O PROINFA foi adotado em um período político favorável à expansão do uso das energias renováveis, com o objetivo de aproveitar o potencial brasileiro dessas fontes e de reduzir os efeitos provocados pela crise energética de 2001. Além disso, contribuíram para adoção dessa política a dificuldade para construção de grandes hidrelétricas, o preço elevado do gás natural importado da Bolívia e a tendência mundial, principalmente européia, de apoio às fontes de energias limpas e renováveis.
O Brasil procurou desenvolver sua política de promoção às fontes de energia renováveis fundamentada na experiência dos países da Europa, como Alemanha, Holanda, Inglaterra, Dinamarca, França, Espanha, Portugal, dentre outros. Nesses países, o crescimento do segmento de geração de energia elétrica foi induzido pela ação governamental, uma vez que se tratava de uma tecnologia em desenvolvimento e, portanto, inicialmente mais cara que as energias tradicionais.
No caso da energia eólica brasileira, a escolha dos instrumentos de incentivo baseou-se no cenário vigente e no estágio embrionário de exploração em que se encontrava essa fonte. O sistema misto de quotas fixas e de preço assegurado para a energia, adotado pelo PROINFA, permitiu o surgimento dos primeiros parques e as condições de crescimento e de maturação da tecnologia utilizada.
Contudo, o setor eólico poderia ter alcançado um crescimento mais acentuado se o aperfeiçoamento e a definição de novas estratégias para o programa de incentivos tivessem ocorrido de forma mais rápida. Foi exatamente neste ponto que a política mostrou o seu ponto fraco. A demora na correção de rumos retardou um maior impulso no desenvolvimento do setor eólico.
Somente em 2009, fora do âmbito do PROINFA, o governo alterou a forma de contratação da energia eólica, passando a utilizar o sistema de leilões. Os preços negociados no primeiro leilão exclusivo de energia eólica foram substancialmente menores do que os valores estabelecidos na primeira fase do PROINFA. Esse novo patamar de preços tornou essa fonte mais competitiva, a ponto de estimular a realização de novos processos licitatórios. No entanto, ainda, persiste a indefinição
do governo quanto à periodicidade e programação das novas contratações a médio e longo prazos. Essa decisão é essencial para o desenvolvimento do mercado e para a instalação de indústrias ligadas ao setor.
O PROINFA, no Estado do Ceará, mesmo sofrendo atrasos na conclusão de sua primeira fase, vem conseguindo alcançar as metas físicas relativas à implantação dos parques eólicos e à potência instalada prevista. A finalização da primeira fase do programa, em 2010, abre uma perspectiva favorável para a continuidade da trajetória de crescimento do setor eólico. Essa tendência positiva ensejará ao Estado o alcance do equilíbrio entre oferta e demanda de energia nos próximos cinco anos.
Em novembro de 2009, o parque energético do Ceará possuía uma capacidade de geração de 927 MW proveniente das fontes eólica, térmica e hidráulica, enquanto o seu consumo girava em torno de 1.400 MW médios. Somente a adição, em 2010, de 209 MW oriundos dos projetos em construção apoiados pelo PROINFA e de mais 572 MW relativos aos projetos vencedores no último leilão de energia eólica, será suficiente para o Ceará alcançar o equilíbrio da sua matriz elétrica em 2013, considerando-se nesses cálculos o crescimento médio do consumo de 5% ao ano. Ressalte-se que nessa estimativa não estão computadas a adição de energia que será produzida pelas usinas termelétricas em construção no Estado.
No entanto, apesar de todo o prognóstico positivo previsto pelo governo e empresários do Ceará, para os próximos anos, existem algumas barreiras a transpor para que o setor eólico cresça mais firmemente, tais como: a dificuldade de conexão à rede de energia elétrica e à sua infraestrutura física; a definição objetiva de um zoneamento costeiro que possa dar segurança jurídica aos empreendimentos e que venha a reduzir os impactos negativos causados ao meio ambiente e às comunidades localizadas no entorno dos parques eólicos.
Além disso, para alavancar ainda mais o setor eólico, é necessário incentivar e atrair investimentos, notadamente no que se refere à indústria fabricante de máquinas, equipamentos e componentes para os parques. A instalação de um polo industrial eólico induzirá a formação da cadeia produtiva para o setor. Com isso, a produção de bens e serviços crescerá, gerando efeitos benéficos sobre o emprego,
a renda, a arrecadação de tributos e sobre os custos dos projetos, reduzindo-os e tornando os empreendimentos competitivos frente ao mercado nacional e internacional de energia.
Por fim, cumpre mencionar que os desafios citados no capítulo anterior, enfrentados durante a implementação do programa evidenciaram situações não previstas na fase de elaboração do modelo e que surgiram ao longo do processo e do desenvolvimento de uma nova tecnologia.
Não obstante os problemas enfrentados pelo PROINFA, identificados na pesquisa realizada e discutidos no item 6.4, do Capítulo VI, considera-se satisfatório o desempenho do programa no Estado do Ceará. A utilização da fonte eólica propiciou ganhos de eficiência energética decorrentes da proximidade dos parques aos centros consumidores. De acordo com o BEECE (2006), aproximadamente 16% da energia produzida pelo Sistema Integrado Nacional é perdida durante o seu transporte e distribuição, face às longas distâncias percorridas nas linhas de transmissão.
Ademais, o programa atuou como um importante instrumento de atração de empreendimentos e de desenvolvimento local. E mesmo não tendo sido assegurada a sua continuidade, o seu papel foi fundamental para o alcance, em breve, da suficiência energética do Ceará.
Vale mencionar a contribuição e o envolvimento dos gestores do programa no âmbito do MME, ELETROBRÁS, a participação do governo do Estado do Ceará, mediante a articulação e convergência das políticas estaduais de energia, da ABEEÓLICA e de pesquisadores na consecução dos objetivos pretendidos pelo poder público.
O que é novo e significativo, quando se trata da geração de energia eólica, não é simplesmente o maior ou menor grau de utilização dessa fonte nas matrizes energéticas dos países, mas a crescente consciência mundial sobre a necessidade da adoção de novos padrões de geração e consumo de energias compatíveis com o desenvolvimento e o uso sustentáveis dos recursos energéticos.
Nesse contexto, as políticas e programas de incentivo às fontes eólicas ganham força e se constituem em respostas efetivas para garantir que se instaure
um círculo virtuoso entre geração de energia, desenvolvimento e sustentabilidade ambiental.