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ORAN ARALIĞI ÇOK BÜYÜK

PROPRIETÁRIOS PORCENTAGEM (%) 0 6 14% 1 11 25% 2 5 11% 3 6 14% 4 4 9% 5 3 7% 6 3 7% 7 2 4,5% 8 0 - 9 2 4,5% 10 1 2% + 10 1 2% TOTAL 44 100%

FONTE: Inventário post-mortem - (AFDACCS). 128

Os números acima dão conta de que a terra não era bem comum a todos os inventariados. Destes, 6 não eram detentores de terras, o que constituía 14% dos proprietários. Os inventariados despossuídos de propriedade sobre a terra são: João Rodrigues Lima, Manoel Lourenço de Oliveira Gondim, Antônio Manoel Leite e Dona Clementina Maria de Jesus, João Ferreira Maia, Laurentina Angélica dos Passos e Manoel Clementino Filgueira. Esses denotam em seus parvos cabedais a pobreza ali existente.

Inversamente, a inventariada Dona Amélia Herculeiro de Hollanda Cavalcante, para a realidade de Limoeiro, possuía um grande número de terras, contabilizando 18 pequenas propriedades, possivelmente obtidas por herança. Entre elas, destaca-se a do Sítio Lagoa da Serra, que se localiza no atual município de Morada Nova, cuja dimensão territorial é de 725 braças, avaliado na quantia de 1:450$000 réis – aqui cada braça equivale a 500$000 réis.

As propriedades inventariadas não fazem distinção entre as delimitações de uma

“fazenda”, uma “sorte de terras”, uma “porção” ou um “sítio”. As dimensões territoriais

variavam entre 3 (três) braças e 2.119 (duas mil e cento e dezenove) braças, além de sortes e porções de terra que foram avaliadas entre 1$000 e 2:5000$000. 129

É recorrente nos inventários post-mortem ou no registro de terras mencionar-se o

termo “terras de criar”, assim como se observa na catalogação dos bens de Dona Maria de

Jesus do Nasarethe, falecida em 1876, na qual são arroladas: “500 braças de terra de criar no

128

Os valores percentuais são aproximados. 129

Segundo Ronaldo Vainfas, uma braça equivaleria a dez palmos ou a 2,2 metros, sendo que, havia diferenças regionais. Sendo essa medida estipulada em 1697. In: VAINFAS, Ronaldo. Dicionário do Brasil colonial

76

sítio Limoeiro Queimado, ribeira do rio Jaguaribe avaliada na quantia de 500.000 reis.

(500$000)”.130

O valor dado a terra assume critérios econômicos que perpassam a lógica da fixação das propriedades.

Atitudes e apropriações eram mais facilmente visíveis no espaço organizado, local de trabalho e base da vida no campo. A terra, isto é, os solos com sua variedade e seu valor produtivo reconstruídos pelos homens, agrupava toda a organização rural, assim como o fato de possuí-la orienta para um prestígio fundamental a divisão social. Era na relação cotidiana com a gleba que se via a capacidade e manutenção e de renovação de um universo onde tudo tinha sua importância, gestos e utensílios, práticas e representações, dominadas pelo retorno cíclico das estações, dos trabalhos e dos dias. 131

Tendo em vista o exemplo do inventariado João Nogueira da Costa, que possui terras no Sítio Barra do Banabuiú, foram inventariadas 90 braças inicialmente, cujo valor foi de 270$000132, e, em seguida, mais 90 braças, também foram arroladas no mesmo sítio, ao valor de 90$000. A única distinção que o documento faz em relação às propriedades referidas é que a segunda, de valor inferior, ficava situada ao lado do riacho Gangorra. Uma explicação possível para essa diferença de valor de uma em comparação à outra pode estar no acesso à água. Por esse viés, a segunda propriedade teria recebido sua avaliação conforme a proximidade e o acesso a recursos hídricos. 133

Além do papel da água, a supervalorização da pecuária nesse período pode ser compreendida através da Lei de Terras de 1850, a qual regularizou as propriedades fundiárias. Sua aquisição se dava através de compras, vendas e heranças. Contudo, através dessa Lei estabeleceu-se o direito às formas de uso e posse da terra.134

Dito isso, além das “terras de criar” aparecem os cercados, o que suscita questionar a necessidade de cercamento. Das 147 propriedades catalogadas, em 44 delas foram mencionados os cercados, uma proporção de quase 3 propriedades para 1 cercado; ou seja, uma pequena mostra da importância econômica e organizacional desse equipamento.

130

(AFDACCS) - Inventário post-mortem de Dona Maria de Jesus de Nasarethe. Ano: 1876. 131

ROCHE, Daniel. História das coisas banais: nascimento do consumo nas sociedades tradicionais (século XVII-XIX). Lisboa: Teorema, 1997, p. 40-41.

132A vigência monetária do “réis” durou até 1942, ano em que foi substituído pelo “cruzeiro”. Um conto de réis (1:000$000) era igual a mil vezes a importância de mil-réis”. In: BESSE, Susan K. Modernizando a

desigualdade: reestruturação da Ideologia de gênero no Brasil, 1914-1940. São Paulo: Universidade de São Paulo, 1999, p.106-107.

133

(AFDACCS) - Inventário post-mortem de João Nogueira da Costa. Ano: 1875. 134

77 Sem dúvida, o cercado era uma forma necessária de afastar os animais das plantações. Conforme salienta Gilberto Freyre, um dos principais animais que necessitam de cerca são as cabras, pois “criada à solta, a cabra é um inimigo terrível, não só de toda a lavoura, como de toda planta”. 135

(...) “Criada como é, sem a mínima vigilância, num território onde as cercas, não são feitas para dividir terrenos mas unicamente para resguardo dos ‘cercados’, ou

pequenas plantações, fácil é compreender por que em toda área para a qual a cabra tem livre acesso não é possível para planta alguma chegar a um desenvolvimento maior, a não ser que tenha em si algum meio de defesa, como espinhos, glândulas fortemente aromática ou sucos que afugentem esses inimigos”. [GRIFO DO AUTOR] 136

A valorização da terra e a organização dos cercamentos estavam atreladas à ação de resguardar a água, atribuindo a esse recurso um caráter privativo e de propriedade. O que constituía um elemento de ordenação social, no sentido de que os sujeitos que detinham o acesso a esse recurso distinguiam-se dos demais, tanto no âmbito social, como no econômico.

(...) a posse de uma propriedade é mais significativa quando apresenta, dentro de seus limites ou extremos, reservatórios de água tais como lagoas ou rios. A posse desse recurso produtivo poderia ser um mecanismo a mais de domínio e relação de dependência entre o proprietário e o despossuído de terra; mas também entre aqueles que dispunham de propriedades e não tinha acesso a esse recurso. 137

Bem como, além de cercar a propriedade e atribuir maior valorização a terra, o cercado também resguardava a água do domínio público, configurando aqui um bem privado. Ou seja, sua atribuição vai além de tolher o gado e proteger pequenas lavouras, o cercado era uma forma de gerenciar mecanismos de poder.

Entre os bens arrolados no inventário de Dona Amélia Herculeiro de Holanda Cavalcante, há “a metade do açude cercado grande nas terra s de cria r Lagoa do Bessa, cujo valor é 150.000 reis” (150$000). A metade de uma propriedade é um indicativo de herança na

composição desse patrimônio.138

Não obstante a necessidade de estabelecer cercas, o açude constituía um reservatório de acúmulo de água para viabilizar a sobrevivência dos indivíduos e dos animais

135

FREYRE, Gilberto. Nordeste: aspectos da influência da cana sobre a vida e a paisagem do Nordeste do Brasil- 7ª. ed. São Paulo: Global, 2004, p. 111.

136

LÖFGREN, Alberto. Contribuições para a questão florestal da região do Nordeste do Brasil, Inspetoria de obras contra as Secas, Rio de Janeiro, 1912. Apud. FREYRE, Gilberto. Nordeste. Cit., p. 111.

137

DUARTE, Rones da Mota. Natureza, terra e economia agropastoril – Soure (CE): 1798-1860. Dissertação (Mestrado em História), Centro de Humanidades, Universidade Federal do Ceará. Fortaleza, 2012, p.78.

138

78 naquela propriedade. E representava um espaço de poder, já que em períodos de escassez de água, os donos da água estendiam suas influências sobre aqueles que não a detinham.

A cerca, além da função de proteger a propriedade e o que ela contém, através da Lei de 1850, tem o caráter de delimitação e fronteira, pois os rios, não dão mais conta de fixar de forma rígida as extensões das propriedades.

Mesmo não havendo menção de terras destinadas ao plantio em larga escala, os indícios apontam que existia, provavelmente para a subsistência e consumo local, bem como é possível averiguar no inventário post-mortem de Manoel Sebastião da Costa, falecido no ano de 1882, morador do Sítio Ferrão, além de possuir quatro cercados no mesmo sítio, detinha

uma porção de mandioca tendo mais ou menos mil covas no valor de 30$000.139

Embora os inventários não façam alusões à partilha de terras que fossem destinadas a plantar, Francisco Freire Alemão, observando os Sertões, chama a atenção para as margens dos rios, que eram palco de disputas das pessoas que ali viviam pelos animais e pelas plantações feitas nas vazantes, ribeiras dos rios.140 Outros indícios que fomentam, também, o conjunto patrimonial dos indivíduos da Vila de Limoeiro, consignam vestígios da atividade agrícola, entre eles, os registros de caixas de legumes possivelmente destinadas ao armazenamento da safra agrícola.

Assim, em seu estudo sobre Cotidiano e Cultura Material, no Maranhão, Antonia Mota analisa os objetos encontrados nas unidades produtivas rurais, já que caracterizam aspectos relacionados à técnica, ao trabalho e ao consumo.

Através dos objetos inventariados nas grandes unidades produtivas rurais, consta-se a precariedade das relações e das técnicas agrícolas, à exemplo objetos de produção os machados e serras para domar a vegetação nativa e preparar o terreno, enxadas e foices de abater e capinar, ferros de cova para o cultivo de gêneros e engenhos de descaroçar algodão, teares de ensacar e balanças, já para a sustentação havia a roda de ralar mandioca e o forno de cobre, caldeirões de ferro, tachos de cobre e carros e juntas de boi, a canoa para transporte de mercadorias. 141

O estudo dos instrumentos de trabalho permite conhecer e analisar as técnicas agrícolas e pastoris desenvolvidas numa sociedade, uma forma de conhecer o que era produzido.

139

Inventario post-mortem de Manoel Sebastião da Costa falecido em 1882. 140

ALEMÃO, Francisco Freire. Diário de viagem de Francisco Freire Alemão: Fortaleza-Crato 1859. Fortaleza: Museu do Ceará/Secretaria da Cultura do Ceará, 2006, p. 77.

141

MOTA, Antônia da Silva. Cotidiano e cultura material nos espólios familiares da Capitania do Maranhão, século XVIII e XIX. In: CLIO. Série História do Nordeste (UFPE), Recife, v. 25, p. 157-172, 2007, p. 159.

79 Por sua vez, em seu estudo dissertativo, Rones Duarte compreende que “a s técnicas agrícolas difundidas no século XIX era m as mesma s desde o período colonial”.142

Ou seja, as condições em que se realizavam as formas de trabalho não haviam passado por mudanças significativas que rompessem com essa tradição agrícola de técnicas e materiais.

Em relação aos hábitos alimentares surgem questões de teor bastante pontual. No processo de inventário do casal Francisco Pereira do Nascimento e Antônia Maria dos Santos, foi catalogado um caixão para despejo de legumes, cujo valor era de 8$000 réis. As culturas que serviam de base alimentar da população de Limoeiro produziam leguminosas, como o feijão e milho, e também raízes; sendo a macaxeira entre estas a mais trivial – devido a partir dela ser feita a farinha, o beiju e a tapioca.

A população do Sertão de Limoeiro possuía uma dieta centrada também nos derivados do boi: a carne, a panelada (o intestino, o estômago do boi e o tornozelo – mocotó), fígada (o fígado, o coração, os rins), e do leite: a coalhada, o queijo, a nata e a manteiga, pelo que sugerem as condições econômicas locais, centradas na pecuária.

A partir do início do século XIX a cultura do algodão se expande no interior do Estado. Os primeiros cultivos realizados nos fins do século XVIII assumiram aspectos de grandes proporções quando o Ceará inicia suas primeiras exportações desse produto. Grandes eventos internacionais estão envolvidos com a expansão da cotonicultura cearense provocando a maior procura desse produto dando como resposta uma dependência dessa cultura a estímulos externos com períodos alternados de grande impulso e de estabilização. Esses eventos foram a Revolução Industrial (progressos técnicos, máquinas), Guerra de secessão América a queda de produção de outros fornecedores. 143

Entre os instrumentos de trabalho analisados no inventário de Vicente Ferreira da Silva Maia, havia um tear velho de tecer pano avaliado em 2.000 réis. O tear é um objeto recorrente no cabedal de diferentes montantes, da região do Baixo Jaguaribe, um instrumento utilizado para produzir tecidos, sua função era a de entrelaçar os fios, e era bastante disseminado entre famílias. 144

O engenho de fiar ou tear eram objetos utilizados no beneficiamento do algodão e na sua transformação, para que depois fosse produzido o fio.

142

DUARTE, Rones da Mota. Op. Cit., p. 133. 143

SILVA, José Borzacchiello da. O algodão da organização do espaço. In: SOUZA, Simone de (Org.). História

do Ceará. Fortaleza: Universidade Federal do Ceará. Fundação Demócrito Rocha. Stylus Comunicações, 1989,

p. 83-84. 144

80 O ato de fiar, que por muito tempo caracterizou-se como um trabalho feminino, estava inserido em um processo de transformação, tanto de ordem econômica, como social, de redefinição e organização dos papéis no tecido social.

As demarcações dos espaços eram constituídas pelo uso, a atividade de fiar e tecer entrelaçava os espaços da casa enlaçados pelo fio. Enquanto as atividades desenvolvidas com o tear podiam ser realizadas fora da casa, nas varandas e nas cobertas, a ação de bordar e costurar era geralmente realizada dentro de casa.

Além dos espaços de fora – os sítios e as fazendas que constituíam o cenário vivenciado diariamente pelos sertanejos –, as casas estavam inseridas nesses espaços ditos rurais ou fixadas em um precoce núcleo urbano e elas comportam outro tom, uma mistura entre o público e o privado, quem (e o quê) é de dentro e quem (e o quê) é de fora.

Benzer Belgeler