No pensamento de Nietzsche, a morte de Deus pôde significar a emergência de uma experiência extraordinária do ser humano a partir de uma existência totalmente imanente. Como aponta Roberto Machado, Nietzsche não quer com a morte de Deus provar que Ele não existe ou deixou de existir. A morte de Deus é a constatação do niilismo da modernidade; é o fato de que a fé no Deus cristão deixou de ser plausível; é a evidência de que a fé em Deus, que servia de base à moral cristã, se encontra minada, de que desapareceu o princípio em que o homem cristão fundou sua existência; a morte de Deus significa também o diagnóstico da ausência cada vez maior de Deus no pensamento e nas práticas do Ocidente moderno.67
Esse momento extraordinário que envolve todas as dimensões acima relacionadas deve ser vivido por meio da emergência de um novo advento antropológico: o super-homem. A morte de Deus, na compreensão de Roberto Machado, representa a efetiva condição para a existência dessa nova dimensão antropológica.68 Porém, inversamente ao pensamento de Roberto Machado e de tantos outros como Henry de Lubac, no que tange aos efeitos da morte de Deus sobre a fé cristã, Maurice Blanchot percebeu que a ação do pensamento de Nietzsche só produziu os tais efeitos porque ela não foi bem compreendida, embora reconheça que a morte permitiu ao ser humano conhecer seus verdadeiros limites, abandonar o seu
67 Cf. Roberto MACHADO, Zaratustra, tragédia nietzschiana, p. 47. A despeito de concordarmos
com os pressupostos de Roberto Machado, seria importante dizer que Maurice Blanchot tem uma compreensão bem particular dos problemas que envolvem a questão da morte de Deus em Nietzsche, a partir de uma leitura que empreende da literatura de Kafka. Mesmo que o interesse principal não fosse o de encontrar uma discussão de natureza teológica nos escritos de Franz Kafka, Maurice Blanchot, em sua coletânea de estudos intitulada A parte do fogo, não foi capaz de deixar para trás a possibilidade de rever criticamente a suposta acusação de ateísmo no legado literário do autor de O
processo. A representação de um mundo em processo de dissolução – dissolução que é lida a partir da
morte de Deus – encontraria na obra de Kafka uma confortável verossimilhança com o mundo da realidade extraliterária. Todavia, a morte de Deus, se for entendida através de processos como a dissolução dos parâmetros da moral, o aparelhamento do poder Estatal (O Castelo) (visto pelo seu conjunto de práticas punitivas) e ainda como desmaterialização do sujeito que tinha no ser humano burguês seu espelho (A metamorfose) e finalmente como a submersão da própria soberania de Deus em relação ao mundo, Maurice Blanchot aposta que na obra de Kafka os possíveis desdobramentos da morte de Deus fez com que Ele encontrasse uma espécie de revanche impressionante. Estaríamos lidando, segundo Blanchot, com uma transcendência morta, mas que não deixa de estar presente sob outras formas e disfarces. “[...] Pois sua morte não o priva nem do seu poder nem da sua autoridade infinita, nem mesmo da sua infalibilidade: morto, ele é ainda mais terrível, mais invulnerável, num combate onde não existe mais a possibilidade de vencê-lo [...] Deus está morto, e isto pode significar esta verdade ainda mais dura: a morte não é possível.” Cf. Maurice BLANCHOT, A parte do fogo, p. 15-16.
refúgio para pôr à prova apenas suas possibilidades e, por fim, tornar-se responsável por si mesmo, isto é, ser criador.69 Há, portanto, para Blanchot, certa ambigüidade na afirmação “Deus está morto”. É possível entendermos a morte de Deus como um corte histórico e como a chegada de uma fase do mundo em que a solidão e o deserto serão para cada um como tarefas para viver e superar, o que não significa que a humanidade tenha definitivamente ultrapassado seu momento fundamental.70 A
imagem que nos remete a um aspecto da ambigüidade do enigma da “morte de Deus” é o fato de o homem louco do aforismo 125 ter jogado sua lanterna ao chão para apagá-la e de ter dito: “Cheguei cedo demais”. Para Blanchot, o “Deus está morto” de Nietzsche não é apenas uma resposta para o provável ocaso de Deus, mas sim a recusa de uma resposta, a negação de uma salvação, o não à permissão grandiosa de repousar e de se descarregar de si mesmo sobre uma verdade eterna, que para o filósofo alemão não é outra coisa senão Deus.71 Tal aspecto torna-se mais claro se o ser humano, após o advento da morte de Deus, puder ser sempre igual ao Deus que o ultrapassava. Ou seja, se por lado um Nietzsche admite para sua concepção antropológica a possibilidade de ser como Deus ao negá-lo como fundamento para daí encontrar a liberdade, por outro lado recusa tudo aquilo que em Deus é resposta: podemos ser como Deus, mas para isso devemos assassinar o fundamento do mundo. Como vê Blanchot, o confronto de Deus, que desaparece com o ser humano que também é responsável por tal desaparecimento, é necessário a Nietzsche para viver o poder de nega-Lo até o fim de maneira pura, na angústia e no risco. O desmoronamento infinito de Deus permite à liberdade – afirma Blanchot – tomar consciência do nada que é seu fundamento. Ser cúmplice de Deus foi o maior drama vivido por Nietzsche.72 É preciso negar o Deus infinitamente para que a liberdade de
viver sem Ele seja um sempre um momento maior na história da humanidade.
69 Cf. Maurice BLANCHOT, No caminho de Nietzsche. In A parte do fogo, p. 277. 70 Cf. Maurice BLANCHOT, No caminho de Nietzsche. In A parte do fogo, p. 280. 71 Cf. Maurice BLANCHOT, No caminho de Nietzsche. In A parte do fogo, p. 281. 72 Cf. Maurice BLANCHOT, No caminho de Nietzsche. In A parte do fogo, p. 285.
1.3. Escritura ou reescritura de Deus e do ser humano: metodologias e