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desejo de acrescentar nem que fosse a mais

humilde contribuição à nobre estrutura da

ciência natural. Nenhum outro livro, ou

mesmo uma dúzia deles, influenciou-me tanto

quanto esses dois. Copiei de Humboldt

longos trechos sobre Tenerife [...].

Disponível em: <https://www.behance.net/gallery/6493085/Evolution-of-Evolution>. Acesso em: 10 jul. 2013.

H.M.S. Beagle from a sketch by Darwin's shipmate John Clements Wickham. Disponível em: < http://darwin- online.org.uk/life8.html>. Acesso em: 10 fev. 2014.

Hoje amanheci enjoado. Acho que o balanço desse navio não fez bem ao meu estômago, sensível às ondulações das águas do mar. Mar!? Onde estou? Ai, meu santo besourão, acho que dormi demais! Como cheguei aqui? Ai, que enjoo! Como vim parar aqui?

Acho que ontem estava na Inglaterra junto com meu amigo (ou foi anteontem? Talvez tenha sido antes de antes de ontem, ou há quinze dias. Ai, minhas antenas estão zonzinhas, zonzinhas!)

Bom. Vejamos. Tudo começou quando o Sr. Darwin conseguiu autorização de seu pai para a viagem. Ele arrumou as malas, fez compras com o capitão FitzRoy (que senhor circunspecto! Quase nos impediu de viajar por causa do formato do nariz do jovem. Eu, que nem possuo nariz, não via nada demais naquele nariz, desde que ele não resolvesse sair andando como o Nariz do Gógol. Humanos são humanos e suas razões são, às vezes, insondáveis). Já estou besourando, ou melhor, dispersando muito.

Lembro-me de nos acomodarmos no navio (que cabine mais apertada! Minhas antenas estão dormentes!) e zarparmos no dia... Que dia foi mesmo? Perdoem-me! Não sou besourado em datas, nem domino apetrechos como calendários, relógios, bússolas, barômetros. Localizo-me por meio de minhas antenas, que captam as sensações térmicas, e de meus olhos.

Cá estou eu a besourar novamente. Ah, sim, o

HMS Beagle saiu de Devonport, Inglaterra, no dia 27 de dezembro de 1831.

Zarpamos da Inglaterra e no dia 6 de janeiro de 1833, passamos por Tenerife – a famosa ilha descrita por Humboldt, que fascinara jovens como o Sr. Darwin. Quanto desapontamento não aportarmos por causa do surto de cólera! Saímos voando dali, ou melhor, navegando, e vimos o sol nascer atrás do horizonte da Ilha Gran Canária.

Em 16 de janeiro de 1832, ancoramos em Porto Praia, a principal ilha do arquipélago de Cabo Verde, localizada na costa ocidental do continente africano. A

Disponível em: <http://artsciencefusion.u cdavis.edu/PG%20- %20Face%20of%20Darwin. html>. Disponível em: <http://artsciencefusion.u cdavis.edu/PG%20- %20Face%20of%20Darwin. html>.

expressão de meu companheiro ao pisar pela primeira vez num solo

tropical semi-desértico foi

inenarrável. Era constrastante a aridez de Cabo Verde com a paisagem inglesa.

Adentrar paragens ignotas nos tornava receptivos a tudo o que nos rodeava “[...] A USAR NOSSOS OLHOS, OS OUVIDOS, AS NARINAS, AS

PONTAS DOS DEDOS,

DESOBSTRUINDO OS ABANDONADOS E MAL USADOS CANAIS DAS IMPRESSÕES DOS SENTIDOS.”7

Dali, partimos para águas brasileiras, passando pelos Rochedos de São Paulo,8 por Fernando de

Noronha. Em todo o percurso, o Sr. Darwin aprimorava seu método de coleta e observação. Inventou uma rede – muito parecida com aquela usada na captura de borboletas – e coletou seres marinhos minúsculos na superfície da água, observando-os

com seus instrumentos de

naturalista especialmente

comprados para a viagem.

A euforia com todos os seres

recolhidos era contagiante. Se eu já achava esquisitos os vários tipos de seres terrestres, imaginem aqueles seres marinhos molengas, cheios de tentáculos, que a gente nem sabia se era planta ou bicho.

Fascinavam-me o empenho meticuloso e a gravidade de meu amigo em entender aqueles monstrenguinhos. Ele mexia, remexia, virava de um lado para outro, fazia anotações, media, cutucava, abria, cortava, dissecava; observava no microscópio águas vivas, polvos, cracas, mexilhões, plâncton e muitos outros daqueles seres esquisitoides, filhos de Netuno.

Suas observações espraiavam-se buscando a compreensão das interrelações dos seres vivos e destes com o meio ambiente e com as transformações geológicas. Desde a leitura dos Pincípios de Geologia, de Lyell, essas relações assomavam a sua mente e o entretecimento entre ciências naturais e geologia esteou seus estudos.

Numa carta para J. D. Hooker, de 10 de setembro de 1845, ele escreveu que o conhecimento de espécies e o de geologia era “UMA UNIÃO INDISPENSÁVEL”.9 União à

qual dedicou a vida a estudar a fim de clarear como mudanças na estrutura do planeta afetavam de maneira substancial a vida.

No dia 29 de fevereiro de 1832, aportávamos em Salvador. Saí para besouretear. Zum zum zum. Que deslumbre! Que maravilha! Estamos extasiados! Deslumbrados! Digo estamos pois permito ao Sr. Darwin acompanhar-me, afinal, o coitado ficou tanto tempo naquele país cinzento que poderia facilmente se perder não fosse eu a guiá-lo.

Enquanto víamos a exuberância da mata atlântica, pensávamos na Inglaterra

onde “NO INÍCIO DE DEZEMBRO O CARVALHO SE ENCLAUSUROU PARA O INVERNO.OS

GALHOS FICARAM NUS E CINZENTOS; OS PEQUENOS E ESCASSOS BOTÕES EM SEUS RAMOS FORAM PROTEGIDOS DO CONGELAMENTO POR CEROSAS ESCAMAS MARRONS. BEM FUNDO, NO SUBSOLO, O AÇÚCAR DA SEIVA CUIDAVA PARA QUE A UMIDADE EXISTENTE NA ÁRVORE NÃO CONGELASSE.”10

Quanto deleite para nossos olhos cansados da paisagem inglesa e do chacoalhar do navio sobre as ondas do mar! Que êxtase meu amigo experimentou com aquelas paisagens que jamais se esvaneceram de sua mente.

Aos 67 anos de idade (em 1876), escreveu sua Autobiografia, na qual as reminiscências das “GLÓRIAS DA VEGETAÇÃO DOS TRÓPICOS ERGUEM-SE HOJE EM MINHA LEMBRANÇA DE MANEIRA MAIS VÍVIDA DO QUE QUALQUER OUTRA COISA.”11

À esta altura vocês devem estar se perguntando o motivo de o Sr. Darwin ter levado consigo um mero inseto. Ora, porque é matemático! Não existem seres mais abundantes no planeta do que nós, os insetos: somos mais de 1 milhão de espécies – abelhas, formigas, besouros e muitos outros tipos. Então, a pergunta correta seria: por que não levaria?

Outra razão era por eu estar convencido, assim como Rachel Carson com seu sobrinho Roger, de que “BROCA ALGUMA PODERIA TER IMPLANTADO MAIS FIRMEMENTE NELE ESSES NOMES DO QUE OS SIMPLES PASSEIOS QUE DÁVAMOS ATRAVÉS DOS BOSQUES, ANIMADOS PELO ESPÍRITO DE DOIS AMIGOS EMBARCADOS NUMA

EXCURSÃO DE EXCITANTES

DESCOBERTAS.”12

Mata Atlântica. Desenho de Juliana Canton (5ª colocada no concurso SOS Mata Atlântica, 2011). Disponível em: <http://www.ecoharmonia.com/2011/02/sos-mata-atlantica-premia- desenhos.html>.

Contudo, à exuberância da Mata Atlântica mostrou-se terrível contraste: humanos e animais eram submetidos aos horrores da escravidão, trabalhando à exaustão, com escassa aimentação e, em seus corpos, eram visíveis as marcas da violência.

Ressoa em minha memória a tristeza de um episódio que passou entre o Sr. Darwin e um negro escravo quando fazíamos uma travessia de barco em Salvador. Tentando se fazer entender, meu amigo gesticulou impacientemente. Esse gesto fez aquele homenzarrão semicerrar os olhos e postar as mãos atrás das costas à espera da puniçã0; parecia um animal indefeso, subjugado e degradado.13

Outra situação que denunciava os horrores da escravidão ocorreu no interior do Rio de Janeiro, num local que servira de abrigo a escravos foragidos. A polícia capturou o grupo, menos uma idosa que se recusou a voltar a ser escrava atirando-se do

precipício: “NUMA MATRONA ROMANA, ISTO SERIA CONSIDERADO UM NOBRE GESTO DE

AMOR À LIBERDADE; NUMA POBRE NEGRA, NÃO PASSOU DE UM ATO DE OBSTINAÇÃO SELVAGEM.”14

Parece despropositado comparar a subjugação de animais à dos escravos, mas não o é, pois “A ONDA DE MATANÇA QUE PASSA POR PAISAGENS E CULTURAS COM TAL VELOCIDADE, CAUSANDO PERDAS LAMENTÁVEIS MAS APARENTEMENTE INEVITÁVEIS”, conforme David Quammen,

em seu livro Monstro de Deus.15

Entretanto, essa inevitabilidade das perdas não se devia a um fatalismo panglossiano de que as coisas simplesmente tinham de ser daquele modo.

Nos pampas argentinos, como em

“Sustentou-se que o interesse

Benzer Belgeler