seu corpo até poucas polegadas do solo, quando era travado o aparelho, causando a interrupção abrupta da queda pelo pescoço. O processo era repetido várias vezes, sendo que, às vezes, os carrascos amarravam pesos nos pés das vítimas, a fim de aumentar o choque da queda.47
Se escapassem vivos das torturas, os acusados que fossem condenados eram entregues às autoridades estatais para ser executados. O método de execução era a morte na fogueira, a ser acendida em praça pública.48 O atroz espetáculo, em que o condenado era terrivelmente
queimado vivo, era, assim, presenciado por todos.