Vejamos como se encontra distribuído o atendimento à infância segundo diferentes realidades socioespaciais na cidade de São Paulo. Os dados apresentados na tabela 11 agregam indicadores populacionais e de atendimento segundo conjuntos de distritos, hierarquizados a partir de um índice sintético da qualidade de vida da população neles residentes. O índice de qualidade de vida escolhido foi o adotado no “Mapa da Exclusão / Inclusão Social da Cidade de
São Paulo” (Sposati, 1996) 54. A partir da agregação de uma
série de indicadores que, com base em fontes diversas, considerou as variáveis renda do chefe da família, emprego, indigência, qualidade ambiental, qualidade dos domicílios,
propriedade do imóvel, investimento imobiliário,
deslocamento, oferta de serviços sociais básicos,
escolaridade dos chefes de família, educação infantil, longevidade, mortalidade, violência e trabalho feminino,
este estudo construiu o “Índice de Exclusão Social do
Município”, ordenando os 96 distritos do município de acordo com a qualidade de vida das populações neles residentes.
Com o intuito de facilitar nossa análise, os 96 distritos da cidade foram agregados a partir da posição obtida no referido “Índice”, em 8 conjuntos de 12 distritos cada. Assim, pode-se dizer que os moradores dos distritos reunidos no conjunto I, que engloba desde o 1º até o 12º
distritos no “Índice”, têm melhor qualidade de vida (em
termos médios) comparativamente aos residentes nos
distritos do conjunto II (13º ao 24º distrito em termos de qualidade de vida), e assim sucessivamente, até o conjunto VIII, cujos moradores têm, em média, a pior qualidade de vida da cidade. O mapa a seguir indica a localização dos 96 distritos, identificados de acordo com os conjuntos nos quais os mesmos foram agrupados.
Como se pode observar, a população com os melhores indicadores de qualidade de vida é a que reside à região
sudoeste próxima ao centro da cidade, compreendida
basicamente entre os bairros de Perdizes, Vila Mariana, Santo Amaro e Butantã. Na zona Norte, o distrito de Santana também apresenta bons indicadores.
54 Para as variáveis e indicadores utilizados na
Em seguida, temos algumas áreas contíguas àquela primeira região, praticamente formando um anel em torno da mesma: à leste, Tatuapé-Moóca, à nordeste e próximas ao centro antigo, a Consolação e Bela Vista, à oeste a região da Lapa, e à sudoeste o Morumbi, além de Cursino e Campo Belo, ao sul. Esta zona também é caracterizada por bons indicadores.
Ainda no entorno de toda esta região encontramos alguns distritos agrupados no conjunto III da tabela, que comparativamente, apresentam uma qualidade de vida média ainda bastante razoável em termos da cidade: entre as regiões mais conhecidas vale citar a do Ipiranga (sudeste), Santa Cecília e Bom Retiro, no centro, de Vila Guilherme até o Tucuruvi, na zona norte da cidade, e o bairro da Penha, na zona leste.
Em situação intermediária em relação aos indicadores de qualidade de vida, e também, geograficamente, em termos de distância da região mais rica e economicamente mais dinâmica da cidade, temos vários distritos localizados na região noroeste da cidade, praticamente formando um triângulo com seus vértices nos distritos da Casa Verde (no assim chamado centro expandido), de Anhanguera (no extremo- noroeste da cidade), e de Rio Pequeno. Ao norte, temos as regiões de Vila Maria até o Tremembé, e na zona leste toda uma região localizada a meio caminho entre o centro e o extremo-leste da cidade, compreendida entre Cangaíba, à noroeste, e Vila Prudente, à Sudeste, passando por distritos mais conhecidos como Carrão, Vila Matilde e Vila Formosa, além da região do Pari-Belém, mais próxima ao centro da cidade.
É praticamente nas regiões mais afastadas à leste e ao sul do centro que estão concentrados os distritos mais pobres da cidade. Na zona leste eles estão compreendidos em
uma região que estende-se em um quadrilátero formado por Ermelino Matarazzo e São Miguel Paulista, no nordeste, até a região entre Iguatemi e Sapopemba, em posição mais ao sudeste. Nesta área encontram-se ainda outros bairros conhecidos, em verdade, mais pela pobreza que de uma forma geral caracteriza as populações neles residentes, do que por seus eventuais atrativos, como é o caso de Itaquera, Guaianases e São Mateus. No limite leste, temos as áreas também bastante pobres de Guaianases, Itaim Paulista e Lajeado. Na zona sul, também caracterizada pelo grave quadro de pobreza, encontra-se a mais vasta região da cidade, que começa nos bairros que abraçam praticamente todo o rico distrito de Santo Amaro, situados entre Campo Limpo e Jabaquara, e afastando-se progressivamente para o sul, passando por bairros como Cidade Ademar, Cidade Dutra, e chegando aos ainda mais pobres Capão Redondo, Jardim Ângela, Parelheiros e Marsilac, no limite sul do município, conhecidos pela maioria dos moradores da cidade apenas através das cenas de violência apresentadas diariamente nos telejornais ou na imprensa escrita.
Na tabela 11 são apresentados alguns indicadores demográficos e de atendimento à população de 0 a 6 anos em serviços de educação infantil, com ênfase na capacidade de atendimento da rede municipal de creches. Ele permite uma primeira aproximação da realidade da distribuição da oferta destes serviços no espaço urbano.
De saída, a análise da tabela já mostra que a proporção de crianças de 0 a 6 anos de idade em relação ao total da população residente é praticamente o dobro nos distritos do conjunto VIII (Cachoeirinha, Grajaú, Capão Redondo, Jardim Helena, Marsilac, Vila Curuçá, Brasilândia, Jardim Ângela, Parelheiros, Guaianases, Itaim Paulista,
distritos (1) [A] [B] serviços (3) (1993) [C] potencial da rede [D]=[B]-[C] total [E]=[F]+ [G]+[H] rede direta [F] rede indireta [G] rede par- ticular (4) [H] não atendidas [I]=[D]-[E]
[E]/[D] [F]/[D] [G]/[D] [H]/[D] [I]/[D] [I]/[B]
São Paulo 9.646.185 1.259.660 13,1 285.707 973.953 80.260 39.189 11.348 29.723 893.693 8,24 4,02 1,17 3,05 91,76 70,95 Conjunto I 1.134.434 95.553 8,4 50.867 44.686 4.968 665 1.312 2.991 39.718 11,12 1,49 2,94 6,69 88,88 41,57 Conjunto II 757.970 75.258 9,9 29.054 46.204 4.988 1.215 1.005 2.768 41.216 10,80 2,63 2,18 5,99 89,20 54,77 Conjunto III 1.072.181 118.132 11,0 26.792 91.340 8.418 2.513 1.090 4.815 82.922 9,22 2,75 1,19 5,27 90,78 70,19 Conjunto IV 931.658 111.792 12,0 24.351 87.441 7.172 1.934 1.256 3.982 80.269 8,20 2,21 1,44 4,55 91,80 71,80 Conjunto V 1.369.015 177.532 13,0 40.449 137.083 10.542 6.378 1.670 2.494 126.541 7,69 4,65 1,22 1,82 92,31 71,28 Conjunto VI 1.340.062 189.045 14,1 36.763 152.282 13.938 7.926 2.152 3.860 138.344 9,15 5,20 1,41 2,53 90,85 73,18 Conjunto VII 1.486.082 232.896 15,7 39.399 193.497 14.634 9.119 1.177 4.338 178.863 7,56 4,71 0,61 2,24 92,44 76,80 Conjunto VIII 1.554.783 259.452 16,7 38.032 221.420 15.600 9.439 1.686 4.475 205.820 7,05 4,26 0,76 2,02 92,95 79,33 Distribuição % 100,0 100,0 -- 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 1,00 1,00 1,00 1,00 1,00 1,00 Conjunto I 11,8 7,6 -- 17,8 4,6 6,2 1,7 11,6 10,1 4,4 1,35 0,37 2,52 2,19 0,97 0,58 Conjunto II 7,9 6,0 -- 10,2 4,7 6,2 3,1 8,9 9,3 4,6 1,31 0,65 1,87 1,96 0,97 0,77 Conjunto III 11,1 9,4 -- 9,4 9,4 10,5 6,4 9,6 16,2 9,3 1,12 0,68 1,02 1,73 0,99 0,99 Conjunto IV 9,7 8,9 -- 8,5 9,0 8,9 4,9 11,1 13,4 9,0 1,00 0,55 1,23 1,49 1,00 1,01 Conjunto V 14,2 14,1 -- 14,2 14,1 13,1 16,3 14,7 8,4 14,2 0,93 1,16 1,05 0,60 1,01 1,01 Conjunto VI 13,9 15,0 -- 12,9 15,6 17,4 20,2 19,0 13,0 15,5 1,11 1,29 1,21 0,83 0,99 1,03 Conjunto VII 15,4 18,5 -- 13,8 19,9 18,2 23,3 10,4 14,6 20,0 0,92 1,17 0,52 0,73 1,01 1,08 Conjunto VIII 16,1 20,6 -- 13,3 22,7 19,4 24,1 14,9 15,1 23,0 0,85 1,06 0,65 0,66 1,01 1,12
Fontes: São Paulo, cidade, 1996a; São Paulo, cidade, 1996b; Sposati (coord.), 1996.
Notas: (1) 96 distritos do município agrupados a partir do desempenho observado no “Mapa da Exclusão / Inclusão Social da Cidade de São Paulo” (Sposati, 1996), resultando na seguinte composição: conjunto I (Moema, Alto de Pinheiros, Jardim Paulista, Santo Amaro, Campo Belo, Vila Mariana, Perdizes, Itaim Bibi, Butantã, Santana, Saúde, Pinheiros); conjunto II (Lapa, Morumbi, Bela Vista, Consolação, Moóca, Cursino, Tatuapé, Barra Funda, Campo Grande, Vila Leopoldina, Cambuci, Vila Sônia; conjunto III (Tucuruvi, Ipiranga, Anhanguera, Santa Cecília, Bom Retiro, Sacomã, Socorro, Vila Guilherme, Mandaqui, Penha, Água Rasa, Liberdade); conjunto IV (República, Belém, Carrão, Casa Verde, São Lucas, Jaguara, Jaguaré, Vila Prudente, Pari, Cangaíba, São Domingos, Jaraguá); conjunto V (Cidade Líder, Aricanduva, Vila Formosa, Limão, Tremembé, Artur Alvim, Freguesia do Ó, Vila Matilde, José Bonifácio, Pirituba, Rio Pequeno, Vila Maria); conjunto VI (Jabaquara, Jaçanã, Vila Medeiros, Ponte Rasa, Raposo Tavares, Sé, Brás, Vila Andrade, Ermelino Matarazzo, São Rafael, São Mateus, Sapopemba); conjunto VII (Campo Limpo, Itaquera, Vila Jacuí, Cidade Dutra, Parque do Carmo, Pedreira, Iguatemi, Cidade Ademar, Jardim São Luis, Cidade Tiradentes, São Miguel, Perus; conjunto VIII (Cachoeirinha, Grajaú, Capão Redondo, Jardim Helena, Marsilac, Vila Curuçá, Brasilândia, Jardim Ângela, Parelheiros, Guaianases, Itaim Paulista, Lajeado).
(2) Dados referentes à capacidade de atendimento, ou seja, ao total de vagas existentes.
(3) Reúne pré-escolas (redes pública e privada) e creches da rede privada não conveniada com FABES.
(4) Creches conveniadas com FABES. Diferentemente da rede conveniada indireta, que opera em prédios da Prefeitura, a rede “particular” designa as creches conveniadas que funcionam em prédios próprios.
Lajeado), quando comparados aos distritos do conjunto I (Moema, Alto de Pinheiros, Jardim Paulista, Santo Amaro, Campo Belo, Vila Mariana, Perdizes, Itaim Bibi, Butantã, Santana, Saúde, Pinheiros). Este fato ilustra de forma eloqüente que as condições de vida da população residente nestes últimos é consideravelmente melhor na comparação com os primeiros, pois, como já comentado, a existência de mais crianças nos grupos familiares é uma das características mais fortemente correlacionadas à pobreza no Brasil.
Com relação à educação infantil, o primeiro dado importante apresentado na tabela diz respeito à capacidade de atendimento dos equipamentos nos vários serviços existentes município. Em 1994, a rede de educação infantil
como um todo poderia, potencialmente55, absorver
aproximadamente 366 mil crianças, correspondendo a 29,1%
55 A expressão “potencialmente” é aqui adotada em função
de duas ordens de fatores. Em primeiro lugar, porque a capacidade de atendimento refere-se ao total de vagas
existentes, e não ao total efetivo de crianças
matriculadas, uma vez que para a rede de creches não foram obtidos os dados relativos ao atendimento efetivo. Conforme veremos com mais detalhe ao final deste capítulo, a rede de
creches municipais tem, historicamente, operado com
capacidade ociosa, apesar da enorme demanda reprimida
existente. Se fossem consideradas as “vagas efetivamente
ocupadas”, o indicador relativo ao número de crianças atendidas pela rede de creches seria ainda menor. Assim sendo, cabe alertar que o indicador “vagas existentes”, aqui adotado em função da maior disponibilidade de dados, em realidade superdimensiona o atendimento real desta rede de serviços. Em segundo lugar, a expressão é adotada também nas referências comparativas ao atendimento de crianças residentes nas diferentes regiões da cidade. Conforme já anteriormente apontado, é fato que a grande maioria das crianças nesta faixa etária é atendida nas redes de serviços de educação infantil existentes nas proximidades do local de residência. Mas é claro que esta regra não pode ser absolutizada, uma vez que certamente há também crianças que freqüentam serviços em regiões diversas daquela onde residem, ainda que elas representem a minoria.
daquelas na faixa etária de 0 a 6 anos residentes na cidade
em 1991 56. Desta capacidade de atendimento, a rede
municipal de creches respondia por pouco mais de 80 mil vagas, ou seja, 21,9% do total de vagas existentes, potencialmente cobrindo somente 6,4% do total das crianças nesta faixa etária. Esta reduzida capacidade de atendimento já aponta, por si só, para necessidade de um adequado direcionamento do atendimento às crianças mais pobres do município, uma vez que a rede municipal de creches está inserida no campo das políticas públicas de assistência
social. Os demais serviços 57 de educação infantil atendem
22,7% das crianças na mesma faixa etária, das quais aproximadamente 63,3% são atendidas pela rede pública de
educação infantil 58, 27,1% nas escolas de educação infantil
56 Conforme será visto no próximo capítulo, a Fundação
SEADE (1995) apurou, através de pesquisa domiciliar de caráter amostral, que a freqüência à creche ou pré-escola na faixa etária de 0 a 6 anos era da ordem de 37,7% no município de São Paulo em 1994. Esta diferença pode ser atribuída, basicamente, a dois fatores. Em primeiro lugar, e embora não tenha sido possível conferir esta informação, é provável que a Fundação SEADE tenha contabilizado como pré-escolares as crianças de 6 anos que já freqüentam o 1º grau regular. Em segundo lugar, certamente esta diferença pode ser atribuída ao subdimensionamento da rede particular nos registros oficiais aqui utilizados. Uma vez que a metodologia de pesquisa adotada pela Fundação SEADE coleta informações na base domiciliar, certamente os resultados por ela obtidos aproximam-se mais da realidade. Entretanto, dada a necessidade de informações mais desagregadas no âmbito deste capítulo, adotamos os dados das fontes oficiais, até mesmo porque, em termos de rede pública, eles
também se aproximam satisfatoriamente da realidade,
sobretudo pelo seu caráter censitário, o que não ocorre no levantamento da Fundação SEADE.
57 Pré-escolas das redes pública e privada e creches não
conveniadas com FABES.
58 Rede de Escolas Municipais de Educação Infantil -
EMEIs, salas de educação infantil nas escolas municipais de primeiro grau (os chamados PLANEDIs), creches e escolas estaduais de educação infantil.
da rede particular, e 9,5% na rede de creches particulares
não conveniadas com FABES 59 (São Paulo, cidade, 1996a).
Um segundo aspecto importante diz respeito à
desigualdade distrital no acesso às vagas ofertadas pelos “outros serviços” de educação infantil que não a rede de creches do município. Enquanto 54,1% da população de 0 a 6 anos concentra-se nos 36 distritos com pior qualidade de vida (conjuntos VI, VII e VIII na tabela 11), estes
serviços concentram apenas 40,0% da capacidade de
atendimento nestas regiões. Já nos 24 melhores distritos (Conjuntos I e II), a relação se inverte: 13,6% das crianças na mesma faixa etária para 28,0% da capacidade de atendimento. Considerando-se apenas os moradores nos distritos do conjunto I, 58,4% das crianças de 0 a 6 anos têm acesso a alguma modalidade de educação infantil, uma proporção quase três vezes maior que aquela observada nos distritos do conjunto VIII, nos quais apenas 20,7% das crianças encontram-se, potencialmente, na mesma situação.
A partir destes dados, e considerando como “demanda
potencial” da rede de creches municipais as crianças não
atendidas por estes “outros serviços” de educação infantil,
pode ser observado que, nos 48 distritos melhor situados em termos de qualidade de vida (Conjuntos I a IV), residem 27,7% das crianças na mesma faixa etária, e neles estava concentrada 31,8% da capacidade de atendimento da rede
59 Certamente os números da rede particular estão
subdimensionados, uma vez que considerável parte da rede de
“escolinhas” existentes na cidade funciona sem
reconhecimento legal, não sendo as crianças contabilizadas nas estatísticas oficiais. Talvez esteja aqui localizada a principal razão da diferença entre estes dados e os apurados pela Fundação SEADE (1995). Note-se que, segundo este levantamento, 46,3% das crianças que freqüentam creches ou pré-escolas o fazem na rede particular, percentual consideravelmente superior aos dados acima apresentados.
municipal de creches em 1994. Inversamente, os demais distritos, com 72,3% das crianças não atendidas pelos “outros serviços”, contam com 68,1% das vagas existentes nesta rede.
Assim, pode-se afirmar que, comparativamente às redes de atendimento particular e da Secretaria Municipal de Educação, a distribuição da rede municipal de creches entre os diversos conjuntos de distritos é, ainda que desigual, menos heterogênea, privilegiando menos que as primeiras os distritos melhor situados em termos de qualidade de vida.
Por outro lado, esta distribuição espacial menos desigual da rede municipal de creches não chega a configurar uma priorização das áreas mais pobres da cidade para a construção de equipamentos ou estabelecimento de convênios, como seria de se esperar de uma política municipal de assistência social 60. Enquanto nos distritos do conjunto I
existe uma demanda potencial para a rede municipal de creches de 9,0 crianças para cada vaga existente, nos distritos do conjunto VIII esta relação é de 14,2, de forma que, ainda que pequena, a possibilidade estatística de obter
uma vaga na rede municipal de creches é ainda
aproximadamente 58% maior nos distritos do conjunto I 61.
60 Utilizando outra base de dados e subdividindo os então
58 distritos e subdistritos existentes na cidade de acordo o nível de renda da população, o estudo de Mello (1991) permite as mesmas conclusões (ver dados apresentados na tabela 2, p.15). Também em São Paulo, cidade, 1990, foram publicadas uma série de tabelas a partir da mesma base de informações (pesquisa OD, 1987) relativas à renda, cruzados com indicadores de atendimento em educação infantil (ver especialmente as tabelas 3, 4, 5, 8, 13 e 15).
61 Este cálculo não considera ainda o fato de que, nos
distritos do conjunto I, a demanda real por vagas em creches da rede pública municipal é certamente muito menor, uma vez que o padrão de vida das crianças aí residentes e que não freqüentam estabelecimento de educação infantil é
A comparação da concentração das vagas ofertadas pelas redes direta, indireta e particular conveniada nos diversos conjuntos de distritos pode nos oferecer um melhor dimensionamento da distribuição espacial das creches municipais em São Paulo. Os dados apresentados na tabela 11 evidenciam que o padrão de distribuição de vagas nas creches municipais, entre os oito conjuntos de distritos, difere substancialmente se consideradas, separadamente, as creches da rede direta e as das redes indireta e conveniada.
É notória a concentração da rede direta nos quatro conjuntos que agregam os distritos mais pobres da cidade. Se considerarmos os conjuntos V a VIII, nos quais residem 72,3% da demanda potencial (crianças de 0 a 6 anos não matriculadas nos demais serviços de educação infantil), veremos que eles concentram nada menos que 83,9% da capacidade de atendimento da rede municipal de creches diretas. Pode-se observar que, neste caso, a correlação demanda potencial/capacidade de atendimento é claramente melhor nos distritos mais pobres do que naqueles em que o conjunto de moradores apresenta melhores condições de vida. Enquanto entre as crianças moradoras nos distritos do
conjunto I que não têm acesso a “outros serviços” de
educação infantil apenas uma em cada 67 tem acesso a vaga na rede direta de creches, o mesmo ocorre para cada uma entre 23 crianças moradoras nos distritos do conjunto VIII que se encontram na mesma situação. Assim é que, enquanto nos distritos do conjunto I, apenas 1,2% das crianças que têm acesso à educação infantil utiliza vagas na rede municipal de creches diretas, nos distritos do conjunto VIII esta porcentagem chega a consideráveis 17,6%.
consideravelmente superior ao padrão de vida das crianças na mesma situação residentes nos distritos do conjunto VIII.
Inversamente ao que ocorre nas creches da rede direta,
as redes indireta e conveniada concentram,
comparativamente, uma quantidade de vagas bem maior nos distritos onde residem parcelas da população com melhores condições de vida. Enquanto nos conjuntos I a IV, que reúnem os 48 distritos com melhor qualidade de vida na cidade, nos quais residem 27,7% das crianças de 0 a 6 anos
sem acesso a “outros serviços” de educação infantil, estão
concentradas 41,1% das vagas da rede indireta e 49,0% da capacidade da rede conveniada, nos demais 48 distritos, que concentram 72,3% das crianças na mesma situação, encontram- se, respectivamente, “apenas” 58,9% e 51,0% da capacidade de atendimento das creches municipais das redes indireta e conveniada.
Deste quadro resultam duas conclusões que é importante reter. De uma forma geral, os vários serviços de educação infantil estão desigualmente distribuídos entre as diversas
regiões da cidade. Para ilustrar esta inequívoca
discrepância, vale a pena citar os dados referentes aos distritos situados nos extremos opostos em termos de qualidade de vida e de atendimento em serviços de educação
infantil. Em Moema, apontado pelo “Mapa da Exclusão /
Inclusão Social da Cidade de São Paulo” como o distrito cujos moradores desfrutam da melhor qualidade de vida da cidade na comparação com todos os demais, apenas 13,9% das crianças de 0 a 6 anos potencialmente não encontrariam vagas em algum dos diversos serviços de educação infantil ofertados na região. Na mesma situação encontram-se nada menos do que 89,4% das crianças desta faixa etária residentes no distrito de Lajeado, no extremo leste da cidade, apontado pelo mesmo estudo como o que apresenta os piores indicadores de qualidade de vida no município. Enquanto no distrito de Alto de Pinheiros, que exibe a maior oferta proporcional de vagas de educação infantil por
criança residente na faixa etária de 0 a 6 anos, 86,8% destas crianças poderiam ter acesso a uma das vagas existentes no próprio distrito, em Marsilac, no extremo sul da cidade, nenhuma das 1.113 crianças da mesma faixa etária ali residentes tem possibilidade de acesso a qualquer tipo de serviço de educação infantil em seu próprio distrito de moradia. Estes dados ilustram ainda a estreita correlação existente entre os diversos indicadores de qualidade de vida selecionados pelo referido estudo e a disponibilidade de serviços de educação infantil no distrito de moradia, pois os distritos de Alto de Pinheiros e de Marsilac ocupam, respectivamente, a 2ª e a 89ª posições no ranking da qualidade de vida estabelecido.
A segunda importante conclusão é que a distribuição das vagas na rede municipal de creches no espaço urbano obedece a esta mesma lógica, ainda que de forma menos incisiva. De qualquer maneira, para que os 24 distritos com pior qualidade de vida do município (conjuntos VII e VIII da tabela 11) pudessem igualar-se aos 24 distritos melhor situados (conjuntos I e II) em termos de oferta de vagas para a população de 0 a 6 anos neles residentes, que não tem acesso a outras modalidades de educação infantil, seria necessário ampliar a oferta em mais de 15 mil vagas, o que representaria um incremento de pouco mais de 50% no total de vagas já disponíveis na rede municipal de creches naqueles mesmos distritos.
No caso específico da rede de creches, conforme vimos, há diferenças substanciais entre a distribuição observada nas vagas nas creches da rede direta e aquela existente nos equipamentos das redes indireta e conveniada. A tabela 12
evidencia claramente esta diferença. Ela mostra a
quantidade de distritos em cada um dos mesmos conjuntos de distritos adotados na tabela 11, nos quais é maior e menor