O conceito de Desenvolvimento Sustentável definido como “[...] aquele que atende às necessidades do presente sem comprometer a possibilidade de as gerações futuras atenderem as suas próprias necessidades” (CMMAD, 1991, p. 46) recebeu destaque internacional, em parte por apresentar os limites para essas necessidades de uma forma global e para um subsistema meio ambiente humano, inserindo assim, os pobres do mundo e as diferentes necessidades sociais impostas pela realidade política-institucional de cada local. Enquanto equidade intrageracional e intergeracional eram termos que não existiam nos modelos de desenvolvimento anteriormente propostos, incluindo assim a visão de recursos limitados para todos em qualquer fator de tempo.
O conceito também revelou que os problemas sociais e ambientais estavam interligados, o estresse ambiental não se restringia aos limites geográficos, as catástrofes ambientais não afetavam somente o seu local, mas o bem-estar humano de todos aqueles que estivessem no planeta e solicitava, então abordagens sustentáveis que incluíssem a proteção dos ecossistemas frágeis e objetivos para o desenvolvimento humano (ESTES, 1993).
De forma mais ampla, o uso do conceito, está baseado em três pilares, (Triple Botton Line):
a) Econômico, no qual se busca um sistema econômico sustentável ao ponto de produzir bens e serviços de forma contínua, mantendo os níveis de produção agrícola ou industrial;
b) Ambiental, com uma base de recursos estáveis, evitando a sobre- exploração dos recursos renováveis e esgotamento dos não-renováveis; e
c) Social, com o qual deve alcançar a equidade de distribuição e fornecimento de serviços sociais, incluindo a saúde e educação como base, igualdade de gênero e a responsabilidade política e participativa (GALLOPIN, 2006).
Mesmo sendo o conceito do Relatório de Brundtland o mais popularizado, existem abordagens que o compreendem como utópico (MONTAÑO, 2002; CABETTE, 2004), não acreditam em sua efetividade diante das atuais propostas éticas e econômicas da sociedade, sendo difícil, mas não impossível o seu alcance (CAVALCANTI, 2003; BRÜSEKE, 2003; LEONARDI, 2003; VECCHIATTI, 2004;
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LEFF, 2006). Enquanto outras trazidas por autores como Hales e Prescott-Allen, (2005), Bellen (2005), Rotmans (1998, 2006), Ridder et al. (2007) e Lotze-Campen (2008) refletem percepções diferenciadas quanto a transição à sustentabilidade – visualizam essas mudanças em nossa sociedade ainda de forma local, por meio de análises do estado da sustentabilidade utilizando-se dos diversos modelos de Avaliações de Sustentabilidade. Com isso, existe uma gama de definições de Desenvolvimento Sustentável, bem como um discurso teórico que urge por mudanças - a sociedade de consumo não resistirá à limitação dos recursos.
Leff (2006, p.13) traz a visão que a sustentabilidade é algo mais profundo e surgiu no “[...] discurso teórico e político da globalização econômico-ecológico como a expressão de uma lei-limite da natureza diante da autonomização da lei estrutural do valor”. Gibson (2006) afirma que a ideia de sustentabilidade manifestou-se a partir das catastróficas tomadas de decisões em resposta ao abismo entre ricos e pobres e a contínua degradação dos sistemas da biosfera.
Para Sachs (1986), além das dimensões econômicas, sociais e ambientais, presentes implicitamente quando se fala em sustentabilidade, precisa estar incluso outras duas dimensões, espacial e a cultural, que permitem assim avaliar não somente como os recursos são utilizados (ambiental), sua transformação em bens e serviços (econômicos) e como os ganhos são distribuídos (social), mas as diversas inter-relações no sistema sociedade-natureza - o homem em sociedade (econômico e social), o homem e recursos naturais (ambiental e espacial) e o homem e história (cultural) – permitindo assim uma avaliação holística (SILVA, 2006).
Esse tripé da sustentabilidade – econômico, ambiental e social - apresenta limites não apenas em termos conceituais, mas em efetividade. No mundo real, é impossível evitar os trade-offs, maximizando apenas um dos componentes desse tripé de cada vez, ou pondo um deles em evidência (GIBSON, 2006). Não se pode ainda ignorar as forças políticas internacionais, as dificuldades dos países em desenvolvimento – desigualdade científico-tecnológica, por exemplo - e os diversos interesses de poder que movem a sociedade humana desde os seus primórdios. Além disso, as necessidades humanas são diferenciadas por indivíduos e culturas e o Desenvolvimento Sustentável não pode administrar o meio ambiente e sim, as atividades humanas, que afetam e até inviabilizam os diversos processos ambientais (RABELO e LIMA, 2007, RABELO, 2008; RABELO e LIMA, 2013).
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O termo sustentabilidade tem origem na agricultura, mas entrou no vocabulário dos ecologistas na década de 1980. Sendo uma palavra dinâmica, visa manter a biodiversidade sem perdas para o funcionamento do ecossistema, a longo prazo, possibilitando a sobrevivência e continuidade das espécies (RUSCHEISNSKY, 2004). Sustentabilidade remete-se assim a um desenvolvimento equilibrado do sistema sociedade-natureza e se transformou em sinônimo de estratégia para um mundo melhor, isto é, para um mundo com um Desenvolvimento Sustentável. Desse modo, nesta pesquisa de doutorado, adotou-se a abordagem que o termo sustentabilidade, ao inserir no mínimo as dimensões do Triple Botton Line, seria considerado sinônimo de Desenvolvimento Sustentável.
Sustentabilidade, contudo, contempla as características de ser
normativa, ambígua, complexa e subjetiva dificultando a sua operacionalização
(GROSSKURTH e ROTMANS, 2005). A normatividade encontra-se na equidade inter-geracional, postulado amplamente aceito na política, mas arbitrário quanto à ponderação dos direitos entre as atuais e futuras gerações. Ambígua, por ser um conceito multifacetado, sem orientação clara quanto às melhores escolhas a serem realizadas, o que possibilita diversas interpretações (WEAVER e ROTMANS, 2006). Subjetiva, pois reforça uma crença pessoal quanto à definição do que seriam as “necessidades satisfeitas” da geração atual e futura. Valores individuais conflitam com valores da sociedade, não permitindo se conhecer o real valor da sustentabilidade do hoje, nem do amanhã. Além de não existir qualquer indicação sobre quais são as prioridades a serem tomadas nos domínios social, econômico e ecológico, o que torna a sustentabilidade ambígua (GROSSKURTH e ROTMANS, 2005). Complexa, devido a todos os elementos que a compõem estarem ligados e formar um sistema, cujo comportamento muitas vezes não pode ser explicado a partir do comportamento de um de seus elementos. Aspectos do subsistema econômico, social, ambiental e institucional possuem objetivos, muitas vezes, conflitantes e que mudam com o tempo em uma velocidade, que só tende a aumentar (KASEMIR et al., 2003; WEAVER e ROTMANS, 2006; MEADOWS, 2008). Essa complexidade também pode ser vista pela transgressão das escalas temporais, espaciais (local e global) e em níveis de domínios (social, ecológico e econômico). Além da complexidade do próprio termo sustentabilidade, existe também a complexidade da relação sociedade-natureza, que só tem crescido principalmente devido às novas tecnologias de comunicação e à lógica da
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globalização, que intensificam a intervenção dos processos globais e internacionais com os processos nacionais e locais em todos os domínios – social, ecológico e econômico – com uma velocidade de tempo menor (GROSSKURTH e ROTMANS, 2005).
Percebe-se assim que o grande legado do conceito de Desenvolvimento Sustentável do Relatório de Brundtland foi fornecer uma estimativa mais humilde da capacidade do ser humano controlar a natureza, bem como utilizar-se, em sua máxima, dos recursos naturais.