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AYAKTA DURMA

2. OMUZ VE SKAPULA

O povoamento da Amazônia processou-se de forma muito lenta através dos anos. A grande extensão territorial e as dificuldades de transporte eram obstáculos a serem vencidos. O único meio de transporte era o fluvial, com embarcações precárias movidas a vela ou remo (LINS, 2012, p.12).

O surgimento das grandes navegações na Europa, com objetivos de desvendar novas rotas de navegação, aprender o regime dos ventos e das águas e estabelecer contatos para povoar, colonizar, catequizar, (re)cristianizar novas terras, traz ao continente americano, mais especificamente ao Brasil, as grandes embarcações portuguesas.

Foi dada pouca atenção à Amazônia, inicialmente, mas Portugal a “redescobre” na primeira década do século XVII, temendo a perda desse importante território, visto que franceses, ingleses e holandeses anteciparam-se em navegar por

essas rotas, aprenderam a dialogar com seus povos, estabeleceram novos contatos e demonstraram interesse em se alocar em terras amazônicas (PACHECO, 2010; GADELHA, 2002).

Para a posse efetiva da imensa região com a manutenção do domínio e proteção de rotas e roteiros entre o Maranhão e o Grão-Pará, Portugal precisava de uma estratégia geopolítica, que foi feita por meio da navegação e pelo controle fluvial-terrestre entre São Luís e Belém, com a ocupação da faixa litorânea (OLIVEIRA; SCHOR, 2008; REZENDE, 2006; MAUÉS 1995 apud PACHECO, 2010). Porém, esse processo de ocupação não foi tão fácil quanto o esperado, o ponto decisivo foi a navegação pelos rios amazônicos, trazendo possibilidades de se permearem pela floresta desconhecida e construírem inicialmente fortificações, para posteriormente fundarem as atuais cidades.

Existindo uma vasta extensão de áreas importantes e difíceis de serem colonizadas, os portugueses iniciaram o processo de ocupação pela região do estuário do rio Amazonas, compreendida entre a zona que vai da foz do oceano Atlântico até o encontro com o rio Xingu pela margem direita. Portugal expulsou os franceses e fundou o forte de Santa Maria de Belém do Grão-Pará em 1616, hoje a atual cidade de Belém (PA). Com a criação do estado do Maranhão e Grão-Pará em 1621, deu-se início a uma viagem de reconhecimento e ocupação da zona do Estuário, em 1623, por meio da exploração e penetração territorial (REZENDE, 2006). A fundação do forte do presépio que originaria a cidade de Belém foi empreendida com o objetivo de materializar os objetivos econômicos e geopolíticos de repelir as incursões francesas, inglesas e holandesas e aumentar os limites territoriais pela aplicação do uti possidetis de fato (COSTA, 1992).

As áreas de Estuário já haviam sido pioneiramente ocupadas em vários locais por ingleses e holandeses que plantavam tabaco e cana-de-açúcar e por holandeses que já vinham desempenhando comércio regular com os índios do baixo Amazonas. A primeira ocupação dos portugueses se deu no forte chamado Mariocay construído pelos holandeses e hoje conhecido como o município de Gurupá (PA). Já em 1631 e 1632, os portugueses destruíram as fortificações inglesas de Cumaú e Filipe, atualmente região de Macapá. Os holandeses também foram expulsos da região do rio Xingu com a destruição das fortificações de Mandiutuba e Torrego. Os

portugueses precisaram de vinte e quatro anos para expulsar os holandeses e ingleses do Estuário do rio Amazonas que ocorreu em 1640, e deu início ao avanço pelo rio Tapajós, atual município de Santarém (PA) (REZENDE, 2006).

A consolidação do território da Amazônia brasileira foi feita em três etapas. A primeira etapa foi realizada por Pedro Teixeira, de 1637 a 1639, com a maior expedição histórica na Amazônia, saindo de Cametá (rio Tocantins no estado do Pará) até a confluência dos rios Napo e Aguarico, na fronteira com o Peru, onde confirmaram a posse das terras a oeste de povoação Franciscana, atualmente pertencente ao Equador. Foram construídas várias fortalezas a margem dos rios visando a defesa e ocupação territorial, entre elas a fortaleza do Tapajós (Santarém, PA), Pauxis (Óbidos, PA), Boca do Rio Negro (Manaus, AM), Paru (Almeirim, PA) (LINS, 2012).

Rezende (2006) descreve a segunda etapa ocorrida entre 1647 e 1651 com a viagem de Antonio Raposo Tavares de São Paulo a Belém pelo continente americano pelo rio Madeira e seus afluentes, gerando uma ocupação por missionários religiosos nos mais diversos territórios amazônicos. E a terceira etapa se deu com a conquista dos rios Negro, Branco e Solimões, e com a expulsão dos jesuítas espanhóis.

Como forma de legalização das terras amazônicas, firma-se em 1750, entre Portugal e Espanha, o tratado de Madri que determina que a terra pertença a seus ocupantes (uti possidetis). A partir desse momento vilas foram fundadas por missões religiosas e fortificações foram construídas para definir limites regionais, permitindo assim a ocupação e defesa da Amazônia para Portugal (REZENDE, 2006; COSTA, 1992). E essa mobilidade ao longo da Amazônia se deu por rios, com a construção das vilas e fortificações sempre de forma estratégica ao longo dos rios, mas quase sempre confinados a poucos quilômetros das margens.

No entanto, a conquista territorial impactou na formação social da Amazônia com a miscigenação da cultura de seus colonizadores e os povos da floresta gerando novos padrões de comportamento. Inicialmente houve a criação de uma economia agromercantil-extrativista pelos colonizadores que aproveitaram a vocação florestal e fluvial da região e criaram novas formas de estilo de vida e de trabalho ao identificarem tanta riqueza e recursos biológicos da floresta, como a

banha de tartaruga, as especiarias, as ervas medicinais, a madeira e outros. Mas contido nesse universo encontra-se a figura do índio com muitas nações, etnias, falas e na maioria das vezes rebeldes e insubmissos à invasão, e surge a apropriação de saberes da floresta para a exploração (BENCHIMOL, 1992).

A Amazônia foi vista como uma fonte de exploração de recursos inesgotáveis, causando grandes conflitos com os seus habitantes locais, mas seu território de difícil acesso e uma natureza desconhecida dificultou a ocupação e exploração em sua totalidade, auxiliando na preservação da cultura indígena que acabou sendo incorporada por novas gerações, dando às características das populações tradicionais. Mas essa herança da tentativa de dominação de um povo ainda é incorporada e vivenciada pelas populações tradicionais que são muitas vezes excluídas no planejamento político e econômico na Amazônia, como visto na urbanização a partir de 1960 com grandes projetos de infraestrutura e mineradores, ignorando a existência de comunidades locais e a necessidade de utilização das áreas próximas como fonte de subsistência, retornando a lembranças da época colonizadora em que a Amazônia era considerada com um vazio demográfico.

Dadas as características de ocupação da Amazônia pelos europeus, muito ainda permanece enraizado na forma de dominação e ocupação de território e fica clara a influência da navegação nessa ocupação, visto que as vastas bacias hidrográficas foram o principal meio facilitador para o objetivo de ocupação territorial, possibilitando a legalização de áreas para a coroa portuguesa na Amazônia brasileira. Com isso é demonstrada a importância desde os primórdios da relevância do transporte fluvial para a região.

Nogueira (2003) cita os estudos de Bittencourt da década de 1950 em que afirma que “a história da conquista territorial da Amazônia é também uma história de navegação fluvial”.

Benzer Belgeler