• Sonuç bulunamadı

A professora P1 em vários momentos de sua comunicação coloca como preocupante o recebimento de alunos da Educação Especial em sala de aula regular sem haver o apoio de um professor auxiliar para trabalhar com esses alunos no cotidiano da sala de aula.

[...] a gente recebendo todo tipo de aluno da Educação Especial, eu fico um pouco assustada, sabe? Porque eu acho que a gente tinha que ter mais apoio nisso, né? Não é só colocar na nossa sala. [...] Como eu estou com a menina lá DI, que eu acho que não é só DI. Tem comportamental, também? Ela tem uns comportamentos muito estranhos, então, eu acho que a gente precisaria de mais auxílio, sabe? [...] Então, quando eu recebi essa aluna, veio como DI, né? Ela veio com um histórico de aprontar muitas e aí eu falei: nossa, mas não precisava ter um cuidador junto? Porque ela não sabia nem usar o banheiro. Mas diz que no Município não tem cuidador. Tem só o Estado. (refere-se às redes de ensino

municipal e estadual). [...] Eu não tenho formação nenhuma em Educação

Especial. Então, quando a Diretora colocou na minha sala, ela me chamou e aí

ela passou que ela pensou em mim, não sei se é por causa do meu jeito, sabe? E... e que ela ia me dar todo o apoio, que quando a menina aprontasse era pra ligar, ela ia descer, ela ia ligar pra vir buscar, mas hoje já não aconteceu isso.

Porque teve dias que eu não conseguia dar a minha aula, sabe? Eu não sabia se eu acudia a menina, e... graças a Deus ela começou a ter mais paz. Aí hoje, essa semana eu percebi que ela estava bem agitada. Porque ela freqüenta a APAE de manhã, né. [...] Porque agora a APAE tá mandando tudo pra escola, né? (grifo nosso).

Quando a professora P1 diz que uma professora da Educação Especial vai à escola duas vezes durante a semana e atende a aluna: “Mas seria uma necessidade sim ter uma... eu tenho a professora da Educação Especial, ela atende a aluna dois horários durante a semana, 50 minutos, dois dias, ela vai lá, na escola, ela fica com ela 50 minutos, e..., mas só dois dias, durante a aula, e depois sou eu, só eu”, a pesquisadora pergunta se há troca, planos de trabalho estabelecidos entre a profissional da Educação Especial e a professora polivalente: “Eu com ela fizemos o planejamento, que a Diretora exigiu um planejamento pra trabalhar com ela. Como fizemos uma sondagem, ela tá na garatuja, ainda”.

Em classes com alunos público-alvo da Educação Especial, a professora P1 considera necessária a presença de outro profissional, além do professor polivalente, no dia-a-dia da sala de aula. Ela relata sobre a sua dificuldade em atender ao mesmo tempo a aluna público-alvo da Educação Especial e o restante dos alunos:

Ela não tem coordenação. (refere-se à coordenação motora fina). Como o número 1 ela não consegue, tem que pegar na mão, sabe? Pra ela fazer. O número 2 também não consegue. Então, eu to pegando na mão dela e isso é com a sala e eu ali. E aí eles não entendem. É eu parar um pouquinho pra auxiliar, eles já dispersam. Teria sim que ter um auxiliar. Mas isso seria um sonho do professor.

Pode-se dizer que, nesse contexto, a inclusão está realmente ocorrendo? A professora P1 deixa transparecer que a demanda de trabalho docente nos Anos Iniciais do Ensino Fundamental é grande e estressante: “Tem dias que eu chego tão estressada, sabe, tantos problemas”. E que há insegurança, principalmente no período que antecede a atribuição da sala de aula que ficará sob a sua responsabilidade, em cada início de ano letivo: “Dá um pouco de medo. Não sabemos quem vem, nem o ano que vamos pegar. Isso é tudo lá na hora. O ano passado eu estava com um segundo, nossa, eu bolei tanta coisa, falei: o ano que vem eu vou pegar um segundo de novo. Aí não deu certo”.

A professora P2 indica em sua comunicação que a demanda de trabalho é grande e o professor não consegue ser ouvido. Há cobrança para se trabalhar somente com os programas impostos para a rede estadual de ensino:

Tem muito projeto que o governo impõe... [...] o programa que é o defendido mesmo, que tem que ser seguido é o Ler e Escrever e o EMAI. [...] você fica

preso, você tem que seguir aquela linha, é... a cobrança é só em cima daquilo. [...] você não consegue trazer muito pra dentro, ser ouvido.

E, por outro lado, segundo ela, falta apoio para iniciativas do professor polivalente para a melhoria do processo de ensino e de aprendizagem, como a inserção de novos projetos:

Você quer trazer um projeto novo, você precisa de estrutura, você precisa de material, você precisa de impressão. [...] Na escola você não pode tirar um xerox, por exemplo. Se você quer fazer um trabalho, um artesanato, você tem que comprar tudo do seu bolso. Você ganha pouco já, então, você acaba não fazendo o trabalho do jeito que você quer fazer porque você não tem condições, não tem condições financeiras pra fazer. [...] Nos primeiros anos eu gastava do meu dinheiro, eu fazia as coisas diferentes, mas você vai fazer isso vinte e cinco anos da sua vida? Vai pagar pra trabalhar?

Para a professora P3 a demanda de trabalho nos Anos Iniciais do Ensino Fundamental é grande, a cobrança também, contudo, não há apoio da rede de ensino, da escola e nem dos pais dos estudantes.

A GSME fala sobre a demanda de trabalho docente nos Anos Iniciais do Ensino Fundamental de dois lugares: como gestora, mas também como professora polivalente concursada na Prefeitura Municipal de São Carlos:

E a nossa maior dificuldade é... a gente acaba ministrando todas as disciplinas. A única disciplina que a gente não ministra é Educação Física. Então, assim, a gente dá aula de artes, de ciências, geografia, história, matemática, Língua Portuguesa, e aí, é... a ineficiência de você.. eu não vou falar bom, mas de você dominar todos esses conteúdos, né? Então, você pega, por exemplo, um conteúdo de um quinto ano, ele realmente é mais complexo. Ele tem alguns elementos que se você não tiver uma formação, e se você não tiver a todo o momento relembrando, buscando novas estratégias, você não leva um quinto ano, né? Então, aí você pega um professor com essa realidade, porém que tem no período da manhã um quinto ano, à tarde ele tem um terceiro ano e à noite ele tem... pode ser que ele não tenha nada de trabalho, mas tem a sua família... você não dá conta. Você não consegue. Você pega um quinto ano de manhã, à tarde uma sala de alfabetização do primeiro ciclo, você não consegue.

Com a política de inclusão escolar, o professor polivalente tem um novo desafio que é trabalhar com o aluno público-alvo da Educação Especial, conforme complementa a gestora GSME:

[...] o professor polivalente além de trabalhar com todas as áreas tem mais isso... e não é um tipo. Você pega o pessoal nas Universidades, ele acaba se especializando em uma das deficiências... Agora você imagina o professor, com DV, com DE numa sala de aula, e tem. Tem, por exemplo, assim escolas, a gente tem turma com três alunos, por exemplo, com diagnóstico, e aí como é que eu dou conta de tudo isso? E pensa isso num quinto ano com 35 alunos. E aí, por exemplo, outro dia a gente estava discutindo aqui, na questão de.. de se era possível a gente diminuir o número de alunos caso a turma tivesse deficiente. Mas eu não posso fazer isso! Porque alguns pesquisadores falam que é

segregação, que eu estou pré-julgando a deficiência, sabe, me dá uns dois alunos a menos... Não tem lei pra isso. Tem orientações do MEC, mas não tem nada formalizado. A gente não tem nada que nos respalde disso. E aí a gente vai além: a gente entra na formação inicial. Porque hoje a gente tem, parece que está obrigatório Libras em todos os cursos, né? Mesmo assim, é suficiente? É suficiente isso? Como é que está a formação? Esses alunos que estão saindo da Universidade estão preparados para trabalhar com essa realidade? Esses alunos estão preparados?

Durante a sua entrevista, o gestor GDE deixa transparecer que a demanda do professor polivalente é grande para o tempo de trabalho pedagógico que ele tem: “[...] mas o tempo de trabalho pedagógico na escola não é suficiente para o professor assim...

aprofundar” e em outro momento:

Agora você tem que considerar que a carga horária das escolas que tem do primeiro ao quinto ano é uma carga horária ridícula, muito pequena, tá certo? E que mal dá realmente pra Língua Portuguesa e Matemática. Quer dizer, o ideal, eu bato na tecla, o ideal seria a escola de ensino integral. Não há como melhorar a qualidade do ensino com escola de tempo parcial. [...] das sete às onze e meia da manhã, em torno de quatro horas, quatro horas e pouco, então, é... você não tem como, você não tem qualidade de ensino.

Benzer Belgeler