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A responsabilidade de eqüidade também encontra amparo no princípio constitucional da dignidade da pessoa humana previsto no art. 1º, III171, da Constituição Federal.
A dignidade da pessoa humana está ligada à personalidade, à capacidade e à igualdade e essa união leva à identidade do ser humano. A identidade faz com que cada ser humano seja único, com suas dificuldades e facilidades172.
Segundo o autor Ingo Wolfang Sarlet173, o constituinte de 1988 preferiu não incluir a dignidade da pessoa humana no rol dos direitos e garantias fundamentais, mas sim, pela primeira vez, na condição de princípio fundamental. Aliás, a positivação na condição de princípio jurídico-constitucional fundamental é, por sua vez, a que melhor afina com a tradição dominante nos modelos mais recentes do mundo e tem caráter normativo e vinculante.
Nesse sentido, o Professor Renan Lotufo destaca:
“A busca da dignidade da pessoa humana há que ser por objetivo permanente de qualquer Estado, como de todo o ser humano”174.
171 “Art. 1º A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos Estados e
Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado Democrático de Direito e tem como fundamentos: (...) III - a dignidade da pessoa humana”.
172 LODI, Luís Fernando Balieiro. Inclusão social do surdo, p. 102.
173 Dignidade da pessoa humana e direitos fundamentais na Constituição Federal de 1988. 174 Direito civil constitucional – Cadernos I. p. 149.
É, assim, princípio fundamental indisponível, inviolável, indivisível, inato e de ordem pública, além de pressupor a liberdade e a igualdade perante a lei. Impõe o dever de respeito mútuo entre todos os cidadãos “no sentido de não- violação”175.
O pressuposto máximo é o direito à vida. Vida digna, com o patrimônio mínimo indispensável para o sustento. Como observa Giovanni Ettore Nanni, é “uma cláusula geral de tutela da pessoa humana. Não se deve apenas tutelar situações patrimoniais, mas é preciso buscar uma proteção qualitativamente diversa, com respeito ao livre e digno desenvolvimento da pessoa”176.
Destacamos ainda que a Constituição, ao assegurar a dignidade da pessoa humana como fundamento da República, acaba por impedir qualquer forma de preconceito e discriminação, além de proclamar imperativo da justiça social, elevando todos esses valores à categoria de princípios fundamentais177.
E é exatamente com observância a esses princípios que nasceu a responsabilidade mitigada e subsidiária do incapaz. Maria Helena Diniz destaca que a obrigação de reparação será eqüitativa, informada pelo princípio constitucional da proteção à dignidade da pessoa humana178.
175 NANNI, Giovanni Ettore. O dever de cooperação nas relações obrigacionais à luz do princípio
constitucional da solidariedade. In: NANNI, Giovanni Ettore. (Org.). Temas relevantes do direito civil contemporâneo: reflexões sobre os 5 anos do Código Civil. Estudos em homenagem ao Professor Renan Lotufo, p. 292.
176NANNI, Giovanni Ettore. O dever de cooperação nas relações obrigacionais à luz do princípio
constitucional da solidariedade. In: NANNI, Giovanni Ettore. (Org.). Temas relevantes do direito civil contemporâneo: reflexões sobre os 5 anos do Código Civil. Estudos em homenagem ao Professor Renan Lotufo,. p. 292.
177 Saúde mental e a atuação do Ministério Público, in: REIS, Selma Negrão Pereira dos. Questões de
direito civil e o novo Código, p. 440.
Garantida, portanto, em primeiro lugar, a integração social do incapaz, por aumentar a chance de reparação de eventual vítima dos danos por ele causado.
Melhora, evidentemente, a situação da própria vítima, que aumentou sua chance de ser reparada. A reparação garante a recondução ao direito à dignidade da pessoa humana, como valor máximo, pela imposição do dever indenizatório ao causador do dano.
Confere-se, portanto, dignidade à vítima pela reparação do dano e ao incapaz por lhe conferir o direito de reparar seus atos danosos e integrar-se ao convívio social, pois a sociedade terá maior comodidade em recebê-lo, principalmente no meio trabalhista.
Atualmente o incapaz pode participar ativamente da sociedade, e a imposição de tal obrigação pode ensiná-lo, até mesmo, a sopesar seus atos. O correto castigo aplicado à criança a faz entender, muitas vezes, o caráter reprovável de sua conduta e tem finalidade educativa.
O doente mental também pode ser educado, observadas as particularidades de cada caso e a real possibilidade de interação com o meio. Quem de perto convive com o doente, logo constata que a loucura não é burra e, portanto, a sanção também terá caráter educativo e integrativo ao doente.
E é por isso que Fernando José Simão observa que “a indenização que é garantida à vítima não poderá significar a ruína do agente incapaz e inimputável. (...) O princípio da dignidade, que permite a indenização, impede a ruína do causador do dano. De nada adiantaria preservar a dignidade da vítima se ofensa houvesse à dignidade do incapaz. O princípio jurídico da dignidade da pessoa humana como fundamento da República exige como pressuposto, e não como conseqüência, a intangibilidade da vida humana, pois, sem ela, não há pessoa nem dignidade. Assim, até mesmo um princípio fundamental necessita de modelação, porque é preciso compatibilizar a dignidade de uma pessoa com a de outra e, portanto, alguma coisa da dignidade de uma pessoa poderá ficar prejudicada pelas exigências da dignidade de outra”179.
Ademais, falamos, na maioria, de crianças e pessoas com deficiências mentais potenciais causadoras de danos pela própria falta de discernimento que lhes é peculiar.
É, por fim, importante a obrigação de reparação de danos pelos incapazes dos prejuízos que causarem para garantir a sua integração na sociedade, que não aceita o dano injusto e manifesta este anseio pela mudança da mentalidade do próprio legislador.
179 SILVA, Regina Beatriz Tavares da (Coord.). Responsabilidade civil pelos atos de terceiros e pelo
fato de coisas, in Responsabilidade civil – responsabilidade civil e suas repercussão nos tribunais,