A proposta de uma educação escolar voltada para a tolerância, segundo a filosofia política de Walzer, tem como ponto de partida a adoção de um currículo multiculturalmente posto, que na prática traduza as iniciativas de cunho teórico tanto de pesquisadores quanto de filósofos, mas também de todos os que se debruçam sobre a dimensão escolar entendida como local pelo qual bem ou mal a convivência diversa ocorre e que por isso mesmo deve ser instrumentalizada para se evitar o espraiamento de uma perspectiva de intolerância e de uma atitude de neutralidade geradora de indiferença. A urgência social corrobora, portanto, a necessidade de se educar para a tolerância, sobretudo, porque nos últimos anos nota-se o crescimento do nível de consciência em se salvaguardar as diversas culturas, que garantem por um lado a existência grupal e por outro, a existência pessoal inclusive com suas características peculiares preservadas.
A escola é entendida como o ponto da educação de toda uma comunidade numa via relacional de mão-dupla onde ocorre uma permuta onde de um lado as famílias que formam a comunidade sedem seus filhos à escola, que por sua vez ganha sentido a partir
dessa aquisição temporária pela qual esta procederá à socialização de cada indivíduo por meio do contato com as diferentes culturas e expressividades não uniformes que nela se encontram. Considerando que a escola é a instituição por excelência dessa socialização e que tal mecanismo se dá primeiro pela convivência com o mencionado diferente, mas secundariamente pelo ensino-aprendizagem de conteúdos historicamente convencionados cuja finalidade última é introduzir o senso de responsabilização pelo mundo conforme Arendt (2013a) torna-se urgente forjar através da escolarização pessoas que consigam tolerar o outro apenas como diverso.
Das iniciativas de educação para a tolerância mencionadas no início desse texto e que nos últimos anos foram implementadas por organismos internacionais como ONU e UNESCO, decorrem propostas de aplicação dessas teorias, sobretudo em relação às fundamentações ora expostas tanto da assim chamada re-significação epistemológica de Habermas e Jaspers, quanto das elaborações filosófico-políticas de Marcuse, do Comunitarismo representado por Walzer e também pelas análises arendtianas sobre a educação contemporânea.
Por isso, ao analisar o documento-cartilha: “A tolerância, umbral da paz: guia didático da educação para a paz, os direitos humanos e a democracia”, publicado pela UNESCO em 1994, bem como também, a “Declaração dos princípios para a tolerância” de 1995 pela 28ª Conferência Geral da UNESCO e a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Brasileira (LDB) que contemplam notadamente o ordenamento de uma educação escolar pautada na convivência tolerante mútua e não indiferente serão pontuados aspectos escolares pelos quais é possível esse intento primaz de ensino- aprendizagem, bem como as formulações de sua compreensão teórica.
Assim, com a “Declaração dos princípios para a Tolerância” (UNESCO, 1995) houve uma definição mínima do que seja esse valor, mas também de sua importância, de sua abrangência e finalidade na conjuntura internacional contemporânea, principalmente voltada para sua prática, enfatizando-a como prioridade a partir da escolarização como forma eloquente de inculcar nos educandos os pressupostos de convivência pacífica proporcionados pelo valor tolerância.
[4.1] A educação é o meio mais eficaz de prevenir a intolerância. A primeira etapa da educação para a tolerância consiste em ensinar aos indivíduos quais são seus direitos e suas liberdades a fim de assegurar seu respeito e de incentivar a vontade de proteger os direitos e liberdades dos outros.
[4.2] A educação para a tolerância deve ser considerada como imperativo prioritário; por isso é necessário promover métodos sistemáticos e racionais de ensino da tolerância centrados nas fontes culturais, sociais, econômicas, políticas e religiosas da intolerância, que expressam as causas profundas da violência e da exclusão. As políticas e programas de educação devem contribuir para o desenvolvimento da compreensão, da solidariedade e da tolerância entre os indivíduos, entre os grupos étnicos, sociais, culturais, religiosos, linguísticos e as nações. (Grifo nosso - UNESCO, 1997, p.15 –Art.4º)
A educação para a tolerância no âmbito escolar parte, portanto, de concepções elementares como as que foram elencadas ao longo desse texto tais como pluralidade, diferença, igualdade de direitos, cidadania entre outros, como também as que foram definidas pela UNESCO (1995) como balizas éticas pelas quais a escola deve promover a educação para a tolerância tornando clara a vinculação desse valor com a paz e a preservação da vida de grupos e indivíduos e em último caso das próprias nações. Para tanto, o documento dos referidos “Princípios da Tolerância” tem como propósito o incentivo e a criação de estratégias que corroborem este ideário universal de paz e convivência seja por meio de leis ou mesmo da elaboração e efetivação de currículos multiculturais que forjem os educandos como indivíduos de acurada percepção dos meios violentos que massificam o aprendizado e a vida social.
[4.3] A educação para a tolerância deve visar a contrariar as influências que levam ao medo e à exclusão do outro e deve ajudar os jovens a desenvolver sua capacidade de exercer um juízo autônomo, de realizar uma reflexão crítica e de raciocinar em termos éticos. [4.4] Comprometemo-nos a apoiar e a executar programas de pesquisa em ciências sociais e de educação para a tolerância, para os direitos humanos e para a não-violência. Por conseguinte, torna-se necessário dar atenção especial à melhoria da formação dos docentes, dos programas de ensino, do conteúdo dos manuais e cursos e de outros tipos de material pedagógico, inclusive as novas tecnologias educacionais, a fim de formar cidadãos solidários e responsáveis, abertos a outras culturas, capazes de apreciar o valor da liberdade, respeitadores da dignidade dos seres humanos e de suas diferenças e capazes de prevenir os conflitos ou de resolvê-los por meios não violentos. (Grifo nosso - Ibidem, 1997, p.16 –Art.4º)
Mesmo com o mencionado incentivo, na LDB há apenas duas menções à tolerância. Na primeira (“Respeito à liberdade e apreço à tolerância” - LDB, 1996, Título II, Art.3º), aparece juntamente com outros valores considerados como princípios pelos quais o ensino deve ser ministrado, tais como a igualdade de condições, liberdade
de aprender, pluralismo de ideias, coexistência e gratuidade. A segunda, no art.32 da Sessão III sobre o Ensino Fundamental e seu papel formador básico onde se deve incentivar “o fortalecimento dos vínculos de família, dos laços de solidariedade humana e de tolerância recíproca em que se assenta a vida social” (Grifo nosso - LDB, 1996). Contudo, trata-se de uma diretriz não específica e superficial das questões relativas à tolerância no ambiente escolar dado que sua menção ao valor é bastante escassa e a prática ou a adoção de currículos voltados para uma educação tolerante não são explicitadas.
Na busca de sanar tal superficialidade, os Parâmetros Curriculares Nacionais do MEC (PCNs) foram publicados em 1997 introduzindo no currículo e, portanto na prática escolar valores e abordagens de cunho tolerante, mas não se referindo diretamente à tolerância como valor ou atitude, que mostra uma tênue consonância entre o intento internacional e a elaboração de modelo brasileiro de ensino-aprendizagem.
Para auxiliar no alcance de seus objetivos, os PCNs propõem a inserção, nos currículos escolares, de atividades interdisciplinares a partir de temas transversais que abordem aspectos importantes da convivência social nesse momento histórico. Ao lodo dos temas sobre a realidade em que a comunidade escolar está inserida, foram priorizados: ética, pluralidade cultural, saúde, meio ambiente e orientação sexual. (CARDOSO, 2003, p.122)
Por outro lado, no documento cartilha da UNESCO (“A tolerância, umbral da paz”), que versa especificamente sobre a educação voltada para a tolerância encontram- se o processo pelo qual esse valor deve se constituir na educação escolar básica, bem como também, as esferas111 sociais que o integram e os princípios educacionais que
devem reger a prática dos engendramentos escolares relativos a esse valor, tais princípios são:
111 As referidas esferas do processo de educação tolerante estão postas no documento da seguinte
maneira: “Tolerância: reconhecimento dos direitos dos demais em existir e viver; sociabilidade: Consciência positiva da presença dos demais em nossa esfera social; Respeito pelas diferenças: reconhecimento dos aspectos positivos da diversidade; compreensão da singularidade: valorização da diversidade humana e suas diferentes manifestações; Complementariedade como princípio da aceitação das diferenças: capacidade de integrar as diferenças com o fim de enriquecer e fortalecer a sociedade; reciprocidade como base da cooperação: capacidade de conceber e promover a realização de objetivos comuns mutuamente vantajosos para grupos diversos; Cultura de Paz: reconhecimento da interdependência e dos valores universais; compromisso de perseguir ordenamentos positivos da diversidade em um mundo interdependente. (UNESCO, 1994, p. 30)