Em “Origens do Totalitarismo” (2012), Hannah Arendt associa a ideologia ao terror, apontando assim, para aquilo que talvez se possa chamar de último estágio da dinâmica dos engendramentos do processo de reificação social cuja finalidade reside na dominação do outro como objeto.
A filósofa política descreve uma nova forma de governo, a qual chamou “totalitarismo”, como algo para muito além dos modelos governamentais conhecidos e reconhecidos pela historia comum. Enquanto o despotismo se desenvolve a partir do medo, a tirania a partir do silenciamento e, a ditadura se faz pela opressão, o totalitarismos e dá por meio da ideologia entendida como maneira eficaz de tornar o indivíduo em coisa e objeto social inanimado.
O método totalitário descrito por Arendt (2012) evidencia as últimas consequências de se assumir um projeto ideológico qualquer que seja, pois, a sujeição por ele propugnada lança mão da violência como instrumento em prol do domínio alheio; no entanto, tal violência transcende os aspectos sistêmicos e aparentes dos modelos tirânicos, despóticos e ditatoriais, pois acaba por solapar as concepções basilares da justiça, do direito positivo entre outros aspectos que em último caso fundamentam a vida social pautada na tolerância.
A camuflagem assumida pela ideologia como representante da racionalidade, que se observou desde as iniciativas positivistas e também marxistas, mostra o fator principal da eficiência de uma violência de cunho simbólico cujas reverberações mal podem ser constatadas devido ao mascaramento do real que ocorre por meio dela, é, portanto, nesse sentido que a filósofa associa a ideologia ao terror, como expressão de uma violência não somente aparente, mas, sobretudo, de caráter destruidor no que tange a interioridade do indivíduo e, portanto da sociedade como um todo, que se pôde observar e comprovar através da ascensão dos regimes nazista e comunista e da emergência das guerras mundiais do século XIX.
Sempre que galgou o poder, o totalitarismo criou instituições políticas inteiramente novas e destruiu todas as tradições sociais, legais e
políticas do país. Independente da tradição especificamente nacional ou da fonte espiritual particular da sua ideologia. O governo totalitário sempre transformou as classes em massas, substituiu o sistema partidário não por ditaduras unipartidárias, mas por um movimento de massa, transferiu o centro do poder do exército para a polícia e estabeleceu uma política exterior que visava abertamente ao domínio mundial. (ARENDT, 2012, p.611)
A massificação mencionada é sem sombra de dúvida o modus operandi do irracionalismo totalitário, vez que sua prática pretende escamotear o dimensionamento real dos objetivos intrínsecos aos ideais últimos do partido, isto é, a aparência de não nocividade e até mesmo de pactuação e identificação com a esfera menos favorecida no aspecto social, ou com a evolução no aspecto epistêmico, esconde a intenção de dominação e supressão daqueles cuja vida é tida como de menor valor.
Essa ação do irracionalismo ideológico, ao contrário do convencionalmente entendido, acerca dos pressupostos do parecer irracional histórico, como bem desenvolvido nas teses de Rouanet (1987) sobre o iluminismo de todas as épocas, onde nota-se claramente no fazer interno aos movimentos mencionados de ascensão ao poder, principalmente nos casos russo e alemão, justificados na revolução ou reorganização, cuja finalidade aparente era a de tomar o poder em nome dos oprimidos e desfavorecidos, massificou-se a expressão social inclusive intelectualmente, com paradigmas notadamente filosófico-teóricos corroborando assim a nova face do irracionalismo, dito modernizado e sagaz, que acaba por perfazer também as atividades políticas através da instrumentalização da mesma.
E justamente por se tratar de um novo irracionalismo intolerante, é que não se pode descuidar das características de persuasão dessa nova atividade, que ao contrário do que se previa, não aboliu em nenhum dos casos acima citados, as leis, as constituições, os regimes ou mesmo o modelo de participação popular quando este era entendido como razoável, mas, fez uso dos mecanismos em vigor, estabelecendo consequentemente, mas não imediatamente de sua ascensão, uma [con] fusão interna que possui duas consequências básicas e fundamentais, a adesão dos simpatizantes dos extremos tanto do status quo quanto dos partidários da revolução, e, talvez culminando num dos mais marcantes pontos de identificação do antigo irracionalismo, que é a conformação e a acomodação.
No entanto, o totalitarismo nos coloca diante de uma espécie totalmente diferente de governo. É verdade que desafia todas as leis positivas, mesmo ao ponto de desafiar aquelas que ele próprio estabeleceu (como no caso da Constituição Soviética de 1936, para citar apenas o exemplo mais notório) ou que não se deu ao trabalho de abolir (como no caso da Constituição de Weimar, que o governo nazista nunca revogou). Mas não opera sem a orientação de uma lei, nem é arbitrário, pois afirma obedecer rigorosa e inequivocadamente àquelas leis da Natureza ou da História que sempre acreditamos serem a origem de todas as leis. (Ibidem, 2012, p.613)
A referida acomodação à luz da interpretação arendtiana, se estabelece sobre a lei da historia e da natureza, porém com o adendo totalitário de descontextualização, no sentido de convertê-las em práticas aplicadas diretamente ao fazer humano, interpretando-as como atitudes legítimas e genuinamente humanas, sendo que os fatos e as interpretações que decorrem dessas leis devem ser entendidos como crenças universais e universalizantes contrariamente ao parecer tolerante de convivência cujo foco é a não aculturação e sim a igual consideração no sentido de equidade.
Trata-se de uma espécie de naturalização do fazer histórico e do fazer natural como exteriorização de princípios que governam os destinos da humanidade, isto resulta no desprezo da pluralidade, da transitoriedade e da mutação, que de acordo com Rouanet (1987), quando interpreta as características típicas da racionalidade, afirma que a mesma supõe criticidade, que por sua vez não é estática. Assim, a afirmação da mencionada normatividade culmina na estabilização conceitual a respeito do justo e do injusto e,no sentido procedimental, no desprezo de certo e de errado inviabilizando análises circunstanciadas que levem em consideração a aleatoriedade não normativa das expressões possíveis no interior das comunidades.
As ideologias pressupõem sempre que uma ideia é suficiente para explicar tudo no desenvolvimento da premissa, e que nenhuma experiência ensina coisa alguma porque tudo está compreendido nesse coerente processo de dedução lógica. O perigo de trocar a necessária insegurança do pensamento filosófico pela explicação total da ideologia e por sua Weltanschauung não é tanto o risco de ser iludido por alguma suposição geralmente vulgar e sempre destituída de crítica quanto o de trocar a liberdade inerente da capacidade humana de pensar pela camisa de força da lógica, que pode subjugar o homem quase tão violentamente quanto uma força externa.(Grifo nosso - Ibidem, 2012, p. 626)
Ao antigo irracionalismo é atribuída tal acomodação em detrimento da dimensão de movimento crítico próprio da razão, contudo, a partir da afirmação e naturalização da assim chamada lei do movimento segundo Arendt (2012), poder-se-ia, interpretar que a ideologia supõe movimento ao enfatizar a sua dinâmica, mas não se trata de uma racionalização propriamente dita, mas sim de uma nova atitude de mascaramento do real, isto é, de estabilização no conceito de evolução e de movimento histórico, como janela de oportunidade, que propositadamente propicia o desenrolar de um processo de mudança de paradigma e ao mesmo tempo de mudança no exercício do domínio, que culminará na ascensão ao poder, tipicamente intolerante, donde se observa a real intenção desse irracionalismo que com isso se desvela, principalmente pelo fato de buscar manter-se no poder invariavelmente, para esse intento valendo-se inclusive da aniquilação da oposição.
Sob a crença nazista em leis raciais como expressão da lei da natureza, está a ideia de Darwin do homem como produto de uma evolução natural que não termina necessariamente na espécie atual de seres humanos, da mesma forma como, sob a crença bolchevista numa luta de classe como expressão da lei da historia, está a noção de Marx da sociedade como produto de um gigantesco movimento histórico que se dirige, segundo a própria lei de dinâmica, para o fim dos tempos históricos, quando então se extinguirá a si mesma. (Ibidem, 2012, p.616)
Considerados comouma só teoria por Arendt (2012) e intrinsecamente unidas segundo as análises de Engels75, as teorias de Darwin e Marx relativizam-se quanto ao
seu uso por fundamentarem-se na lei do movimento extremado, isto é, no modo de não mais conceber a realidade a partir dos fenômenos pelos quais ela emerge e se mostra, mas por submetê-la ao seu desenvolvimento ulterior e em perspectiva de evolução.
75 Em Origens do Totalitarismo, Arendt faz menção em nota à Oração fúnebre feita por Engels na ocasião
da morte de Marx o qual assim se expressou: “Tal como Darwin descobriu o desenvolvimento da vida orgânica, Marx descobriu a lei do desenvolvimento da historia humana” (ARENDT, 2012, p.769). Contudo, outro comentário também feito por Engels em que novamente aparece a comparação entre as obras de Marx e as de Darwin, encontra-se no prefácio ao Manifesto Comunista do ano de 1890, onde além dessa menção honrosa também se encontra uma suma das iideias geradoras de tal elogio: “[...] toda a historia da humanidade tem sido a historia das lutas de classes, conflitos entre explorados e exploradores, entre as classes dominadas e dominantes; que a historia dessas lutas de classes se constitui de uma série de etapas, atingindo hoje um estágio em que a classe oprimida e explorada – proletariado – não pode mais emancipar-se da classe que a explora e oprime – a burguesia – sem emancipar ao mesmo tempo e para sempre, toda a sociedade da exploração, da opressão, das diferenças de classes e de lutas de classes. Já alguns anos antes de 1845, estávamos, pouco a pouco, elaborando essa iideia que, na minha opinião, está destinada a ser para a História o que a teoria de Darwin foi para a Biologia. (MARX e ENGELS, 2006, p. 71)
Muito embora sempre fosse considerada como agente normatizadora das ações, e legitimadora dos conceitos que se pretendem guarnecidos de racionalidade, principalmente no que se refere ao consensus generis, nos ideais da vontade geral estabelecida e advinda das bases do direito positivo, a lei transmudou-se no interior do totalitarismo para expressão do próprio movimento, ou seja, expressão dele por ele mesmo assimilando até mesmo a lei enquanto positivamente pensada.
Que a força motriz dessa evolução fosse chamada de natureza ou de historia tinha importância relativamente secundária. Nessas ideologias, o próprio termo “lei” mudou de sentido: deixa de expressar a estrutura de estabilidade dentro da qual podem ocorrer os atos e os movimentos humanos, para ser a expressão do próprio movimento. (Ibidem, 2012, p.617)
Assim na prática do movimento pelo movimento, o que se enfatiza não é a evolução em específico, no sentido de proposição salutar do termo, mas, aquilo que “previam” Darwin e Marx com suas teorias ideológicas de espécie em desenvolvimento e de luta de classes respectivamente, não amadurecendo de suas teses possíveis interfaces da racionalidade sábia que apontassem para meios conciliatórios de relação, incentivando, por fim, a crença no embate, no conflito, somente assim, “[...] A lei “natural” da sobrevivência dos mais aptos é lei tão histórica – e pôde ser usada como tal pelo racismo – quanto a lei de Marx da sobrevivência da classe mais progressista”. (Ibidem, 2012, p.616)
A propósito desse processo de assimilação do outro em detrimento de um acordo, conforme sugerirá Habermas e Jaspers alhures, filósofos que propõem uma dinâmica concorde para as relações internas da sociedade, tendo como pressuposto a questão idiomática e linguística implicando na categorização das vidas imbricadas no fazer social da citada relação, a assimilação, prevê a princípio a dicotomia dominado- dominador, servo e escravo, legítimo e ilegítimo, a partir de um parecer naturalizado artificialmente, que termina na violência histórica da supressão vital alheia, devida a lei do movimento dito extremado não possuir termo, não ter fim,
A política totalitária, que passou a adotar a receita das ideologias, desmascarou a verdadeira natureza desses movimentos, na medida em que demonstrou claramente que o processo não podia ter fim. Se é lei da natureza eliminar tudo o que é nocivo e indigno de viver, a própria natureza seria eliminada, quando não se pudessem encontrar novas
categorias nocivas e indignas de viver; se é lei da historia que numa luta de classes, certas classes “fenecem”, a própria historia humana chegaria ao fim se não se formassem novas classes que, por sua vez, pudessem “fenecer” nas mãos dos governantes totalitários. Em outras palavras, a lei de matar, pelo qual os movimentos totalitários tomam e exercem o poder, permaneceria como lei do movimento mesmo que conseguissem submeter toda a humanidade ao seu domínio. (ARENDT, 2012, p.617)
Ao contrário da forma como se apresenta, enquanto transitoriedade, a referida lei implica unilinearidade, ou seja, um agir retilíneo em direção da incorporação do outro. Tendo guardados os níveis de gradação processual pela qual se atinge o terror por meio dessa lei do movimento no sentido seletivo da relação sujeito-objeto, portanto extremado, atinge-se a incorporação alheia através de um crescente de massificação descaracterizando os princípios relacionais inerentes à existência social, esta por sua vez o contraria, pois sugere uma coexistência que enfatize a diferença com vista para a pluralidade de manifestações, isto é, com vistas para a tolerância:
O terror é a realização da lei do movimento. O seu principal objetivo é tornar possível a força da natureza ou da historia propagar-se livremente por toda a humanidade sem o estorvo de qualquer ação humana espontânea. Como tal o terror procura “estabilizar” afim de libertar as forças da natureza ou da historia. Esse movimento seleciona os inimigos da humanidade contra os quais se desencadeia o terror, e não pode permitir que qualquer ação livre, de oposição ou de simpatia, interfira com a eliminação do “inimigo objetivo” da historia ou da natureza, da classe ou da raça. Culpa e inocência viram conceitos vazios; “culpado” é quem estorva o caminho do processo natural ou histórico, que já emitiu julgamento quanto ás “raças inferiores”, quanto a quem é “indigno de viver”, quanto a “classes agonizantes e povos decadentes”. [...] O terror é a legalidade quando a lei é a lei do movimento de alguma força sobre-humana, seja a Natureza ou a Historia. (Grifo nosso - Ibidem, 2012, p. 618)
A norma do terror, implícita ao totalitarismo, nos remete ao fazer ideológico irracional da massificação pelo simples fato de determinar as atitudes, ao invés de atuar como balizador destas, sobretudo, quando consideradas não legais ou não legitimas no âmbito da vida social e política. O terror passa a justificar a intolerância a partir da acomodação ao movimento da historia ou da evolução, abreviado ao sabor da justificação pessoal e da consideração do outro a partir do constrangimento do mesmo em comparação com a lei do movimento.
O terror visa dissolver as manifestações de pluralidade e ao mesmo tempo de espontaneidade, visto sua mutabilidade e incomensurabilidade prévia, pois, não se coadunam com a lei do movimento tanto das espécies quanto das classes em luta. O terror no totalitarismo está situado no polo inverso da lei positiva para o governo constitucional, onde esta última vigora como limitação das ações determinando a estabilidade dos espaços onde os homens podem se movimentar, ou seja, delimita as ações, mas, não as prevê, e para além dessa primeira delimitação, a lei constitucional, alheia a ideologia, age como mantenedora da comunicação entre os homens, não os fechando num único corpo político, mas ao assumir a pluralidade, afirma a comunicação pela qual a coexistência torna-se possível, pois seu fim último não será a aniquilação do outro como prova da lei da natureza ou mesmo da vitória de uma classe sobre as outras, ao passo que a função do terror total “é proporcionar às forças da natureza ou da historia, um meio de acelerar o seu movimento. [...] no fim, a sua força se mostrará sempre mais poderosa que as mais poderosas forças engendradas pela ação e pela vontade do homem” (Ibidem, 2012, p. 620)
A estabilidade da lei corresponde ao constante movimento de todas as coisas humanas, movimento que jamais pode cessar enquanto os homens nasçam ou morram. As leis [...] asseguram a sua liberdade de movimento, a potencialidade de algo inteiramente novo e imprevisível, [...] Mas o terror total, [...] Em lugar das fronteiras e dos canais de comunicação entre os homens individuais, constrói um cinturão de ferro que os cinge de tal forma que é como se a sua pluralidade se dissolvesse em Um-Só-Homem de dimensões gigantescas. (Ibidem, 2012, p.619)
Esta cintura férrea é expressa pela massificação daqueles que compõe o tecido social, mas também pela unificação e concentração do poder num só homem, num só modelo de governo, num só modelo de escola, ou de ensino-aprendizagem, no qual proporcionalmente se desenvolve e se estende a força e a coesão que ocorre por meio da persuasão lógica e do exercício do terror76.
76 “Na prática, isso significa que o terror executa sem mais delongas as sentenças de morte que a Natureza
supostamente pronunciou contra aquelas raças ou aqueles indivíduos que são “indignos de viver”, ou que a História decretou contra as “classes agonizantes”, sem esperar pelos processos mais lerdos e menos eficazes da própria historia ou natureza” (ARENDT, 2012, p.620).