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2. KURAMSAL TEMELLER

2.5. Optiksel Sabitler Arasındaki İlişkiler

São Vicente 1 de Junho de 1560

Jesus Senhor

A paz de Christo Noso Senhor seja sempre em Contino favor e ajuda de Vossa Alteza.

O anno passado de 1559 me derão huma de Vossa Alteza em que me manda que lhe escreva e avise das cousas desta terra que elle deve saber. E pois assi mo manda lhe darei con ta cio que V. A. mais folgará de saber que hé da conversão do gentio a qual depois da vinda deste Governador Men de Saa, creceo tanto que por falta de operarios muytos, deixamos de fazer muyto fruyto. E todavia Com esses poucos que somos se fizerão quatro igrejas em povoações grandes onde se ajuntou muyto numero ele gentio pola boa ordem que a isso deu Men de Saa com os quais se faz muyto fruyto, pala sogeiç[io e obediencia que tem ao Governador e em mentes durar o zelo delle se irão ganhando muytos, mas cessando em breve se acabará tudo, ao menos entretanto que não tem ainda lançadas boas raizes na fee e bons custumes.

A causa porque no tempo deste Governador se faz isto e não antes, não hé por agora aver mais gente na Bahia, mas porque pode vencer Men de Saa a contra- dição de todos os Christãos desta terra que era quererem que os Indios se comessem, porque nisso punhão a segurança da terra e quererem que os Indios se furtassem huns aos outros pera elles terem escravos e quererem tomar as terras aos Indios contra rezão e justiça e tiranizarem-nos por todas as vias, e não querem que se ajuntem pera serem doutrinados por os terem mais a seu proposito e de seus serviços, e outros inconvenientes desta maneira, os quais todos eIle vence, a qual eu não tenho por menor victoria, que as outras que Nosso Senhor lhe deu; e defendeo a carne humana aos Indios tão longe quanto seu poder se estendia, a qual antes se comia ao redor da cidade e às vezes dentro neIla, prendendo os culpados, e tendo-os presos até que elles bem conhecessem seu erro, sem nunca mandar matar ninguém.

E isto soo abastou pera asogiguar a muytos e obriguá-los a viver segundo ley de natureza como agora se obrigão a viver, mas isto custou-lhe descontentar a muytos e por isso ganhar inimigos, E certifico a V. A. que nesta terra mais que nenhuma outra, não poderá hum Governador e hum Bispo, e outras pesoas publicas contentar a Deu s Noso Senhor e aos homens, e o mais certo sinal de não contentar a Nosso Senhor, hé contentar a todos, por estar o mal muy introduzido na terra por custume.

Depois socedeo a guerra dos Ilheos a qual começou por matarem hum Indio no caminho de Porto Seguro, e creo que por desastre, ou por milhor dizer querer Nosso Senhor castigar aquelles llheos e feri-los pera os curar e sarar, e foy assi que estando os Engenhos todos quatro queimados e roubados e a gente recolhida na Vila em muyto aperto; lá o Governador a socorrer com lho contradizerem os mais ou todos da Bahia por temerem que ido elle se poderião alevantar os da Bahia. Mas com elle levar muytos Indios da Bahia consigo, cessava todo este inconveniente e o que hé muyto pera louvar a Nosso Senhor hé que sendo isto no inverno em tempo de monçõis contrairas pera ir aos Ilheos, na hora que foy embarcado lhe concertou o tempo e lhe veo vemto prospero tanto quanto lhe era necessario e não mais nem menos; e lá deu-se tam boa mào que em menos de dous meses que lá esteve deixou os Indios sogeitos e tributarios e restituirão o mal todo que tinhão feito assi

aquelle presente como todo o passado e obrigados a refazerem os Engenhos e não comerem carne humana, e receberem a doutrina quando ouvesse Padres pera lha dar. De maneira que já agora a geração dos Topinaquins, que hé muyto grande, poderá tambem entrar no Reyno dos Ceos.

Neste tempo, que o Governador era ido ao socorro dos Ilheos, socedeo que huns pescadores da Bahia se desmandarão e forão pescar à terra dos Indios do Parauaçu, os quais sempre forão inimigos dos Christãos posto que a este tempo alguns tinhão feito pazes com o Governador e lá farão tomados e mortos quatro pesoas. Depois tornando o Governador lhes mandou pedir os matadores e por lhos não quererem dar lhes apregoou guerra e a elles com toda a gente da Bahia que era pera pelejar e com muytos Indios e entrou polo Parauaçu matando muytos, queimando muytas Aldeas, entrando muytas cercas e destruindo-lhes seus mantimentos, cousa nunca imaginada que podia ser, porque geralmente quando niso se falava dizião que nem todo Portugal abastaria por ser terra muy fragosa e chea de muyta gente, e foy a vexação que lbes derão que elles ganharão entendimento pera pedirem pazes, e derão-lhas com elles darem dous matadores que tinhão e com restituírem aos Christãos quantos escravos lhes tinhão comido, e com ficarem tributarios e sogeitos e obrigados a receberem a palavra de Noso Senhor quando lha pregassem, Esta gente está agora muy disposta pera nelles se frutificar muyto.

Disto poderá V. A. entender quantos operarias de nosa Companhia há mister tão grande messe como esta e cada dia se irá fazendo mayor tanto quanto a sogeição dos gentios se continuar.

Depois sendo o Governador de muytos requerido que fossem vingar a morte do Bispo e dos que com elle hião, por ser hum grande opprobrio dos Christãos e ser causa dos Indios ganharem muyta soberba porque morreo ali muyta gente e muyto principal: elle se fazia prestes aparelhando muytos Jndios da Bahia, mas isto estorvou Ias a vinda da armada que veyo. Com a vinda da qual se determinou de ir livrar o Rio de Janeiro de poder de franceses todos lutheranos e partio visitando algumas Capitanias da costa até chegar ao Spirito Santo, Capitania de Vasco Fernandez Coutinho, onde achou huma no pouca de gente em grande perigo de serem comidos dos Indios e tomados dos franceses, os quais todos pedirão que ou tomasse a terra por EI-Rey ou os levasse dali por a não poderem já mais sostentar, e o mesmo requeria Vasco Fernandez Coutinho por suas cartas ao Governador. Depois de tomado sobre isso conselho a aceitou, dando esperanças que da tornada a fortaleceria e favoreceria no que pudesse, por não ter tempo pera mais e por não se estrovar do negocio, a que vinha, do Rio de Janeiro. Esta Capitania se tem por a milhar cousa do Brasil depois do Rio de Janeiro, nella temos huma casa onde [se] faz fruyto com os Christãas e com os escravos e com huma geração de Indias que ahi estaa, que se chamão do Gato que ahi mandou vir Vasco Fernandez do Rio de Janeiro; entende-se tambem com alguns Topinaquins e se Noso Senhor der tam boa mão ao Governador à tornada, como lhe deu em todas as outras partes, que os ponha a todos em sojeição e obediencia, poder-se-há fazer muyto fruyto porque este hé o milhor meyo que pode aver pera sua conversão.

Dali nos partimos ao Rio de Janeiro e asentou-se no conselho que darião de supito no Rio de noite pera tomarem os franceses desapercebidos, e mandou o Governador a hum, que sabia bem aquelle Rio, que fosse diante guiando a armada e que ancorasse perto donde podessem os bateis deitar gente em terra, a qual avia de ir por certo lugar, mas isto aconteceo de outra maneira do que se ordenava; porque esta guia, ou por não saber, ou por não querer, fez ancorar a armada tam

longe do porto que não poderão os bateis chegar se não de dia com andarem muyta parte da noite e foy logo vista e sentida a armada.

No mesmo dia que chegamos se tomou huma nao que estava no Rio pera carreguar de brasil, a gente della fugio pera terra, e recolheo-se na fortaleza, tomou- se conselho no que se faria e, vendo todos a fortaleza do sitio em que esta vão os franceses e que tinhão consiguo os Indios da terra, temerão de a com baterem e mandarão pedir ajuda de gente a S. Vicente, mas os de Sam Vicente sabendo primeiro da vinda do Governador ao Rio já vinhão por caminho e como chegarão determinou-se o Governador de os combater, mas toda a sua gente lho contradizia porque tinha já bem espiado tudo e pareciaolhes cousa imposivel entrar cousa tam forte e sobre isso lhe fizerão rnuytos desacatamentos e desobediências.

Mas eu sobre isto tudo, a mayor dificuldade que lhe achava era ver aos capitães da armada tem pouco unidos com o Governador, e ver tam pouca obediencia em muytos toda aquella viagem em que me achey presente. E isto naceo de se dizer publicamente e saberem que o Governador estava mal acreditado no Reyno com V. A. e que se avião lá dado capitulos delle por pesoas que com paixão emformarão lá mal a V. A e parece que com pouca rezão, porque as mais das causas me passavão pola mão, como terceiro que era nellas, pera as remediar. E por isso quem quer se lhe atrevia e por dizer que tinha lá imigos no Reyno e poucos que favorecessem sua causa, o que lhe tirou muyto a liberdade de bem governar, mas agora ouça V. A. as grandezas de Nosso Senhor.

E a primeira me parece que foy dar Nosso Senhor graça ao Governador pera saber sofrer tudo e dar-lhe prudencia pera em tal tempo saber trazer as vontades ele todos, tam contrairas à sua, a condescenderem com aquillo que elle entendia e Nosso Senhor lhe inspirava, e foy assi que a huns por vergonha a outros por vontade lhe pareceo bem de cometerem a fortaleza.

A 2a maravilha de Nosso Senhor foy que depois de combatida dous dias e não se podendo entrar e não tendo já os nossos polvora mais que a que tinhão nas camaras pera atirar e tratando-se já corno se poderião recolher aos navios sem os matarem todos, e como poderião recolher a artelharia que avião posto em terra, sabendo que na fortaleza estavão passante de 60 franceses de peleja e mais de 800 Indios e que erão já mortos dos nossos 10 ou 12 homens com bombardas e espin- guardas: mostrou então Noso Senhor sua misericórdia e deu tam grande medo nos franceses e nos Indios que Com elles estavão que se acolherão da fortaleza e fugi- rão todos deixando o que tinhão sem o poderem levar.

Estes franceses seguião as heresias de Alemanha principalmente as de Calvino que está em Genevra, segundo soube aqueelles mesmos, e polos livros que lhe acharão muytos, e vinhão a esta terra a samear estas heresias palo gentio, e segundo soube tinhão mandados muitos meninos do gentio a aprendê-Ias ao mesmo Calvino e outras partes pera depois serem mestres, e destes levou alguns o Villagalhão que era o que fizera aquella fortaleza e se intitulara Rey do Brasil.

Deste se conta que dizia que quando EI-Rey de França o não quisesse favorecer pera poder ganhar esta terra, que se a via de ir confederar com o Turco, prometendo·lhe de lhe dar por esta parte a conquista da India e as naos dos Portugueses que de lá viessem, porque poderia aqui fazer o Turco suas armadas com a muyta madeira da terra, mas o Senhor olhou do alto tanta maldade, e ouve misericórdia da terra e de tanta perdição de almas et mentita est iniquitas sibi r, e desfez-lhe o ninho e deu sua fortaleza em mãos dos Portugueses, a qual se destruyo o que della se podia derubar, por não ter o Governador gente pera logo povoar e fortificar como convinha.

Esta gente ficou antre os Indios e esperão gente e socorro de França, mayormente que dizem que, por EI-Rey de França o mandar, estavão ali pera descobrirem os metais que ouvesse na terra, assi há muytos franceses espalhados por diversas, pera milhar buscarem.

Parece muyto necessario povoar-se o Rio de Janeiro e fazer-se nelle outra cidade como a da Bahia, porque com ella ficará tudo guardado, assi esta Capitania de Sam Vicente como a do Spirito Santo que agora estão bem fracas, e os franceses lançados de todo fora e os Indios se poderem milhar sojeitar.

E, pera isso, mandar mais moradores que soldados porque doutra maneira pode-sse temer com rezão, ne redeat immundus spiritus cum aliis septem nequioribus se, et sint novissima peiora prioribus porque a fortaleza, que se desmanchou, como era de pedras e rocha que cavarão ao picão, facilmente se pode tornar a reedificar, e fortalecer muyto milhor.

Depois de tomada a fortaleza, deu o Governador em huma Aldeia de Indios e matou muytos, e não pode fazer mais porque tinha necessidade de concertar os navios, que das bombardadas ficarão mal aviados e fazê-los prestes pera se tornarem; o que veo fazer a esta Capitania de S. Vicente, onde eu fico por assi o ordenar a obediencia. O que mais ouver pera escrever o Provincial, que agora hé, o Padre Luis da Grã, o fará da Bahia. Nosso Senhor Jesu Christo dê a V. A. sempre a Sua graça. Amen.

Benzer Belgeler