Para os gestores do programa, a educação para o crédito no Crediamigo é para educar as pessoas no sentido de que se conscientizem do crédito. Esta é uma orientação financeira, pois a maioria delas nunca teve uma conta no banco. Segundo eles, é inviável realizar uma formação mais integral para todos os clientes, “seria o ideal, mas o Crediamigo não conseguiria atender” (GESTOR GE3).
Gestor (Ge1): Muitas dessas pessoas não sabem quanto ganha, quando ela começa a ter o crédito do Crediamigo, ela passa, a saber, que ela tem que ganhar, quanto custa que ela vai vender por quanto. Todo esse processo aí. Então, isso é que é educação para o crédito.
Nessa orientação existem diferentes programas de capacitação que atendem aos clientes do Programa Crediamigo, todos dentro de uma lógica empresarial. Os programas são descritos abaixo com os resultados de dezembro de 2007.
(Aprender a Empreender) - Com o objetivo de desenvolver as competências gerenciais básicas dos clientes, melhorar o nível de organização interna e estimular o desenvolvimento dos seus empreendimentos, foi desenvolvida a metodologia de treinamento Aprender a Empreender pelo Sebrae. Que em 2007 através do Instituto Nordeste Cidadania realizou a capacitação de 44 turmas de clientes, totalizado 1216 pessoas treinadas em 2007
(Educando para Desenvolver) - Programa dedicado à Educação de jovens e adultos, criado em 2006, e está sendo desenvolvido com o objetivo de reduzir o índice de analfabetismo dos clientes do Crediamigo (dos quais 36% de um universo de 299.975 clientes estão na condição de analfabetos funcionais, ou seja, possuem até quatro anos de estudo), do Pronaf B e de comunidades do entorno do Banco do Nordeste. Ao final do ano de 2007, 20 turmas tinham sido encerradas, com 398 alunos alfabetizados.
(Orientação Empresarial e Ambiental – OEA) - A assessoria prestada pelo Crediamigo foi reformulada para atender as necessidades verificadas junto aos clientes do Programa. O novo método visa elevar a capacidade de desempenho dos pequenos empreendimentos, promover o desenvolvimento pessoal e profissional dos clientes, potencializar as experiências bem-sucedidas, motivar para a mudança e para a busca de novos conhecimentos e demonstrar a viabilidade da aplicação de conhecimentos técnicos nos negócios. A metodologia utilizada é bastante acessível e lúdica. São utilizados cartilhas, jogos e textos que estimulam a participação e a troca de experiências entre os participantes das capacitações.
QUADRO 8 – Programas de formação e capacitação do Crediamigo Fonte:www.bnb.gov.br
A OEA conta com nove cartilhas de temas referentes a planejamento de negócio, controle de custos, associativismo, educação ambiental, dentre outros. Até dezembro de 2007, através de experiências-pilotos, houve a capacitação de 1.345 clientes, baseada na metodologia de Orientação Empresarial e Ambiental desenvolvida para atender aos clientes do Programa. Os cursos foram ministrados de forma acessível, com o objetivo de melhorar a qualidade de gestão dos empreendimentos dos participantes. Ao todo, foram realizadas 15 oficinas em todas as capitais nordestinas e em Montes Claros (MG), Imperatriz (MA), Vitória da Conquista (BA), Juazeiro do Norte (CE), Campina Grande (PB) e Juazeiro (BA).
Outro tipo de orientação que os clientes recebem é a orientação dos assessores do Crediamigo, que mais uma vez se restringem ao aspecto empresarial e motivacional. Há algumas reflexões que o assessor leva para o grupo, que ficam restritas aos aspectos motivacionais de dinâmicas de grupo. Os assessores não fomentam as discussões políticas na comunidade.
Assessor (As1): O foco desses cursos é o desenvolvimento da atividade. O “humano’ que lhe falei, mais aquela reunião de levar uma mensagem bem bonita que faça com que eles confiem mais neles. Porque, às vezes, a gente está triste, alguma coisa não deu certo, e as reuniões servem para isso, para dar mais ânimo às pessoas.
Esses programas de capacitação são desenhados para atender as noções básicas de gerenciamento empresarial, não se propondo a qualquer formação que seja mais aprofundada
ou fora desse foco. São operacionalizados pela OSCIP, Instituto Nordeste Cidadania, dentro da lógica de administração do terceiro setor, no qual, “o debate do ‘terceiro setor’ desenvolve um papel ideológico claramente funcional aos interesses do capital no processo de reestruturação neoliberal” (MONTAÑO, 2002).
Segundo dados do Crediamigo apenas 1,5% dos clientes são atendidos pelos programas Aprendendo a Empreender ou Educando para Desenvolver. Além da limitada oferta, nota-se que os mais carentes e menos escolarizados não aproveitam a realização do curso aprendendo a empreender. Como muitos tem apenas o 1° grau, a desvalorização do curso tipo empresarial pode ser por medo de não acompanhar, e outras vezes por falta de condições de pagar as passagens para ir às aulas, que muitas vezes se passam numa comunidade vizinha.
Os menos carentes e mais escolarizados aproveitam a oportunidade, quando esta chega, e através dela vislumbram o sonho pessoal de ampliarem seus conhecimentos e agregarem mais valor aos seus serviços ou produtos. “Eu aprendi algumas coisas [...] como por exemplo: a conquista de clientes, desenvolver estratégias, e também a organizar a renda. Que isso a gente tem muita dificuldade. Inda num foi o suficiente, mas já foi uma boa ajuda.”(CLIENTE BB1)
Não existe uma preocupação com a formação social por parte do Crediamigo. Como ficou claro nas entrevistas com os gestores, o programa não se dispõe a fazer isso, para eles, esse aspecto não cabe para um programa de microcrédito realizar.
Dessa forma, a visão de futuro dos clientes sempre está voltada para o crescimento do seu negócio, para a melhoria da qualidade de vida de sua família, não foi feito qualquer menção ao desenvolvimento comunitário. Isso quer dizer que o crédito comunitário é utilizado para o benefício individual, não há uma preocupação em se refletir sobre as causas de suas carências comunitárias, pelo menos não nos dois anos e meio de funcionamento dos bancos pesquisados.