Um dos meios de ação muito utilizados pelos movimentos sociais é o protesto, seja numa conjuntura democrática ou ditatorial, para pressionar de forma mais intensa a ação governamental. Segundo Della Porta e Diani (2006), um protesto pode ser definido por sua capacidade de mobilizar a opinião pública por meio de formas pouco convencionais, que escapam à rotina, e de assim pressionar aqueles que tomam as decisões ou fazem as leis, consideradas injustas ou inadequadas. Esse método de influir na política ampliou-se nos anos 60 e 70, indo além da oposição parlamentar, das eleições e das práticas diplomáticas como meios de negociação de interesses.
Diante da discussão anterior sobre participação, que apontou para as tensões entre sociedade política e civil, mostra-se muito pertinente a análise do Conselho Municipal de Transporte e Trânsito de São Paulo, diante da conjuntura em que ele foi criado. O Ciclo de Protestos que ocorreu em Junho de 2013 apontou para um grande descontentamento geral da população brasileira, que saiu às ruas em passeatas organizadas, embora sem uma liderança única, com cartazes e faixas que pediam mudanças em diversas áreas sociais, levando entre vinte e quatro mil a um milhão de brasileiros às ruas em municípios de todo o país (dentre capitais e cidades do interior), entre 17 e 27 de junho, de acordo com infográfico do Portal G1 (INFOGRÁFICO, 2013). Além disso, as manifestações colocaram em evidência a agenda da mobilidade urbana, cuja discussão havia sido intensificada no ano anterior, com a Política Nacional de Mobilidade Urbana.
Em 2013, o município de São Paulo chegou numa situação-limite: a qualidade do transporte público oferecido não condiz com o preço pago pelo cidadão. O Movimento Passe Livre, de caráter autonomista, iniciou uma série de manifestações de rua no primeiro semestre do ano, expressando o descontentamento com a medida. Vários cidadãos aderiram à causa, indo também para as ruas, principalmente após as respostas violentas do Estado aos manifestantes.
No dia 06/06, cerca de 150 pessoas foram à Prefeitura de São Paulo, para protestar contra o
42 “Os Conselhos podem ser populares ou institucionais. Conselhos populares são os que não necessitam necessariamente de regulamentação do poder público, mas que atuam diretamente junto à comunidade e se organizam autonomamente. Já os conselhos institucionais possuem legislação própria, regulamentação em cada um dos níveis de governo e possuem especificidades ligadas à própria esfera de atuação, distinguindo entre si quanto à composição, atuação, às atribuições, às regras e às normatizações”.
“Em termos de características comuns, os conselhos podem ser classificados em consultivo, deliberativo ou participativo. O primeiro (conselho consultivo) tem caráter opinativo, ou seja, é ouvido pelos governantes, mas estes podem ou não agir de acordo com as indicações do conselho. O segundo (conselho deliberativo) age em conjunto com o governo e demanda uma ampla e diversificada participação, tanto da sociedade civil quanto de membros do poder público, visto que decide diretamente sobre a formulação e implantação das ações do poder público. Já o terceiro (conselho participativo), além de monitorar as ações e gastos públicos, também sugere ações e políticas públicas, exercendo e fomentando o controle social de forma ampla e participativa” (CONTROLE…, ?).
aumento da tarifa de ônibus no município; no dia seguinte, cinco mil pessoas se reuniram no Largo da Batata e, nas duas vezes, a polícia reagiu de forma violenta. No dia 10/06, cerca de 300 manifestantes se reuniram no Rio de Janeiro para protestar contra o aumento na tarifa de ônibus, entrando em confronto com policiais. No dia seguinte, 12 mil protestaram em São Paulo, já incluindo pautas que iam além da tarifa do transporte público; a tropa de choque revidou com balas de borracha, bombas de gás lacrimogêneo e de efeito moral.
No dia 13/06, houve protestos também em outras cidades. Dos cinco mil que participavam em São Paulo, 300 foram presos e 100 detidos para averiguação. A partir dessa data, a violenta repressão policial levou mais pessoas às ruas em defesa do direito constitucional de manifestação e contra a atuação da polícia em geral, agregando também múltiplas pautas (NOBRE, 2013a,b). Em 17/06, houve um crescimento dos protestos em várias regiões do país, com vários cartazes pedindo paz. Como consequência, as reivindicações começam a se ampliar: contra a PEC 3743, a “cura gay”,
os gastos com estádios para a Copa do Mundo em contraposição aos problemas da saúde e da educação. Em Brasília, houve a ocupação da Esplanada dos Ministérios e do teto do Congresso Nacional, numa demonstração de força e poder da população.
No dia seguinte (18/06) ocorreram protestos em mais de 15 estados, e as reivindicações incluíam agora a reforma política. Em 19/06, houve redução da tarifa do transporte de ônibus em São Paulo de R$ 3,20 para R$ 3,00, o que representou o fim da segunda etapa de protestos.
A partir do dia 20/06, data reconhecida por vários autores como um marco nos protestos (FERNANDES E ROSENO, 2013; GOHN, 2014b; MONDAINI, 2014; BARROS, 2014; LIMA, 2014), com a vitória da primeira demanda, a redução das tarifas, outras causas ganharam os cartazes e vozes dos protestos (SOARES, 2013; CAMPOS JR., 2014). Iniciou-se uma nova fase, com ampliação do foco das manifestações, expressando múltiplas demandas. Desse dia em diante, as manifestações foram diminuindo gradativamente, em número de encontros e em quantidade de pessoas.
O Gráfico 1 apresenta a quantidade de manifestantes nos dias de protestos na região Sudeste, de acordo com informações disponibilizadas pelo Portal G1 (INFOGRÁFICO, 2013) e sistematizadas neste trabalho. É importante ressaltar que são levados em conta os dados numéricos; os municípios onde não há número estimado de manifestantes, mas somente a menção da ocorrência de uma manifestação, foram descartados. Optamos também por apresentar os dados dividindo cada estado em dois grupos: capital e outras cidades, com vistas a observar a ocorrência 43 Proposta de Emenda Constitucional daria poder exclusivo à polícia para realizar investigações criminais, o que proibiria as investigações do Ministério Público. Autoria do deputado federal Lourival Mendes (PT do B/ MA), em 2011. Após os Protestos de Junho de 2013, ela foi rejeitada.
das manifestações no interior.
Fonte: elaboração própria, a partir de dados disponibilizados no Portal G1.
Na região Sudeste, entre 17 e 19 de junho, as manifestações se concentraram nas capitais e em alguns municípios do interior paulista e fluminense. Em Belo Horizonte, Rio de Janeiro e São Paulo ocorreram protestos regulares de 17 a 26 de junho. No dia 20/06, Vitória surpreendeu, contabilizando 100.000 manifestantes nas ruas, mesma quantidade de São Paulo, enquanto no Rio de Janeiro houve cerca de 300.000 pessoas; em vários municípios do interior dos quatro estados ocorreram protestos. Após essa data, observa-se o mesmo padrão já mencionado antes: as manifestações se tornam menores e mais esparsas; destaque para Belo Horizonte, com 70.000 pessoas em 22/06 e 50.000 em 26/06. É interessante resgatar o dado apresentado anteriormente: as capitais Rio de Janeiro, São Paulo e Belo Horizonte criaram Conselhos de Transporte ainda em 2013, possivelmente em resposta às manifestações.
Os dados evidenciam que a redução dos preços das passagens de ônibus, em 19/06, repercutiram de forma ampla, modificando a causa central dos protestos e evidenciando que a população ainda não se contentara com essa medida. Conforme a literatura revisada apontou (GOHN, 2014b; FERNANDES & ROSENO, 2013; MONDAINI, 2014; BARROS, 2014), outras questões sociais ganharam maior relevância em 20/06, principalmente a educação e a saúde, por meio de uma comparação com a construção dos estádios para a Copa do Mundo, de modo que o dia tornou-se um marco na cronologia protestos.
Gohn (2014b) efetuou uma discussão conceitual e definiu as manifestações como “[...] parte de uma nova forma de movimento social composta predominantemente por jovens, escolarizados, predominância de camadas médias, conectados por e em redes digitais, organizados horizontalmente, críticos das reformas tradicionais da política” (GOHN, 2014b, p.12).
Conforme já mencionado anteriormente, a origem das manifestações ocorreu com as passeatas do Movimento Passe Livre, no primeiro semestre de 2013 em São Paulo, e os atos de violência cometidos pela polícia contra eles. No entanto, os protestos ultrapassaram muito a dimensão do preço da passagem de ônibus (SOARES, 2013). “[...] A luta pelo ‘passe livre’ transbordou a própria performance do MPL, tornando-se um ciclo de protestos e sendo apropriado pelo público maior, a partir do momento em que a plateia acessou e criticou a reação desproporcional da polícia paulista [...]” (DOWBOR & SZWAKO, 2013, p.55).
De acordo com Fernandes e Roseno (2013) e Gohn (2014b), entre os dias 06 e 13 de junho, os protestos se concentraram na causa da redução das tarifas, liderados pelo MPL e recebendo apoio de alguns partidos de esquerda. Segundo Rodrigues (2014), Gonçalves (2014) e Mendonça & Daemon (2014), a grande imprensa caracterizava os manifestantes como vândalos e tentava esvaziar o conteúdo reivindicado ou moldá-lo aos seus interesses, resumindo-o à crítica aos políticos, de forma genérica.
Ao perceber o grande apoio do povo às manifestações, a visão da mídia e dos governantes sobre os protestos começa a mudar, diante da violência policial: com o aumento do número de manifestantes, evidenciando um apoio social à causa, as passeatas passam a ser vistas como um direito democrático, um ato de cidadania (SCHERER-WARREN, 2014; GOHN, 2014a; GONÇALVES, 2014). Os principais meios de comunicação adotaram uma cobertura nacional e mais ampla, saindo da dimensão puramente criminalizante e investigando comportamentos, reivindicações, ações policiais e de grupos radicais.
Conforme Della Porta e Diani (2006) apontaram, as mídias de massa têm um papel relevante no contexto dos protestos: elas espalham a mensagem dos movimentos envolvidos, o que publiciza a causa e tem o potencial de aumentar o número de seguidores e de recursos. Com a amplitude assumida pelos protestos após 13 de junho, mesmo com a criminalização dos manifestantes, a solidariedade do cidadão comum à violência sofrida por eles fez com que mais pessoas fossem às ruas (RIBEIRO, 2014). Os veículos de comunicação de massa começaram a distinguir os “bons” dos “maus” manifestantes, os “cidadãos de bem” e os “outros” que não teriam direito legítimo ao uso da cidade por perturbarem a ordem, retirando assim qualquer conteúdo radical e criminalizando grupos de ação direta44.
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Os black blocks, segundo Della Porta e Diani (2006), operam a “lógica do dano”: esta pode ser reflexo de violência política, além de ser um método de chamar a atenção da mídia para a causa. Esse grupo também quer evidenciar a grande desigualdade vigente no atual sistema econômico, quebrando locais que representam grandes corporações. Portanto, não se trata de uma violência irracional, mas de atos performáticos, com um objetivo bem definido, e que não visa atingir pessoas, ao contrário dos meios de atuação da polícia no “combate” aos manifestantes.
O grande problema, também apontado por Della Porta e Diani (2006), é que a violência polariza o conflito, assim como aconteceu nos protestos: pesquisas do Datafolha (2013a, b) em 13 e 18/06/2013, na cidade de São Paulo, constataram que os entrevistados consideraram os manifestantes mais violentos do que deveriam, e que eram contra atos violentos, como a tentativa de invasão do Palácio dos Bandeirantes. Os manifestantes pacíficos não reconheciam como legítimos os “quebra-quebra” efetuados pelos black blocs, denunciando sempre que ocorresse uma ação desse tipo. O grande motivo dessa rejeição deve-se à legitimidade do monopólio do uso da força detido pelo Estado, embora suas ações de contenção, por meio de violência policial, sejam questionáveis.
Nogueira (2013) conceituou os protestos a partir de uma crise de múltiplos aspectos: econômicos, socioculturais, políticos, éticos, institucionais e governamentais. No entanto, o sistema político em sentido estrito foi o lado mais visível dessa crise, diante do cansaço da população brasileira com o modo de condução da política, reivindicando por mais participação. Sendo assim, os manifestantes estabeleceram uma relação de cooperação ou, pelo menos, de não-competição, segundo Della Porta e Diani (2006), uma vez que não havia uma disputa por membros ou recursos, embora os manifestantes que cometiam atos de vandalismo fossem denunciados pelos outros presentes e os partidos políticos tenham sido fortemente rejeitados.
As multidões, de acordo com Singer (2013), Paulino (2014) e Adoue (2014), eram compostas por uma juventude órfã de organização popular, não se reconhecendo nos tradicionais partidos (de direita e de esquerda), movimentos sociais, entidades e sindicatos, visto que estes se burocratizaram e se converteram em espaços de ascensão social. Nobre (2013a) também confirmou a rejeição à divisão entre direita e esquerda, pelo menos enquanto autoafirmação identitária, visto que essa juventude, nascida a partir dos anos 90, nunca viu uma polarização efetiva. Por isso, os protestos tenderam ao horizontalismo, para romper com o verticalismo dessas organizações sociais existentes.
Silva (2014a) apresentou os grupos presentes nas ruas como movimentos nem de direita, nem de esquerda; nem liberais, nem socialistas; nem comunistas, nem anarquistas, mas um pouco comunicação cumpriram o papel de difusores deste discurso polarizado.
de cada coisa, podendo ainda incluir ideologias religiosas; o que os uniu foi o descontentamento e o desejo de mudar o presente. Essa rejeição aos grupos tradicionais foi constatada em pesquisa do IBOPE, no dia 20/06, em várias cidades: dentre os entrevistados, 61% demonstra muito interesse por política, mas 83% não se sentem representados pelos políticos brasileiros, 89% não se sentem representados por um partido político, 96% não são filiados a partidos e 86% não pertencem a sindicatos, entidades de classe ou estudantis. A maioria dos entrevistados (63%) é jovem, entre 14 e 29 anos, está no ensino médio ou superior (92%) e trabalha (76%), sendo que 56% possui renda familiar entre 2 e 10 salários mínimos (VEJA…, 2013).
As manifestações também não podem ser classificadas como apenas de classe média. Com base em dados empíricos, Singer (2013, p.31) afirmou que “[...] o novo proletariado ou precariado, conforme sugerido por alguns autores, foi para as ruas”. Nobre (2013a) e Mendonça & Daemon (2014) ressaltaram o número elevado de protestos que surgiram nas periferias, bem como a presença de moradores das comunidades nas manifestações no Rio de Janeiro. Ainda há também jovens que, em Florianópolis, produziam-se para os protestos, tiravam fotos e postavam nas redes sociais, registrando sua participação em “praça pública” (SCHERER-WARREN, 2014).
Singer (2013) ressaltou, ao comentar a postura de lideranças do MPL em entrevista ao programa Roda Viva (13/06/2013), o surgimento de uma “nova esquerda”, em sintonia com os movimentos Occupy e os Indignados da Espanha45: eles se recusaram a expor aspectos pessoais,
visto que o objetivo era falar da questão das tarifas. O problema, segundo o autor, é que isso abriu espaço para diversas visões de mundo nos protestos, incluindo a direita, que tentou impor a bandeira da corrupção como maior causa, por impregnar facilmente no senso comum. Ele também apontou a presença de um “centro pós-materialista” entre os manifestantes, preocupado com o bem- estar e a participação social, visto que esse grupo já resolvera seus problemas materiais.
Durante os dias de protestos também compareceram muitas pessoas descontentes com a conjuntura política, que não integram nenhum movimento ou partido: desde os manifestantes apartidários, que optavam por não seguir posicionamentos de nenhum partido, como também os antipartidários, que eram contrários à participação de partidos em atos, demonizando-os e agindo com hostilidade (CAMPOS, 2014). As reivindicações iniciais canalizaram os diversos descontentamentos do cidadão comum e conseguiram levá-lo para as ruas, fato que deu corpo aos protestos. Segundo Della Porta e Diani (2006, p.138): “At times of collective effervescence, when enthusiasm is high and the will to participate is strong, it is easier to mobilize people and resources even informally as individuals”. A quantidade de pessoas que participou é relevante:
45 Para uma síntese sobre esses fatos, ver a segunda parte do livro de GOHN, M..G. (2014b). Manifestações de junho de
The logic of number is coherent with the principles of representative democracy: an attempt is made to influence public opinion, the final repository of political power. Given that demonstrators are also voters, it is assumed that their representatives will change their position rather than risk not being reelected
(DELLA PORTA E DIANI, 2006, p.172).
Momentaneamente, os protestos mudaram alguns aspectos da política vigente no Brasil: mesmo com essa falta de continuidade, as ruas se tornaram um lugar indesejado e temido pelo Executivo e pelo Legislativo, que precisou oferecer algumas respostas rápidas, como a recusa à PEC 37, os pronunciamentos de Dilma em rede nacional propondo os “cinco pactos”46, sendo o
programa “Mais médicos” resultante de um deles, além de vários prefeitos revogando o aumento das passagens. Ao longo prazo, os protestos não alteraram tanto o cenário eleitoral do ano seguinte: a população reelegeu a presidente Dilma, embora tenha sido um momento conturbado entre as campanhas e o seu primeiro ano de governo, o processo de impeachment e a polarização das manifestações pró e contra sua ocorrência. Para o município de São Paulo, uma das mudanças ocorridas foi a criação do Conselho Municipal de Transporte e Trânsito.
3.4 Considerações sobre a Seção
Os Protestos de 2013 em várias cidades brasileiras trouxeram inquietações que conduziram ao tema desta pesquisa. Desde a Constituição de 1988, a participação se tornou uma face institucional do Estado brasileiro (AVRITZER, 2009), abrindo espaços para a sociedade civil, que demandava mecanismos para expor, debater e negociar suas demandas. A ida às ruas da sociedade de modo geral, não só de grupos organizados, com reivindicações que têm sido discutidas em conselhos gestores, conferências, orçamentos participativos, dentre outras IPs, nos conduziu ao questionamento sobre a efetividade47 desses mecanismos de participação, temática recente na
literatura da área.
Segundo Gohn (2014b, p.79) “Políticos e autoridades governamentais mostraram-se surpresos com as manifestações em junho no Brasil, especialmente no plano do governo federal que, desde 2003, desenvolve uma intensa política de institucionalização da participação social”.
46 Propostas apresentadas pela presidenta Dilma Rousseff, no dia 24/06/2013, em resposta às reivindicações dos Protestos de Junho de 2013. São elas: responsabilidade fiscal; plebiscito sobre a reforma política; pacto pela saúde; investimento em mobilidade urbana; destinação de recursos do pré-sal para a educação.
47 “Demonstrar a efetividade das IPs no desempenho de políticas públicas equivale a aferir efeitos esperados e associá- los a uma causa passível de identificação, e que esteja direta ou indiretamente associada ao trabalho dessas instituições” (GURZA LAVALLE, 2016, p.619).
Santos e Gugliano (2015, p.16) afirmam que “as intensas manifestações que ocorreram nos meses de junho e julho de 2013 contribuíram para a reflexão sobre os limites do sistema político brasileiro, mas também sobre a fragilidade dos canais de participação existentes”.
A partir da Figura 3 e da discussão apresentada percebemos que São Paulo não foi o município que mais levou pessoas às ruas. Então, por que escolhemos este estudo de caso? Por causa da proximidade temporal dos Protestos e da criação do CMTT e da semelhança temática, que podem nos mostrar a complexidade da relação entre os Protestos de Junho de 2013 e o campo da instituição participativa, no Conselho Municipal de Transporte e Trânsito de São Paulo.
Conforme aponta Natalucci et al (2013, p.140), os governos locais são instâncias privilegiadas para a problematização da convergência entre Estado e organizações sociais, pois neles surgem novas modalidades de participação, representação e gestão do conflito social. Nesse sentido, São Paulo se torna um objeto de estudo interessante, pois na cidade ocorreram as manifestações em 2013 e, ao mesmo tempo, foi criado um Conselho de Transporte.
Escolhemos o município de São Paulo por duas razões. Primeiramente, por ter sido a primeira capital a implantar um Conselho em 2013, no início do mês de julho. Em segundo lugar, por ter recebido grande destaque na mídia como o principal palco de atuação do Movimento Passe Livre e dos atos de violência cometidos pela polícia contra eles, criminalizando as reivindicações e caracterizando seus integrantes como vândalos (RODRIGUES, 2014). Em consequência disso, optamos por discutir a política de mobilidade urbana, tão relevante para uma cidade do porte de São Paulo e cujas análises na área da participação são escassas.
Os Protestos de Junho de 2013 mostraram que a grande demanda da sociedade civil é ter reconhecimento de suas necessidades, e que o caminho que a democracia deve seguir é o de dar voz à população, criando e reestruturando suas instituições e tornando-as mais inclusivas. Neste episódio, tivemos as três modalidades de participação, conforme expõe a Figura 3.
Fonte: elaboração própria.
A participação extra-institucional consiste nas passeatas de rua, como reivindicação de demandas ao Estado – no caso, a redução da tarifa de ônibus. Também incluímos a resposta do Estado, dada de duas formas: repressão violenta e atendimento da demanda. A participação não-