2.4. OMUZ EKLEMİNDE YAPILAN KLİNİK VE BİYOMEKANİK
2.4.2. Omuz Ekleminde Nümerik Modeller
Em seu relatório, Manoel Bispo apresentara um panorama das questões que envolviam a “civilização” dos índios aldeados e “selvagens” de Guarapuava em fins de 1828, destacando a necessidade de novos meios para lidar com esses indivíduos. Ele mostrara, por fim, que a situação daqueles nativos era um problema “em aberto” nesse momento: cabia aos membros do Conselho de Presidência da província de São Paulo, conforme suas atribuições, refletir, discutir e propor soluções a respeito do assunto. Ainda em 1828, o conselheiro e tenente coronel Rafael Tobias de Aguiar colocou em pauta, entre outros assuntos apresentados pelo vice-presidente em seu relatório anual, a questão dos meios de “civilização” dos indígenas de Guarapuava. Na ocasião, os membros do Conselho discutiram e deliberaram por unanimidade que algumas ordens deveriam ser enviadas ao comandante da freguesia de Guarapuava, Antonio da Rocha Loures: ele deveria cessar a “impolítica, e pernicioza pratica” de manter os índios isolados, ou seja, sem comunicação com os moradores da região e sem sair dos arredores dessa freguesia; e deveria promover o “engajamento” destes, sobretudo dos “indios pequenos”, com os fazendeiros de Guarapuava e dos “campos gerais de Curitiba”. Segundo os conselheiros paulistas, essas medidas visavam “introduzir” os indígenas no “trato civil” e, “pelo lucro de seu trabalho”, fazer com eles deixassem de ser sustentados através das contas do Império.522
Tal deliberação aponta para outro aspecto que teria contribuído para o “atraso” ou o “pouco avanço” dos índios de Guarapuava: a prática de “isolar” esses indivíduos. Essa postura foi atribuída pelos conselheiros paulistas ao comandante Loures, mas o “isolamento” daqueles nativos provavelmente era uma continuidade dos “cuidados” do vigário Chagas Lima, que indicou em sua “Memória” a necessidade de “proteger” os índios da “cubiça” dos particulares e dos “maus exemplos” da população não-índia de Guarapuava. Como mencionamos anteriormente, o convívio entre índios e brancos foi algo constante nos campos de Guarapuava ao longo das duas primeiras décadas do século XIX: até meados de 1819, indígenas, membros da Expedição e moradores ocuparam o mesmo espaço, o mencionado “Fortim Atalaia”. Entre 522 Sessão de 15 de novembro de 1828. Deliberação do Conselho – providências para o tratamento dos índios de
1819-1820, os soldados da Expedição, os moradores e próprio Chagas Lima passaram a habitar a recém-criada freguesia de N. S. do Belém de Guarapuava, a uma légua e meia do aldeamento de Atalaia; os índios, por sua vez, não ficaram o tempo todo nesse local e chegaram a morar na freguesia. E entre 1825 e 1827, após os confrontos entre Votorões e Dorins, os indígenas sobreviventes – provavelmente as mulheres, já que os homens supostamente ficavam a maior parte do tempo nas lavouras –, foram realojados junto a população da freguesia até a reconstrução das casas do novo aldeamento, “Nova Atalaia”. Além desses momentos específicos, é importante observar que durante as primeiras décadas do oitocentos ocorreu um número considerável de casamentos mistos em Atalaia, tanto entre degredados (de diversas regiões do Brasil) e índias, quanto entre luso-brasileiros e índias – uniões que aumentaram após a saída de Chagas Lima da administração desse aldeamento523. Assim, mesmo com a preocupação com os “maus exemplos” e as tentativas de “isolar” os nativos destas posturas, o vigário de Guarapuava não pôde evitar a convivência entre indígenas e não-indígenas.
Voltemos àquelas recomendações dos membros do Conselho de Presidência ao comandante Loures. No momento em que se deliberou tais recomendações, em fins de 1828, o vigário Chagas Lima já havia se retirado dos campos de Guarapuava, porém, esse religioso e o comandante Loures teriam mantido boas relações.524 Neste sentido, é possível supor que as ações e a percepção daquele religioso sobre a “cubiça” dos particulares e a necessidade de “proteger” os nativos guiou o comandante – que assumira a administração dos índios até a chegada de outro pároco nesse local – no sentido de manter esses indivíduos “isolados”, ou melhor, sob sua “tutela”. Essa atitude que não agradava as autoridades provinciais, que, por sua vez, não debateram, durante a reunião, sobre questões como a possibilidade de que pessoas “não aptas” dessa região “instruíssem” os nativos ou de que maneira os “maus exemplos” que poderiam corromper esses indivíduos – aspectos apontados por Chagas Lima e por Manoel Bispo. Ao invés disso, a deliberação do Conselho destacava a necessidade de incentivar que os indígenas de Guarapuava saíssem da freguesia, trabalhassem e, enfim, se sustentassem sem a ajuda do Império.
Em todo caso, as práticas “abusivas” de tratamento e de cativeiro dos índios nos territórios sulistas de São Paulo foram pauta das reuniões do Conselho de Presidência durante a segunda década do oitocentos: como vimos no capítulo 3, Rafael Tobias de Aguiar, por exemplo, solicitou mais de uma vez aos juízes de órfãos das vilas de Itapeva da Faxina e de
523 TAKATUZI, 2006, op. cit., p. 85
524A relação amistosa entre o vigário Chagas Lima e o comandante Loures foi apontada por PONTAROLO,
Itapetininga que eles enviassem informações ao governo provincial quanto aos índios mantidos em cativeiro por particulares dessas vilas – apontando, inclusive, que faltava fiscalização por parte das autoridades locais quanto ao comércio de indígenas que ocorria nessa região.525 Assim, embora os “abusos” relacionados ao cativeiro indígena e ao tratamento dos nativos fossem denunciados e discutidos nesse período, a solução encontrada pelos conselheiros nos indica que a convivência e o trabalho com a população não-índia de Guarapuava compreendiam os meios “convenientes” – e menos custosos – para a “civilizar” os indígenas desses territórios. Neste aspecto, parece-nos que, em fins de 1820, além dos “maus exemplos”, o “isolamento” passou a ser elencados pelas autoridades paulistas como uma das principais causas do “atraso” dos nativos de Guarapuava.
Se os índios de Guarapuava continuaram “isolados” ou se o comandante Loures cumpriu as ordens enviadas pelo Conselho de Presidência da Província de São Paulo, as autoridades provinciais ficaram sem o saber durante algum tempo: no relatório/discurso de 1829, nenhuma referência foi feita à situação daqueles indivíduos. Por outro lado, em novembro desse mesmo ano o conselheiro e marechal José Arouche de Toledo Rendon apresentou uma proposta importante aos membros do Conselho de Presidência de São Paulo; Rendon ficara responsável por elaborar um parecer sobre o aparecimento de um grupo de indígenas “selvagens” na propriedade do coronel Luciano Carneiro Lobo, que se localizava na região de Itararé e Jaguaricatú – territórios que ficavam entre a vila de Itapeva da Faxina e a vila de Castro, ou seja, compreendiam parte do Caminho do Sul. Segundo esse coronel, duas nativas do grupo encontrado em suas terras foram acolhidas e disseram que os demais eram de Guarapuava, “que vivião corridos e atropelados dos Indios brabos”. Em seu parecer, Rendon expôs o pedido do coronel Lobo, que oscilara entre afugentar o grupo de “selvagens” e acolhê-los:
O dito Coronel primeiro pede polvora, e chumbo grosso para fazer correrias aos Indios, no que vai com a opinião dominante do seo Paiz, cujos moradores assim o pedem; mas elle mesmo depois reconhece a utilidade de os aldear, por isso mesmo que já são Indios menos ferozes, que já nos conhecem, e que sahirão de suas terras perseguidos de outros, ou outras Hordas ferozes526.
52514 de novembro de 1827. Seção “Atas do Conselho do Governo d’esta Província” – sessão de 27 de outubro
de 1827. Aprovação das solicitações de Rafael Tobias de Aguiar para o cumprimento da Carta Régia de 05 de novembro de 1827 nas vilas de Itapetininga e Itapeva da Faxina. O Farol Paulistano, n. 63; e Sessão de 29 de outubro de 1828. Reiteração das solicitações do conselheiro Rafael Tobias de Aguiar quanto ao cumprimento da Carta Régia de 05 de novembro de 1808 nas vilas de Itapetininga e Itapeva da Faxina. DOCUMENTOS INTERESSANTES..., v. 86, op. cit., p. 172-173/ O Farol Paulistano, nº 170, 06 dez. 1828.
526 Sessão de 21 de novembro de 1829. Parecer/Projeto do conselheiro José Arouche de Toledo Rendon –
aldeamento dos índios da província. BOLETIM, v. 15, op. cit., p. 19-20/ APESP, caixa CO5650 (fragmentado).
O caso nos mostra que os confrontos entre as “hordas de gentios” de Guarapuava continuavam a ocorrer por essa época e que os provavelmente ataques ficaram mais intensos, sobretudo se considerarmos a distância percorrida por esse grupo para “fugir” de seus rivais. Destaca-se nesse trecho do parecer de Rendon o comentário sobre a “opinião dominante do seo paiz”, indicando que afugentar, através de armas de fogo, os “selvagens” era uma prática comum não só na província de São Paulo. Entretanto, o coronel Lobo reconhecia a necessidade de aldear o grupo indígena e que esses eram “menos ferozes”, segundo Rendon. Sendo assim, esse conselheiro indicou em seu parecer que, conforme as atribuições do Conselho de Presidência – relativas à catequese e “civilização” dos índios da província – e devido à ausência de uma legislação geral sobre esse “importante objecto”, era importante que o governo paulista elaborasse algumas orientações não só para auxiliar o aldeamento do grupo indígena que aparecera nas terras daquele coronel, mas para tratar e aldear os demais indígenas dessa província. Sendo assim, Rendon propôs 8 instruções nesse sentido:
1º Que de nenhum modo se offenda aos Indios ainda mesmo soffrendo alguns roubos, a que elles se expõem com perigo, impellidos pela força da necessidade; e só deverão ser atacados se nos acometterem armados. 2º Que isto mesmo se faça sentir aos Indios por meio de Interpretes, e confirmando este Systema com factos de benevolencia, e dadivas. 3º Persuadir-lhes o Aldeamento e Cõmercio comnosco, com a promessa de os pormos fora do perigo de seos Inimigos, de os defender-mos contra elles e de lhes dar-mos ferramenta para a Lavoura, para a Cassa, e para colher o mel das Abelhas. 4º Que a Aldea seja hum pouco retirada das nossas Povoações, e Fazendas; mas que tenhão campo, e terras para plantar. 5º Que se desterre o costume antigamente adoptado, e infelizmente ainda praticado em Guarapuava de não consentir que da Aldea saião aquelles rapazes, e raparigas, que de sua vontade quizerem por ajuste acompanhar a qualquer pessôa conhecida e de boa conducta: o que concorre tanto para a civilização dos Indios – quanto he certo que elles unidos nas Aldeas conservão os seos costumes barbaros, e crescem na indolencia, e na preguiça. O rapaz que se cria no trabalho desde pequeno, ainda que venha a ser perverso, muitas vezes come o pão que ganhou, porque o trabalho o não assusta. 6º Que por muito boas que sejão as Leis, os Regulamentos, ou Instruções que se devem as Aldeas, e Cathequeze dos Indios, ellas serão inúteis se for imprudente a escolha do homem que ha de reger, dirigir e felicitar os Indios. Os abuzos de taes Administradores ou Directores tem feito desapparecer muitas Aldeas formadas com grande dispendio. 7º Pertender, que os Indios sejão logo religiozos, e observantes dos preceitos Divinos, e da Igreja, he huma mania intoleravel: ella tem produzido males, e não bens. 8º He necessario ensinar-lhes algumas Artes, e a terem necessidade facticias, porque por estes meios os obrigaremos ao trabalho, a terem dependencia da nossa amizade etc.527
Essas orientações propostas por Rendon foram avaliadas pelos demais conselheiros e decidiu-se nesta mesma ocasião que o documento deveria ser remetido para o Conselho Geral 527 Parecer/Projeto do conselheiro José Arouche de Toledo Rendon, 21 de novembro de 1829, op.cit.
da província paulista, que se encarregaria de analisá-lo para que se elaborasse uma proposta a partir dele. Não encontramos referências que nos indiquem os caminhos que as instruções desse marechal percorreram posteriormente e ficamos sem saber se o Conselho Geral recebeu o documento, elaborou alguma proposta e a discutiu. Por outro lado, como também não encontramos, no livro de registro de propostas deste órgão, nenhum documento que tratasse do aldeamento dos índios de São Paulo nesse período, é possível que os itens propostos por Rendon não foram à frente. Em todo caso, independentemente do destino de tais itens, eles são significativos para entendermos tanto o diagnóstico de “atraso” dos indígenas de Guarapuava, quanto as tentativas das autoridades paulistas para reformularem os meios de tratamento e de “civilização” desses indivíduos durante as primeiras décadas do século XIX. Como vemos no trecho acima, as instruções apresentadas pelo marechal propunham posturas que já vinham sendo discutidas nesse período, como a continuidade dos meios de “brandura” ou “humanidade” para lidar com os “selvagens”, tema em que ele destacou que a violência somente deveria ser usada no caso de hostilidade “armada” por parte dos índios. Os itens de Rendon sobre os meios de “persuasão”, como a utilização de “intérpretes” e a prática do comércio ou das “trocas” de “objetos” também mostram posturas discutidas e aprovadas em fins de 1829, sobretudo o comércio, que foi objeto da proposta do Conselho Geral para “atrair” os nativos das vilas do Sul, conforme apresentamos no capítulo 4. Rendon indicou que tais métodos “persuasivos” serviriam para “atrair” os índios para o convívio “amigável” com os brancos e incentivar entre eles a rotina do trabalho nas lavouras ou em outras atividades. Neste aspecto, ele propôs ainda que se ensinassem algumas “artes e ofícios” a esses indivíduos. Quanto à escolha das pessoas que administrariam os aldeamentos, Rendon nos indica que o “exemplo” ainda era um aspecto importante para a “civilização” dos nativos e, por outro lado, tal orientação destaca uma crítica específica desse marechal – que havia sido Diretor Geral das Aldeias de São Paulo em fins do século XVIII – à “má escolha” dos administradores de índios.528
Por sua vez, os itens sobre a escolha do local dos aldeamentos nos sugere tanto a manutenção de certas precauções – a distância desses locais em relação aos povoados para evitar ataques –, quanto uma crítica ao “isolamento” dos índios. Aqui, nota-se que o posicionamento contrário de Rendon, tal como os dos demais conselheiros, quanto ao
528Em sua “Memória sobre as aldeias de índios da província de São Paulo”, escrito em dezembro de 1823, Rendon
discorreu sobre os diversos “abusos” cometidos, segundo ele, pelos administradores dos aldeamentos paulistas, criticando sobretudo a atuação dos religiosos nesses locais. RENDON, José Arouche de Toledo. Memória sobre as aldeias de índios da Província de São Paulo, segundo as observações feitas no ano de 1798 – opinião do autor sobre sua civilização. [1823]. In: ______. Obras. São Paulo: Governo do Estado, 1978. (Coleção Paulística, v.3).
“isolamento” dos índios de Guarapuava, prática que, segundo eles, resultava no “atraso” desses nativos. Neste item 5º, esse conselheiro explicou que a saída dos índios do aldeamento e o trabalho em propriedades particulares eram formas eficazes para “civilizá-los”, uma vez que, segundo ele, tais indivíduos se acostumariam com uma rotina de trabalho e sustento próprio. Sua crítica ao que vinha sendo feito no aldeamento de Guarapuava parece se estender no item em que ele se refere aos “males” do ensino religioso como o “primeiro método” para a “civilização” dos índios. Já expusemos neste capítulo que a catequese em Atalaia começou a ser realizada desde 1812, quando os alguns Votorões se fixaram no local e Chagas Lima passou a instruí-los. A partir dessas orientações, em que Rendon colocou em perspectiva os meios de “civilização” dos índios de Guarapuava, observamos que além do “isolamento”, a “instrução religiosa” realizada nos primeiros anos em que aqueles nativos foram aldeados foi mais um aspecto apontado como a causa do “atraso” desses indivíduos nas primeiras décadas do oitocentos. E, como veremos mais à frente, Rendon não esteve sozinho ao relacionar o “atraso” civilizatório dos índios de Guarapuava à catequese realizada por Chagas Lima.