“Os bens jurídicos têm como fundamento valores culturais que se baseiam em necessidades individuais. Estas se convertem em valores culturais quando são
123 COSTA. José de Faria; SILVA. Marco Antonio Marques da. (coord.), Direito Penal Especial, Processo Penal e Direitos Fundamentais, p. 496
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socialmente dominantes. E os valores culturais transformam-se em bens jurídicos quando a confiança em sua existência surge necessitada de proteção jurídica.”125
No mesmo sentido Claudio José Langroiva Pereira, afirma que “o bem jurídico pode ser entendido como um valor ideal, proveniente da ordem social em vigor, juridicamente estabelecido e protegido, em relação ao qual a sociedade tem interesse na segurança e manutenção, tendo como titular tanto o particular quanto a própria coletividade.”126
Assim, segundo este conceito, entende-se ainda que “o bem jurídico deve se posicionar segundo a realidade social, formada dos conflitos estabelecidos entre as pessoas, decorrente de necessidades particulares de satisfação de interesses diversos, indicando que os bens jurídicos têm um caráter eminentemente pessoal, ligado às próprias condições de existência individuada de cada ser humano em uma sociedade”127
No âmbito penal, o bem jurídico “não só assenta a pedra angular do Direito Penal, mas coroa o norte de seu telos punitivo, uma vez que constitui o elo entre as instituições penais do Estado e o ordenamento social no qual está inserido.”128
Percebe-se pelos conceitos apresentados, a importância que o bem jurídico econômico tem para uma sociedade, o que justifica a utilização do direito penal em sua proteção. De outro modo, resta saber, até com base no que fora exposto sobre a atual função da ordem econômica no mundo globalizado, se a tutela penal pode ser aplicada a ele, já que “o bem jurídico tutelado pelos tipos penais econômicos deve ser analisado à luz de uma sociedade complexa, de risco, que o direito penal nuclear ou comum não dispõe de instituto para enfrentá-los.”129
125 PRADO. Luiz Régis, Bem Jurídico-Penal e Constituição, p. 44. 126
PEREIRA. Claudio José Langroiva, Proteção Jurídico-Penal e Direitos Universais, p. 71. 127 Ibid., p. 78.
128 CANTON FILHO. Fábio Romeu, Bem Jurídico Penal, p. 03.
129 COSTA. José de Faria; SILVA. Marco Antonio Marques da (coord.), Direito Penal Especial, Processo Penal e Direitos Fundamentais, p. 406.
Eduardo Reale Ferrari entende que as manifestações de proteção penal à ordem econômica, podem se manifestar de forma restrita e ampla.130
Na visão ampla, “não há uma individualização da tutela econômica nem de forma direta, nem sentido técnico, porquanto o que se visa na tutela econômica é a ordem jurídica da produção, distribuição e consumo de bens e serviços, podendo em face de uma acepção aberta, integrar-se a quaisquer desses valores no âmbito da tutela econômica.
Já em uma visão restrita, a ordem econômica deve tutelar a regulação jurídica do intervencionismo estatal da economia de uma nação, incluindo como objeto de proteção o próprio interesse do Estado, suscetível de concreção particularizada, dos quais exemplos são as infrações monetárias; as transações com o exterior; o delito fiscal, a liberdade da empresa no marco da economia do mercado, a livre concorrência empresarial, incluindo-se dentro desse conceito os interesses coletivos, dos quais exemplos são o consumo, o meio ambiente, dentre outros.”131
A visão restrita de proteção penal à ordem econômica. visa assegurar a proteção dos bens supra-individuais ou coletivos, ou seja, tudo aquilo que existe para proteger o Estado, a sua economia, política e soberania.
Este é o posicionamento de Marco Antonio Marques da Silva, ao afirmar que as normas do direito penal econômico, responsáveis por tutelarem penalmente a ordem econômica, “tem por objetivo proteger bens jurídicos supra-individuais, e para tanto se socorre dos denominados crimes de perigo abstrato.132
130 COSTA. José de Faria; SILVA. Marco Antonio Marques da (coord.), Direito Penal Especial, Processo Penal e Direitos Fundamentais, p. 586.
131Ibid., p. 406. 132
E o doutrinador vai além ao afirmar que “no aspecto econômico, nos bens jurídicos supra-individuais não há, especificamente, um dano material apreensível ou concreto capaz de possibilitar a mensuração do mesmo. Daí, duas conseqüências imediatas ocorrem com o direito penal econômico: a primeira, referente aos tipos penais que são de perigo concreto ou abstrato; a segunda, a necessidade do recurso à imputação objetiva, como única forma de relacionar-se uma ação a uma responsabilidade penal.”133
Para Fábio André Guaragni, o direito penal econômico surgiu como “ campo jurídico-penal destinado à tutela do bem jurídico meta-individual ‘ordem econômica’. A ‘ordem econômica’, neste contexto, era definida como intervenção do estado na economia. Tal concepção do bem jurídico ‘ordem econômica’, conquanto meta- individual, deixou patente a pretensão do direito penal econômico de proteger, a partir da constituição de um novo campo de criminalização primária, não os interesses do pessoas integrantes da sociedade, mas sim – e sobretudo – os interesses do próprio Estado, enquanto gestor da economia.”134
Este interesse no Estado, por sua vez, é materializado, por exemplo, na Constituição Federal de 1988, onde o artigo 173 prevê as hipóteses em que ele poderá intervir na ordem econômica:
Art. 173. Ressalvados os casos previstos nesta Constituição, a exploração direta da atividade econômica pelo Estado só será permitida quando necessária aos imperativos da segurança nacional ou a relevante interesse coletivo, conforme definido em lei.
Independentemente do bem jurídico tutelado no direito penal econômico, há ainda o entendimento de que a ordem econômica pode ser protegida pelo direito administrativo e pelo direito penal, na medida em que “ambos protegem a ordem econômica e o regular desenvolvimento do mercado, restando claro que dois (sic)
133 COSTA. José de Faria; Marco Antonio Marques da SILVA (coord.), op. cit., p. 408. 134
são os melhores meios preventivos de maior realizabilidade no desenvolvimento da economia: a informação e a organização administrativa.”135