A partir da década de 90, a proposta de formação de professores está atrelada à própria Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional – LDB nº 9.394/96.
Em seu capítulo VI, dedicado à formação de professores, a lei destaca em seus seis artigos a preocupação com a formação inicial e a necessidade da formação continuada e, paralelamente, uma preocupação com a valorização dos profissionais da educação, assegurando-lhes, por meio de estatutos e de planos de carreira do magistério público, um piso salarial profissional, a progressão funcional, baseada na titulação e no desempenho e a garantia de condições adequadas de trabalho.
Se, a princípio, tais propostas parecem um avanço considerável dentro do cenário educacional, por outro, vale destacar que tais mudanças ocorreram justamente num contexto de aprofundamento da política neoliberal, implantada pelo governo do Presidente Fernando Henrique Cardoso.
Convém lembrar que as políticas neoliberais tiveram seu surgimento nos anos de 1960 a partir da crise do Estado de bem-estar social, concebido pelo princípio de proporcionar e garantir para todos os cidadãos condições mínimas de renda, alimentação, habitação e educação como direito político garantidos pelo Estado -, que já não era mais capaz de resolver os graves problemas sociais, políticos e econômicos do sistema capitalista.
Enquanto política, o ideário neoliberal prega que o mercado livre é o elemento regulador de toda a sociedade; enquanto projeto político, econômico e social fundamenta-se na subordinação da sociedade a esse mercado com a não intervenção estatal.
Nessa proposta política, a educação desempenha um papel importante e estratégico, na medida em que atrela a educação pública como preparação ao mercado de trabalho, ao mesmo tempo em que funciona e opera como propagador da ideias neoliberais.
Diante desse cenário, a educação é concebida como um bem econômico, uma mercadoria que está diretamente subordinada às leis do mercado, ou seja, à lei da oferta e da demanda. Nesse aspecto, a política neoliberal estabeleceu uma relação direta em que o Estado foi o grande responsável pela crise educacional, já que foi incapaz de gerenciar e atuar de forma eficiente e responsável com a Educação.
Por esta lógica, a eficiência e a qualidade educacional tão almejadas só acontecerão no momento em que não houver mais a intervenção do estado.
Com a redemocratização e a introdução das políticas neoliberais houve uma ampliação substancial dos serviços oferecidos à população, com acesso à
educação de uma parcela bem carente e que até então estava fora dos bancos escolares.
No entanto, esse acesso não foi acompanhado por uma adequação da capacidade estrutural do sistema público de ensino. Em síntese, o objetivo neoliberal foi atingido, já que houve um aumento no número de pessoas atendidas, mas não com a devida preparação pedagógica e, como consequência, trouxe o desmantelamento do sistema escolar, comprometendo a qualidade do ensino oferecido aos alunos ali matriculados.
Viana (2004) afirma que a influência neoliberal nas escolas e universidades brasileiras e também das instituições responsáveis pela formação de professores, está muito mais focada para preparar os alunos para integrar o mercado profissional extremamente competitivo, tanto no cenário nacional como internacional, capazes de atender as necessidades impostas pela indústria e o comércio.
Por outro lado, dentro dessa política há o discurso neoliberal de que as escolas e os profissionais que constituem seus quadros são livres para determinar, de forma antecipada, o que querem em termos de formação, mas na prática todo o componente mental e conceitual já está definido previamente pelas necessidades da indústria e do comércio.
A grande contradição dessa perspectiva é que, apesar da possibilidade de todos terem acesso à escola dentro dessa nova realidade, os interesses ficam concentrados na necessidade de treinamento exigidas pela indústria e pelo comércio para o mercado profissional, extremamente competitivo e exigente, nos requisitos básicos da mão de obra, deixando de lado a formação humana do cidadão.
Como consequência, a formação inicial dos professores prepara os futuros profissionais para serem capazes de desenvolver estratégias e treinamentos, habilitando-os ao domínio de técnicas que levarão a escola à concepção de empresa, que prepara para o mercado do trabalho num mundo globalizado e extremamente competitivo.
A escola e a formação inicial de seus professores mudam o seu foco de atuação para tornar-se o espaço que se identifica com o poder do mercado, que exige cada vez mais produção e um conhecimento que valoriza o lucro para as organizações empresariais. Corre-se o risco de racionalizar o planejamento e a organização da escola e das atividades pedagógicas para atender as exigências e necessidades do mercado profissional, restringindo mais ainda a autonomia do professor, que se torna um simples executor de tarefas previamente programadas e controladas em detrimento das especificidades do projeto pedagógico que leva em consideração as diferentes realidades escolares.
Veiga (2009) aponta que no modelo neoliberal “a proposta de formação está direcionada para o tecnólogo do ensino, expressão empregada por Tardif” (apud VEIGA, 2009, p.17).
Dentro dessa proposta, Veiga afirma que a identidade profissional pretendida é de um caráter meramente técnico-profissional e apresenta como características de formação:
1. vinculada a um projeto de uma sociedade globalizada e neoliberal; 2. vinculada também com um projeto político-educacional, a partir das
orientações do Banco Mundial, de abrangência internacional, priorizando a educação por resultados, estabelecida em padrões de rendimentos;
3. vinculada, também, à educação e à produtividade, numa visão economicista.
Esta formação está centrada no desenvolvimento de competências para o exercício técnico da profissão, tendo como base o saber-fazer para o aprendizado do que vai ensinar. Todos os conhecimentos são mobilizados a partir do que deve ser feito. Acaba sendo uma formação restrita, que prepara o profissional para ser um mero executor, pois é capaz de fazer, mas não conhece e nem sabe como fazer. Sob essa concepção, o universo do professor fica limitado à escola, esquecendo da realidade social bem mais ampla e que se faz presente no
contexto escolar, influenciando e sendo influenciada. Em síntese, é “uma formação pragmatista, simplista e prescritiva” (VEIGA, 2009, p.18) e reduz o professor ao mero executor de uma proposta já definida pela política neoliberal.
Em sentido contrário a esta proposta, Veiga (2009) defende que a formação inicial de professores deve buscar a possibilidade dele assumir sua identidade como um profissional envolvido e responsável por sua memória histórica, seu compromisso profissional e ético, em bases sólidas e permanentes.
Para tanto, Veiga (2009, p.19) apresenta a formação do professor como agente social, tendo a concepção de educação como uma prática social e um processo de emancipação, pois visa à “construção coletiva de um projeto alternativo, capaz de contribuir, cada vez mais, para o desenvolvimento de uma educação de qualidade para todos”.
Dentro dessa concepção, a formação inicial do professor é desenvolvida numa perspectiva crítica e emancipadora, o que exige:
1. A construção e o domínio dos saberes disciplinares e curriculares, o saber de formação pedagógica, a experiência profissional, a cultura e o conhecimento de mundo na prática social.
2. Os conceitos teóricos e as atividades práticas devem percorrer todo o processo de formação.
3. A formação é uma ação coletiva, que envolve todo o pessoal que atua na escola e na ação pedagógica.
4. A autonomia do professor é um valor profissional e deve ser entendida como um processo coletivo e solidário em permanente construção. 5. O fortalecimento da identidade profissional do professor no seu papel
de agente social, autônomo, consciente e crítico deve ser permanente. 6. A valorização e o reconhecimento de que a tarefa profissional do
7. As competências são compreendidas numa ação contextualizada, definindo-se como um saber-agir e reagir.
Essa proposta de formação permeia um processo mais amplo de reconhecimento do trabalho docente, resgatando sua imagem, suas condições de exercício profissional e valorizando a ação coletiva dos professores.
Nesse objetivo de busca de qualidade, a formação de professores ocupa cenário central, pois a melhoria dessa qualidade passa, necessariamente, pela formação dos professores, que precisa primar por uma formação consistente, abrangente e permanente, sob pena de comprometer, de forma irreversível, todo esse processo.
A grande ironia reside justamente nessa contradição: as propostas de formação implantadas pela política neoliberal não são capazes de dar conta da complexa tarefa de formar esses profissionais, já que são simplistas, imediatistas, com uma carga horária bastante limitada frente ao público que hoje chega às licenciaturas e, ao mesmo tempo, as políticas de formação continuada não atingem os resultados esperados se tomarmos por base os resultados dos diferentes instrumentos de avaliação do Ministério da Educação aplicados, principalmente, nas escolas públicas.
O Professor Pedro Demo, já em 2002, em seu texto Professor e seu direito de estudar, apontava a necessidade de uma qualificação mais completa e rigorosa na formação do professor, pela importância estratégica de sua profissão no desenvolvimento da própria sociedade.
Nesse cenário, passa a ser direito do professor, e dever e responsabilidade do Estado oferecer e proporcionar condições adequadas e de qualidade para a formação dos profissionais das Licenciaturas, garantindo eficiência nas instituições particulares de Ensino Superior, acompanhando e fiscalizando os cursos oferecidos pelas instituições privadas, ao mesmo tempo em que deve oferecer esses mesmos cursos nas instituições públicas.