Como vimos no primeiro capítulo, o uso do evento histórico da Revolução Farroupilha e do tipo gaúcho, além da região da campanha, são características básicas da temática gauchesca. Em outras palavras, são os elementos temáticos referentes ao pertencimento, ou
não, de um determinado tipo de literatura à classificação de regionalista. O evento histórico da Revolução Farroupilha foi uma guerra civil do período regencial brasileiro que foi ganhando, com o passar dos anos, os contornos de uma rebelião separatista (PESAVENTO, 1985; FLORES, 1984; MAESTRI, 2005), atribuição não de toda insustentável, já que os rebeldes farrapos acabaram se separando do Império Brasileiro e criando uma republica independente (FLORES, 1985; 2002). No caso da produção literária de Apolinário Porto Alegre, esse evento pode ser relacionado à defesa de seu republicanismo. Por outro lado, no período no qual ele fundamentava os primeiros preceitos da literatura sul-rio-grandense, a forma como ele abordava a Revolução Farroupilha não era tão bem vista por alguns de seus patrícios. Por exemplo, no rodapé de 4 de agosto de 1872 do jornal A Reforma, ao falar elogiosamente sobre a Revista do Partenon, percebemos certa relutância que o articulista tem em relação ao uso de tal evento por Apolinário Porto Alegre. Ele diz o seguinte:
É pena que Iriema se deixe tanto seduzir pelos falsos primas, através do qual olha para as cenas do passado. Haverá tanta sinceridade e patriotismo nos homens da revolta, como lhe diz seu coração bom e dominado pela elevação e nobreza de seu caráter? Bem vemos que Iriema não é aqui o severo químico da História, armado do escalpelo afiado da crítica, mas o romancista – em todo caso é bom não iludir o futuro, inoculando-lhe as idéias brilhantes e generosas que lhe vão pela mente. Os revoltosos tiveram muitos erros de que ainda não estão quites com a história da Pátria. Garibaldi era entre nós um feliz e ousado aventureiro. Na luta entre irmãos, que todos queriam a liberdade, que amavam estremecidamente o seu torrão, que vinha fazer o estrangeiro, vibrando o punhal em que ia a morte? Era mais um instrumento de extermínio, quando devia ser o da paz e da união, num momento lutuoso de desvairamento, por tanto tempo depois pesarosamente lembrado. O Sr. Apolinário é um escritor de merecimento e já vigorado pelo estudo e pelo trabalho. Ele pode dar muito desenvolvimento à literatura da Província (DAMASCENO, 1975: 48-49 apud A Reforma, 4 de agosto de 1872).
Em outra perspectiva, Apolinário Porto Alegre usa este fato histórico de acordo com os preceitos românticos da inserção da cor local como matéria literária. Além disso, como também mencionam Alexandre Lazzari (2004) e Carla Gomes (2009), tal fato é utilizado como base para seu republicanismo antes de denotar certa tendência separatista e desejosa de criar uma identidade local e oposta à identidade brasileira através da literatura. Parafraseando o próprio escritor, defende-se a liberdade contra a tirania – identificada com a própria monarquia – como é ratificado na seguinte passagem do conto O Monarca das Coxilhas, em que o narrador comenta o aparente paradoxo entre a palavra monarca e a liberdade do campeiro rio-grandense:
Os rio-grandenses têm em nenhuma monta os tronos e cetros. Para eles uma boa equitação vale uma monarquia; um bom cavaleiro é um grande monarca. Parece uma irrisão, quer fosse fortuitamente dada esta acepção à palavra, quer de firme propósito. Quem não conhecer os costumes de nossas vastíssimas campanhas, há de estranhar
que uma só família às vezes seja o tronco duma série de monarquias. E por Deus! Valem mais que os testas coroadas os valentes campeiros do Rio Grande. Ao menos sob cada poncho palpita um coração onde a liberdade entronizou-se; em cada pulso lampeia uma espada a ou uma lança que fará tremer a tirania.
Se quiserem a prova, abram seus anais, e aí encontrarão uma década gloriosa, dez anos que procuram fazer esquecer, que tentam eliminar de sua história, porque não consentem que a escrevam . . . Inútil e frustrânea tentativa! Tradições tão brilhantes, grandiosas e sublimes não se extirpam, morrem com o povo em que nasceram, são a arca santa, o tabernáculo de miríadas gerações (APOLINÁRIO, 1987: 111-112). A ênfase na luta pela liberdade dos farrapos em contraposição à tirania monárquica perpassa todos aqueles textos literários analisados no subtópico anterior. Contudo, como já salientamos, eles evidenciam o embate entre o modelo republicano e o monárquico, ou seja, não é uma defesa da constituição de uma república rio-grandense independente. Procuramos, dessa forma, demonstrar que Porto Alegre percebia a Revolução sob a ótica de uma proposta federativa, seguindo o modelo estadunidense, pois, para ele, seria possível ao Brasil constituir uma federação de repúblicas – como é a análise feita por Maria Medianeira Padoin (2001) sobre aquele movimento. O personagem André, do conto A Tapera, é uma síntese desse ideal federalista de Apolinário Porto Alegre:
Andre era uma d’estas naturezas capazes de todas as virtudes e abnegações, como dos vicios e crimes mais degradantes. Sua intelligencia não tinha o necessario acúmen para compenetral-o do bello pensamento politico de tornar o Brazil um estado federativo; mas Paulo, a quem o prendia espontânea e sincera sympathia, seguia o partido que pleteava aquella doutrina nos campos de batalha; portanto o que Paulo seguia, era bom e justo, o ideal na terra para Andre.
Ser farrapo, rebelde ou sedicioso, ás deveras, como então chamavam aos federaes, foi seu sonho de todos os dias (APOLINÁRIO, 1874, nº 5: 749).66
No décimo capítulo, voltando da sepultura de Laura, André “diante do registro da mãi de Jesus, estreitando contra o peito a bandeira da extincta republica rio-grandense e o flaccido ramo de flores de laranja, sacros amulectos do passado, dizia”:
— O’ santa, a quem Laura adorou, intercedei por mim a Deus. Não posso mais viver... O que me resta agora sobre a terra? Em nome do rei roubarão-me um pai extremoso, a patria amada, e a propria noiva, ultima raiz que me prendia a este solo ingrato... não posso mais respirar aqui... Vou matar-me, vède, mas não é cobardia... Affrontei mil vezes a morte em defesa das liberdades do Brazil, sem temel-a jámais... Intercedei por mim (APOLINÁRIO, 1874, nº 5: 749).67
Como analisado anteriormente, ele se mata com o veneno de caranguejeiras encontradas. Em suma, os personagens André, José de Avençal, Jacinio, Leonel, que são os soldados farrapos; o ex-escravo Gabila, do poema Gabila, que foge do cativeiro e une-se aos
66 Grifos nossos. 67 Grifos nossos.
rebeldes em prol da liberdade; ou mesmo o comandante Tobias do Minuano, que não temeu sacrificar a si e a própria família por esses mesmos ideais, correspondem ao modelo criado pelo “inolvidável polígrafo” para atestar suas crenças políticas, para que eles “sirvam as nossas façanhas”, “de modelo a toda terra”.68
Concluímos, portanto, que embora o uso da Revolução Farroupilha possa parecer um paradoxo devido ao pensamento nacionalista de Apolinário Porto Alegre, na verdade, está em concordância com a prerrogativa romântica do uso da matéria local e com os ideais republicanos do escritor. Esse movimento, que posteriormente será um dos baluartes da ideia separatista da cultura gaúcha, era utilizado por Porto Alegre para defender sua proposta de nacionalidade brasileira, pois ele almejava propagar o republicanismo para o restante do Brasil monárquico, isto é, a Revolução Farroupilha faz parte do nacionalismo brasileiro desse sul-rio-grandense.
68 Trechos do hino republicano, autoria creditada a Francisco Pinto da Fontoura. Ver: ZILBERMAN, Regina. MOREIRA, Maria Eunice. BAUMGARTEN, Carlos Alexandre. BORDINI, Maria da Glória. Um dia todas essas coisas hão de ser história: textos farroupilhas. Porto Alegre: PUCRS: Erus, 1985, p.119.
Ú
LTIMAS CONSIDERAÇÕESNos primeiros estudos historiográficos a respeito do Regionalismo literário gaúcho, desde João Pinto da Silva até Guilhermino Cesar na década de 1950, o escritor sul-rio- grandense Apolinário Porto Alegre foi categorizado como precursor desse movimento literário. Contudo, a partir do final da década de 1970, particularmente com o surgimento dos estudos universitários, esse tipo de avaliação passou a ser contestada, dando origem a hipóteses de que o surgimento desse movimento seria proveniente da influência literária de José de Alencar. Apesar disso, Apolinário Porto Alegre ainda continuou a ser percebido como um importante escritor local e a sua posição de difusor desse tipo de literatura gauchesca permaneceu sendo salientada. Todavia, a sua não intencionalidade de ser um escritor regionalista, demonstrada nos trabalhos de Maria Eunice Moreira, já que o mesmo ainda não existia de fato nesse período, trouxe novos caminhos para a interpretação da história literária sul-rio-grandense e, podemos dizer também, para a constituição da identidade gaúcha em seu período de formação, durante a segunda metade do século XIX.
Objetivando aprofundar tais caminhos abertos por essa historiografia universitária, realizamos uma análise referente às publicações literárias e não literárias de Apolinário Porto Alegre na Revista do Partenon Literário, entre os anos de 1869 a 1879. Durante esse percurso analítico, encontramos elementos que evidenciaram sua filiação ao projeto nacionalista romântico, empreendido pelos literatos brasileiros do século XIX, de constituir uma identidade cultural brasileira, visando assim diferenciá-la de sua antiga metrópole portuguesa. Esse projeto tinha como base a constituição de uma literatura nacional, que, apesar da forte influência do Romantismo europeu, acabou adquirindo características próprias e peculiares que permitiram diferenciá-lo da tradição literária lusitana e, assim, concretizar tal objetivo almejado por esses letrados brasileiros do século XIX.
A filiação de Apolinário Porto Alegre a tal projeto romântico foi encontrada através da análise de características presentes em sua produção literária, tendo sido possível estabelecer uma relação entre a produção desse escritor sul-rio-grandense e o escritor cearense José de Alencar, considerado posteriormente pela historiografia como o principal nome literário desse período. Ao invés de utilizarmos os argumentos estabelecidos – trabalhados por Zilberman, Baumgarten, Eunice, Lazzari e Gomes, entre a denominada vertente regionalista de José de Alencar para com Apolinário Porto Alegre, com base nos respectivos romances O Gaúcho e O vaqueano – preferimos analisar outras publicações do escritor sulino, que constam na
Revista do Partenon Literário, mas que ficaram fora do “cânone” do Regionalismo literário gaúcho. Por essa razão, atribuímos uma grande importância ao romance Feitiços d’uns beijus, publicado naquela revista, entre os anos de 1873 e 1874 e, estabelecendo uma base comparativa, empregamos a análise elaborada por Roberto Schwarz sobre a literatura urbana de José de Alencar, que consta no livro Ao vencedor as batatas. A partir de tal pressuposto teórico, constatamos que as mesmas incongruências narrativas demonstradas por Schwarz como presentes em algumas obras de Alencar podem ser encontradas em Feitiços d’uns beijus, de Apolinário Porto Alegre, além de outros escritos literários produzidos pelo mesmo autor.
Em outra ponta desse estudo, comprovamos que esse escritor sulino tencionou a inserção dos sul-rio-grandenses à nacionalidade brasileira, através da demonstração de que os literatos da província mais meridional do império brasileiro poderiam participar desse projeto de dotar o Brasil com uma nacionalidade a parte da portuguesa. Em outras palavras, Apolinário Porto Alegre fez parte do nacionalismo brasileiro que movimentou os intelectuais durante todo o século XIX.
Carlos Baumgarten defende que a produção literária regionalista gaúcha, surgida nesse período de formação do sistema literário sul-rio-grandense e continuada ao longo das primeiras décadas do século XX, seria caracterizada por “uma dupla natureza”, na qual, “de um lado, corresponde ao desejo de afirmação do Rio Grande, em virtude de sua condição de região periférica, no conjunto maior da Nação; de outro, caracteriza-se como um esforço do Estado no sentido de se associar à luta em busca de uma literatura autônoma e, portanto, nacional” (1998: 35). Baumgarten acredita que essa “dupla natureza” da literatura sul-rio- grandense, o que denominamos por literatura gauchesca, teria como caraterística um “tom ambíguo que marca o discurso acerca do regionalismo literário, [...] e que permanece no alvorecer do século XX, sendo provavelmente o responsável pelas interpretações que vêem na literatura sul-rio-grandense um anseio separatista” (1998: 35).
Na verdade, não encontramos na produção literária e não literária de Apolinário Porto Alegre uma “dupla natureza”, mas a sua inserção apenas em um programa de ideologia nacionalista que perdurou durante esse período. Em realidade, há tanto na tradição historiográfica sul-rio-grandense quanto, em parte, na brasileira uma confusão entre uma concepção de nacionalidade brasileira não centralista – muito influenciada pela literatura “regionalista” de Alencar, em que as regiões, quando reunidas, formariam o todo nacional – com um regionalismo fechado em si mesmo, de cunho, às vezes, separatista e isolacionista.
em sua produção literária – como o espaço sulino, o tipo social do gaúcho e a Revolução Farroupilha –, usados como uma tentativa de afirmação da peculiaridade da província do Rio Grande de São Pedro do Sul dentro do seio imperial brasileiro e compatíveis com a sua concepção da nacionalidade brasileira, também foram importantes para o desenvolvimento da posterior literatura regionalista gaúcha. Em outras palavras, não podemos descartar a influência dos elementos encontrados na produção de Apolinário Porto Alegre na literatura Regionalista gaúcha e, por isso, ele foi considerado como precursor desse movimento. Queremos ressaltar, nesse sentido, que tal “dupla natureza” é fruto da análise de elementos textuais na produção do autor, pois, se levarmos em consideração uma análise estritamente histórica, estaríamos cometendo um anacronismo com tal afirmação.
Em suma, quando analisado sob o prisma dos estudos literários, não há equívoco quanto à interpretação da “dupla natureza” da literatura de cunho regionalista gaúcha, da qual o escritor sul-rio-grandense Apolinário Porto Alegre faz parte. No entanto, ao observamos esse nosso objeto sob o aspecto de sua historicidade, chegaremos à conclusão de que não há “dupla natureza”, pois não há em seu horizonte de pensamento uma afirmação do regional de cunho separatista, mas um tipo de nacionalidade em que a identificação da nação passaria, inevitavelmente, pela regionalidade, ou seja, uma concepção de identidade brasileira caracterizada por um regional-nacionalismo. A “dupla natureza” dessa literatura só é possível nas interpretações a posteriori, pois ora categorizam a produção de Apolinário Porto Alegre como regional, ora como nacional. Concluímos, portanto, que para resolver tal questão basta pensar em Porto Alegre dentro de seu horizonte regional-nacionalista. Com isso, escapamos de uma tradição categorizadora que o vê apenas como precursor do Regionalismo literário gaúcho ou apenas através de sua inserção à nacionalidade brasileira.
R
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