Estudando-se o processo de constituição dos primeiros aglomerados de seres humanos, as primeiras aldeias, verifica-se que sua ocorrência vincula-se ao surgimento da agricultura, quando os homens deixaram der ser nômades, passaram a cuidar da plantação e constituir residência fixa, habitando de forma mais permanente as cavernas, que antes somente serviam de estadia provisória. Esse processo foi motivado pela possibilidade de controle do homem sobre a natureza e
com a diminuição de grandes mudanças climáticas e geofísicas, que, ao se rarearem, permitiram ao homem um maior domínio dos espaços por ele habitados.
É importante assinalar que a caverna, ao desempenhar a função de casa e atender à necessidade de habitar, serviu também como possibilidade de registro da história. Atualmente, muito do que se sabe sobre os períodos mais remotos da existência humana advém do estudo das cavernas13, nas quais foram registrados diversos momentos tais como: a representação de animais, a caça desses, os fenômenos naturais, etc. (BENEVOLO, 1999).
O ambiente construído não passava de uma modificação do ambiente natural, imenso e hostil, no qual o homem começou a mover-se: o abrigo era uma cavidade natural ou uma cavidade de peles sobre uma estrutura simples de madeira; [...] A distribuição desses objetos em torno do núcleo da fogueira – sinal específico da presença do homem, que aprendera a usar fogo – indica um conjunto unitário do que podemos chamar de habitação primitiva (BENEVOLO, 1999, p. 13).
A habitação, como necessidade humana de sobrevivência, responde à necessidade tanto biológica quanto social. Trata-se de uma necessidade básica, pois expressa algo fundamental, principal e primordial; dessa forma, “requer investimentos sociais de qualidade para preparar o terreno a partir do qual maiores atendimentos podem ser prestados e otimizados (PEREIRA, 2008, p.26). Habitar, para os seres humanos, é, conforme se apresenta a seguir, condição de proteção contra riscos externos, local de descanso e socialização.
Nos tempos da Idade Média, com o Feudalismo, a habitação se dividiu em moradia ao redor dos feudos para os servos, enquanto a nobreza e o clero tinham suas residências em grandes palácios e castelos servidos por escravos. Na dinâmica de formação da sociedade no Feudalismo, o feudo ficava sob o domínio dos nobres e era cercado por terras senhoriais, por florestas e pelas terras comunais que serviam para serem ocupadas pelos servos. As cidades se adaptavam ao desenho da natureza, no Feudalismo, e as casas se espremiam entre a torre da Igreja, as muralhas, que protegiam os castelos e os morros, que serviam de proteção contra os ataques externos de invasores (ROLNIK, 1995).
13 Chama-se Espeleologia o estudo das cavernas, sua gênese e evolução, do meio físico que elas representam, de seu povoamento biológico atual ou passado, bem como os meios ou técnicas que são próprias ao seu estudo (BRANCO, 2012).
Com a alteração do modo de produção do Feudalismo para o capitalismo, e uma vez intensificada a urbanização, a casa inseriu-se junto ao local de trabalho, pois os homens deslocaram-se para os centros urbanos com a intenção de venda de sua força de trabalho às indústrias recém-instaladas. Dessa forma, a habitação sofreu todos os revezes de um capitalismo que, ao produzir socialmente as riquezas, tem a apropriação privada do que é produzido. A acumulação privada da produção trouxe, por consequência, o aumento das necessidades habitacionais, formadas pela inexistência da oferta de moradias somada a uma enorme carência de infraestrutura para as moradias existentes. O processo de segregação social, por que passam aqueles que residem em áreas insalubres e pobres em infraestrutura, demonstra mais um dos processos de desigualdade que são basilares do modo de produção capitalista (SPOSITO, 1989).
A condição das habitações da classe trabalhadora nas zonas urbanas tinha que ser mais adequada do que as casas que existiam nas áreas rurais. Nas cidades, as casas foram construídas com tijolos e cobertas com materiais mais resistentes, como a ardósia (RYKWERT, 2004). Para que as condições de saúde pudessem ser mantidas, foi necessária a constituição de um primitivo sistema de saneamento, que contava com a proteção contra as poeiras das fábricas e uma adequada disposição do lixo e do esgoto doméstico, que seriam fatais nas cidades com intensa povoação. No entanto, somente esta forma de saneamento não fora necessária para a garantia da saúde, pois a “ausência de saneamento se transformou em uma permanente fonte de infecções nos bairros mais pobres, onde as casas eram apinhadas umas contra as outras e o esgoto se espalhava por becos mal ventilados e sujos” (RYKWERT, 2004, p. 52).
A realidade da provisão de equipamentos e serviços urbanos demonstrou, já nos primórdios do processo de urbanização das cidades industriais, a segregação a que seriam submetidos os pobres na cidade capitalista. O espaço urbano somente pode ser acessado, tendo em vista a existência da propriedade privada, por aqueles que podem comprar o seu direito de uso (ROLNIK, 1995). Esta é a contradição do capitalismo para a questão do uso do solo e da habitação, na qual a exigência de comprar não encontra em todos a disponibilidade de renda para tanto.
Antes, pelo contrário, este funcionamento tende a manter uma parte da força de trabalho em reserva, o que significa que uma parte da correspondente da população não tem meios para pagar pelo direito de ocupar um pedaço do solo urbano. Essa parte da população acaba morando em lugares em que, por alguma razão, os direitos de propriedade não vigoram: áreas de propriedade pública, terrenos em inventário, glebas mantidas vazias com fins especulativos, etc. formando as famosas invasões, favelas, mocambos, etc. (SINGER, 1982, p. 33).
As consequências da industrialização e da urbanização, nos moldes do modo de produção capitalista, para a habitação são: a constituição das favelas, dos assentamentos precários, das ocupações de área de riscos e de preservação ambiental permanente, pela classe trabalhadora, e dos condôminos e bairros privados, pela burguesia. Os condomínios privados começam a existir como forma de proteção, exatamente contra os rebatimentos da pauperização na vida dos que são alijados do processo de distribuição de renda: a violência.
Os produtos de uma urbanização excludente demonstram-se pela constituição de duas formas distintas de “cidade” dentro de uma mesma cidade: a cidade legal e a cidade ilegal (ROLNIK, 1995). Esta conceituação permite a identificação de espaços onde os moradores possuem a posse legal de seus terrenos e moradias e as demais condições de acesso a bens e serviços: a cidade legal. Nessa porção da cidade, os bairros são planejados com um bom padrão de construção das residências, integrados a vias de locomoção de veículos e transporte público.
O resultado disso é visível para todos: ilhas de riqueza e modernidade nas quais se acotovelam mansões, edifícios de última geração e shoppings-centers, e que canalizam a quase totalidade dos recursos públicos, geralmente em obras urbanísticas de grande efeito visual, porém de pouca utilidade social (FERREIRA, 2009, p. 14).
A cidade legal coexiste numa aparente passividade com os locais onde a habitação se constrói sobre espaços de terra ocupados, sem garantia de posse e com uma ausência significativa de equipamentos sociais: a cidade ilegal. Aos pobres a cidade legal é apenas o espaço de trabalho, para morar lhes sobram as arestas dos bairros menos urbanizados e a periferia. O principal exemplo da cidade ilegal são as favelas, que podem ser observadas por todos os países do chamado
Terceiro Mundo, as quais são o resultado inevitável do crescimento urbano rápido no contexto da reestruturação produtiva e do neoliberalismo. Esses aglomerados urbanos demonstram que seus habitantes, “por necessidade, recorrem a barracos construídos por eles mesmos, a locações informais, a loteamentos clandestinos ou às calçadas” (DAVIS, 2006, p. 27).
3.4 A RELAÇÃO ENTRE A URBANIZAÇÃO BRASILEIRA E AS CONDIÇÕES DE