2. EMLAK OFİSİNİN DONATIMINI YAPMAK
2.7. Ofiste Çalışma Verimliliğini Etkileyen Faktörler
Lima (2007, p.74) afirma que “o fenômeno do humor pode ser provocado pela ocorrência de recategorizações a partir da hipótese de que esse tipo de ocorrência pode servir como gatilho para o humor”. Portanto, somos cientes de que a construção de sentido do humor, com base em recategorização, demanda uma abordagem tanto dos aspectos linguísticos quanto dos cognitivos.
Aliás, como vimos anteriormente, “as ações sociais são fenômenos multimodais”, consequentemente as charges são consideradas gêneros multimodais, ou seja, quando processamos um texto estamos constantemente categorizando e recategorizando o objeto do discurso, por meio da interação sócio-cognitiva (DIONÍSIO, 2011, p.139). Desse modo, o referente se cria a partir dessas ações, do modo pela qual os interlocutores as ajustam e da maneira pela qual constroem os sentidos em cada evento comunicativo.
Por conta disso, a charge, como gênero de caráter multimodal que abrange aspectos verbais e visuais, expõe que o processo de recategorização acontece também por meio da imagem e não apenas por meio do léxico. Na charge, entendemos que o processo acontece numa mescla de elementos verbais e visuais que conjugados modificam e dão sentido de humor ao texto. O princípio da charge é o humor, e é construído pela crítica que o chargista faz por meio dos fatos a que se reporta para construir seu texto. Aliás, é comum o chargista não revelar explicitamente em qual fato se inspirou, por isso é necessário que o leitor conheça o texto fonte para compreendê-lo. Caso contrário¸ o leitor teria dificuldades de depreender o sentido do humor.
Mondada e Dubois (2003, p.17) afirmam que há uma instabilidade das configurações semânticas, ou seja, as categorias utilizadas para descrever e compreender o mundo, “são geralmente instáveis, variáveis e flexíveis”, passíveis de mudanças sincrônicas e diacrônicas.
Desse modo, segundo as autoras, as categorias e os objetos de discurso são construídos no curso de suas atividades, transformando-se a partir do contexto a que estão inseridos. Assim, nessa perspectiva, a atividade de categorização e recategorização diz respeito, sobretudo, aos métodos utilizados pelos autores para caracterizar, descrever, compreender e justificar os fenômenos da vida cotidiana.
Assim, no processo de referenciação prevalece o sujeito e o contexto relevantes numa situação discursiva, pois abrange uma variedade de meios na construção do objeto do
discurso ou do referente no discurso. À vista disso, no processo de referenciação, de categorização, de recategorização o sujeito arquiteta o mundo no cumprimento de suas atividades sociais e o torna estável graças às categorias manifestadas no discurso (MONDADA E DUBOIS, 2003).
Em suma, o sujeito tem o direito de escolher aquilo que acha mais adequado à identificação do referente, mas também pode por recategorização modular o referente em função de sua intencionalidade comunicativa no momento. Portanto, os referentes evoluem à medida que são compartilhados pelos interlocutores numa situação social dependendo de um contexto onde haja propósitos correspondentes. É que a categorização e a recategorização dos objetos do mundo são feitas em função dos interesses do interlocutor, recebendo a influência do contexto.
Koch (2009) também define a recategorização, mencionado anteriormente nesta seção, e acrescenta a seu conceito que não necessariamente um elemento lexical serve de âncora, mas também um fato ou o contexto funcionam como aspecto fundamental à construção da inferência. É o caso das charges políticas que serão analisadas, ou seja, o chargista constrói e reconstrói seu referente ancorando-se num contexto vinculado às notícias do dia-a-dia. Por isso, o referente pode ser recategorizado de diversas maneiras por meio de propriedades diferentes que lhe vão sendo atribuídas. Por essa razão, as recategorizações de um mesmo referente, que retomam informações dadas e trazem informações novas, servem como gatilho para estabelecer o efeito de humor.
Portanto, conforme expusemos anteriormente, cumpre-nos ainda registrar que as expressões anafóricas não são usadas apenas para apontar o referente, mas podem ser utilizadas, também, para modificá-lo. Em outros termos, o produtor, ao selecionar aquilo que julga mais adequado na configuração do referente, pode, por recategorização, acrescentar, omitir, ou modular a expressão referencial em função das intenções do momento, que no caso das charges políticas, são de natureza crítica e satírica.
Assim, podemos afirmar que por meio da recategorização retomamos os referentes que operam como desencadeadores da comicidade do gênero em análise deste trabalho. Ou seja, a incongruência criada por essas recategorizações é que, de fato, quebra a expectativa do leitor, provocando o riso: estratégia a ser observada na análise.
Segundo Cavalcante (2010), para que um referente se recategorize, seria necessário que ele já estivesse sido introduzido no discurso e, nesse caso, só as anáforas seriam passíveis dessas modificações.
Afinal, como poderíamos falar em recategorização se não tivesse ocorrido à categorização de uma entidade antes. Além disso, afirma:
A recategorização é, por definição, uma alteração nas associações entre representações categoriais parcialmente previsíveis, portanto, em nossa vida pública do mundo. A menor ou maior desestabilização da categoria em mudança é o próprio traço, explícito ou implícito, que define a recategorização de um referente, quer tenha ele sido já introduzido no discurso para ser transformado, quer não tenha sido e se recategorize apenas mentalmente, no próprio momento em que o anafórico remete
indiretamente à sua âncora. (CAVALCANTE, 2010, p.132)
Isso posto, a autora (ibid., p.128) ilustra com o seguinte poema “A rosa de Hiroxima”, de Vinícius de Moraes:
A rosa de Hiroxima Pensem nas crianças Mudas telepáticas Pensem nas meninas Cegas inexatas Pensem nas mulheres Rotas alteradas Pensem nas feridas
Como rosas cálidas Mas oh não se esqueçam Da rosa da rosa
Da rosa de Hiroxima A rosa hereditária A rosa radioativa Estúpida e inválida A rosa sem cirrose A anti-rosa atômica Sem cor sem perfume Sem rosa sem nada.
Assim, no exemplo, que alude à bomba atômica que dizimou muitas vidas em Hiroxima, é este referente transformado, ou seja, recategorizado no título do poema, que aciona o enquadre mental da tragédia, sempre dolorosamente lembrada, e permite que se empreguem as expressões nominais definidas como ativando ou reativando referentes dados, facilmente identificáveis nas anáforas indiretas “crianças mudas”, “meninas cegas”, “mulheres alteradas” que se enquadrariam perfeitamente no cenário de destruição causado pela bomba e cumpririam “a condição contextual e inferencial da anaforicidade indireta” (CAVALCANTE, 2010, p.130).
Ainda em relação ao exemplo acima, observamos que o referente que se recategoriza não se acha explícito no cotexto e, no entanto¸ nosso conhecimento de mundo nos permite recuperá-lo e compreender a transformação que se processa no próprio instante em que o objeto de discurso é introduzido no poema.
Portanto, observamos que os referentes, as expressões anafóricas e a recategorização não são noções incompatíveis, mas mantêm uma relação mútua, levando- se em consideração a forma como são integradas nas atividades do cotidiano.
Assim, a recategorização na charge pode acontecer por meio da imagem e ou do texto verbal e nem sempre é necessário que no texto haja uma “pista” explícita. Consequentemente, o referente recategorizado, que tange à construção humorística, está geralmente no texto-fonte ou na memória discursiva.
Desse modo, visamos a apresentar, na análise deste trabalho, as noções de recategorização, de intertexto e por meio das expressões anafóricas os efeitos de humor que se manifestam nas charges políticas cuja intencionalidade do enunciador é criticar, satirizar e zombar de um sistema de corrupção massificado na história jurídica do país.