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A Década Mundial e Brasileira da Água foi iniciada em 2005, tendo como propósito chamar a atenção para a elevada importância do tema água em nossa sociedade e para todas as formas de vida. Vários autores, bem como órgãos públicos, abordam essa importância de forma enfática e clara, tais como:

O Planeta Terra abriga um complexo sistema de organismos vivos no qual a água é elemento fundamental e insubstituível. Sem água não existe vida! Ela é responsável pelo equilíbrio da “comunidade vida”, da qual nós, seres humanos, fazemos parte. A água é também insumo indispensável à produção e recurso estratégico para o desenvolvimento econômico. Todas as atividades humanas dependem da água. Navegação, turismo, indústria, agricultura e geração de energia elétrica são alguns exemplos de seu uso econômico. O acesso à água é um direito humano fundamental. Toda pessoa deve ter água potável em quantidade suficiente, com custo acessível e fisicamente disponível, para usos pessoais e domésticos, conforme previsto na legislação brasileira e na Agenda 21. Cuidar da água é uma questão de sobrevivência; depende da decisão e da ação de cada pessoa, comunidade e da sociedade em geral. Somente com sensibilidade, criatividade, determinação e participação será possível construir as respostas técnicas, científicas, ecológicas, sociais, políticas e econômicas para a gestão da água na perspectiva do desenvolvimento sustentável, com inclusão social e justiça ambiental. (BRASIL, 2006a, p.11)

...podem-se considerar três aspectos distintos da importância da água: 1- como elemento ou componente físico do ambiente; 2- como meio para o desenvolvimento da vida (ambiente aquático) e, 3- como fator indispensável para a vida em geral. (BRANCO, 1993, p.40) A falta e/ou escassez da água junto com os problemas originados pelos riscos decorrentes da sua poluição constituem a “crise da água”, flagelo reconhecido hoje pelos governos do mundo. Atualmente faz-se necessário o estudo integrado de áreas diferentes do conhecimento para buscar e encontrar soluções compatíveis com a demanda crescente por água. Neste sentido, preservação, conservação e recuperação do ecossistema dos mananciais devem ser prioritárias para a manutenção da boa qualidade das águas com a finalidade de garantir a sobrevivência humana e honrar nossas responsabilidades com as diversas formas de vida. (BUSTOS, 2003, p.2)

A informação de que atualmente os recursos hídricos são agredidos constantemente e, cada vez com maior intensidade, tem levado a água a ser apresentada com significativa importância em discussões em fóruns sobre desenvolvimento sustentável, demonstrando uma real e crescente preocupação com sua disponibilidade e qualidade. (LIMA, 2003, p.3)

Dentro dessa perspectiva, percebe-se um movimento internacional e nacional para se pensar e agir para a conservação e recuperação dos recursos hídricos. Várias iniciativas referentes aos recursos naturais, entre eles os recursos hídricos, já foram feitas anteriormente à criação da Década Mundial e Brasileira da Água.

De acordo com Pereira (2008, p.54), as primeiras discussões internacionais que enfocaram a necessidade global de um plano de ação para um novo modelo de gestão da água aconteceram na Conferência das Nações Unidas sobre Água, em Mar Del Plata, em 1977, sendo que essa preocupação com os recursos hídricos esteve, inicialmente, limitada a técnicos e às universidades. Apesar da consolidação da democracia e os avanços sociais e políticos, sobretudo na elaboração de leis ambientais, o processo de discussão e participação da sociedade na gestão dos recursos naturais se limitou a um grupo restrito e foi praticamente ignorado pela maioria da população.

A deterioração dos rios e mananciais de abastecimento e o agravamento de conflitos entre os diversos setores de usuários das águas em inúmeras regiões forçaram o início de diálogos sobre a situação e o futuro das águas. A sociedade passou a questionar a forma como os governos gerenciavam os recursos naturais e a exigir mecanismos de participação e controle mais eficazes. Técnicos, homens públicos, cientistas, universidades e instituições representativas passaram, então, a cobrar a implementação de políticas públicas de gerenciamento integrado dos recursos hídricos.

A partir da Constituição de 1988, foram criadas condições iniciais para se pensar e propor um novo modelo de gestão de recursos hídricos no Brasil, baseado num modelo integrado e participativo, que além de examinar o crescimento econômico, também passaria a verificar a equidade social e o equilíbrio ambiental, sendo que a integração desses objetivos deveria se dar na forma de negociação social, no âmbito da unidade de planejamento da bacia hidrográfica. Pela Constituição, passa a estabelecer-se que a água é um bem de domínio público, finito e com valor econômico, e responsabiliza-se as esferas públicas por estabelecer regras dentro de suas competências, para que garantam os múltiplos usos da água. A Carta Magna também define algumas competências entre as instâncias do Governo, Estados e os próprios municípios em relação à água, pelas quais tanto os Estados quanto a União

receberam autonomia para a criação de uma política pública que regule os usos dos recursos hídricos de sua propriedade (BUSTOS, 2003, p.57). Também é abordado o aproveitamento e a poluição das águas subterrâneas, e que ninguém pode causar atos lesivos para com a água, sendo que os infratores poderão responder pelas perdas e danos que causarem com o pagamento de multas.

Outro momento a destacar na elaboração da gestão dos recursos hídricos do país é a II Conferência Internacional das Nações Unidas, ocorrida em janeiro de 1992, em Dublin, na Irlanda, que tinha como tema: “A água e o meio ambiente”. A Conferência de Dublin teve a participação de vários especialistas e a representação de diversas entidades internacionais e de organizações não governamentais, tendo sido a principal constatação dos especialistas a situação crítica mundial dos recursos hídricos. Segundo especialistas participantes desse evento, as águas doces são um recurso finito e vulnerável e a situação de escassez8 e desperdício de água potável representava uma séria e crescente ameaça para o desenvolvimento sustentável e a proteção do meio ambiente, sendo que a saúde pública, o bem- estar, a produção de alimentos, o desenvolvimento industrial e os ecossistemas dos quais eles dependem estavam todos em risco, caso os recursos hídricos e o aproveitamento do solo não tivessem um gerenciamento mais eficiente.

Também foi constatado que a situação dos recursos hídricos em diversos países já interferia diretamente no consumo humano, e que as participações dos governos e da sociedade são fundamentais para avaliar, gerenciar e desenvolver políticas próprias para os recursos hídricos. Os participantes da Conferência de Dublin produziram recomendações e um programa de ação sob o título de “A Água e o Desenvolvimento Sustentável”.

A Conferência de Dublin foi um marco na história ambiental e nesse encontro se explicitou muito claramente a relação entre a água e a diminuição da pobreza e das doenças, a proteção e as medidas de proteção contra os

8 Apesar do uso do termo escassez nos documentos da Conferência de Dublin, na atualidade o

termo adequado poderia ser redução da disponibilidade de água. Isso porque sabe-se que a quantidade de água presente no Planeta Terra é sempre a mesma, porém pode ser disponibilizada em muitas regiões em quantidade inferior à necessidade de utilização, Outro ponto a ser destacado é que esse elemento sofre sensivelmente com as ações do ser humano, que modificam a qualidade e a quantidade desse recurso no tempo e no espaço (Christofodis, 2002, 13). Em relação à isso e focando a área de pesquisa é importante lembrar a presença do Aquífero Guarani em todo o subsolo da Bacia Paraná 3.

desastres naturais, a conservação e o reaproveitamento da água, o desenvolvimento urbano sustentável, a produção agrícola e o fornecimento de água potável ao meio rural, a proteção dos sistemas aquáticos e as questões transfronteiriças, e se reconheceu a existência de conflitos geopolíticos derivados da posse das bacias hidrográficas.

Também se destaca a Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente e Desenvolvimento (CNUMAD), mais conhecida como Rio’92 ou Eco’92, realizada no Rio de Janeiro em junho de 1992, onde um dos principais resultados foi a decisão da construção das Agendas 21. Dentre os diversos assuntos tratados nos 40 capítulos da Agenda 21 Global (BRASIL, 2010b) destacam-se as seguintes preocupações com a água:

a) capítulo 12: manejo de ecossistemas frágeis e a luta contra a desertificação e a seca;

b) capítulo 17: proteção dos oceanos, de todos os tipos de mares, inclusive mares fechados e semi-fechados, e das zonas costeiras, proteção, uso racional e desenvolvimento de seus recursos vivos;

c) capítulo 18: proteção da qualidade e do abastecimento dos recursos hídricos, aplicação de critérios integrados no desenvolvimento, manejo e uso dos recursos hídricos;

d) capítulo 21: manejo ambientalmente saudável dos resíduos sólidos e questões relacionadas ao esgoto.

Outro documento iniciado na Rio’ 92 foi a redação da Carta da Terra9, na qual a preocupação com a água aparece em vários princípios, tais como:

a) Princípio II, que trata da Integridade Ecológica, aparecem dois subitens que tratam dessa questão: b) estabelecer e proteger as reservas com uma natureza viável e da biosfera, incluindo terras selvagens e águas marinhas para proteger os sistemas de sustento à vida da Terra, manter a biodiversidade e preservar nossa herança natural; e) Manejar o uso de recursos renováveis como a água, o solo, os produtos florestais e a vida

9 A Carta da Terra é o resultado de um processo conversacional intercultural de mais de uma

década realizado a nível mundial com o objetivo de “estabelecer uma base ética sólida para a sociedade emergente e ajudar na construção de um modo sustentável baseado no respeito à natureza, aos direitos humanos universais, à justiça econômica e a uma cultura de paz” (ITAIPU, 2004, p.24). A versão final da Carta da Terra foi aprovada no escritório da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) em Paris, em março de 2000.

marinha com maneiras que não excedam as taxas de regeneração e que protejam a sanidade dos ecossistemas;

b) Princípio III, que trata da justiça social e econômica, no subitem II) garantir o direito à água potável, ao ar puro, à segurança alimentar, aos solos não contaminados, ao abrigo e saneamento seguro, distribuindo os recursos naturais nacionais e internacionais requeridos.

Também nas Metas do Milênio10 a questão da água é abordada enfaticamente em dois deles. No objetivo 4, que aborda a redução da mortalidade infantil, trata-se da questão da transmissão de doenças pela veiculação hídrica e falta de saneamento e no objetivo 7, que visa garantir a sustentabilidade ambiental, aborda-se o grande número de pessoas sem acesso à água potável.

Como se pode observar, a questão dos recursos hídricos vem ganhando destaque a cada dia na sociedade e vem se consolidando como um tema de constante diálogo e de elaborações de políticas públicas para atender às necessidades de oferta em quantidade e qualidade que garantam a manutenção da vida.