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O livro didático (LD) é um dos materiais mais utilizados pelo professor na escola, sendo uma ferramenta auxiliar no processo de ensino-aprendizagem. Pesquisas recentes demonstram que a maioria dos professores de LE ainda recorre ao tradicional livro didático para organizar o seu trabalho em sala de aula (ALMEIDA FILHO, 2002, p.35).

Apesar do LD ainda ser muito utilizado e, dessa forma, ser considerado um material importante para a professora Carolina (conforme será mostrado no exemplo 11), (GERALDI 1986 – citado por SABADIN, 2006) chama a atenção para o fato de que alguns

LDs “reduzem o ensino de língua à mera classificação de palavras, de termos, buscando, acima de tudo, a eficiência, o gerenciamento e o controle do conhecimento”. Ainda

segundo Geraldi (ibid) o professor pode tornar-se dependente, pois o LD é o que propõe o programa, organiza os conteúdos, elabora os exercícios e verifica a aprendizagem. É importante ressaltar que a discussão que proponho nesta subseção não pretende colocar em xeque o uso do LD nem tampouco colocar o professor em uma posição de passividade em relação as suas ações relacionadas a esse material didático, mas sim, discutir a sua importância no que se refere à escolha dos itens gramaticais a serem ensinados, conforme se verá a seguir. Além disso, o livro didático é uma das ferramentas utilizadas pelo professor constituindo-se como um material auxiliar, porém não o único utilizado pelo professor como estratégia de ensino.

De acordo com BAILEY e NUNAN (1996, p. 18), o plano de ensino é um

componente importante do currículo escolar e configura-se como um instrumento para orientar as ações do professor em sala de aula. Integra-se ao plano de curso o planejamento de aula; nele o professor descreve toda a forma de organização de uma aula, isto é, ele é uma espécie de roteiro que descreve onde o professor espera chegar a partir de um dado conteúdo, presumivelmente levando os alunos junto com ele.

Tradicionalmente, uma lição é vista como uma unidade do plano de ensino de um curso, que é um componente do currículo programático. As lições têm a finalidade de ajudar os estudantes a empreenderem os objetivos do curso e do programa. No período de coleta de dados, foi possível constatar que a professora Carolina não utilizava um plano de aula, mas sim o LD como uma espécie de “guia”, através do qual definia os conteúdos a serem ensinados no ano e o momento em que seriam abordados. Logo, a maneira como Carolina ensinava/abordava aspectos gramaticais em suas aulas era definida de acordo com a seqüência didática adotada pelo livro. Para este estudo, apresento a análise das

aulas em que a professora ensinou o ‘past continuous’, o ‘present continuous’ e o ‘simple

future’. Essa escolha não está embasada em um critério particular, mas foi assim definida por serem esses os únicos itens gramaticais abordados durante o período da coleta de dados.

Apresento a seguir alguns trechos da entrevista semi-estruturada (Anexo D) em

que a professora justifica a escolha do livro didático (LD) e, a partir dele, chega à escolha do tópico gramatical a ser ensinado em sala de aula.

Pesquisador: esse livro didático que você fala nele quem é que escolhe quem que vai trabalhar com esse livro?

Carolina: ah meu Deus eu não estou te falando que tem 10 anos que não chega livro eu não escolhi. Na época dentre os que eles pediram pra escolher esse foi o que eu achei mais /.../

Pesquisador: quem é que exigiu?

Carolina: teve uma época que nós escolhemos na época do FHC (único elogio que eu faço pra ele porque eu não gosto dele não) mas isso ai eu vou dar a minha mão a palmatória, nunca se viu tanto livro em escola ele mandou ele abasteceu de livro a escola e eu escolhi mas é um livro que foi escolhido há dez anos tem tanta coisa mais atual então a gente escolheu e depois disso não mudaram mais.

(Linhas 73 à 83)

ESE (entrevista semi-estruturada) (exemplo 7)

Pesquisador: durante esse tempo que você está falando que você está usando esse livro por 10 anos você teve chance de mudar? Carolina: não tive chance (+) todas as vezes que eu fui até o diretor preciso de livro para o ano que vem e ai ele falava: eu não posso fazer nada sobre isso. (Linhas102 à 105)

ESE (exemplo 8)

Observamos, nesses dois primeiros trechos da ESE que o livro didático adotado pela professora foi escolhido por ela há dez anos e ainda é utilizado. Ela acrescentou que, desde o período de sua adoção até os dias atuais, não conseguiu apoio institucional para mudar o material utilizado. Mesmo sem esse apoio institucional, a professora demonstrou

interesse em desenvolver atividades que não faziam parte do livro didático utilizado em suas aulas. Esse interesse pode ser constatado no excerto a seguir, referente ao exemplo 9.

Pesquisador: mas você sempre tentou trazer algo diferente?

Carolina: claro que não (+) eu nunca tentei trazer nada diferente Luciano eu uso esse livro que você está vendo ai ((ri)) eu agora tem uma coisa de vez em quando eu invento umas coisas e funcionam (+) sabe (+) eu invento umas coisas que eu não sei como é que pegam sabe. (Linhas 106 à 110)

ESE (exemplo 9)

Foi possível perceber que, apesar de ter afirmado que nunca tentou trazer nada diferente na sala de aula, Carolina ‘inventa umas coisas’, ou seja, ela promove atividades extras. Dentre as atividades realizadas pela professora Carolina, podemos destacar a utilização do filme “Harry Potter”, como parte de um trabalho em um grupo realizado no projeto EDUCONLE, e a aula em diferentes partes da escola, como por exemplo, na horta e na ‘mini-floresta’. É importante salientar que essas atividades eram aprovadas pelos alunos com participação e interesse, segundo a professora. Dessa forma, as atividades criadas pela professora mostraram-se como fatores positivos, contribuindo para a ocorrência de aulas mais interessantes, mesmo não ocorrendo com freqüência. Retomando a fala de Carolina sobre o material utilizado em suas aulas, ela acrescenta que o ensino de gramática pode ser mais sedutor se o professor tem um bom LD. Além disso, o livro apresenta-se como critério importante na escolha dos itens lingüísticos a serem trabalhados em sala, como mostra o excerto a seguir.

Pesquisador: mas naquela época que você trabalhou com o present continuous, com o past continuous com o future você se lembra do will você falou com os seu alunos se tem coisa mais fácil do que isso?

Pesquisador: mas isso foi escolhido por você ou porque já estava lá no livro?

Carolina: estava lá no livro você não reparou não? É item do livro a lição ensinava o futuro. Eu não escolho nada não meu filho eu vou pelo livro (+) é pelo livro mesmo. (Linhas 145 à 151)

ESE (exemplo 10)

A análise do excerto correspondente ao exemplo 10 mostra que o livro era uma ferramenta fundamental para o desenvolvimento das aulas e, conseqüentemente, para o ensino de gramática, pois o livro segue um programa estrutural. A importância do material utilizado é enfatizada pela professora no excerto a seguir.

Pesquisador: então o livro didático pra você

Carolina: é fundamental (+) Luciano me dê um bom livro didático (...) (Linhas 134 à 135)

ESE (exemplo 11)

Como pode ser verificado, os itens gramaticais abordados dependiam do foco da lição, ou seja, o conteúdo gramatical das aulas de Carolina era predeterminado pelo LD. Mesmo que essa escolha não fosse orientada, isto é, feita a partir de um plano de curso ou de um planejamento de suas aulas, Carolina mostrava-se bastante tranqüila e segura na maneira como conduzia essas aulas.

Logo, a escolha do item lingüístico / item gramatical e a motivação para a sua escolha estão relacionadas, na maior parte do tempo, com os tópicos abordados no material didático e, em outros momentos, baseiam-se nas atividades extras, criadas pela própria professora.

4.2.2 Identificação dos momentos quando a professora decide abordar aspectos

Benzer Belgeler