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OFİS VE TİCARİ GAYRİMENKUL PİYASASI

CAPÍTULO 3:

COTAS PARA NEGROS NA UNIVERSIDADE DO ESTADO DE MATO GROSSO

3.1. MATO GROSSO: HISTÓRICO DAS POLÍTICAS DE AÇÃO AFIRMATIVA

Ao longo dos capítulos anteriores procurou-se estabelecer um debate sobre as políticas de ação afirmativa e as cotas para negros no ensino público superior buscando realizar uma contextualização do universo em que tem se desenvolvido as polêmicas mais recentes. Neste último capítulo, a atenção volta-se para uma experiência concreta de cotas para negros em uma universidade pública localizada no Estado de Mato Grosso. Este primeiro item tem a finalidade de demonstrar que também nesta unidade da federação, programas de ação afirmativa têm integrado a pauta de vários atores, especialmente parcelas dos poderes públicos locais. Muito embora haja larga experiência neste sentido, verifica-se que as críticas dirigidas às cotas para negros desconsideram toda a experiência de formulações de políticas desta extração pelo menos desde 1995. A abordagem tem início quando da reunião de um dos Conselhos Superiores da Universidade do Estado de Mato Grosso (UNEMAT).

A reunião do Conselho Universitário (CONSUNI) da UNEMAT realizada na cidade de Barra do Bugres/MT entre os dias 15 e 17 de dezembro de 200580, além de aprovar a incidência do percentual de 5% de cotas para negros para o concurso público para docentes realizado em 2006, também se debateu acerca de cotas de gênero. Este debate demonstrava o quanto o tema das políticas de ação afirmativa havia avançado no interior da universidade. Quatrocentas e vinte e sete vagas foram destinadas àquele concurso público e com o percentual aprovado seriam destinadas aproximadamente vinte e uma vagas a candidatos negros auto-declarados para o ingresso na carreira do Magistério Superior do Estado de Mato Grosso.

O pleno funcionamento dos Conselhos Superiores e a autonomia universitária apontavam no sentido de que a UNEMAT também teria em sua Comunidade Acadêmica professores oriundos de programas de ação afirmativa. A histórica decisão do CONSUNI apontava para importantes mudanças no interior da universidade no que se refere não apenas a presença de estudantes e professores negros, mas diante da possibilidade de se instalar no interior da universidade um conjunto de pesquisadores portadores de experiências bastante

80 Consulte http://www.unemat.br/reitoria/assoc/?link=atas_consuni para acessar a ata do Conselho Universitário referente aos debates que se instalaram e, por fim, acabaram aprovando as cotas raciais para candidatos negros auto- declarados para o concurso público para docentes realizado em maio de 2006. Acesso em 13 de agosto de 2010.

distintas. Contudo, a decisão do CONSUNI foi rechaçada na esfera do Poder Judiciário do Estado de Mato Grosso81.

Por força do rito administrativo, as decisões relacionadas ao concurso público para docentes teriam de ser apreciadas pelas instâncias do Poder Público Estadual, validando o edital aprovado por decisões dos órgãos colegiados e superiores da universidade. Dentre os documentos elaborados entre janeiro e fevereiro de 2006 e que versavam sobre o edital que continha a previsão do percentual de 5% para candidatos negros autodeclarados postulantes ao Magistério Superior de Mato Grosso, têm destaque os seguintes:

a) Parecer n. 05/06/ASSEJUR de 25 de janeiro de 2006; b) Parecer n. 75/SGA/2006 de 31 de janeiro de 2006; e c) Processos n. 033/2006-GR e n. 090033/2006-PGE.

Por solicitação Secretaria de Estado de Ciência, Tecnologia e Ensino Superior (SECITECS) o processo n. 033/2006-GR foi relatado e recebeu parecer ad hoc no dia 25 de janeiro de 2006. Nele, o relator realizou um estudo sobre a adequação jurídica dos termos presentes na minuta do edital de concurso público para docentes da UNEMAT. Deste parecer, a atenção será sobre os momentos dedicados às cotas para negros. Muito embora desde as páginas iniciais o parecer mencione políticas afirmativas para portadores de necessidades especiais, somente na quinta de nove páginas o parecerista toca no assunto das cotas. Parece ser relevante a menção deste documento; apesar de relativamente extensa a citação que segue traz importantes dimensões para os objetivos traçados.

“Cotas reservadas para candidatos negros é um assunto que ainda gera muita polêmica e grande divergência entre as mais diversas camadas da sociedade, uma vez que o concurso público visa selecionar os candidatos mais capazes, é inadmissível e tem sido julgada inconstitucional a concessão inicial de vantagens ou privilégios a determinadas pessoas ou categorias de servidores por que isto cria desigualdade entre os concorrentes. Quis a Lei Fundamental, com os princípios da acessibilidade e do concurso público, possibilitar a todos iguais condições e oportunidades de disputar cargos ou

81 Carvalho (2009: p. 137) assinala que: “em dezembro de 2005, o Conselho Universitário da Universidade Estadual (sic) do Mato Grosso (UNEMAT) votou uma proposta [...] de reserva de vagas para negros de um total de 427 vagas que seriam abertas por concurso para docentes da instituição. Logo em seguida, a proposta foi declarada inconstitucional por um procurador da Procuradoria Geral do Estado de Mato Grosso. Na medida em que uma disputa jurídica em tais circunstâncias poderia comprometer todo o concurso, com a perda subseqüente de todas as vagas, esse programa, que teria sido inédito na história de nossas universidades, foi retirado de pauta, antes de começar”.

empregos na Administração Direta, indireta e mesmo fundacional [...] A Administração é livre para estabelecer as bases do concurso e os critérios de julgamento, desde que o faça com igualdade para todos os candidatos [...] Ficam as Administrações autorizadas a prescrever em lei exigências quanto à capacidade física, moral, técnica, científica, profissional que entenderem convenientes, como condições de eficiência, moralidade e aperfeiçoamento do poder público. Desta forma sempre se deve respeitar as garantias asseguradas pelo artigo 5° da CF, que veda distinções baseadas em sexo, idade, raça, trabalho, credo religioso e convicções políticas, e em se tratando de Concurso Público, este será realizado de acordo com a natureza e complexidade do cargo ou emprego, na forma da lei [...] Sendo muito importante ressaltar que quando fora instituído o regime de cotas reservado para candidatos negros e para aqueles vindos da rede pública nas Faculdades e Universidades do País, tal ato se deu como uma forma de inclusão social que buscava diminuir as desigualdades raciais e dar para as pessoas menos favorecidas que não possuíam condições concretas, uma oportunidade de concorrência à altura dos outros candidatos vindos do ensino privado, uma vez que como é de conhecimento de todos o ensino público de uma maneira geral no Brasil infelizmente ainda carece de mais qualidade [...] Portanto em conformidade com os Princípios basilares que norteiam a Administração Pública, e principalmente de acordo com os princípios da Igualdade, Legalidade e Impessoalidade Administrativa, esta Assessoria entende que a reserva de cotas para candidatos negros, pode ensejar a propositura de inúmeras ações judiciais pelos candidatos que se sentirem prejudicados, configurando assim uma espécie de discriminação inversa e trazendo assim imensuráveis danos ao processo seletivo a Instituição de maneira geral”. (MATO GROSSO. SECITECS, 2006). [grifos no original].

Observando os demais documentos mencionados, avalia-se que o parecer acima teve bastante influência nos procedimentos subseqüentes. É bem verdade que inexiste menção expressa ao Parecer solicitado pela Secretaria de Estado de Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, porém a proximidade de alguns argumentos utilizados pelo relator deste parecer e a posição da Procuradoria Geral do Estado externada em 31 de janeiro de 2006 no Processo 090033/2006-PGE não é hipótese que se possa descartar. Antes, porém, de apresentarmos os argumentos centrais utilizados pela Procuradoria Geral do Estado, é relevante tecermos algumas considerações sobre as passagens apresentadas. Na visão apresentada pelo responsável pelo Parecer n. 05/06/ASSEJUR, de onde os trechos acima foram extraídos, a

igualdade é interpretada como princípio geral e não na perspectiva da realização do mesmo, daí o discurso da meritocracia assumir posição central no argumento desenvolvido. Também chama a atenção a assertiva de que as cotas têm sido julgadas inconstitucionais. Ainda que a análise realizada tenha como foco o concurso público para docente em Mato Grosso, o objeto (cotas para negros) é o mesmo que se verifica em âmbito nacional em torno das cotas para negros para ingresso em cursos de graduação e pós-graduação nas universidades brasileiras. Neste sentido o argumento da inconstitucionalidade requer atenção, pois na Justiça brasileira nem sempre este argumento tem sido acatado. Tendo como referência os Tribunais Regionais Federais e os Tribunais de Justiça, Medeiros (2009) realizou um levantamento que contou com 96 (noventa e seis) casos sobre ações judiciais impetradas contra universidades que utilizam políticas de ação afirmativa em seus respectivos concursos vestibulares entre os anos de 2003 e 2008. O quadro 1 sintetiza o levantamento realizado.

Benzer Belgeler