O Projovem Urbano configura-se enquanto uma reformulação do Programa Nacional de Inclusão de Jovens – Projovem, e em geral está situado no bojo de um novo contexto de políticas integradas para a juventude, emergentes a partir do resultado de avaliações das ações, até esse dado momento, empreendidas pelo Projovem em sua versão original.
Com a reformulação do Projovem original houve outra mudança expressiva. A partir do segundo semestre de 2008, período em que passou a funcionar essa modalidade do Projovem Integrado, o Programa que antes era implementado apenas nas capitais e regiões metropolitanas passou a ser estendido para as diversas cidades do País, mediante convênio do governo federal com os governos estaduais e prefeituras municipais.
De acordo com Salgado (2008), é possível diferenciar alguns aspectos essenciais da proposta do Projovem Urbano, que incorpora, amplia e aprimora o Programa Nacional de Inclusão de Jovens – Projovem, objetivando:
tratar a inclusão social no contexto do desenvolvimento humano e dos direitos de cidadania, o que implica: afirmar o jovem como sujeitos de direitos; valorizar suas expressões culturais seus saberes, suas emoções, sensibilidades, sociabilidades, ações éticas e estéticas; compreender a juventude na perspectiva de geração, que necessariamente aponta para novas relações inter e intrageracionais e pressupõe um diálogo produtor de escutas e aprendizados mútuos;
desenvolver um currículo integrado, interdisciplinar e interdimensional, em que o jovem atue como sujeito, construtor de um todo que faça sentido para ele. Nessa perspectiva, o currículo do Projovem Urbano se sustenta na integração de três funções fundamentais: a Formação Básica para elevação da escolaridade ao nível da 8ª série do ensino fundamental; a Qualificação Profissional, na forma de qualificação inicial em um Arco de Ocupações; e Participação Cidadã que envolve ações comunitárias, culturais, esportivas e de lazer;
propor novas formas de organização do trabalho escolar, envolvendo diferentes instâncias da administração pública e da sociedade, de modo a viabilizar o desenvolvimento do currículo integrado, de organização dos tempos e dos espaços pedagógicos [...];
definir estratégias de atuação na sala de aula com vistas a integrar as três dimensões do currículo, de acordo com os fundamentos e diretrizes do Programa, o que exige considerar o múltiplo e o plural implicados nas experiências e conhecimentos dos jovens, bem como seu percurso escolar anterior [...];
formar educadores para responder aos desafios que se apresentam durante a execução do Projovem Urbano.(SALGADO, 2008, p. 13-14).
Finalidades do Projovem Urbano
Em síntese pode-se dizer que as finalidades do Projovem Urbano são as mesmas do Programa Nacional de Inclusão de Jovens – Projovem. Assim sendo, o Projovem Urbano busca proporcionar formação integral dos/as jovens, por meio de uma efetiva associação entre:
Formação Básica para elevação da escolaridade, tendo em vista a conclusão do ensino fundamental;
Qualificação Profissional, com certificação de formação inicial;
Participação Cidadã com a promoção de experiência de atuação social na comunidade. A partir dessas finalidades, segundo Salgado (2008), o Programa visa a reinserção dos/as jovens no processo de escolarização, bem como potencializar as oportunidades de trabalho a partir de capacitação profissional. O estímulo à participação dos/as jovens em ações coletivas de interesse público e a ampliação dos/as jovens à cultura, também são finalidades específicas do Projovem Urbano.
Redefinição do público do Programa
Na perspectiva de redefinir o público que será atendido pelo Projovem Urbano, a coordenação do Programa tomou por referência alguns dados da PNAD 2006 (do IBGE) sobre a população jovem e a população excluída. Assim, segundo esse estudo foi possível identificar a existência de cerca de nove milhões de jovens no Brasil na faixa etária de 18 a 29 anos, com um a sete anos de escolaridade. Desses nove milhões de jovens constatou-se que uma média de 6,4 milhões viviam nas regiões urbanas, distribuindo-se entre as cidades com mais de 200.000 mil habitantes, o que corresponde a cerca de 47% e nas cidades com até 200.000 mil habitantes 53%. (SALGADO, 2008).
Mediante a redefinição do público do Programa torna-se possível a inserção de da juventude de pequenas cidades onde exista uma concentração de jovens com o perfil traçado pelo Programa. Diante desses aspectos definiu-se que para participar do Projovem Urbano basta que os/as jovens com idade entre 18 e 29 anos que ainda não concluíram o ensino fundamental saibam ler e escrever, independente do tempo que tenham em sala de aula.
Além disso, o Projovem Urbano após o segundo semestre de 2009 foi estendido aos/às jovens que estejam em unidades prisionais ou socioeducativas de privação de liberdade, com
experiências iniciais nas cidades do Rio de Janeiro (RJ), Rio Branco (AC) e Belém (PA). “O objetivo é assegurar a esses jovens, de 18 a 29 anos, o direito à educação, contribuindo para sua reintegração após o cumprimento da pena. Nessa primeira etapa temos 500 jovens atendidos.” (BRASIL/SECRETARIA NACIONAL DE JUVENTUDE, 2010, p.11).
Gestão do Programa
Em nível nacional o Projovem Urbano conta na sua estrutura organizacional com um Comitê Gestor coordenado pela Secretaria Geral da Presidência da República/Secretaria Nacional de Juventude. Além dessa secretaria, o Ministério da Educação, o Ministério do Trabalho e Emprego e o Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à fome integram esse comitê.
A Coordenação Nacional do Projovem Urbano está vinculada à Secretaria Nacional de Juventude e assumiu a responsabilidade de executar as ações do Programa. Dentre as atribuições desta coordenação destaca-se o papel de: articular as gestões locais, a fim de que os princípios, os fundamentos e as diretrizes nacionais do programa sejam respeitados e cumpridos; coordenar a produção de materiais de ensino e aprendizagem; a formação de educadores/as e realizar o processo de monitoramento e avaliação externa do Programa como um todo.
Quanto à gestão local do Programa é interessante explicitar que cada estado, município ou DF que aderir ao Projovem Urbano deverá contar: com um comitê gestor local formado por representantes das instâncias de governo das áreas de juventude, educação, desenvolvimento social, assistência social e trabalho, dentre outras secretarias; e com uma coordenação local (estadual, municipal ou DF) que será responsável pela operacionalização do Programa em nível local.
As equipes de coordenação local devem ser formadas por um coordenador executivo, um coordenador pedagógico e pessoal de apoio técnico e administrativo. Compete a essa coordenação a função de gerenciamento do Programa, definição dos locais onde as atividades serão realizadas, apresentação do Programa aos parceiros, seleção e contratação dos/as educadores/as, matrícula dos alunos, organização da formação inicial e continuada dos/as educadores/as, dentre outras.
Outro aspecto que permeia a gestão do Programa diz respeito à perspectiva da intersetorialidade. De acordo com Salgado (2008, p.30):
Para viabilizar a concepção interdimensional do Projovem Urbano, é necessário que sua gestão seja intersetorial e compartilhada pelos órgãos de administração de políticas de juventude, educação, trabalho e desenvolvimento social, em todos os níveis de implementação. Nesse sentido, um aspecto crucial é a criação/implementação/potencialização de instâncias da juventude, tais como secretarias estaduais, municipais e do DF de juventude e conselhos que possam promover a transversalidade da política e dar sustentações às coordenações locais para articular, nesses níveis, as diferentes dimensões do Projovem Urbano. (grifos da autora)
Pólos
O pólo é a menor instância de gestão do Projovem Urbano. Cada pólo compreende 16 núcleos que variam de 2400 até 3.200 alunos e possui uma equipe de gestão composta por: um diretor executivo, um diretor pedagógico e pessoal de apoio técnico e administrativo. Além disso, são lotados em cada pólo ou na coordenação local os/as educadores/as que trabalham nos núcleos: educadores de Formação Básica que possuem licenciatura plena; educadores de Qualificação Profissional, selecionados de acordo com os arcos10 ocupacionais de cada local; educadores/as de Participação Cidadã, com graduação em Serviço Social (SALGADO, 2008).
De acordo com fontes do Projovem Urbano, cada núcleo deve ter cinco turmas, compostas preferencialmente por 40 alunos cada, podendo variar em alguns casos em até 20 alunos. Em geral, um núcleo deve atender no mínimo 150 alunos e, no máximo, a 200 alunos.
Matrícula – forma de acesso ao Projovem Urbano
Por se tratar de um Programa de abrangência nacional foram elaboradas algumas estratégias de matrícula, com base em diretrizes nacionais que servem de orientação para as coordenações locais no processo de matrícula dos/as jovens nos estados, municípios e DF. As diretrizes são as seguintes:
em cada ano, o início de novas turmas só poderá ocorrer em momentos que serão definidos pela Coordenação Nacional do Projovem Urbano;
10 Entende-se por Arcos Ocupacionais as atividades formativas realizadas pelo Projovem Urbano na dimensão
relativa à Qualificação Profissional. Esses arcos ocupacionais, segundo Salgado (2008, p.41) “[...] preparam o jovem para atuar no mundo do trabalho, como empregado, pequeno empresário ou membro de cooperativa. Baseando-se em concepções contemporâneas de organização do trabalho, [...].”
a matrícula será realizada pelos estados/municípios/DF por meio de sistema informatizado, e será acompanhada pelo Sistema de Monitoramento e Avaliação;
para matricular-se no Projovem Urbano, o jovem deverá ter entre 18 e 29 anos completos;
é também condição para a matrícula que o jovem saiba ler e escrever, o que deve ser aferido por meio de teste de proficiência organizado sob a responsabilidade da Coordenação Nacional e aplicado localmente, com supervisão do Sistema de Monitoramento e Avaliação;
haverá seleção, mediante sorteio público, em local, data e horário previamente anunciados, se o número de candidatos em um estado/município for maior do que o número de vagas disponíveis;
o aluno será alocado, preferencialmente, em núcleo próximo a sua residência ou local de trabalho. (SALGADO, 2008, p. 31).
Auxílio Financeiro
No valor atual de R$ 100,00 (cem reais) esse auxílio é pago aos/às jovens usuários/as do Projovem Urbano durante 20 meses, no qual seu recebimento está condicionado à frequência de pelo menos 75% das atividades presenciais em cada unidade formativa e a entrega de 75% dos trabalhos escolares previstos para cada mês.
O Currículo Integrado e as diretrizes curriculares
O currículo do Projovem Urbano está assentado no princípio da integração configurado no tripé entre Formação Básica, Qualificação Profissional e Participação Cidadã, “[...] tendo em vista a promoção da eqüidade e, assim, considerando as especificidades de seu público: a condição juvenil e a imperativa necessidade de superar a situação de exclusão em que se encontram esses jovens [...].” (SALGADO, 2008, p.34).
Assim, de acordo com as diretrizes gerais relativas às dimensões curriculares do Projovem Urbano, a Formação Básica deverá garantir a aprendizagem que corresponde às Diretrizes Curriculares Nacionais para o ensino fundamental e a certificação correspondente e, ao mesmo tempo, fundamentar a Qualificação Profissional e a Participação Cidadã.
No que se refere especificamente à Qualificação Profissional as diretrizes gerais curriculares do Projovem Urbano pressupõem que esta deverá possibilitar novas formas de inserção produtiva, com a devida certificação, correspondendo, à medida do possível, tanto às necessidades e potencialidades econômicas, locais e regionais, quanto às vocações dos/as jovens. E ainda com base nas diretrizes curriculares do Programa a Participação Cidadã tem
como finalidade garantir aprendizagens sobre direitos sociais, promover o desenvolvimento de uma ação comunitária e a formação de valores solidários. (SALGADO, 2008).
Para isso, com base no currículo integrado as disciplinas, que possuem suas especificidades, devem trabalhar seus conteúdos de forma articulada com a vida e realidade dos/as jovens, bem como em sintonia com os demais conteúdos trabalhados em outras disciplinas, prevalecendo nesse contexto o viés da interdisciplinaridade.
Eixos estruturantes e matriz curricular
Constituem-se enquanto eixos estruturantes do Projovem Urbano: Unidade Formativa I – Juventude e Cultura
Unidade Formativa II – Juventude e Cidade Unidade Formativa III – Juventude e Trabalho Unidade Formativa IV – Juventude e Comunicação Unidade Formativa V – Juventude e Tecnologia Unidade Formativa VI – Juventude e Cidadania
QUADRO 03 – Matriz Curricular do Projovem Urbano
Conteúdos Ciências
Humanas Língua Portu- guesa Inglês Matemá- tica Ciências da Natureza Qualifi- cação Profissional Partici- pação Cidadã Eixos Estruturantes I. Juventude e Cultura
Tópicos Tópicos Tópicos Tópicos Tópicos Tópicos Tópicos
II Juventude e
Cidade Tópicos Tópicos Tópicos Tópicos Tópicos Tópicos Tópicos III Juventude
e Trabalho Tópicos Tópicos Tópicos Tópicos Tópicos Tópicos Tópicos IV. Juventude
e Comunicação Tópicos Tópicos Tópicos Tópicos Tópicos Tópicos Tópicos V. Juventude e
Tecnologia Tópicos Tópicos Tópicos Tópicos Tópicos Tópicos Tópicos VI Juventude
e Cidadania Tópicos Tópicos Tópicos Tópicos Tópicos Tópicos Tópicos
Fonte: BRASIL/PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA/SECRETARIA NACIONAL DE JUVENTUDE. Disponível pela http://www.projovemurbano.gov.br/site (Acesso em 12/03/2010)
O componente Formação Básica desdobra-se em áreas ou disciplinas que segundo a Lei de Diretrizes e Bases – LDB (1996), devem promover o desenvolvimento de conhecimentos, habilidades e competências indispensáveis para a vida na sociedade atual.
O componente Qualificação Profissional desdobra-se em três conjuntos de atividades: Formação Técnica Geral, Arcos Ocupacionais e Projeto de Orientação Profissional (POP).
No que se refere ao componente Participação Cidadã também constituinte do Currículo Integrado do Projovem Urbano, esse abrange dois conjuntos de atividades: reflexões sobre conceitos básicos para a participação cidadã e o Plano de Ação Comunitária (PLA).
Objetivos gerais do Projovem Urbano
De acordo com Salgado (2008, p.37-38) espera-se que após o curso os/as jovens sejam capazes de:
afirmar sua dignidade como seres humanos, trabalhadores e cidadãos;
utilizar a leitura e a escrita, assim como outras formas contemporâneas de linguagem, para se informar e aprender, expressar-se, planejar e documentar, além de apreciar a dimensão estética das produções culturais;
compreender os processos sociais e os princípios científicos e tecnológicos que sustentam a produção da vida na atualidade;
utilizar tecnologias de informática necessárias à busca de informações e à inserção cultural e profissional;
desenvolver competências necessárias para o desempenho de uma ocupação que gere renda;
estabelecer um projeto de desenvolvimento profissional, considerando suas potencialidades, suas necessidades de aprendizagem e as características de seu contexto de trabalho;
acessar os meios necessários para exercer efetivamente seus direitos de cidadania, tais como: obter ou renovar documentos pessoais, usar os serviços da rede pública disponíveis para os jovens e suas famílias etc.;
assumir responsabilidades em relação ao seu grupo familiar e à sua comunidade, assim como frente aos problemas que afetam o país, a sociedade global e o planeta;
identificar problemas e necessidades de sua comunidade, planejar iniciativas concretas visando a sua superação e participar da respectiva implementação e avaliação;
refletir criticamente sobre sua própria prática;
conviver e trabalhar em grupo, valorizando a diversidade de opiniões e a resolução negociada de conflitos;
exercitar valores de solidariedade e cooperação, posicionando-se ativamente contra qualquer forma de racismo e discriminação;
exercer direitos e deveres da cidadania, participar de processos e instituições que caracterizam a vida pública numa sociedade democrática;
continuar aprendendo ao longo da vida, tanto pela inserção no sistema de ensino formal quanto pela identificação e o aproveitamento de outras oportunidades educativas.
Percebe-se através dos objetivos apresentados, que há um conjunto de expectativas a serem alcançadas pelo Programa junto aos seus/as usuários/as. Essas expectativas se movimentam em torno de três aspectos predominantes, conforme a citação anterior: a aquisição de conhecimentos gerais como a escrita, a leitura e outras linguagens (formação
básica); o desenvolvimento de novas competências e/ou habilidades com vistas à construção de um projeto profissional (qualificação profissional); e a formação no campo da cidadania.
Diante dos aspectos citados, ressalta-se o fato de que os objetivos do Projovem Urbano precisam ser analisados numa perspectiva macrossocial, tendo em vista que se tomado de forma isolado o Programa não conseguirá almejar tais objetivos, dada a complexidade de determinações que conformam a realidade juvenil.
No conjunto dos objetivos apresentados, faz-se necessário uma pequena observação em torno de algumas distorções muito presentes nos programas destinados aos/às jovens pobres, no que diz respeito à perspectiva adotada acerca do protagonismo juvenil, em que por vezes se atribuem aos/as jovens a resolução de problemas, cuja responsabilidade é do poder público e não dos indivíduos.
Em torno dessa discussão, Sposito e Carrochano (2005, p.148) salientam algumas questões de extrema relevância no que se refere ao debate sobre o protagonismo juvenil.
Embora nesses fragmentos se reconheça certo potencial juvenil, são visíveis seus limites: primeiramente, a ênfase em certos aspectos comportamentais – como se todo e qualquer jovem em qualquer momento histórico e social fosse naturalmente predisposto a provocar mudanças -; em segundo lugar, essa mudança será realizada apenas se o mundo adulto reconhecer e criar condições para isso (...). Por fim, atribui ao jovem uma tarefa dificílima – a de transformar a sua “comunidade”, em geral desprovida de equipamentos públicos e serviços que assegurem um mínimo de qualidade de vida. (p. 148) Após essas discussões, passa-se a analisar no Capítulo seguinte alguns aspectos específicos em torno do Projovem Urbano no município de João Pessoa, a saber: a caracterização do Programa a partir de sua gestão e a construção do perfil identitário e socioeconômico dos/as usuários/as do Programa.
CAPÍTULO 3 – A CONSTRUÇÃO DO PERFIL IDENTITÁRIO E