4.6 Eksozomlarla ortak kültür
4.6.4 Ortak Kültür Sonrası Real time PCR analizi
Antes de tudo é preciso observar a cidade como um espaço de significações que compõem a identidade social de que é culturalmente formada.491 As cidades do Rio de Janeiro e de São Paulo, no final do século XIX e início do século XX, promovem a transposição do ideal da cidade moderna em seus espaços, já que esta é pensada e formulada segundo o reflexo de um imaginário. Desta forma, a cidade-desejo nasce, na busca de se transpor a cidade real e convertê-la ao modelo da cidade ideal. No caso, Paris, com sua evocação mítica e universal do
488 Idem, p. 106.
489 Apud PESAVENTO, op. cit., p. 112. In: DETHIER, Jean; GUILIEUX, Alain. Dir. La ville, art et
artchitecture en Europe 1870-1993. Paris; Centre Georges Pompidou, 1994, p. 57.
490 Idem, p. 138.
491 Lefebvre aborda o moderno não como algo natural, mas produzido por uma mídia elitizada, que usa desses signos para se justificar, para se celebrar. Contudo, não se restringe seu caráter aleatório, já que, como Berman aborda, a modernidade são forças destruidoras sobre as quais o feiticeiro perdeu o controle, contudo a elite, por meio da mídia, de certa forma consegue se apropriar de seus valores, e até produzi-los pelo mercado.
referencial de moderno, será adotada como ideal de cidade.492 Pesavento denomina este processo de “efeito de espelho”, pois corresponde ao predomínio do simbólico sobre o real.493
No caso do Rio de Janeiro, essa sobreposição do real foi feita com o intuito de se construir uma “Paris-sur-mer” no mundo tropical, tornando-se referencial o sonho onírico, o desejo a ser alcançado. Por isso, observaremos nas reformas de Pereira Passos, a introdução do conceito de boulevard, de fachadas ecléticas ou em art nouveau, de uma avenida central, com seus majestosos prédios públicos.494 Como aborda Nicolau Sevcenko:
Acompanhar o progresso significa somente uma coisa: alinhar-se com os padrões e o ritmo de desdobramento da economia europeia onde “nas indústrias e no comércio o progresso do século foi assombroso e a rapidez desse progresso miraculoso”. A imagem do progresso – versão prática do conceito homólogo de civilização – se transforma na obsessão coletiva da nova burguesia.495
Desta maneira, as reformas de Pereira Passos procuram derrubar as imagens e referências da cidade mercantil, para emergir o novo tempo parisiense, da higiene, da beleza, da arte, do conforto.496 Assim, são demolidos imensos casarões coloniais e imperiais, bem como os cortiços que concentravam a maior parte da população pobre, para dar vida a largas e imponentes avenidas, a praças e jardins, a palácios de mármore e cristal. O império de linha reta vai dando forma ao traço urbano do Rio de Janeiro, culminando na exposição nacional em 1904, que trouxe à cidade a definitiva referência de cidade ideal, civilizada, progressista e industrial.497
Nicolau Sevcenko considera guiado por alguns princípios fundamentais o processo de modernização e reforma do Rio de Janeiro, dentre eles: a condenação dos hábitos e costumes ligados à memória da sociedade tradicional e a negação de qualquer elemento da cultura popular que pudesse macular a imagem civilizada, daí a política de expulsão dos grupos populares da área central, que é uma transformação inspirada no modelo urbano e de vida parisiense.498
Ademais, é necessário um plano em três dimensões, que se possa executar simultaneamente: a modernização do porto, o saneamento da cidade e a reforma urbana. Foram
492 PESAVENTO, op. cit., p. 158. 493 Idem, p. 159.
494 Idem, p. 161.
495 SEVCENKO, op. cit., 2003, p. 41-42. 496 Idem, p. 42.
497 Idem, p. 43. 498 Idem, p. 43.
formados, então, três grupos técnicos, o primeiro encabeçado pelo engenheiro Lauro Muller, para conceber a reforma urbana do porto, o segundo, pelo médico sanitarista Oswaldo Cruz, para fazer o saneamento da cidade, e por último, o do engenheiro urbanista Pereira Passos, para fazer a reforma urbana.499
As instalações portuárias cariocas eram obsoletas, ao ponto de tornarem impraticáveis as atividades do porto (o Rio de Janeiro era o terceiro maior porto da América).500 Sendo assim, não havia capacidade para se dar vazão ao elevado número de mercadorias. Além disso, não era permitido que as grandes embarcações e os modernos transatlânticos abordassem diretamente no porto, em decorrência de sua baixa profundidade. Por isso, as embarcações ancoravam à distância e transferiam suas mercadorias ou pessoas por um complicado sistema de transbordo de embarcações menores. Tudo isso tornava o sistema, além de lento, precário e extremamente oneroso. Outro problema que a cidade enfrentava era a dificuldade de fluidez de mercadorias, já que o seu sistema estrutural era do período colonial. Sendo assim, era composto de vielas e caminhos tortuosos, que tornavam muito lento, difícil e oneroso o transporte das mercadorias por meio de caminhões na cidade. O núcleo da reforma se concentra no centro, pois este cercava o acesso ao porto, sendo o principal indutor que comprometia a segurança sanitária501 da cidade, além de bloquear o livre fluxo e circulação, algo indispensável em uma cidade moderna.502
Dá-se início, então, ao processo de demolições dos casarões da área central, que concentrava a maior parte da população pobre da cidade. Esse processo ficou conhecido pela imprensa como “Regeneração” 503 . A demolição não previa indenizações para as desapropriações, o que forçou a população a sair da área central e migrar para as áreas externas. Usando restos de materiais no porto, são erigidos cortiços e hotéis baratos, os “zugas”. No entanto, como esses espaços acarretavam riscos à ordem sanitária, a administração da saúde se
499 SEVCENKO, op. cit., 1998, p. 23. Pois, como aborda o autor: “Esses técnicos insistem obstinadamente em controlar as sociedades, submetendo-as a modelos consagrados de racionalidade ortogonal, otimização de fluxos, discriminação espacial e higienização sanitária, para ato contínuo se verem frustrados pela plasticidade esquiva com que as populações pobres escapavam aos seus planos intrincados, invadindo áreas reservadas, desviando e captando recursos clandestinamente, aproveitando oportunidades imprevistas e remodelando os usos e espaços segundo suas demandas específicas”. (Idem, p. 46)
500 Como aborda Sevcenko: “O Rio de Janeiro era o principal porto de exportação e importação do país e o terceiro em importância no continente americano, depois de Nova York e Buenos Aires. Mais que isso, como capital da República ele era a vitrine do país”. (Sevcenko, op. cit., 1998, p. 22)
501 Haja vista que há no Rio uma grande crise epidêmica, como aborda Sevcenko: “O Rio apresentava focos permanentes de difteria, malária, tuberculose, lepra, tifo, mas suas ameaças mais aflitivas eram a varíola e a febre amarela, que todo verão se espalhava pela cidade como uma maldição”. (Idem)
502 SEVCENKO, op. cit., 2003, p. 43. 503 Idem.
voltou contra eles com uma campanha de vacinação para a erradicação da varíola, feita por meio de batalhões. Os cidadãos eram obrigados a se vacinar e ganhavam uma revista gratuita como brinde para novo despejo de suas moradias. Foi a gota d’água para a população pobre, resultando em um surto espontâneo e em massa da população contra os batalhões e a força policial que faziam as vistorias. Em decorrência da revolta, as massas se dirigiram ao centro, onde as reformas estavam sendo feitas, para protestar e destruir o que estava sendo construído com as ferramentas e materiais da própria obra. Os reforços policiais que vinham controlar a situação não deram conta da tarefa, e o levante só foi realmente controlado com a interferência do exército.504 A Revolta da Vacina demonstra como a modernização que se enquadra em nosso país tem um caráter corporativista e desigual, haja vista que esse modelo do Rio de Janeiro será seguido pelos outros centros do país. Por isso, Milton Santos afirma que esse ideal de urbanização é o vilão da desigualdade no país, atribuindo ao problema um caráter sistêmico.505
No entanto como em Paris, Baudelaire viu a modernização como uma violação de sua memória, de sua identidade e da população mais pobre. Também Olavo Bilac condenou o processo de modernização do Rio, aludindo ironicamente aos alardes da civilidade:
A cidade colonial, imunda, retrógrada, emperrada nas suas velhas tradições, estava soluçando no soluçar daqueles apodrecidos materiais que desabavam. Mas o hino claro das picaretas abafava esse protesto imponente. Com que alegria cantavam elas – as picaretas regeneradoras! E como as almas dos que ali estavam compreendiam bem o que elas diziam, no seu clamor incessante rítmico celebrando a vitória da higiene, do bom gosto e da arte.506
Mas as proclamações de Bilac infelizmente eram apenas um brilhareco dentro da atmosfera da mídia do Rio, que via o processo de “Regeneração” como um surto das forças da civilização e do progresso. O novo, a aura sagrada, justificava as mortes, as perdas, e criava novos símbolos, como Santos Dumont e seu invento voador, que fez “a Europa curva-se ante o Brasil”. Neste prisma, o moderno preenche o espaço do Rio e seus olhares com o progresso da urbanização, o crescimento econômico, a ânsia para industrialização. Até a nova matriz étnica trazida pelo imigrante reconfigura a imagem do país, que torna-se mais branco e mais
504 Idem.
505 SANTOS, Milton, op. cit., 1994, p. 104. Que também é o reflexo do modelo de cidadania brasileira, já que José Murílio de Carvalho o considera um dos elementos da cidadania brasileira corporativista, voltado assim somente para grupo social, um grupo de oficio, uma associação (CARVALHO, José Murilo de. Cidadania no
Brasil: o longo caminho. 3. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002, p. 61 e 223-227). Essarealidade
não se modifica, diria Milton Santos em Espaço do Cidadão, pois o sujeito histórico está alienado no sonho onírico ao invés de estar antenado em seus direitos e espaço cidadão.
civilizado.507
Então, o resultado mais concreto das reformas de Pereira Passos foi dar à burguesia carioca a imagem da “cidade-desejo” de seu fetiche, representada por um espaço público central na cidade, totalmente remodelado, embelezado, ajardinado e europeizado. Produzindo a fantasia da modernidade, que faz cada buguês entrar pelo espelho do “país da maravilha” de Alice. 508
Todavia, diferente da cidade imagínária, a cidade real tem sua mazelas, como Bilac descreve, que o processo de remodelação do centro do Rio de Janeiro, promoveu a elevação brutal dos aluguéis na região, forçando ainda mais a população menos abastada a ser expulsa das regiões reformadas. Restrigindo ainda mais o espaço da modernidade, e de seu sonho incontido, e assim enjaulando as classes menos abastadas em subúrbios, morros que circundam a cidade. Além da lei de “caça aos mendigos”, que expulsava qualquer indigente, pedinte, esmoleiro ou prostituta dos espaços da modernidade. A exorcização a tudo que representa ao retrocesso, ao antigo, e destinada as formas da cultura e religião popular afrodescendente, visto como uma doença, uma preguiça, uma ignorância e atraso. Assim exilando as festas populares, como de São João, enclausurando a umbanda, o candomblé e seus batuques, o carnaval só era agora representado segundo o formatado do mundo ideal ou das ideias, tudo em nome da aura sagrada da civilidade.509 Para assim não despertassem os convencidos burgueses da sua fantasia para a “cidade real”.510
As reformas nos espaços destinados as famílias mais abastadas produz também mudanças nas representações, práticas e hábitos. Para alinhar o seu desejo da “cidade imaginária”, à sua fantasia da modernidade. Por isso, observaremos as mudanças no alinhamento de diversas fachadas seguindo as linhas da art-Nouveau rebuscado do fim da Belle Époque, em primeiro momento. E depois a arte nacional, propõe, um linha arquitetônica própria que sobrepunha a moda europeia, evocada no neocolianismo. Concomitantemente, a modernidade agora é desenhada por novos apetrechos, que seguem a matriz preferida Paris, caminho destinado aos seus mobiliários, roupas, notícias, peças, livros, escolas, predominâncias de comportamentos, de lazer, estética, agora tudo vira consumível, tudo viria a ser um passe para o mundo das fantasias.511
507 SEVCENKO, op. cit., 1998, p. 34. 508 SEVCENKO, op. cit., 2003, p. 47. 509 Idem, p. 46-47.
510 Idem, p. 48. 511 Idem, p. 51.
Além disso, transforma-se também o indivíduo. Ele não faz mais uso da sua sobrecasaca e da cartola, ambas pretas, que representam símbolos da austeridade patriarcal e aristocrática. Agora, impõem-se as finas, leves e democráticas vestes dos tempos modernos, representadas pelo paletó de casimira clara e pelo chapéu de palha, aceitando-se também o rigor smart dos trajes ingleses. Por seu lado, as mulheres exibiam as últimas extravagâncias dos tecidos, dos cortes e dos chapéus franceses.512
Essa configuração permeia também o espaço da ação, do hábito, dos burburinhos da mídia carioca, que promove o panteão da vida moderna.513 A burguesia carioca deixa os antigos espaços das varandas e dos salões coloniais para desfrutar a vida moderna, para dirigir seus carros na avenida central, atual avenida Rio Branco, em meio aos gritos de Vive la France e bonjour, apreciando novos aparelhos urbanos, os jardins, o boulevard, aos palácios. Na Rua do Ouvidor, entrega-se ao novo mundo do consumo, da vitrine, dos produtos de luxo embalados pelas novas fachadas arquitetônicas, que contemplam art nouveau em mármore e cristal, que dão vida à nova cidade noturna, com o auxílio da força da luz elétrica.514
A burguesia prova a nova temporalidade do novo, deixava a “tristeza” do campo para enfrentar uma agitação de carros, a massa de pedestres, as novas excentricidades do espaço urbano que agora percorriam para além do tempo natural. O homem cria seu próprio dia, pois a luz que ilumina o sujeito histórico o faz desfrutar dos novos prazeres da urbanidade, como cassinos, teatros, cinemas, magazines, charutarias...515 Essa catequização europeia do Rio de Janeiro é muito bem ilustrada e concluída por Sevcenko, inspirado por Sergio Buarque:
[...] os estímulos introduzidos pelos potenciais das novas técnicas, equipamentos, artigos, símbolos, procedimentos ou quadros de valores associados à “vida moderna”. Ou seja, para esses grupos a errância tanto pode seguir no sentido territorial, quanto pode agora se traduzir também numa metabolização constante de símbolos, por meio da qual as pessoas agregam a si signos e sentidos que conotam a força e o prestígio da “modernidade”516.
512 Idem, p. 44 e 51-52. Proteção de sua fantasia e de sua civilidade era tudo a burguesia, até proibia aos que adentrassem ao seu mundo tivesse que conjunto de sua fantasia moderna, ou seja implicava aos homens, calçados, meias, calças, camisa, colarinho, casaco e chapéu.
513 Haja vista que o novo tempo do mundo, no Brasil, é introduzindo conjuntamente à Revolução Industrial e ao capitalismo, que promovem assim hábitos e práticas “modernas”. Como coloca Sevcenko: “A Revolução Científico-Tecnológica se cristaliza, difundindo as novas condições da economia globalizada e seus princípios de racionalidade técnica. Esse efeito globalizante e o ‘bando de ideias novas’ que o acompanham iriam articular a inserção do país nesse contexto modernizador e propiciar a gestação das novas elites formadas pelos modelos de um pensamento científico cosmopolita”. SEVCENKO, op. cit., 1998, p. 35.
514 Idem, op. cit., 2003, 52-53; SEVCENKO, op. cit., 1998, p. 29. 515 Idem, p. 52.