O debate sobre os impactos ambientais decorrentes dos padrões de consumo da sociedade industrial não caminharam no mesmo ritmo da emergência do discurso ambiental, só tendo ganhado destaque na década de 90 do século XX, quando ocorreu um deslocamento discursivo da questão ambiental. Assim, o debate, antes voltado para os problemas ambientais relacionados à produção, passou a considerar os impactos ambientais decorrentes dos hábitos de consumo (PORTILHO; RUSSO, 2008).
Portilho (2005) identifica dois “deslocamentos” nos debates sobre as principais causas dos problemas ambientais. Até a década de 1970, o poder político dos países industrializados contribuía para manter uma visão estreita da questão ambiental, na qual os problemas eram atribuídos ao crescimento demográfico, experimentado, principalmente, pelos países em desenvolvimento, o que resultaria em uma grande pressão humana sobre os recursos naturais. Com a realização da Conferência de Estocolmo, no entanto, se tornou evidente que as nações industrializadas figuravam como as principais consumidoras de recursos e energia do Planeta e como maiores poluidores. Essa visão contribuiu para o primeiro deslocamento das atenções para os padrões de produção dos países do Norte ocidental, com o início de gradual internalização do cuidado ambiental nos meios de produção em decorrência das políticas públicas, da pressão dos movimentos ambientalistas e das ações voluntárias dos empresários que buscavam agregar valor aos seus produtos por meio do apelo ambiental.
O segundo deslocamento do discurso dominante acerca da problemática ambiental decorreu dos debates e documentos resultantes da Rio 92. A Agenda 21, a Declaração do Rio e o Tratado das ONGs apontaram para a relação entre os estilos de vida e consumo e os impactos sobre os recursos naturais. Assim, nesse momento, o segundo, o foco dos problemas ambientais passou a ser o consumo, em detrimento da visão anterior que privilegiava o papel da produção (PORTILHO, 2005).
Spangenber (2001 apud PNUMA, 2001) acentua que o consumo não possui conceito bem definido, mas, em sentido amplo, representa a quantidade de recursos extraídos do meio ambiente, visando, em regra, a fins econômicos. O autor aponta que a maior parte desses recursos é imediatamente desperdiçada como lixo.
Ao privilegiar uma abordagem conceitual que enfoca os recursos extraídos do meio ambiente, e não os produtos que figuram como resultado do seu beneficiamento, o autor possibilita maior percepção sobre o impacto ambiental disso decorrente.
A definição de consumo mais conhecida, no entanto, é aquela que parte da concepção de que todos os bens são produzidos visando a atender a demanda dos consumidores. Nessa perspectiva, as economias de mercado não existem com um fim em si mesmas, sendo legitimadas pela busca da mais ampla satisfação das necessidades humanas. Assim, o consumo figuraria como único fim e propósito de toda a produção (HANSEN; SCHRADER, 1997).
Nessa perspectiva, a necessidade pode ser caracterizada como um sentimento de privação combinado com um desejo voltado para eliminar essa privação. Quando a
necessidade se encontra focada em um bem específico, combinada com a vontade de comprá- lo, ela se torna economicamente relevante (HANSEN; SCHRADER, 1997).
Na visão marxista, a necessidade leva o homem a modificar os recursos naturais, atribuindo-lhes novas formas para promover o atendimento dessas necessidades. Com o advento das mudanças nas formas de produção decorrentes da Revolução Industrial, o homem deixa de atuar como elemento criador do produto por meio de sua força de trabalho, promovendo-se um rompimento entre a extração e manuseio dos recursos naturais e a obtenção do bem como resultado final. O “produto” transforma-se, então, em “mercadoria, misteriosa em sua origem e atiçadora do desejo humano.” (MANCEBO et al., 2002. p. 326).
Edifica-se, desde então, a naturalização do consumo decorrente da lógica da sociedade industrial, onde o ser humano é compelido a consumir sempre mais. O consumo passa a ser visto como o sustentáculo do um sistema industrial baseado na produção em larga escala, resultando na compreensão do que ficou denominado de “consumismo”, em que as necessidades são transformadas em falsas necessidades (MANCEBO et al., 2002).
Para Baudrillard (2007), o consumo se mostra como uma comunicação, porquanto as pessoas passam a consumir signos e não objetos, de forma que os bens consumidos perdem sua conexão com qualquer função ou necessidade definida. Ao mesmo tempo, o consumo também figura como um instrumento de classificação e diferenciação social, sendo percebido como um sistema não amparado na necessidade ou prazer, mas nos signos e diferenciações, promovendo a demarcação das relações sociais.
No mesmo sentido, Kanan (2011) destaca que, modernamente, o consumo se desatrelou do que deveria ser seu objetivo primordial: a satisfação das necessidades básicas, resultando na configuração do consumo de conceitos, cujos valores vinculados aos produtos são determinantes do ato de consumir.
Se a sociedade de consumo já não produz mitos é porque ela constitui o seu próprio mito. Em vez do diabo que trazia o ouro e a riqueza (pelo preço da alma) surgiu a Abundância pura e simples. Em vez do pacto com o Diabo, o contrato de Abundância. Por outro lado, assim como o aspecto mais diabólico do Diabo nunca foi existir, mas sugerir que existe - também a Abundância não existe, basta-lhe, porém, fazer crer que existe, para se transformar em mito eficaz. (BAUDRILLARD, 2007, p. 211).
Portilho (2005, p. 8) faz referência à desigualdade social presente nas práticas de consumo e caracteriza o consumo como “lugar de conflitos entre classes”, uma vez que as desigualdades de renda e de participação na estrutura produtiva são reproduzidas na
desigualdade na distribuição e apropriação dos bens. “Assim, consumir é participar de um cenário de disputas pelo que a sociedade produz e pelos modos de usá-lo”.
Quantificando a desigualdade social mencionada por Portilho (2005), Kanan (2011) menciona que 1/5 da humanidade (cerca de 1,2 bilhão de pessoas) faz parte do grupo de alto consumo, responsável por 81,2% do comércio mundial; “[...] este grupo consome este grupo consume 92% dos carros privados, 75% da energia, 80% do ferro e aço, 81% do papel, 85% dos produtos químicos e 86% do cobre e alumínio [...]”. O segundo grupo, correspondente a 3/5 da população mundial (cerca de 3,6 bilhões de pessoas), movimenta 17,8% do comércio mundial e consome de 10 a 15% da energia e produção industrial da Terra. O terceiro grupo mencionado pela autora é composto por 1/5 da população mais pobre do Planeta (cerca de 1,2 bilhão de pessoas) e responde por apenas 1% do comércio mundial. “Este grupo não consome ou pouco consome veículos, eletricidade, telefone, computadores, Internet, por exemplo.” (KANAN, 2011, p. 612).
Malgrado a desigualdade nas práticas de consumo, Betiol et al. (2012) destacam uma situação alarmante decorrente do aumento do padrão de consumo e da expectativa de vida das populações, que pressionam ainda mais os recursos naturais já explorados ao limite pelas camadas sociais de maior renda da população mundial. Assim, os autores apontam que, até 2030, o consumo global de água deve crescer 30%, enquanto o desmatamento deve superar 175 milhões de hectares.
A percepção do vínculo entre o consumo de produtos e serviços e o impacto do uso dos recursos naturais nos processos produtivos é apontada por Portilho e Russo (2008) como reflexo de fenômeno mais amplo de “ambientalização”, em que diversos segmentos da sociedade incorporaram e ressignificaram o ideário ambientalista.
Assim, os problemas ambientais decorrentes da sobre-exploração dos recursos naturais impulsionaram os debates sobre os padrões de consumo, resultando no nascimento de expressões como “consumo verde” e “consumo sustentável”.
Na perspectiva de Portilho e Russo (2008), a expressão “consumo verde” possui caráter menos abrangente, restando inserida na concepção de “consumo sustentável”, uma vez que diz respeito apenas aos critérios de sustentabilidade ambiental considerados na escolha de produtos, cuja fabricação tenha levado considerado a eliminação ou redução dos impactos causados ao meio ambiente.
O denominado “consumo verde” é expresso como prática resultante da conjunção de três fatores inter-relacionados: o advento do ambientalismo público; a incorporação das questões ambientais no setor empresarial; e, desde a década de 1990, a emergência da
preocupação com o impacto causado pelos hábitos de consumo da sociedade. Considerando a combinação desses três elementos, as ações comportamentais das pessoas, como consumidores passaram a ser consideradas como estratégia para o progresso em busca de uma sociedade sustentável (PORTILHO, 2005).
O “consumidor verde” passou, então, a ser definido como aquele que, além da variável qualidade/preço, leva também em conta, ainda, a variável ambiental na sua atuação como consumidor de bens e serviços, optando pela troca de uma marca por outra, ou até mesmo suspendendo o consumo de determinado bem, como meio de levar os produtores a perceberem as mudanças na demanda.
As ações de escolhas individuais motivadas por preocupações ambientais passaram a ser vistas como essenciais, e o consumidor como o responsável, através de suas demandas e escolhas cotidianas, por mudanças nas matrizes energéticas e tecnológicas do sistema de produção. (PORTILHO, 2005, p. 3).
Portilho (2005) enfatiza que a ideia de “comprar um futuro melhor”, capitaneada pelo “consumo verde”, logo seria posta em questão, uma vez que ela atribui apenas ao cidadão a responsabilidade pelos impactos ambientais decorrentes do consumo, sem atacar, expressamente, os processos de produção e distribuição.
A estratégia de consumo verde pode ser analisada, ainda, como uma espécie de transferência da atividade regulatória em dois aspectos: do Estado para o mercado, através de mecanismos de auto-regulação; e do Estado e do mercado para o cidadão, através de suas escolhas de consumo. Assim, ambos – governos e empresas – encorajariam a responsabilidade individual, implícita ou explicitamente, através de referências ao poder do consumidor, ao “bom cidadão” ou à valorização da contribuição pessoal de cada um, transferindo a responsabilidade para um único lado da equação: o indivíduo. (PORTILHO, 2005, p. 3).
Em adição, a estratégia do “consumo verde”, além de não abordar questões como a redução do consumo, a descartabilidade e a obsolescência planejada, também não questiona a problemática da desigualdade no acesso aos bens ambientais e, na realidade, enfatiza produtos elitizados que só podem ser adquiridos por determinada parcela da sociedade (PORTILHO, 2005).
Por sua vez, opondo-se ao conceito dominante, Gallastegui (2002) entende o “consumo verde” como a decisão de comprar e de não comprar realizada pelos consumidores, baseada, pelo menos em parte, em critérios ambientais ou sociais.
Com origem nos questionamentos sobre a lógica do “consumo verde”, surgiram propostas como a do “consumo sustentável”, que enfatiza as ações coletivas e as mudanças políticas e institucionais. Na proposta do “consumo sustentável”, o consumidor, individualmente considerado, deixa de ser o principal agente de transformação, ganhando destaque o impacto das ações coletivas e das intervenções políticas, como medidas de grande relevância para promover a modificação dos atuais padrões de consumo.
Ações públicas poderiam provocar mudanças no impacto ambiental do consumo, com um custo menor do que o de ações individuais, através, por exemplo, da melhoria dos transportes públicos em detrimento do transporte individual. Essa abordagem é interessante, especialmente, quando preocupações ambientais não- utilitárias ficam restritas a um pequeno grupo na sociedade. Além disso, as ações públicas poderiam apresentar melhores resultados ambientais também através de taxas que seriam melhor distribuídas na sociedade. [...] Dessa forma, pode-se argumentar que ações coletivas e intervenções políticas podem efetuar ajustes no nível e na estrutura do consumo a um custo menor para os consumidores. Além disso, facilitam a distribuição deliberada dos custos e benefícios desses ajustes de uma maneira mais equitativa do que confiando-se exclusivamente nas ações individuais. (PORTILHO, 2005, p. 4).
Assim, a proposta do “consumo sustentável” se diferencia, ganhando contornos bem mais amplos do que a inaugurada pelo “consumo verde”, não se limitando a mudanças no design de produtos, uma vez que visa a atender um novo nicho de mercado. “É verdade que não deixa de destacar o papel do consumidor, mas o faz priorizando suas ações individuais ou coletivas, como práticas políticas.” (PORTILHO, 2005, p. 5).
Com amparo na proposta expressa no Simpósio de Oslo sobre Produção e Consumo Sustentável, em 1994, adotada pela terceira sessão da Comissão para Desenvolvimento Sustentável da ONU (CDS III), em 1995, a expressão consumo sustentável foi definida como
[...] o uso de bens e serviços que respondem às necessidades básicas e proporcionam uma melhor qualidade de vida, e ao mesmo tempo minimizam o uso de recursos naturais, materiais tóxicos e emissão de rejeitos e poluentes em seu ciclo de vida, de forma a não comprometer as necessidades das gerações futuras. (ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS, 2001, p. 5).
No documento intitulado “Rumo ao consumo sustentável na América Latina e Caribe”, o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) aborda a estreita vinculação entre as expressões “consumo sustentável” e “desenvolvimento sustentável”,
fazendo referência à difusão formal desta última com o advento do Relatório de Brundtland, em 1987 (ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS, 2001).
Além de vislumbrar essa proximidade conceitual, Biderman et al. (2008) destacam que a busca de um modelo de desenvolvimento sustentável passa, necessariamente, pela modificação dos atuais padrões de produção e consumo.
O conceito do desenvolvimento sustentável não reflete somente as necessidades de hoje, mas alcança as gerações futuras, que irão herdar as conseqüências de nossas decisões e ações. Para atingir um modelo sustentável, não podemos apenas focar questões ambientais, mas temos garantir justiça social e uma economia saudável. Mais do que manter vivo o debate, é preciso cultivar a consciência de que o atual modelo de consumo e produção demanda mais de nossos recursos do que sua capacidade de renovação. E a perspectiva de um mundo transformado pelo aquecimento global e suas conseqüências apenas agrava o cenário de dificuldades que encontraremos nesse futuro não muito distante. (P. 15).
Portanto, os níveis de consumo são sustentáveis quando são capazes de promover a satisfação das necessidades básicas, o desenvolvimento dos potenciais humanos e podem ser replicados por todo o Planeta, sem comprometer a capacidade de suporte dos ecossistemas (MARX; PAULA; SUM, 2010).
Assim, o grande desafio para ambientalistas e governos é bem maior do que influenciar consumidores. Na realidade, torna-se necessário promover a transformação de um sistema global pautado em uma produção insustentável, que, em muitos casos, é mascarada pelas práticas de consumo sustentável. Nesse sentido, qualquer ação voltada para o progresso, objetivando o alcance de um consumo sustentável, vai demandar uma contabilidade dos custos de maneira mais ampla e aprofundada, e uma melhor distribuição de renda na contextura local, nacional e global (DAUVERGNE, 2010).