Alguns dos artigos analisados relatam experiências acadêmicas de seus autores, no tocante à pesquisa e à implementação de ferramentas informatizadas no ensino do projeto arquitetônico. É o caso de Brasil et. al (2009)46, que apresentam o caso do Curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Ceará CAU-UFC. Inicialmente, os autores refletem sobre os novos meios de ensino do projeto, começando por reconhecer as diferenças entre a sala de aula convencional e o ateliê. Na primeira, o professor é o detentor do conhecimento que, em uma posição de destaque, o oferece a uma platéia atenta. Já o ateliê de projeto se configura como o ambiente onde se torna possível a experimentação dos conhecimentos acumulados pelos discentes, sob a orientação de um docente; um modelo de ensino reflexivo onde, a partir de problemas colocados, os alunos encontram diversas soluções e compartilham o aprendizado, sendo, portanto, os protagonistas deste processo.
Entretanto, segundo os autores, embora o sistema de ateliê seja exemplo para outras áreas que buscam conhecimento reflexivo, não significa que, dentro do ensino da arquitetura, este sistema esteja plenamente utilizado. Citam Elvan Silva como um dos autores que observam que as disciplinas de projeto estão em um constante estado de crise e renovação (COMAS, 1986) e anotam que tal crise se
agravou nos anos 1980, quando do advento dos programas CAD, que provocou mudanças significativas na prática do desenho técnico.
Eles passam então a relatar a experiência do Curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Ceará CAU-UFC, que em 1995 implanta o Laboratório de Computação Gráfica LCG-DAU, e que tem o desenho assistido por computador incorporado ao seu currículo a partir de 1997. Este laboratório passa então a atender as disciplinas de representação, sendo também utilizado pelos estudantes para o desenvolvimento de seus trabalhos acadêmicos. Os sistemas CAD passam a ter uma utilização intensiva, culminando porém em certa restrição, por parte dos professores, no que se refere ao seu uso no desenvolvimento e na apresentação de projetos, em função de uma certa perda de qualidade verificada nos trabalhos e atribuída a este uso.
Segundo os autores, um aparente paradoxo estabeleceu-se quando, por um lado, os ateliês convencionais mostravam-se “vazios” pela ausência do computador e, por outro, a qualidade na representação parecia decair por causa do uso intensivo dos sistemas CAD. Entretanto, acreditam que tais análises se revelam hoje equivocadas tendo, a tão desejada apropriação dos meios digitais no âmbito do ensino de projeto, orientado as discussões, que resultaram na reformulação do currículo do CAU-UFC. Em decorrência disto, em 2005, o laboratório passa por uma reformulação física e por uma atualização de equipamentos, passando a se chamar LabCad. É para este espaço que os professores de projeto transferem suas aulas, cuja configuração de bancadas, ocupadas pelas máquinas, se assemelha a uma sala de aula convencional.
Em meados do primeiro semestre de 2009, ocorre nova configuração do laboratório, dando início às atividades do chamado Ateliê Digital (Figura 10), onde as estações gráficas são distribuídas de forma a favorecer o trabalho em grupo e a visualização dos monitores por todos, buscando através da nova organização de seu espaço e do adequado uso de tecnologias, integradas à representação convencional, favorecer o aprendizado reflexivo.
Figura 10 – Ateliês convencional e Digital do CAU-UFC. Fonte: Brasil et al. 2009.
Após relatar depoimentos de professores e alunos acerca da inserção de meios digitais no âmbito do projeto na escola, que revelam ora entusiasmo, mas também ainda uma certa resistência, particularmente por parte de alguns professores, os autores anotam que, dentro deste contexto de discussões, o ateliê digital surge como um espaço necessário, onde seria possível a adequada integração entre os recursos digitais e tradicionais:
“Os vários métodos, mídias, tecnologias poderiam, então, ser empregados num uso complementar e otimizador, com ênfase no que cada um dos recursos tem de mais positivo em cada um dos momentos da prática projetual. [...] Resta-nos, então apontar e incentivar o incremento de novas práticas aliadas aos modos tradicionais de representação, não sendo mais possível continuar com os métodos de ensino que não levem em conta a incorporação adequada da produção científica e tecnológica vigente.”
(BRASIL ET AL, 2009, p. 3)
Para concluir o relato das experiências acadêmicas, Malard47 (2009) apresenta a mudança de paradigma no ensino do projeto arquitetônico experimentado pela UFMG a partir da criação do Laboratório Gráfico de Experimentações em Arquitetura – LAGEAR, em 1993. Este evento introduz a computação gráfica no curso, o que pouco depois viria substituir totalmente a prancheta e seus métodos de criação. Esta passagem implicou em compreender o papel dos mecanismos de comunicação das idéias arquitetônicas iniciais, ou seja, como os instrumentos e as ferramentas de representação visual influenciam a própria concepção da idéia que se quer representar. Novos instrumentos como a álgebra booleana e as interfaces digitais
47 Do gesto gráfico modernista (mediado pela prancheta) ao processo de criação coletiva, mediado
que com ela operam, influenciarão o processo de projeto no que tange à concepção das idéias arquitetônicas, mudando o paradigma da “obra de autor”, baseado no gesto gráfico individual, para o paradigma de “obra de vários autores”, baseado nas interfaces digitais facilitadoras da criação coletiva.
“Não há dúvida de que as ferramentas de informática estão transformando velozmente a maneira de projetar, de ensinar projeto e de construir edificações. Não mais se trata de especular analítica e criticamente sobre essas ferramentas e suas repercussões no processo criativo e na atividade projetual. Trata-se, agora, de empreender criteriosas avaliações de suas conseqüências positivas ou negativas para a qualidade da produção arquitetônica. Trata-se, também, de melhor compreendê-las, para direcioná- las em benefício da criatividade arquitetônica, principalmente dos processos de criação coletiva.” (MALARD, 2009, p. 11)