1. GİRİŞ
1.7. Adsorbanlar
1.7.3. Organik Adsorbanlar
Um dado importante que pode-se constatar no estudo das fontes relativo aos alunos de São Carlos é a presença significativa de filhos de imigrantes. Embora seja comum a observação, incluindo-se a opinião de alunos remanescente das primeiras turmas da escola normal, de terem sido raros os alunos filhos de imigrantes, pode-se constatar a presença de vários destes nos documentos escolares.
São Carlos recebeu uma grande quantidade de imigrantes no final do século XIX, da mesma forma que as outras regiões cafeeiras de São Paulo
A imigração de trabalhadores estrangeiros foi o resultado de uma política nacional de substituição da mão de obra escrava, com o fim do tráfico negreiro e a expansão da economia cafeeira. Inicialmente foram as lavouras mais antigas e que ainda possuíam trabalhadores escravos. Diante das dificuldades impostas ao tráfico, essas lavouras passaram a arregimentar trabalhadores imigrantes principalmente de Portugal e Itália. Esses primeiros imigrantes vieram para lavouras já formadas, por substituindo o trabalho escravo por meio de contratos de parcerias.
Em 1871 o governo provincial de São Paulo começou a emitir apólices, autorizadas por lei, para auxílio dos lavradores que desejassem promover a imigração estrangeira para suas fazendas. No mesmo ano foi autorizado o funcionamento, por decreto imperial, da Associação Auxiliadora da Colonização e Imigração, presidida por Francisco Antônio de Souza Guimarães, com auxílio
pecuniário do governo, entre outros, com a finalidade de promover a vinda de trabalhadores para as áreas cafeeiras. (Beiguelman, 1977). Em 1884, uma lei paulista autorizou o dispêndio de recursos governamentais para a criação de núcleos coloniais e de auxílio a imigração, e determinava a composição familiar dos grupos de imigrantes. Essa lei exigia, ainda, que “o pagamento das passagens fosse feito diretamente ao imigrante, como indenização das despesas por ele efetuadas” (BEIGUELMAN,1977,p.37) e posteriormente foram autorizados os pagamentos também às empresas de imigração ou fazendeiros que promovessem processos imigratórios.
Em 1886, as novas lavouras encontram-se em expansão e é criada a Sociedade Promotora da Imigração, que celebrou contrato com o governo provincial de São Paulo para a vinda de mais de trinta mil imigrantes no ano de 1887. (Beiguelman, 1977).
Um dos critérios estabelecidos, pela Sociedade Promotora da Imigração foi a obrigatoriedade da composição familiar dos grupos de imigrantes. Evitava-se, assim, a imigração de indivíduos isolados, garantindo-se o compromisso familiar nos contratos com as fazendas, o compromisso de permanência pelo período contratado, que deveria ser cumprido por toda a família evitando-se, assim aventureiros. Segundo Truzzi, o sistema familiar era a base do colonato que se tornou a principal forma de organização do trabalho livre nas fazendas.
O colonato era um sistema misto, no qual o colono era em parte remunerado com ganhos fixos (pagos não necessariamente em dinheiro, e frequentemente em produtos necessários a sobrevivência), pelo trato da terra e com parte da produtividade da colheita após a venda café. Os colonos, por contrato, se comprometiam a cuidar da colheita de determinado número de pés de café, recebiam moradia na fazenda onde poderiam plantar e manter criações.
O colonato era a base do sistema produtivo das fazendas de café no contexto do trabalho livre. O colono e sua família cuidavam diretamente do cultivo e colheita da planta, e, dessa forma, era a ocupação que requeria o maior número de braços. Uma das principais características desse regime de trabalho residia no fato de ser a família em seu conjunto a responsável pelos trabalhos; era a família a unidade produtiva base do colonato. Cada fazendeiro firmava contrato com famílias específicas e não com cada trabalhador de forma individual.(TRUZZI; PALMA, 2009, p.96)
A importação da mão de obra imigrante foi um processo planejado, organizado, financiado e determinado pelo Estado, além de ter sido uma forma encontrada solucionar a falta de trabalhadores em um período de expansão da lavoura cafeeira, constituía, também a introdução de um novo elemento no processo produtivo. Como observa Beiguelman:
Do ponto de vista da economia inclusiva, a introdução em massa de um trabalho que alia o braço à capacidade de consumo fornece o impulso para dinamizar o crescimento do mercado interno. Com efeito, estabelecida a corrente imigratória, desenvolve-se o seguinte ciclo: o imigrante, depois de um estágio na fazenda, dirige-se à cidade, tendo em vista as novas oportunidades econômicas decorrentes de uma ampliação de mercado, resultante de sua própria presença na economia, enquanto trabalhador-consumidor; dessa forma, estabelece-se um fluxo migratório na direção dos centros urbanos, ao que a lavoura responde com a sucessiva introdução de novas levas de imigrantes, reativando-se continuamente o processo.(BEIGUELMAN,1977, p.39)
Subvencionada pelos cofres públicos, a imigração, por meio da transferência de unidades familiares, injetou não apenas uma nova forma de mão de obra, mas uma massa de consumidores no mercado, capitalizando a economia em um processo muito distinto da antiga lavoura açucareira. O trabalhador imigrante era parte importante da constituição capitalista do complexo cafeeiro e, nas regiões mais novas de plantio, onde seu trabalho era remunerado em dinheiro, promoveu a dinamização monetária das atividades econômicas.
Em São Carlos, a partir de 1844, a grande lavoura cafeeira recebeu um dos maiores contingentes de estrangeiros de São Paulo. De forma não oficial, alguns fazendeiros já vinham incentivando a imigração, como foi o caso de Antônio Carlos de Arruda Botelho, futuro conde do Pinhal, que em 1876 importou 100 famílias de origem alemã.
Segundo Truzzi (2007), São Carlos era, em 1884, o terceiro município do estado a receber o maior número de imigrantes. Dez anos depois, em 1894, tornou-se o primeiro. Os estrangeiros, que em 1886 respondiam por 12,7% da população da cidade, em 1907 já eram 39,3%. (TRUZZI; BESSANESI, 2008, p. 03). O impacto da imigração alterou a estrutura e a dinâmica populacional de São Carlos introduzindo um novo panorama demográfico. A proporção de negros em relação aos brancos declinou, o número de mulheres em relação aos homens cresceu, e a população rejuvenesceu. Entre os imigrantes, os italianos predominaram amplamente, atingindo quase 30% dos estrangeiros.
Em 1886, o município contava com 16.104 habitantes, dentre os quais 2.051 eram estrangeiros. Desses, mais da metade (1.050) já eram italianos (Bassanezi, 2000). Em 1889, o Club da Lavoura local apurou que 15.688 trabalhadores rurais habitavam o município. Os imigrantes constituíam mais de 85% da força de trabalho rural (13.418 indivíduos) e os italianos somavam 10.396 pessoas (Truzzi, 2004:49). Por fim, em 1907, frente a uma população total (rural e urbana) de 38.642 indivíduos, os italianos representavam quase 30% de toda a população, perfazendo de longe o maior grupo de estrangeiros no município (11.342 indivíduos) (Censo Municipal, 1907).(TRUZZI, 2007, p. 02)
A tabela abaixo apresenta a média de imigrantes chegados à São Carlos no período de 1884- 1929.
Tabela 14 - Imigrantes Chegados a São Carlos* (1884-1929)
FONTE: *Saídos da Hospedaria dos Imigrantes, em São Paulo. Fonte: Para os anos de 1884, 1886, 1887, 1894, 1894, 1898 e 1900:
São Paulo. Divisão de Arquivo do Estado. Relatórios apresentados ao EXMO. Sr. Presidente da Província. 1901 a 1929: Anuário Estatístico do Estado de São Paulo. São Paulo, Repartição de Estatística, (apud, TRUZZI, 2000, p.58)
É importante ressaltar que nem todos os imigrantes fixados em São Carlos permaneceram em atividades ligadas à lavoura. Houve a existência de dois tipos de imigrantes: aqueles que se dedicaram às atividades rurais e aqueles dedicados as atividades urbanas e que, em São Carlos, deram um novo impulso ao desenvolvimento da economia urbana. (Costa, 2001) No auge da economia cafeeira os imigrantes, sobretudo os italianos, desenvolveram atividades econômicas urbanas, inserindo-se no comércio local e em atividades industriais. (Devescovi, 1987)
Segundo o Censo 1901, a população de São Carlos era de 38.642 pessoas, das quais 15.267 eram imigrantes. A população residente na área era urbana de 9. 326 habitantes, dos quais 2.857 eram
imigrantes. Destes, 2.377 residiam no centro da cidade e 480 na periferia. (TRUZZI; BESSANESI, 2008)
Devescovi (1987) observa que vários comerciantes e industriais locais, não chegaram a passar anteriormente pela lavoura cafeeira. Não eram nem fazendeiros, nem ex-colonos. Dos cinco proprietários de indústria e comerciantes citados por ela, e que desenvolveram atividades na cidade, três foram pais de quatro alunos que estudaram na Escola Normal Secundária de São Carlos, entre 1911 a 1923:
David Cassinelli,(italiano) pai Rachel de Meira Cassinelli (diplomada em 1917); fábrica e depósito de móveis e madeira, serraria
Germano Fehr (suíço) pai das alunas Elza (diplomada em 1920) e Olga Fehr (diplomada em 1925); empreiteira de obras, fábrica de tecidos, fábrica de móveis, fábrica de lápis
Abel Giongo (italiano) pai de Aldo Giongo (diplomado em 1917); dono de serraria
Os imigrantes que desenvolveram atividades urbanas tendiam a procurar uma escola que incentivasse a participação na cultura urbana da cidade e lhes propiciasse uma futura posição na indústria e comércio local, atividades que exigiam formação escolar.
A partir de consultas ao Censo de 1907, ao Arquivo da Escola Estadual Dr. Álvaro Guião, ao Almanack Annuário 1928 e as descrições encontradas no livro Neves (2007b) , pode-se constatar que dos 324 alunos matriculados no período desta pesquisa, 28 eram filhos de imigrantes italianos, 6 de imigrantes portugueses, 1 filho de imigrante suíço e 1 filho de imigrante argentino, constituindo quase 10% do total (9,25) um número que pode ser considerado significativo.
A inserção cada vez maior do imigrante na vida urbana e o incentivo de uma educação escolar para seus filhos permitiu um acesso cada vez maior ao exercício de funções comerciais e industriais. Na tabela abaixo podem ser observadas as atividades industriais e profissões exercidas dos trabalhadores brasileiros e imigrantes da cidade de São Carlos, no período de 1901 a 1940. A partir da tabela podemos observar que, embora dispersa, a presença imigrante era significativa em diferentes atividades urbanas.
Segundo Devescovi com o tempo ocorreu a ascensão social de “profissionais liberais, sobretudo de imigrantes organizados na maior parte das vezes em unidades familiares” (DEVESCOVI, 1987, p.56) . O surgimento dos profissionais liberais em São Carlos estaria associado, nas décadas de 1910 e 1920 “a predominância dos imigrantes estrangeiros sobre os cafeicultores no tocante à participação nas atividades produtivas urbanas”. (DEVESCOVI, 1987, p.57)
Os imigrantes, por meio de suas atividades industriais e/ou comerciais, constituíram em São Carlos, um núcleo de mercado local que tendia cada vez mias a maiores necessidades socioeconômicas derivadas da economia capitalizada pelo complexo cafeeiro. Era um mercado que encontrava-se subjacente à economia cafeeira e ao longo dos anos, as atividades comerciais, industriais e as profissões dela emergentes tornaram-se gradualmente independentes. As relações econômicas que anteriormente eram movimentadas pelo complexo cafeeiro passaram a adquirir espaço econômico autônomo e próprio. Emergiam novas categorias sociais como: industriais, comerciantes e operários que conviviam ao lado de donos do café em decadência.
Deste modo o efeito urbanizador do café não residia exclusivamente na organização interna das fazendas e nas atividades urbanas ligadas à esta cultura. A imigração e a ocupação cada vez maior de atividades urbanas por imigrantes engendraram “um movimento articulado a uma modificação nas relações sociais de produção e nas suas repercussões sobre a organização da cidade e a estruturação do espaço”. (DEVESCOVI, 1987, p.29).